FAVIELA - ELOMAR FIGUEIRA DE MELO



A bença madia cabei de chegádo rêno das pedra das banda de lá

meu pai mandô queu vince aqui te salvá
tomem queu subesse das nova di cá
de nada isquecesse de li priguntá
queu vince e viesse sem mais delatá
desse no qui desse preu li respostá
tem pressa das bota chapeu muntaria
apois qui amiã iantes de rompê o dia
vai junto c'as frota lá pras aligria
pras bespa das boda de caçula e fia
cum prijistença alembra qui é proxa
e já quaji Às porta a vinda do Grande
Rei Jesus o nosso Redentô
manda priguntá se a vida
p'ressas banda miorô
é qui lá nos impedrado
nossa luita inté faiz dó
se a fulô do gado
do gado maió
tombém das miunça
se as cria vingô
da roça só indaga
das mendioca só
plantada na incosta
do mato-cipó
findo o priguntoro já torno a istradá
donde é o lavatoro dex' eu me banhá
a casa sutura sizuda as jinela
vejo a camaria de renda mais bela
da sala à cunzinha só inda nun vi ela
prigunto pru via daquela donzela
resposta madia cadê faviela
mia' alma duvia
qui hai arte do mal
mia' alma difia
margosa de fel
só faiz sete lua
qui li di o anel
jurô qui era mia
pru tinta e papel
foi no minguante dessa passada
tão de repente deu-se o sucesso
qui já nem guento mais essa dô
vino dos cunfim da istrada
um mitrioso aqui posô
se arribô de madrugada
e faviela ai de mim levô!
tão linda tão bela
priciosa donzela
malvada malunga
culpada foi ela
jurô qui era mia
pru tinta e papel
foi imbora a ruia
ingrata e infiel
a bença madia já torno a istradá
e tudo queu tinha pra li priguntá
mia'alma difia
margosa de fel
só faiz sete lua
qui li di o anel
jurô qui era mia
pru tinta e papel
foi imbora a ruia
ingrata e infiel




Bom dia meus amores!




Faviela é uma jóia de carta romance. Mas para chegar até uma conclusão foi preciso, certamente, muito andar. Temos aí a pureza do dialeto catingueiro, num romance tradicional como aqueles antigos romances cavalheirescos portugueses medievais, com toda a riqueza dos diálogos. Aqui a canção se refere ao antigo "positivo", largamente utilizado nos confins do nordeste brasileiro, em tempos idos, e também na Europa medieval. O "positivo" é uma carta viva, que informa e é informada, leva e traz as novas distantes numa tradição oral. E é assim o tom desse romance catingueiro, em que o pai manda que ele "o rapazinho" -- subesse das novas de lá e de nada isquecesse de li priguntá. Cada linha desta composição é um mundo de detalhes da vida quotidiana e cada sugestão abre uma importante faceta da vida social. É uma carta romance repleta de dialetos sertãnicos, desde a figura da madrinha como instituição à advertência da pressa ao retornar, do "rapazinho", pois, chapéu, botas e montaria não lhe pertenciam; lhe foram emprestados por seu pai, importando assim serem devolvidos ainda naquele dia, pois seriam aparatos para se comparecer nas "bespas", ou seja, na festa de bodas de seus parentes que tem profundo significado social e ritual no mundo agrário. O jovem herói que vem dos Reino das Pedras, nos conta da vida nos "impedrado", uma região árida e de solo pedregoso e crespo, onde antes de tudo o homem converte-se em herói pela sobrevivência. A canção diz o resto numa perfeição dialetal em que se alia à representação teatral numa forma dialogada que traz desde a descrição minuciosa da vida à sutileza psicológica de um personagem que sequer tem o nome citado.
Faviela, a grande ausente, cresce ao ponto de ser o nome do próprio romance. Mas pelo aspecto sombrio em que se achava a casa e o mutismo da madrinha em relação às indagações por parte do pai via o "positivo", aqui o rapazinho anônimo, nesta feita estranhamente descuidada com o visitante que sequer água lhe ofereceu para banhar o rosto. O herói, assim se atreve a pedir pelo lavatório e aproveita para colocar a pergunta que está presa em sua garganta: "Onde está Faviela?" e assim choram os dois numa dor profunda pela incompreensível fuga da menina "priciosa donzela /ingrata e cruel" com o sinistro "mitrioso" de filtros e poderes maléficos vindo de lugar escuso "dos confim da istrada"... Toda essa construção se faz num jogo de agudos e graves -- pergunta aguda, constatação grave -- em torno da lamentação de que a apenas sete meses se passaram daquele dia, em que, sobre juras de amor eterno, ele dera-lhe o anel de noivado, símbolo da palavra selada. Enfim, uma das obras mais significativamente dialetal e também uma das mais dramáticas de Elomar.

(Retirado do vídeo postado no You Tube)

Obra prima de Elomar Figueira de Melo.
Fonte:
http://vivereafinaroinstrumento.blogspot.com.br/

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