IMPERMANÊNCIA E SAÚDE

Tudo está em constante movimento, tudo é impermanente. Essa é uma máxima de filosofias orientais e ocidentais. No filme “O Pequeno Buda”, de Bernardo Bertolucci, esse princípio do budismo é demonstrado pelos monges que confeccionam mandalas de areia coloridas no chão, passando muitas horas no ofício para que num dado momento, tudo seja desfeito. Não, isso não é uma perda de tempo. Senão estaríamos subestimando a dedicação desses monges. Na verdade, por meio desse gesto simbólico, eles se lembram de que nada na vida é para sempre.

Nos termos da Medicina Tradicional Chinesa, existe o Qi Hua, que significa a transformação ou mutação da energia; são todos os processos de transformação no macro e no microcosmos. “Do Qi nasce a forma e a forma regressa ao Qi.” (como já citado anteriormente nessas seções, o Qi é a força que mantém a coesão e o eterno movimento do cosmo, provê e facilita a criação e o desenvolvimento de tudo o que existe. Pode ser manifestado como uma emoção, na sua forma sutil, bem como em uma pedra, na sua forma mais densa).

Na cultura ocidental temos Heráclito de Éfeso (540 a.C. – 470 a.C.), discorrendo sobre o assunto. Ele introduziu o conceito de “Devir”, que significa vir a ser, transformar-se, tornar-se, metamorfosear-se. Nas suas palavras, “O mesmo homem não pode atravessar o mesmo rio, porque o homem de ontem não é o mesmo homem, nem o rio de ontem é o mesmo de hoje”. Tudo está em constante mutação e movimento: o homem e sobretudo, o ambiente.

A melhor prova disso é o próprio ciclo que observamos na natureza: as estações, as horas, as partes do dia. Assim como as fases da vida de um homem,  nossos humores, desejos, nossas afinidades, tudo muda a todo instante.

No entanto, o homem é um ser que gosta de apegos. Isso é necessário, indubitavelmente, uma vez que formamos nosso ego e nosso ambiente por meio deles. Nos movemos por meio do apego às coisas e às pessoas e formamos nosso ciclo de amigos, nossas convicções, nossas afinidades materiais, emocionais e intelectuais. Faz parte. Mas ao mesmo tempo, esquecemo-nos de nos desapegar dessas mesmas pessoas, situações, dos desejos, das impressões que colocamos sobre tudo que percebemos, das convicções, quando a conjuntura muda. Batemos o pé, pois o mais confortável é não mudar, é continuar no conhecido, pois o desconhecido é muito assustador.

Mas já que temos a capacidade de ver as coisas por vários ângulos, o desconhecido que pode ser assustador, pode ser também uma oportunidade… Por que não? É o vazio, o potencial para ser preenchido. É, portanto, um presente.


Quando não aproveitamos esse presente, e não conseguimos lidar com as mudanças, ficamos estagnados no cômodo, no confortável, no costume. E isso não é problema, até que a vida nos dá um imperativo.

E agora?

Neste quadro de estagnação podem surgir as doenças da mente e do corpo.

Cristophe Dejours, médico do trabalho, psiquiatra e psicanalista francês traz uma grande contribuição e até um grande alívio com sua afirmação de que “o estado de saúde não é certamente um estado de calma, de ausência de movimento, de conforto, de bem-estar e de ociosidade. É algo que muda constantemente.”. A saúde não consiste absolutamente em não ter angústias, pois o objetivo não é erradicá-las, e sim tornar possível a luta contra elas, para que, uma vez resolvidas, possamos seguir. Esse é o verdadeiro movimento da vida. Não seremos eternamente felizes, tampouco eternamente angustiados. A vida tem seus altos e baixos, e isso é tão necessário quanto à água que forma nossas células.

Segundo Dejours, “cada pessoa tem sua história, seu passado, suas experiências, sua família. No fundo, toda a sua experiência consiste em estabelecer uma espécie de compromisso entre o passado e o presente para tentar escolher o futuro.” A idéia principal é que os homens procurem transformar-se e não limitar-se em “acabar” com a angústia. Tudo é um processo, cada qual com a sua história, e ainda nas suas palavras, “sendo necessário evitar fazer julgamentos definitivos sobre o que é normal e o que não é”.

Assim, para a saúde da mente e do corpo é necessário além dos próprios hábitos saudáveis, a conscientização do movimento que a vida toma, cada qual com suas limitações, seus potenciais e suas convicções. Não que tudo isso seja fácil e instantâneo… Pelo contrário.

Na realidade o importante é a nossa intenção sobre tudo isso, pois naturalmente, todo o resto se afinará.

Então, caminhemos.



DEJOURS, C. “Por um novo conceito de saúde”, Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, nº. 54- vol. 14 – Abril, Maio, Junho, 1986

Fonte : http://espacokawa.wordpress.com/