AFLIÇÕES INIMIGAS



Raiva, luxúria, essas inimigas,
Não têm membros nem qualidades,
Não têm bravura, nem inteligência.
Como então foram me reduzir a tal escravidão?
Elas residem em minha mente
E me machucam à vontade.
Tudo isso eu sofro submisso;
Assim, minha paciência é desprezível, estando num lugar completamente errado.
(“O Caminho do Bodisatva” 4 | 28-29
Shantideva – Índia, séc. 8)
Podemos nos perguntar: o que nos faz tão estúpidos? A aversão e o desejo são de fato os pais da existência samsárica. Junto com a ignorância e as outras aflições, elas são nossos próprios inimigos internos. Mas esses inimigos não são como soldados com corpos físicos, cabeças e membros, equipados com armaduras e todo tipo de armas, capacetes e insígnias. Eles não são de modo algum corajosos heróis. Pelo contrário, são preguiçosos. Além de tudo, não são nem inteligentes ou habilidosos em nos enganar. Na verdade, são bem estúpidos.
Como é então, pergunta Shantideva, que essas aflições reduziram a nós e todos os demais — professores e patronos, elevados e baixos, fortes e fracos — a esta condição abjeta de escravidão e sofrimento, destituídos de qualquer liberdade? Como é que — ao buscar fama e honra, bem-estar e prazer — nem relaxamos de dia nem dormimos à noite? Somos escravos do nosso desejo, escravos de nossa aversão, a ponto de quem nem evitamos as ações que vão custar nossas vidas. Impotentes, estamos a mercê de nossas emoções, que nos atormentam com todos os sofrimentos da escravidão.
E essas emoções não têm outra morada se não o templo de nossas mentes. É bem aqui que realmente servimos nossas emoções de apego e ódio como se elas fossem nossas convidadas. Nós somos seus escravos e criados. O que quer que elas queiram, nós entusiasticamente realizamos, mesmo se — como retribuição — elas nos prejudiquem ilimitadamente a seu bel prazer nesta e em vidas futuras.
E, ainda assim, suportamos tudo. Nós toleramos essas aflições, nossas inimigas, sem o menor ressentimento. Esse é o tipo de paciência que temos, totalmente abjeta e fora de lugar, um objeto de desprezo dos budas e seus filhos bodisatvas.

Kunzang Pelden (Tibete, 1872-1943):
“The Nectar of Manjushri’s Speech”, parte 2 | 4