POR UMA VIDA ENCARNADA : BREVE CRÍTICA AOS RELACIONAMENTOS SEM CORPO

Angelina Jolie - Boca
“Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.”
Manoel de Barros, em
O Livro sobre o Nada
A primeira parte desse texto serve apenas para contextualizar as duas seguintes. Os apressados pragmáticos podem seguir diretamente ao que interessa.

A mente é o corpo pensando

Nos últimos tempos, estou sentindo aversão a discursos românticos, interpretações filosóficas, teorias sobre relacionamentos e tudo aquilo que se adiciona ao fato cru do simples viver. Textos maravilhosos não me movem, meus posts antigos soam artificiais, livros não passam de jogos semânticos estéreis. Quero distância de sentimentalismos, bla-bla-blás, explicações de qualquer tipo. Caminho pelo outro lado da poesia: às vezes uma árvore é apenas uma árvore. Novamente, o gênio Manoel Barros:
Que a palavra parede não seja símbolo
de obstáculos à liberdade
nem de desejos reprimidos
nem de proibições na infância,
etc. (essas coisas que acham os
reveladores de arcanos mentais)
Não.
Parede que me seduz é de tijolo, adobe
preposto ao abdomen de uma casa.
Toda boa crítica mira, antes de tudo, o passado daquele que a desfere. Sempre que encontrar alguém dilacerando uma certa idéia, tenha certeza de que ele já foi um forte defensor da mesmíssima visão atacada. Ou, pior, ele inconscientemente ainda a mantém e a reprime por meio do discurso público sobre quem gostaria de ser (na esperança de que exaltar o ideal desvie os olhares do real). Ora, a crítica se faz completa e detalhada justamente por isso: ninguém melhor para falar do pecado do que o próprio pecador. Desconfiem, portanto, desse texto. Eu pertenço ao segundo tipo de críticos. ;-)
Durante toda a minha vida, vivi mais o mito que o fato, mais a poesia do dia seguinte e menos o tesão do momento. Só recentemente peguei gosto pelos gingados do corpo… E então descobri o toque como o mais sofisticado dos conselhos, a conexão espiritual que vem do cheiro, a racionalidade pós-kantiana do instinto. Somos muito mais animais do que pensamos ser. Daí meu interesse em escrever sobre como meu corpo se move sobre a inveja, arrependimento ou sobre a própria mente, em vez de descrever meus pensamentos e filosofias sobre tais questões.
Tal inversão ganhou reconhecimento mundial somente nas últimas décadas – ainda que seja a continuidade natural do pensamento de Espinosa, Nietzsche e Merleau-Ponty – com o trabalho do biólogo Francisco Varela e seus parceiros (dos quais destaco Evan Thompson). Livros como Knowing Bodies, Moving Minds (“Corpos que conhecem, mentes que se movem”), Philosophy in the Flesh (“Filosofia na carne”) e A Mente Incorporada sustentam, a começar pelos títulos, as idéias de que a mente é uma ação corporal, a cognição se dá pelo corpo e o conhecimento humano só faz sentido se for incorporado.
E não só na filosofia ou na ciência. Se procurarmos pelo estado mental mais elevado, descobriremos que até mesmo o auge da prática espiritual não tem nada a ver com almas ou espíritos. No Budismo Vajrayana, o fenômeno da liberação de todos os condicionamentos é conhecido como corpo de arco-íris (jalü ou rainbow body). Todos os elementos impermanentes são dissolvidos na base última e atravessados pela luz que não é senão sua própria substância. Isso não é raro; isso é muito raro! Nos poucos casos ocorridos (eu sou cético, só acreditarei com mais evidências), diz-se que o meditante pede para ser deixado a sós em um casebre e dias depois as pessoas ao redor são surpreendidas por uma explosão luminosa dentro do local, que solta fachos de luz por todas as frestas. Ao abrir a porta, encontram apenas roupas, dentes e cabelos.
Ainda que saibam que o treinamento espiritual começa e termina no corpo, alguns espiritualistas new age insistem em ignorar sua importância. Inscrevem-se para workshops e ficam horas sentados vendo slides sobre samadhi, animais de poder e psicologia transpessoal. As apostilas e certificados infelizmente não impedem que o organismo continue engordando e se arrastando rumo a uma suposta iluminação além do corpo. Não é por acaso que uma das práticas que mais fazem sucesso atualmente é chamada de “experiência fora do corpo” (out-of-body experience, OBE ou projeção/viagem astral), que nada mais é do que uma interpretação espiritualóide para um fenômeno bastante natural do próprio corpo: o sonho lúcido.
Da sensação mais grosseira ao sentimento mais etéreo e transcendental, absolutamente tudo se passa e se expressa no corpo. Não há como escapar disso. Ou melhor, é justamente por ignorarmos a corporeidade que sub-vivemos, que não conseguimos avançar na própria racionalidade ou na espiritualidade – vista, como uma miragem, em uma alma além do corpo. Espiritualidade desencarnada, filosofia desincorporada, pensamento sem tesão, palavra sem carne… Eis alguns nomes para a doença que, quando contraída a dois, degenera grande parte dos relacionamentos amorosos.

Relacionamentos sem corpo

O que na filosofia ganha efeitos meramente acadêmicos, nos relacionamentos pode resultar em muito sofrimento ou várias brochadas (i.e., o que poderia mas não acontece). Pior que amor não vivido é aquele mal vivido.
Ele passa a noite toda hesitando em dançar. Ela percebe seu desconforto e pára de insistir. No dia seguinte, ele envia um email carinhoso descrevendo seus sentimentos por ela. Um texto que reencena poeticamente o melhor beijo da noite e, ao fazê-lo, tira o foco do fato cru: ele não conseguiu expressar todo esse amor durante a noite.
Ele lê Vinícius e Whitman para ela ao telefone. Seu desejo vira flores, jantares e SMS de madrugada. Ela se envolve e se entrega, até que enfim tira a roupa. O menino poeta agora não mais tem palavras em mãos. Ele tem as próprias mãos. Com pé, boca e pele, qual poema sai? Frustrado, descobre que não sabe bem como conduzir o quadril dela do mesmo modo que movia seus pensamentos à distância.
Uma relação pode até começar com uma metáfora, mas o amor não se vive como metáfora. Uma história a dois se inicia quando ambos compartilham sonhos, quando a aventura mitológica de um encontra espaço no caminho poético do outro. Porém, enquanto o prelúdio amoroso é conotativo (“Você é como uma…”; “Quando digo isso, quero dizer…”; “Esse CD simboliza aquela noite…”), a vida da relação é denotativa: “Quando eu beijo você, isso significa que eu beijo você”. Durante a conquista, podemos penetrar o outro com palavras. Isto porque o ato de sedução é uma espécie de promessa de relacionamento. No meio do namoro, entretanto, para penetrar o outro é preciso realmente penetrar o outro. Só o corpo é capaz da verdadeira poesia: dizer aquilo que de fato se quer dizer.
Entre o macrorelacionamento do mito e o microrelacionamento do detalhe, mais importa o segundo, a expressão, a explosão viva do que adormecia no potencial dos arquétipos. Seu amor por ela não está no sonho que vocês constróem há anos, na conversa após a briga ou na história que você conta a si mesmo. Seu amor por ela inexiste na memória. Ele está sempre naquilo que você faz agora, só aparece quando exercido e praticado. Amor é ação. Presença.
Energia sem nome, força sem rosto. Vida crua, livre de discursos, adornos, memórias ou associações. Vontade avassaladora, direta, anterior às metáforas e significações. Fato vivido, que dispensa emails posteriores. Prosa deitada, sem poesia.
Quando não nos relacionamos com o corpo, deixamos desejos perdidos em sublimações desencarnadas. Gastamos energia, nos esforçamos e ainda assim deixamos de viver tudo o que podemos. Afinal, declamar poema nunca engravidou ninguém. Além de não viver, abrimos espaço para a dor. O que é brigar senão perder o contato com os próprios pés? Observe um casal em discussão e veja como ambos parecem pairar sobre suas cabeças, um tentando voar mais que o outro. Atente para si mesmo durante uma briga e sinta como você perde completamente o contato com o próprio corpo. Eis o outro lado do romantismo desincorporado.

Para uma relação encarnada

Não aceite sentimento algum (seu ou do outro) que não seja uma sensação corporal. Desconfie de visões espirituais que não surjam acompanhadas de percepções sensoriais. Ignore pensamentos que não impliquem em posturas e posições do corpo. Abandone conversas em que ninguém esteja dançando. Evite compensações e substituições para seus desejos amorosos – seu impulso de invadi-la, desrespeitá-la, penetrá-la de todos os modos; sua vontade de ser perscrutada, rendida, atravessada.
Por meio de práticas corporais (ioga, tai chi, kung fu, esportes, meditação, artes), aprofunde sua relação com o corpo. Sinta não apenas seu corpo, mas a corporeidade dos outros. Toque o corpo do mundo. Aprenda novos movimentos, gestos, olhares. Jeitos de pegar e conduzir; modos de se soltar e se entregar. Experimente segurar um pouco mais forte. Entorte, desentorte, se demore mais.
Use seus dedos para dançar com a mão dela. Esfregue seus pés nele. Faça massagem de perna com perna, braço no braço. Delicie-se com o colo, aquele universo imenso que existe entre o pescoço e os seios dela.
Use todas as emoções negativas como meios hábeis para abrir e amar o outro. Se ela o deixou nervoso por não ter conversado com seus amigos bêbados e fumantes, não discuta, não apele para a mente. Respire sua raiva e deixe que ela mova seu corpo em direção ao dela. Pressione o peito dela contra o seu, mostre que você a ama, que ela pode se soltar nas mais desconfortáveis situações porque você está ali, presente, com ela. Leve para cama sua decepção com o mundo, seu fracasso. Engula e transforme seu dia inteiro na fúria mansa que vai entrar no corpo dela. Use sua vida para amplificar o amor que você esfregará naquelas curvas.
Se ele se distraiu, errou e decepcionou você e sua família, não inicie uma luta de argumentos, não use a mente. Coloque sua raiva nas mãos e bata nele. Dê um tapa na cara, tire-o dessa sonolência, libere seu torpor. Use seu corpo para ativar o corpo dele. Deixe-o vivo. Esfregue-se até que ele abra os olhos, peça desculpas e saiba o que fazer, até que ele retome seu direcionamento. Vá para a cama com suas dúvidas e contrações. Deixe que ele a veja assim, cheia de você mesmo, e sinta uma vontade irresistível de percorrê-la inteira.
Uma história de amor talvez seja a tentativa – sempre fracassada – de viver com o corpo aquilo que certa vez fantasiou a alma. Mas não precisa ser assim. Aquilo que o próprio corpo fantasia parece bem mais rico. E possível.
O que não sei lhe fazer com o corpo, guardo em minha mente. O que não sei tocar, lamber ou deslizar, penso. Com isso, ora vou disparar bla-bla-blás românticos, ora vou brigar em argumentos infindáveis. Mas e se eu conseguir falar com os lábios? E se lhe pedir para me escutar apenas com sua boca?

Fonte:Gustavo Gitti -http://nao2nao1.com.br/