SOLIDÃO : UMA VIA DE MÃO DUPLA

Precisamos de vínculos reais, relações significativas; amigos, amores, família, conhecidos, animais; compreensão, carinho, desafio e etc. Entretanto também é certo que exista um sensato grau de solidão. Ela é parte indissociável da vida. A questão então é compreender e aceitar essa “solidão inerente”, aprender a conviver com ela, transformar seu sentido cruel em encanto, para poder senti-la como uma experiência importante, vital e única.

A solidão envolve graus psicológicos, isso é óbvio. Uma pessoa pode estar na multidão e sentir-se só, se assim ela pensar, acreditar. Há pessoas que gostam de estar sozinhas, preferem até ser solitárias – não digo nos casos de escapismo – e não há solidão em seu peito, pelo contrário, são muito felizes e se sentem em paz. Você deve ter percebido que a idéia de solidão também é algo criado pela mente, de como você a entende. O que é para uns não é para outros e vice-versa. Lembre-se de que o foco é como o homem entende a solidão, sendo que a solidão criada por ele é relativa.

Se a solidão é criada pela mente, para suprir a necessidade dessa criação, ela precisa de uma outra. Geralmente, a solução é procurar alguém para se relacionar. Isto se torna um ciclo vicioso, visto que é baseado em uma ilusão.

Perceba que descrevo a solidão como sendo também criada pela mente humana, mas por quê? Porque a solidão pode ser tanto ilusória como real. Apesar de o homem determiná-la de forma ilusória, ela é ao mesmo tempo real, fora da criação da mente. Portanto, faz parte da natureza do homem de forma aparente e realista.

No entanto, como entender que ela é ilusória e real? Da seguinte forma: você nasce acompanhado de sua mãe e médicos, mas quem nasce realmente é só você; você convive com outras pessoas ao seu redor, mas isso não tira o fato de que você está só, e a prova disso é que ao morrer, só você morre, a morte é a prova final do desapego de tudo, é admitir a individualidade, é expor que você é único e sempre foi sozinho.

Jung, um dos maiores psiquiatras e criador da psicologia analítica, vê a morte como parte do processo de individuação, através do qual cada ser tem de trilhar um caminho para realizar o sentido da sua existência. Através desse processo, o indivíduo identifica-se menos com as condutas e valores encorajados pelo meio no qual se encontra, pelo externo, pelos outros, e mais com as orientações emanadas do Si-mesmo. É o estado de solidão. O morrer, na verdade, é a representação do desapego total aos interesses do eu.

A morte não é algo separado da vida, não é o seu oposto, ela acontece em vida, é a sua conclusão, não algo fora do processo. A morte mostra que até o seu corpo físico não é seu, pois vai ficar e se decompor na natureza. A idéia que você cultivou de que não está sozinho é uma ilusão, você é um ser individual, está “dividido”, isso é fato!
Lembre-se que é você com você mesmo e acabou. Sempre foi! As pessoas são passageiras, mas você não, você é o único que está com você o tempo todo. Digo o você interior, o seu Ser.

Osho, graduado em filosofia e um dos homens mais conhecidos e provocativos do século XX, afirma que é necessário estar só e que “só se está realmente vivo quando tornamo-nos capazes disso, quando não mais existe dependência em relação a ninguém, a nenhuma situação, a nenhuma condição. E por ser tua, podes permanecer nela de manhã, à tarde e à noite, na mocidade e na velhice, na saúde e na doença”.
Estar só é um fenômeno interno e não externo, não se esqueça disso. Você não elimina a solidão com algo externo, com pessoas, pois uma jornada interior é uma jornada em direção a solidão absoluta. Não tens como levar alguém contigo neste encontro interior. É impossível compartilhar o teu centro, o seu Ser, com quem quer que seja, nem com o seu amado ou amada, nem com seu irmão ou com seus pais. Está é a natureza humana e não há o que possa ser feito para mudá-la. No momento em que você se volta para o seu interior, quebram-se todas as comunicações com o mundo externo. Na verdade, o mundo todo desaparece.

É por isso que os místicos dizem que esse mundo é um “maya”, é algo ilusório. Não que o mundo não exista, mas para quem medita, como os Budas, para quem entra em “transe” em meditações profundas, é quase como se o mundo externo não mais existisse. Essas meditações, que podem acontecer em templos ou no dia-a-dia, te levam para a não-existência.

Experiências com Budistas em meditação mostram que, no ápice da jornada meditativa, ocorre redução drástica de seu campo de orientação. A suposição é que essa região cerebral se faz temporariamente “cega” para os dados provenientes dos sentidos – o que explicaria sua sensação de ligação indissolúvel à totalidade da Criação. Mais uma vez, no entanto, o resultado da experiência nada diz acerca do conteúdo de verdade da crença ou de certos dogmas de diferentes religiões.

Veja que o estado de solidão é algo tão real e é uma situação tão natural que não tem como fugir, na verdade não há necessidade. Pelo contrário, quando você se reserva por algum tempo, aceitando a idéia de que você está só – seja em uma montanha, em sua casa ou meditando – você melhora seu corpo e sua mente, os benefícios já aparecem. No entanto, em um primeiro momento, vem o medo do vazio e você tenta afastar esse vazio de dentro de si, você procura fugir da solidão. Mas a solidão só é um vazio porque você quer esquecê-la e fazer isso é ir contra a sua natureza, por isso ocorre o conflito. Não precisa temer a solidão, pois isso é só um mal-entendido que nos deixa estranhos a nós mesmos.
Perceba que o vazio ou a solidão mal compreendida aparece quando as pessoas perdem aquilo que amam, aquilo que colocam como o sentido da sua vida. Se colocar algo externo como o sentido de sua vida, esse algo pode sumir e a solidão mal compreendida pode lhe abater. Pois aquilo que era importante e que te preenchia se foi. Você perde o referencial e tudo perde o sentido. Daí, surgem as crises.
A cura para o vazio é dar sentido a existência, e não banir a solidão. Dar sentido a existência é reconhecer que é necessário buscar a presença que nunca se faz ausente. Não é possível relacionar essa presença com coisas ou pessoas, já que as coisas podem ser perdidas, roubadas, destruídas… e as pessoas podem abandonar, rejeitar, trair… A Presença que nunca se faz ausente é você mesmo.

Não seja extremista, não pense que estou falando para se tornar um egoísta. Estou tentando mostrar-lhe que é imprescindível se tornar um indivíduo. Você precisa ter amor-próprio, mas não se tornar um narcisista. O amor-próprio se torna narcisista se não for além, se ficar condicionado a si mesmo. Mas quando esse amor se expande, se torna o começo de todos os amores, aí sim, têm-se amor sólido e verdadeiro. Sabe por quê? Porque você só pode dar aquilo que é seu, não há outra maneira. Você não pode ser intermediário, um meio por onde o amor passa e se transfere para os outros.

Então não faça da solidão uma privação circunstancial que deve ser combatida. Aprenda a viver bem com a sua companhia. Essa solidão “ruim” se associa a sensações de isolamento e vazio. Ela costuma esconder frustrações de relações passadas, dificuldades de relacionamento e etc, mas como eu disse anteriormente: estar só é um fenômeno interno e não externo. É como você ver as coisas. Veja além do que elas aparentam ser.

Aprecie a solidão como uma coisa boa. Para os existencialistas franceses, a descoberta da solidão é uma experiência necessária e libertadora. Para a psicanálise, a solidão “boa” é um estado de saúde interna, de integração psíquica e de silêncio. Já para a psicologia analítica cada ser tem de trilhar um caminho para realizar o sentido da sua existência. Como pode perceber, existe vários conceitos a respeito e que demonstram o lado positivo que a solidão oferece. Só depende de você.

Marcelo Vinicius


Fonte: http://fontereflexao.blogspot.com/