OS QUATRO BARDOS DO BUDISMO

 
No fluxo contínuo da vida, da morte e do renascimento, o Budis­mo reconhece várias fases ou bardos. Esta palavra tibetana quer dizer “transição” ou “Intermédio”. Tecnicamente falando, os textos budis­tas reconhecem quatro ou seis tipos de bardo, segundo as escolas. Isto quer dizer que no processo contínuo da vida, da morte e do renascimento, o nosso espírito passa por vários modos de funciona­mento. Não há um que seja mais verdadeiro que os outros, logo todos eles são “transitórios” ou “intermediários".

A apresentação mais simples fala de quatro bardos. 
 
1. o bardo da vida que dura do nascimento até à morte;
2. do bardo do momento da morte que é o processo de agonia e de cessação das funções vitais;
3. do bardo da vacuidade que corresponde ao mo­mento em que a consciência faz a experiência da luminosidade natu­ral do espírito, ou clara luz;
4. e por fim do bardo da existência que corresponde ao período entre a experiência da clara luz e o renasci­mento seguinte.
Numa apresentação menos técnica muitas vezes encontramos simplesmente o termo bardo, ou estado intermediá­rio. Nesse caso esse termo designa o bardo da existência.

Nota - Na classificação em seis bardos acrescentam—se a estes quatro o bardo do sonho e o da meditação.

O bardo da vida é a vida, tal como a conhecemos. Mas que se passa quando ela acaba, no momento da morte? As sensações correspondentes às diversas fases da morte são descritas em detalhe nos tratados tântricos. 

Certas pessoas acharão estranho que existam conhecimentos tão detalhados desses instantes decisivos. Mas será assim tão estranho que a completa realização espiritual permita rasgar o véu que nos impede de abarcar todos os processos da existência como um fluxo contínuo? 

Estes ensinamentos são muito antigos: vêm-nos directamente de Buda e foram experimentados por inúmeros Mestres ao longo dos séculos. Claro que se apoiam numa visão budista do mundo, mas essa visão e essa experiência fazem parte do património da humanidade, da memó­ria colectiva da nossa espécie e portanto não nos são completamente alheias. 

O facto das crianças de hoje saberem utilizar os computadores cada vez mais cedo, mesmo que os pais não saibam, prova que a expe­riência e os conhecimentos adquiridos pelas gerações anteriores se transmite de uma forma que não é apenas hereditária. 

Também os comportamentos e as experiências humanas, onde quer que tenham sido vividas, são plenamente adquiridas pela memória colectiva da espé­cie. Por conseguinte, mesmo se estes ensinamentos partem de pontos de vista que não são os nossos, devemos respeitar o que foi vivido e reconhecido por milhares, senão milhões, de pessoas ao longo dos sé­culos e dos milénios. 

Porque havemos nós de deter a verdade absoluta e todos os outros estarem errados?

Quando queremos ajudar um familiar a viver em paz os seus últimos instantes, pode ser útil conhecer estes ensinamentos. Quer acredi­temos piamente neles ou não, basta não os rejeitarmos à priori, estar­mos abertos e aceitarmos aquilo que de momento somos capazes de abarcar. Em última análise, mesmo que se tratem de fábulas ou mi­tos, o facto de seguir estes conselhos não pode fazer mal a ninguém.

Por outro lado, tanto a pessoa que vai morrer como os familiares e amigos que a rodeiam sentem-se muito perdidos. Os que a amam gostariam de ajudá-la o melhor possível, mas nem sempre sabem como e ignoram por completo aquilo que a espera. No limiar da morte temos de dizer adeus aos que amamos e a porta que se fecha nesse momento separa-nos para sempre. 

 
O bardo do momento da morte 
No momento da concepção a nossa consciência entra na matriz da mãe e toma como suporte a união das células masculina e femi­nina. Nos tantras fala-se da essência branca do pai e da essência vermelha da mãe como sendo os aspectos subtis das duas primeiras células do corpo e diz-se que essas essências se mantêm nele du­rante toda a vida. 

Por outro lado, tal como o mundo físico exterior, também o corpo é formado pela interacção dos cinco elementos — terra, água, fogo, ar e espaço. 

Os tecidos estão associados à terra, os fluidos à água, as combustões ao fogo, a respiração ao ar. O espaço é omnipresente no corpo. No momento de morrer estes cinco ele­mentos dissolvem-se uns nos outros e cada etapa deste processo e acompanhada por sensações específicas.

Em primeiro lugar a terra dissolve-se na água. Neste momento, o moribundo perde o tónus muscular, tem a sensação de se estar a enter­rar. Não sustenta a cabeça, não tem força para estar sentado, perde o controle das secreções nasais e da saliva. 

Interiormente, tem a sensa­ção que o corpo se tornou muito pesado como se estivesse esmagado por uma montanha, incapaz de se mover. Sente-se desidratado e pode querer água. Sente-se confuso e frustrado.

Em seguida a água dissolve-se no fogo. O calor do corpo diminui; as narinas e a boca secam, o espírito está muito perturbado, envolvi­do num turbilhão de pensamentos desagradáveis. A pessoa pode ter a sensação de estar a cair. Por vezes os olhos reviram-se e o moribundo deixa de os conseguir fechar.

Por sua vez o fogo dissolve-se no ar. A respiração torna-se ofegan­te, os membros arrefecem a partir das extremidades. O moribundo tem a impressão de estar a ser levado pelo vento e procura agarrar-se a alguma coisa. O espírito perde a lucidez e a claridade.

O ar dissolve-se então na consciência. A respiração torna-se difí­cil, a inspiração é curta, a expiração mais longa. O moribundo tem alucinações relacionadas com o karma acumulado nesta vida.

Como nesse momento a influência do corpo de­clina, a influência do espírito sobrepõe-se e as alucinações têm um poder considerável e são extremamente reais. No caso de serem as­sustadoras, a pessoa pode gritar ou manifestar sinais de terror.

Por último, a consciência dissolve-se na Vacuidade. O corpo retoma um pouco de cor, a respiração cessa por completo e é aquilo que considera­mos como a morte, o momento em que o espírito e o corpo se separam. 

No momento da dissolução da consciência na Vacuidade, o moribundo tem a percepção de três tipos de luzes: branca, vermelha e negra.

Falei das essências branca e vermelha que nos servem de suporte no momento da concepção. Essas essências correspondem ao princí­pio masculino e feminino e durante a vida residem respectivamente no centro subtil do umbigo e da fronte. Nesse momento do proces­so de dissolução, a essência branca desce da fronte para o coração e o moribundo experimenta uma luz branca semelhante ao luar. Todos os pensamentos relacionados com a aversão desaparecem: mesmo que visse o seu inimigo mortal não sentiria qualquer aversão.

Em seguida a essência vermelha começa a subir do umbigo para o cora­ção. O moribundo tem a experiência de uma luz semelhante à do Sol. Todos os pensamentos relacionados com o apego desaparecem. Mesmo que visse o objecto dos seus desejos não sentiria qualquer atracção.

Khyentse Rinpoche especifica que numa pessoa colérica é a essên­cia branca que desce primeiro e que numa pessoa essencialmente mo­vida pelo desejo é a essência vermelha que sobe primeiro.

Qualquer que seja a ordem, depois desses dois princípios se dissol­verem no coração, a consciência perde a faculdade cognitiva. O mo­ribundo tem a experiência da luz negra, semelhante ao céu nocturno, azul muito escuro. Todos os pensamentos relacionados com a ig­norância cessam: qualquer que fosse o espectáculo que presenciasse não suscitaria nele pensamento algum.

O bardo da Vacuidade e o bardo da existência 
No final destas dissoluções faz-se a experiência directa da luz clara, a natureza fundamental do espírito. Essa luz clara é descrita nos textos como uma aurora imaculada num céu de Outono perfeitamente lim­po”. 

Essa é a consciência fundamental, a base de todos os outros ní­veis de consciência e a única que está sempre presente em todas as fases do contínuo da existência.

Todos os seres vivos conscientes, sejam eles homens ou mosquitos, a experimentam no momento da morte. É o chamado bardo da Vacuidade.

A maior parte dos seres que não aprenderam a reconhecê-la têm medo e “desmaiam”, ou seja, caem num estado de obscuridade men­tal e de inconsciência que dura cerca de três dias. 

Após esse período, os praticantes budistas experientes vêem surgir as divindades tântricas pacíficas e iradas, em visões descritas no Livro Tibetano dos Mortos. 

Para os seres comuns, sem qualquer treino espiritual, estas experiên­cias têm um carácter diferente e são muito fugazes. Sentem-se como no meio de uma turba imensa, numa cidade, em hora de ponta, com o barulho ensurdecedor dos carros e dos aviões. A experiência não é das mais agradáveis e a consciência do defunto pode sentir medo.

Depois, as diversas energias subtis ressurgem, a consciência es­trutura-se na ordem inversa da sua dissolução: primeiro os pensa­mentos relacionados com a ignorância, depois os pensamentos rela­cionados com a aversão e o desejo (ou inversamente). 

As energias dos cinco elementos manifestam-se de novo e, pela força dos hábitos mentais, o defunto “renasce” num corpo mental cuja forma, durante a primeira metade dos quarenta e nove dias do bardo, é muito seme­lhante à que tinha na sua existência anterior.

Este processo de restruturação da consciência marca o início do bardo da existência.

Em função dos hábitos passados o bardoa (o ser que está no bardo) tem todo o tipo de percepções. Como não tem suporte físico deslo­ca-se instantaneamente, ao sabor dos impulsos, das lembranças, dos medos, dos desejos e das aversões. Vê amigos e inimigos, tem fome e sede. Pode sentir-se ameaçado e ter medo de morrer — embora já esteja morto e o seu corpo mental não possa ser atingido. 

Tudo depende das tendências habituais, do seu potencial kármico latente. O corpo mental, bem como todas as alucinações experimentadas pelo defunto têm a natu­reza do sonho mas de uma intensidade muito superior. 

O bardoa possui os cinco sentidos e embora as pessoas comuns não o vejam ele pode vê-las e conhecer os seus pensamentos. Também pode ver os outros bardoas.

Todas estas experiências são o resultado do karma. Se o defunto acumulou muitas acções negativas as experiências podem ser aterrado­ras. Enquanto estamos vivos, embora o nosso espírito esteja numa efervescência constante, pensando num familiar, na nossa casa, no fil­me que acabámos de ver, no trabalho, etc., e viaje pelo mundo inteiro instantaneamente, o corpo físico não tem essa capacidade. 

No bardo, todos os pensamentos que fervilham no nosso espírito concretizam-se de imediato, criando uma realidade extremamente instável e inquie­tante. 

Assim, compreendemos a importância da natureza dos pensa­mentos que cultivámos durante a vida: se foram de ódio, de rivalidade ou de agressão, o hábito mantém-se no bardo e esses pensamentos concretizam-se imediatamente em situações agressivas, perigosas, medonhas. 

Nesta fase do bardo, o espírito do defunto pode ter ten­dência para voltar aos lugares onde viveu, ficando obcecado com as suas preocupações habituais. Sobretudo se morreu de morte súbita, pode ainda não ter percebido que está morto, seguir os entes queridos e tentar estabelecer contacto com eles. Como não lhe respondem fica triste e zangado. Vê desconhecidos tomarem o seu lugar no emprego, os filhos a lutarem pela herança, um amigo a fazer a corte à mulher.

Durante a primeira metade deste bardo todas as experiências estão relacionadas com a vida que acabou de deixar. Depois, pouco a pouco, o karrna que as cria vai-se esgotando e, na segunda parte, as suas experiências estão relacionadas com a futura existência.

No caso de um karma muito positivo ou muito negativo a duração deste bardo é curta e o ser renasce rapidamente num mundo supe­rior, no primeiro caso, ou um num mundo inferior, no segundo. 

Certas acções extremamente negativas, chamadas “com efeito imediato”, fa­zem renascer de imediato nos infernos sem passar pelo bardo da existên­cia. No caso de impregnações kármicas leves ou misturadas, o bardo pode durar mais tempo. Portanto, a duração deste bardo é variável e o renascimento pode dar-se após uma semana, duas, três ou mais, até sete. Excepcionalmente, certos bardos podem durar um ano ou mais.

O renascimentoComo dissemos, durante a segunda metade do bardo da existên­cia as experiências do bardoa estão mais relacionadas com a futura exis­tência. 

Durante este segundo período, ele tem presságios indicando a natureza do seu próximo renascimento, vê certos habitats, é atraído por certo tipo de comidas, etc.

As sete semanas de duração média do bardo da existência são cons­tituídas por sete ciclos de sete dias. No final de cada ciclo, o bardoa experimenta uma espécie de “pequena morte”, ou seja, revive as cir­cunstâncias da sua morte. 

Além disso, muitas das suas experiências são bastante assustado­ras. Ouve sons estranhos e violentos, tem sensações desagradáveis como, por exemplo, a de cair num precipício. Tudo isso corresponde na realidade a movimentos da energia subtil da sua consciência.

Surge por fim a oportunidade de um novo renascimento. 

Nos tantras fala-se de quatro tipos de renascimento possível: de uma ma­triz, por aparição, a partir do calor húmido ou de um ovo. 

Nos esta­dos infernais, como em alguns mundos divinos, o nascimento é por aparição, o que quer dizer que o ser renasce nesses mundos comple­tamente formado, sem ter de passar por uma gestação. O espírito encarna numa forma plenamente desenvolvida. 

No reino humano, como no dos espíritos ávidos, o nascimento depende de condições, da união do pai e da mãe. 

No mundo humano a mãe tem um filho, dois e raramente três ou mais de cada vez. 

No mundo dos espíritos ávidos ela pode ter centenas de filhos de uma só vez. 

No reino animal pode-se nascer da matriz ou de um ovo.

Assim, levado pelo karma, o bardoa é atraído por um ou outro renascimento. 

Pode, por exemplo, sentir frio, refugiar-se junto de uma fogueira e renascer nos infernos. 

Ou então ver sítios aprazíveis com mansões lindíssimas, entrar numa delas e renascer no mundo divino. 

Pode ser perseguido por inimigos (como acontece nos so­nhos) e encontrar um buraco ou um abrigo para se esconder e renas­cer como animal no fundo de uma toca. 

De todo o modo, a natureza das aparições e aquilo que o vai atrair depende da natureza do seu karma. Aqui não há jogos de bastidores possíveis. Apenas um bom treino espiritual e um karma positivo nos podem ajudar.

No caso de um renascimento humano, o ser que se encontra no esta­do intermediário vê os seus pais no acto de procriação. 

Em função do seu karma passado, poderá sentir atracção pela mãe e ciúmes do pai e nesse caso renasce com o sexo masculino, ou sentir atracção pelo pai e ciúmes pela mãe e renascer com o sexo feminino. 

No momento em que a cons­ciência integra a união do espermatozóide com o óvulo, o ser perde de novo consciência. 

Durante os nove meses de gestação, a consciência reestrutura-se de forma progressiva, mas a memória do bardo e da vida anterior estão perdidas. 

De tudo o que vivemos restam-nos apenas os medos indefinidos da infância e por vezes certos pesadelos.

Todos estes processos, desde as dissoluções do momento da mor­te até ao renascimento, são idênticos para todos os seres vivos cons­cientes, quer sejam humanos ou não. 

Apenas a natureza das suas ex­periências varia consoante o tipo de vida que levaram e a natureza das tendências habituais acumuladas.
 Fonte:
http://www.cteafaro.com/cteafaro/