O SOFRIMENTO ESSENCIAL

 
Todos nos sentimos tentados a ir para algum lugar onde não exista sofrimento, onde só haja paz e felicidade. Vocês talvez sintam vontade de considerar que o Reino dos Céus ou a Terra Pura sejam lugares assim. Tendemos a acreditar que existe um lugar para onde podemos ir abandonando, ou deixando para trás, este mundo de sofrimento, confusão e poluição. As poluições que nos afligem são raiva, ódio, desespero, mágoa e medo. Quando vocês sofrem muito, a tendência a deixar tudo para trás torna-se muito forte. Não quero mais ficar aqui, quero sair. "Pare mundo, que quero descer!"

Analisem profundamente e chegarão à conclusão de que felicidade e bem-estar não podem ser separados do sofrimento e mal-estar. É a característica interativa da felicidade e do sofrimento. Uma ilusão precisa ser eliminada - a de que a felicidade pode existir sem sofrimento, de que pode haver bem estar sem mal-estar, que a direita pode existir sem a esquerda.

Se não souberem o que é fome, jamais conhecerão a agradável sensação de ter algo para comer. Preferem não ter quaisquer momentos de fome? Ou preferem alguns instantes de fome para poder desfrutar de um pedaço de pão, manteiga ou musli? Imaginem alguém que jamais sinta fome ou que não tenha vontade de comer? Por que comer se não se tem fome? Creio que vocês gostam do privilégio de ter fome de vez em quando para poder desfrutar da alegria de comer. Se não estiverem com sede, não se sentirão atraídos por bebidas, nem mesmo por refrigerante. Se não sofrerem, não saberão o que é a felicidade.

Acho que precisamos de uma certa dose de sofrimento, todos nós, para que possamos apreciar a felicidade que está à nossa disposição. Vocês já deveriam saber que inspirar e expirar, para muitos de nós, é maravilhoso. Se tiverem uma crise de asma, nariz entupido, infecção pulmonar, se estiverem em um ambiente sem ar fresco, adorarão sair ao ar livre, com os pulmões ainda em boas condições e o nariz desentupido. Então será maravilhoso andar, inspirar e expirar. Isto pode ser uma experiência fantástica.

Ter duas pernas suficientemente fortes para correr e andar também é motivo de grande alegria. Em certas ocasiões, com uma perna fraturada, um tornozelo deslocado ou muito doentes, o exterior parece muito tentador, mas vocês não podem se levantar e sair. Nem correr ou andar. Nestes momentos de sofrimento lembram-se da alegria que é andar, respirar o ar puro, olhar para o céu azul. Todos precisamos de uma certa quantidade de sofrimento para que consigamos apreciar o bem-estar e a felicidade à nossa disposição. A escuridão é necessária para que se possa apreciar a beleza da manhã.

Imaginem um reino onde não haja sofrimento. É muito estressante. A alegria de estar vivo só é possível quando se sabe o que é morrer. A alegria de estar saudável ou de ser capaz de andar, correr e respirar não será possível sem a experiência de morte e doença. A esperança, o desejo e a aspiração por um reino ou lugar onde não exista sofrimento deveriam ser objeto de nova avaliação. Quem vive neste Reino não deveria sofrer. Aparentemente, na vida cotidiana, deveria experimentar apenas felicidade.

Isso é absurdo e impossível. Uma terra pura, uma terra de Buda ou paraíso, não é um lugar onde o sofrimento não existe. Defino paraíso como o lugar onde existem amor e compaixão. Quando o Bodhisattva da Compaixão descer ao inferno, aquele local não será mais o que é, porque o Bodhisattva levará amor para ali.

O amor, contudo, não pode existir sem sofrimento. Na verdade, o sofrimento é a base de onde nasce o amor. Quem não sofreu, se não vê o sofrimento das pessoas ou de outros seres vivos, não terá amor nem o compreenderá. Sem sofrimento, não é possível existirem compaixão, amabilidade, tolerância e compreensão. Vocês querem mesmo viver em um lugar onde não exista sofrimento? Nesse caso, não serão capazes de saber o que é amor. O amor nasce do sofrimento.

Vocês sabem o que é sofrimento. Não desejam sofrer nem fazer com que outros sofram; por isso, o seu amor existe. Desejam ser felizes e trazer felicidade aos outros. Isto é amor. A existência do sofrimento ajuda no nascimento da compaixão. Precisamos do sofrimento para a compaixão nascer e ser nutrida. É por isso que o sofrimento desempenha um papel tão importante até mesmo aqui no paraíso. Já estamos em uma espécie de paraíso, cercados de amor, mas ainda existem inveja, ódio, raiva e sofrimento ao nosso redor e dentro de nós.

A luta para nos livrarmos do aperto do sofrimento e da aflição nos ensina a amar, a não infligir a nós mesmos e a outros mais sofrimento e incompreensão. Amar é uma prática, e a não ser que saibam o que é sofrimento não se sentirão motivados a praticar compaixão, amor e compreensão. Eu não teria vontade de ir para um lugar onde não houvesse sofrimento, porque sei que se vivesse em um lugar assim não experimentaria o amor. Como sofro, preciso de amor. Como vocês sofrem, também precisam de amor. Por isso, sabemos que precisamos sofrer para proporcionar amor aos outros, e o amor se torna uma prática.

O Buda do amor, Maitreya, jamais nasceria em um mundo onde não houvesse sofrimento. Este é o lugar ideal para o nascimento do Buda do amor, porque o sofrimento é o elemento do qual criamos amor. Não sejamos ingênuos, abandonando este mundo de sofrimento, ansiando por um lugar não importa se o chamamos de nirvana, Reino dos Céus ou Terra Pura. Vocês sabem que o elemento com o qual podem criar amor é o próprio sofrimento e o que experimentamos todos os dias ao nosso redor.

No sutra da Terra Pura que eu estava traduzindo para o idioma vietnamita há uma frase que me aborreceu por muitos anos. A sentença é: “As pessoas que vivem na Terra Pura jamais experimentam o sofrimento, apenas felicidade." Só por isso eu não gostava do sutra. Mas o traduzi, porque durante uma noite em que não consegui dormir profundamente ouvi uma voz no meu coração dizendo-me que eu deveria traduzi-lo. De tempos em tempos aparece uma destas frases que vocês encontram em um sutra. Segundo os critérios dos estudos budistas, existem afirmações que refletem a verdade absoluta e outras que apenas expressam a verdade relativa. De modo que aceito a sentença que expressa a verdade relativa.

No Evangelho segundo Mateus, há uma frase que também me deixa bastante aborrecido. Ela também é encontrada em Marcos. É a pergunta formulada por Jesus pouco antes da sua morte. Ele gritou: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?" "Eli, Eli, lama sabachthani." É uma frase de muita tensão. Se Deus, o Filho, está, ao mesmo tempo, ligado a Deus o Pai, por que falar sobre abandono? Se a água é una com a onda, por que reclamar que a água está abandonando a onda? Por isso, quando estamos estudando os sutras ou o Evangelho. temos que estar muito atentos. Não podemos deixar que apenas uma palavra, uma frase ou uma afirmação nos confundam. Precisamos considerar o corpo de Dharma segundo uma visão mais ampla.

Eu sou o Caminho. O Caminho não pode ser separado de mim. O Caminho também sou eu. Sou o Filho de Deus e, ao mesmo tempo, o Filho do Homem. Isto é muito revelador e sério. Reclamar que a água abandonou a onda não indica a mesma percepção, esta experiência. Amar a Deus, amar o nirvana e amar a água significam que realmente temos que nascer na vida espiritual. Precisamos dedicar todo o nosso tempo e energia de vida na busca e entendimento da suprema dimensão. Estamos sedentos, sedentos por isso. Para cumprir a tarefa de uma criança espiritual, temos que dedicar nossa vida a alcançar o supremo. Precisamos ser um estudante em tempo integral na universidade. Para isso, vocês têm que se unir a uma Sangha onde todos estejam fazendo a mesma coisa, tentando ser estudantes em tempo integral. A Terra Pura de Amita Buda é uma universidade onde todos os estudantes gostam de praticar em tempo integral.

No sutra da Terra Pura que traduzi ontem havia uma frase muito linda. Há muitas outras igualmente bonitas, mas essa era especial. É a seguinte: "Caros amigos, quando me ouvirem falar daquele Buda, sua terra, sua comunidade, devem se esforçar para nascer imediatamente ali. Quando nascerem naquela terra, estarão vivendo junto e em contato permanente com pessoas adoráveis." Isto significa que se nascerem naquela terra terão a chance de viver vinte e quatro horas por dia em companhia de pessoas boas, fascinantes.

Onde é a Terra Pura? Como se pode renascer ali? Para mim, a Terra Pura é aqui, bem aqui e neste exato momento. Cada um de nós é Amita Buda, porque temos a energia do amor, a mente do amor em nós, aquele ardente desejo de fazer a felicidade de muitas pessoas. Cada um de nós tem que se comportar como Amita Buda para criar uma Terra Pura, para proporcionar aos nossos amigos a oportunidade de viver em um ambiente tão seguro e cheio de amor, onde todos podem praticar como estudantes em tempo integral. Todos precisamos ter este desejo, de preparar uma Terra Pura, um centro de prática ou uma comunidade para onde as pessoas podem vir e tornar-se um membro.

Nascer nesta comunidade, naquela Terra Pura, não é difícil. Apenas telefonem e digam: "Posso ir? Tem lugar para mim?" Precisam ter a coragem para deixar todos os vínculos que não lhes permitem nascer na Terra Pura para trás. Quando chegarem à Terra Pura, seus moradores lhes darão as boas-vindas e eles os incentivarão para que se tornem estudantes em tempo integral. Quer vivam nos Estados Unidos, na Austrália ou na África, seu desejo é estabelecer uma Terra Pura para a felicidade de muitos e uma espécie de universidade onde todos se tornarão estudantes em tempo integral. Com a Sangha, com a Terra Pura, é muito mais fácil dedicar o tempo a alcançar o supremo, porque fazendo isso nos libertamos e fazemos com que nosso amor se desenvolva em benefício de muitos.

Fonte:http://sangavirtual.blogspot.com/ -Do livro “Jesus e Buda Irmãos” – Thich Nhat Hanh