FUJA DAS MULETAS PSICOLÓGICAS - LUIS PELLEGRINI


"O sonho", de Salvador Dali. O mestre do surrealismo era apaixonado pelo tema das muletas e com frequência o utilizava nas suas obras

Materiais ou simbólicas, as muletas às vezes são necessárias. Mas cuidado com a dependência. Como diz a sabedoria popular, “de tanto usar muletas, fulano não consegue mais caminhar com as próprias pernas”
Por Luis Pellegrini

Muleta, nos dicionários, é coisa definida como “bastão encimado por uma pequena travessa, que os velhos ou os enfermos utilizam para se apoiar ou para se ajudar a andar”. O termo é hoje muito frequente também no jargão dos psicólogos e dos esotéricos. A muleta representa, simbolicamente, alguma forma de auxílio e apoio.
Muletas, sejam elas materiais ou simbólicas, objetivas ou subjetivas, são recursos dos quais lançamos mão com frequência. Todos nós, numa situação ou noutra, fazemos uso delas, muitas vezes de modo inconsciente.

"A girafa em chamas", de Salvador Dali

É justo e lícito o uso de muletas? Sim, claro, desde que seu uso seja ditado pela necessidade. Para um recém-nascido, os braços da mãe são muletas imprescindíveis. Para um jovem em fase de aprendizado, os professores desempenham essa função. O mesmo representa o médico para o  doente. O amigo, para quem se encontra desesperado. Os templos, os sacerdotes, as religiões, para quem está carente de vida espiritual. Mas, mesmo quando ditado pela necessidade, o uso de muletas deve ser restringido ao estritamente necessário, e pelo mais breve tempo possível. É muito real o risco que correm todos os que usam muletas além do tempo indispensável: sua “musculatura” – seja ela física, emocional, mental ou espiritual – poderá ficar atrofiada. Já diz a sabedoria popular: “De tanto usar muletas, fulano não consegue mais caminhar com as próprias pernas”. Quando a necessidade real da muleta é substituída pelo vício, pelo comodismo, pela neurose de dependência, pela fraqueza de caráter, o uso de muletas não se justifica e deve ser considerado ilícito.
No entanto, se olharmos ao nosso redor, o que vemos é o uso generalizado e indevido de muletas. Existem aqueles que vêem a profissão que desempenham como muletas, apenas para garantir a subsistência material e status social, mas que é tocada sem empenho, sem criatividade, sem prazer na ação do trabalho. Há casamentos levados adiante como muletas, sem verdadeiro afeto, compreensão e respeito mútuos, mas de modo a apenas mascarar a solidão a dois dos cônjuges e a conferir-lhes o papel social de casados. A comida ingerida não mais para satisfazer uma necessidade, e sim para servir como muleta de compensação, levando em geral à obesidade e às moléstias dela decorrentes. E milhares de outras muletas compensatórias: cigarros como muletas, roupas de grife como muletas, automóvel do ano e jóias como muletas. Médicos e psicólogos como muletas. Até se chegar ao tremendo equívoco de se usar Deus como muleta. Ou não é isso que se faz quando se abdica da reponsabilidade e da possibilidade, em geral muito real, de se solucionar os problemas usando os seus próprios meios e capacidades, preferindo, em vez disso, “colocar tudo nas mãos de Deus?”

"Vestígios atávicos depois da chuva", Salvador Dali

Nos assim chamados “meios espiritualistas”, “esotéricos”, “alternativos”, “aquarianos” – todos eles mais ou menos sinônimos -, os adeptos das muletas patológicas constituem legiões. Na verdade, são relativamente raros os que enveredam por esses sendeiros existenciais com o firme propósito de buscar o autoconhecimento e a plenitude pessoal – metas básicas de qualquer caminho espiritual digno desse nome -, dispostos a desempenhar os esforços e a assumir os sacrifícios que tais metas exigem. A maioria quer muleta, na forma de uma “varinha de condão”, aquela da “fada madrinha”, capaz de resolver, num passe de mágica, todo e qualquer problema.
Todo um enorme mercado de consumo funciona em torno disso: discos voadores e seus tripulantes (quem não conhece um “discípulo” do comandante Ashtar Sheran?), fadas, gnomos, cristais, pirâmides, talismãs, anjos, pêndulos, espíritos desencarnados, gurus, profetas, mestres da Fraternidade Branca (idem para o Mestre Saint Germain) astrólogos e tarólogos, todos transformados em muletas.
Estudo promovido por influente sociedade de estudos esotéricos com sede em São Paulo, com a intenção de desenhar os perfis psicológicos dos seus associados, revelou que a maioria dos que nela chegam são pessoas que na verdade estão em busca de muletas. São carentes de todos os tipos, necessitados principalmente de ajuda de tipo moral, psicológico e afetivo. Pessoas fragilizadas em termos de auto-estima e de autoconfiança, que esperam encontrar nos ensinamentos e nas atividades dessas organizações os pontos de referência e de apoio que lhes faltam, e que as respectivas famílias e a própria sociedade e o sistema cultural em que vivemos não são capazes de lhes proporcionar.

"O morcego", de Salvador Dali

No entanto, um postulado básico de todo sistema autêntico de sabedoria, seja ele de tipo religioso, esotérico, filosófico ou psicológico afirma que toda relação de dependência não-necessária é nefasta para os propósitos de fazer com que o indivíduo chegue à plenitude de si mesmo e de suas possibilidades. Ou seja, toda muleta indevida acaba por levar quem a usa a um estado de inércia e de bloqueio biológico, psicológico, intelectual e espiritual.
Existe apenas uma  “muleta” cujo uso é sempre lícito: aquela que existe no interior de cada um de nós, nosso eu interior, aquela entidade íntima que o psicólogo Carl Jung chamava de Self. Essa muleta contém e sintetiza toda a ajuda de que necessitamos. Mas estabelecer um contato real com ela exige a renúncia paulatina das muletas neuróticas sobre as quais nos apoiamos. Pois, para se chegar à grande muleta do Self, o caminho mais curto e eficiente é aquele que se faz com a consciência desperta, com confiança em si próprio, com liberdade e responsabilidade e, sobretudo, caminhando sobre as próprias pernas.

"A oceânida", de Salvador Dali