ENSINAMENTOS SOBRE O NÃO-EU


Sabemos que a essência do ensinamento de Buda é o não-eu. Isto é algo que as pessoas acham muito difícil de aceitar, porque todo o mundo acredita que existe um Eu, e que você é você mesmo, não outra pessoa. Mas com a prática de observação profunda, vemos as coisas de modo diferente. Você se vê como pessoa, um ser humano; você diz que não é uma árvore, não é um esquilo, e não é uma rã. Você não é outra pessoa. Isso acontece porque não observamos profundamente a nossa verdadeira natureza. Se nós fazemos, veremos que somos ao mesmo tempo uma árvore. Isso não quer dizer apenas que em nossas vidas passadas fomos uma árvore ou uma pedra ou uma nuvem, mas que até mesmo nesta vida, neste mesmo momento, vocês continuam sendo uma árvore, vocês continuam sendo uma pedra, vocês continuam sendo uma nuvem.

De fato vocês não podem tirar a árvore de vocês, não podem tirar a nuvem de vocês, não podem tirar a pedra de vocês, porque se pudessem, não poderiam mais ser vocês mesmos. Nos contos de Jataka é dito que em vidas passadas o Buda tinha sido um esquilo, um pássaro, cervo, um elefante, uma árvore. É muito poético, mas não significa que quando o Buda era uma pessoa humana que mora na cidade de Sravasti, não era mais uma árvore, uma pedra, um cervo. Ele continuou sendo tudo isso. Assim quando eu olho para mim mesmo, vejo que ainda sou uma nuvem, não só durante uma vida passada, mas agora mesmo.

Há uma senhora que escreveu um poema sobre o marido dela que é um estudante meu. Aquele estudante é muito apaixonado por meu ensinamento. E ela disse, "Meu marido tem uma amante, e sua amante é um homem velho que às vezes sonha em ser uma nuvem". Eu não penso que descrição de mim está correta, porque não estou sonhando em ser uma nuvem - eu sou uma nuvem. Neste mesmo momento vocês não podem tirar a nuvem de mim; se tirassem a nuvem, eu desmoronaria imediatamente. Vocês não podem tirar a árvore de mim; se o fizessem, eu desmoronaria.

Olhando profundamente em nossa verdadeira natureza assim, vemos que o que chamamos Eu é feito apenas de elementos de não-eu. Esta é uma prática muito importante, e não parece tão difícil quanto podemos imaginar. Assim você é o filho, mas não só é o filho, você é o pai. Se tirarem o pai de vocês mesmos, irão desmoronar. Vocês são a continuação de seu pai, de sua mãe, de seus antepassados. Isso é não-eu. O filho é feito de pai, o pai é feito de filho, e assim por diante. E a prática é que diariamente temos a oportunidade de olhar para as coisas deste modo -- caso contrário vivemos de um modo muito superficial, e não obtemos o coração da vida.

Um jovem pode dizer, "eu odeio meu pai. Eu não quero ter qualquer coisa a ver com meu pai". Ele é muito sincero, porque toda vez que pensa em seu pai, a raiva surge. É muito desagradável, portanto ele quer se separar de seu pai, e está determinado a fazer isso. Mas como tal coisa pode ser possível? Como é possível tirar seu pai de vocês? A dura realidade é que vocês são seu pai. Melhor seria reconciliar com o seu pai interior. Não há nenhum outro modo. Vocês podem se comportar como aquele jovem quando acreditam na realidade de um Eu, mas no momento em que virem a verdadeira natureza do eu, vocês já não poderão se comportar assim. Vocês sabem que o único modo é aceitar, reconciliar e transformar. Vocês sabem que é o preconceito, a ignorância em vocês que causam todo o sofrimento.

Outro dia a Monja Phuoc Nghiem praticou o "Tocando a Terra" sozinha no salão de meditação para rezar pela sua avó. Ela também tinha pedido que todas as suas irmãs mais velhas e as irmãs mais jovens se juntassem para poderem rezar e enviar energias à sua avó que tinha falecido, mas ela também praticou sozinha o Tocar a Terra. Durante o primeiro ano de pratica aqui ela pensava muito freqüentemente que algum dia um querido membro de sua família iria falecer, e como lidaria com isso. E toda vez que em Plum Village havia uma cerimônia de prece por alguém falecido, aquele pensamento voltava: "Como lidarei com a situação ao saber que um membro de minha família faleceu?

Então um dia ela ouviu que o bebê que a sua irmã tinha dado à luz tinha falecido poucas horas depois do nascimento, e que sua irmã sofreu muito. Sua irmã morava na Alemanha. E quando falou com ela, a Monja Phuoc Nghiem percebeu o sofrimento, a instabilidade e o desespero na voz da irmã. Por perceber sua irmã sofrendo, a Monja Phuoc Nghiem também sofreu, e tentou praticar de modo a sofrer menos, porque ela sabia que se não sofresse menos, não poderia ajudar a sua irmã. Ela telefonou para sua mãe no Vietnam, e a mãe disse, "Foi melhor assim do que criar a criança durante dois ou três anos e então a ver morrer depois, quando o sofrimento seria muito mais intenso.

Porque após dois ou três anos de cuidados por uma criança, o apego será muito mais profundo, e é claro que o sofrimento seria muito maior. Assim, você precisa considerar isto como uma abóbora no jardim… há flores que murcham e não se tornam uma abóbora, e isso também é verdade com humanos. Há crianças que nós podemos manter, e há crianças que nós não podemos manter desde o princípio. Isso é algo que acontece."

Quando a Monja Phuoc Nghiem falou comigo, eu lhe contei a história sobre meu irmão. Antes que eu viesse, minha mãe estava grávida, e ela abortou. Às vezes eu me perguntava se aquele era meu irmão ou era eu que não quis vir à luz, por julgar que o tempo não era apropriado para nascer. Isso também era uma meditação sobre o eu e o não-eu. Quando eu dizia, "Era meu irmão ou era eu?", estava usando as palavras "irmão" e "eu" como duas entidades separadas. Mas se nós olhamos profundamente nisto, vemos que meu irmão sou eu, e eu sou meu irmão, assim vocês podem ver a realidade não-dual nisto.

Quando olharmos o pai e o filho e virmos a realidade não-dualística, a integração dos dois, poderemos ver a mesma coisa com nossos irmãos e nós mesmos. Eu não posso tirar meu irmão de mim, meu irmão não me pode me tirar dele, assim meu irmão e eu nos integramos. Nós não podemos dizer que somos um ou somos dois, porque um e dois são conceitos. "O mesmo" é um conceito, "o diferente" é outro conceito, e a realidade transcende todos os conceitos. O mesmo é aplicado com o pai e filho, o irmão mais jovem e irmão maior, e nós podemos ver o fluxo da vida.

Quando a Monja Phuoc Nghiem praticou o "Tocando a Terra" para sua avó, ela descobriu muitas coisas interessantes. Antes de fazer esta técnica ela estava praticando meditação caminhando em Plum Village vendo o vinhedo, os campos de trigo, estava caminhando e vendo que sua avó caminhava com ela. Ela se lembrou que quando era uma menina pequena sua avó costumava acalentá-la com cantigas vietnamitas. Durante seu primeiro e segundo anos como monja em Plum Village, ela pensava freqüentemente nos dias em que regressaria para o Vietnam e caminharia da mesma forma com a sua avó, a qual amava tanto. Ela teve bons momentos com sua avó. Ela disse que agora não tem mais que esperar -- sua avó veio para cá e está fazendo meditação caminhando com ela, e que sua avó estaria contente ao ver os campos de trigo, porque eles se parecem muito com os campos de arroz do Vietnam.

Enquanto ela praticava o "Tocando a Terra" viu que sua avó também praticou o Tocando a Terra antes, mas que era a primeira vez que ela praticava o Tocando a Terra da maneira de Plum Village. No estilo de Plum Village você fica na posição de Tocar a Terra por muito tempo, pelo menos três inspirações e três expirações, e ela achou maravilhoso que a sua avó estivesse praticando o Tocando a Terra no estilo de Plum Village com ela.

Ela olhou a sua mão e disse, "Esta é minha mão, mas esta também é a mão de minha mãe, e esta é a mão de minha avó..." Assim ela pôde ver a presença da sua avó na sua mão esquerda, e então apertou sua mão esquerda com sua mão direita, e sentiu muito claramente que estava segurando a mão da sua avó. Isto foi algo muito real, e não imaginação. E ela chorou por causa daquela felicidade. Ela não mais sentia que estava separada da sua avó, a sua avó está dentro dela e está praticando com ela, e qualquer sorriso que ela der será para liberar a si mesma e liberar a sua avó ao mesmo tempo.

De forma que esta é uma boa prática: vocês podem ver a natureza da integração entre vocês e suas avós. É o mesmo quando eu olho para mim e vejo a natureza de integração entre a nuvem e eu. A nuvem e eu não podemos ser afastados um do outro.

O que vocês fizeram no passado devido à sua inabilidade também é assim. Se no passado vocês fizeram algo equivocado, isso foi devido a muitas condições: vocês não tiveram um pai que poderia ajudá-los naquele momento; não tiveram uma mãe ou um professor para os ajudarem naquele momento a serem mais hábeis de que eram; e a semente daquela falta de habilidade foi transmitida a vocês por muitas gerações. Vocês não podiam reconhecer aquela semente em si; cometeram um engano; fizeram coisas equivocadas. Isso significa que todos os seus antepassados fizeram isto junto com vocês naquele momento.

Olhando a partir do insight do não-eu, vocês vêem que todos estavam fazendo a coisa equivocada que vocês fizeram, junto com vocês. Vocês têm que perceber isto, e o essencial é que fiquem livres da noção de eu. Está claro que quando vocês podem inspirar conscientemente e sorrir, todas as gerações de antepassados em vocês estão sorrindo ao mesmo tempo. Não só seus antepassados, mas as gerações futuras em vocês podem sorrir juntamente; portanto todas as vezes que cometerem um engano, toda vez que fizerem uma coisa equivocada, todos estarão fazendo-a com vocês. Agora que vocês estão em contato com o Dharma, percebem que aquela era uma coisa equivocada a fazer, e ficam motivados pelo desejo de nunca fazer isto novamente.

Eu disse antes que se nós não cometemos nenhum engano, não há nenhum modo de aprendermos. De forma que é por olhar profundamente, e ver a natureza do ato, a natureza de integração do ato à luz do não-eu, que nós vemos que aquele é um tipo de ato, aquele é um tipo de fala que criou sofrimento. O momento em que vocês percebem isto, quando reconhecem isto, é o Insight, porque insight sempre é o esclarecimento de algo, ou sobre algo. No momento em que vêem que esta é uma falta de habilidade de sua parte e de parte dos muitos antepassados que transmitiram esta semente a vocês, então isto já será o insight, já será meditação, já será o olhar profundamente.

E devido a este esclarecimento vocês são motivados por um desejo de não fazer o mesmo novamente. De forma que este desejo, esta aspiração é uma energia forte, uma forte energia que pode fazê-los vivos, que pode lhes ajudar a se protegerem, protegerem todas as gerações futuras dentro de vocês, e aquele insight é muito libertador. E se vocês sabem que não vão fazer a mesma coisa novamente, já estarão livres, e seus antepassados também estão livres, e não há nenhuma necessidade de serem presas em sentimentos de culpa.

(Ensinamentos do Mestre Thich Nhat Hanh -Retiro em Plum Village 10 de maio de 1998)
(Transcrito e editado por Carol Fegan, Chan An Cu  - Traduzido ao Português por Claudio Miklos)


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