ARTISTA , CONTA INTIMIDADES DE BEIRUTE E FALA DE BOMBARDEIOS À CIDADE

Relatos de guerra e experiências íntimas marcam livro sobre Beirute
Relatos de guerra e experiências íntimas
 marcam livro sobre Beirute


"Beirute, Eu te Amo: um Relato", da artista e blogueira inglesa Zena el Khalil, reúne as impressões da autora sobre a capital do Líbano e traz seu ponto de vista do turbulento período de guerra civil, nos anos 1990, e o conflito mais recente, em 2006, que assolaram a região.
A escritora morou durante anos no país e além de relatar a trajetória de sua família, natural de lá, ela usa a sensibilidade para perceber e contar as contradições de Beirute. A cidade mescla tradições e conflitos militares com a modernidade metropolitana e seus "habitués", preocupados com festas e aparência física.
Neste cenário, Zena e sua amiga Maya procuram um sentido para suas existências e tentam encontrar seus lugares dentro desta peculiar sociedade.
A artista produz instalações e pinturas, além de trabalhar como curadora. Seu blog tornou-se popular durante os ataques ao Líbano em 2006 e foi citado pelas emissoras CNN e BBC, e reproduzido pelos jornal britânico "The Guardian" e pela revista alemã "Der Spiegel". Ela atua ainda como ativista pelo meio ambiente.
Leia trecho de "Beirute, Eu te Amo: um Relato".
*
Passados dois dias e uma ressaca dos infernos fui visitar minha avó que morava perto das casas dos pescadores, em Ain El Mressieh, um dos bairros mais antigos de Beirute. Ela morava em uma cobertura que dava para o pequeno cais. Todas as manhãs os pescadores, que são o coração e a alma de Beirute, atracavam seus pequenos botes azuis e brancos, e todas as noites zarpavam para pescar. Perguntei-me se aquela aldeia incrustada em uma cidade vivenciara a guerra como as outras aldeias.
Na casa da minha avó descobri um quartinho que ela usava para guardar coisas... um pequeno buraco bem no meio da grande porta servia de ventilação. Tudo no quarto estava coberto de panos, e os panos estavam cobertos de poeira e umidade que deviam ter pelo menos a minha idade. Foi lá que descobri o vestido de noiva da minha avó. Eu nunca o vira antes. A cauda media cinco metros. O vestido de renda continuava perfeito. Não resisti e resolvi prová-lo. Tirei minha calça jeans e coloquei-a cuidadosamente em cima da mesa. A poeira se espalhou e eu espirrei. Outra nuvem de poeira e eu espirrei novamente. Acho que não entendi que encontrara meu super-herói. Era aquele vestido incrível e poderoso. Se eu ainda não estava totalmente preparada para enfrentar as realidades brutais de Beirute, poderia recomeçar sob a proteção da minha máscara, bem devagar, transferindo a responsabilidade para o vestido de noiva. Perguntei-me até onde conseguiria ir com essa farsa.
Naquela noite refleti durante muito tempo sobre a minha descoberta. Eu estava na casa dos meus pais. Abri a gaveta onde guardara a caixa fechada de Prozac. Tirei-a lentamente, segurei-a entre as mãos e fui até a varanda. Em Beirute é quase impossível sair para uma varanda e não ver o mar. Ele está presente em todo o lugar. O mar olhou de volta para mim e violou meu desejo de ficar sozinha. Ele murmurou que eu não deveria esquecer de mim. Que Beirute não passava de uma ilusão.
*
"Beirute, Eu te Amo: um Relato"
Autora: Zena el Khalil
Editora: Martins Martins Fontes
Páginas: 196
Quanto: R$ 29,80 (preço especial, por tempo limitado)

Fonte:http://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/

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