A CULTURA DO APOCALIPSE - A PRÁTICA DO TERRORISMO CONTAGIOSO PÚBLICO


Uma das principais contribuições da Bíblia foi, sem dúvida, desenvolver no ser humano a cultura do Apocalipse. Isso quer dizer que, sazonalmente, e aos sabores de circunstâncias corriqueiras da vida, os homens avaliam determinados fenômenos como manifestações da fúria divina e do fim do mundo.

Por exemplo: durante o período da Guerra Fria e, mais recentemente, em 2001, com a queda das torres gêmeas, vivíamos a iminência de uma guerra mundial, que poderia dizimar todos os seres vivos.

Já no episódio de hoje da história da humanidade, vivemos o medo da peste. Estou com uma tosse bem forte há alguns dias, devido a um problema estomacal, que irrita minha garganta e que me faz ter acessos um pouco exagerados. Quando isso acontece, as pessoas já me olham com um certo pavor, ocasionado pela epidemia da moda: a gripe suína.
Não é só comigo que isso tem acontecido, muita gente relatou ter passado pela mesma situação. Isso acabou originando uma pauta, que virou reportagem publicada na Folha de hoje.

Na tentativa de entender esse fenômeno, convidei duas atrizes a ir ao metrô, às 7h30 da manhã, com a missão de tossir e espirrar. É bom ressaltar que ambas estavam perfeitamente saudáveis. Mais tarde, na hora do almoço, levei-as ao shopping Iguatemi para que andassem de máscara pelas lojas.
Os resultados estão aqui: Epidemia da gripe suína transforma espirros em gafe nos locais públicos.

Tomei o cuidado de, na matéria, não deixar transparecer que as reações a alguém tossindo em locais apertados e claustrofóbicos sejam uma novidade. Em geral fazemos isso, mas, agora, reparei que o tom das pessoas está um pouco acima do normal.

A psicóloga com quem conversei me disse que isso acontece porque quebrou-se o paradigma da gripe, ou seja, uma doença que era considerada incômoda, mas controlável, passou a ser letal.

Acho que, fora esse argumento, é plausível dizer, e isso é uma conjectura minha, que o pânico das pessoas também é resultado de falta de memória e de conhecimento histórico.

Quando estudei uma disciplina especial de mestrado na USP, que analisava as relações da realidade com a ficção, debatemos diversos textos que falavam sobre a limitação do nosso conhecimento acerca do mundo, pois conhecemos um número limitado de situações, lugares e pessoas. Ou seja, nosso alcance do mundo, mesmo em tempos de internet e globalização, ainda é restrito, seja por razões econômicas, seja por razões físicas.
Temos também uma relação muito leviana com o tempo. Esquecemos muito rapidamente de fatos que aconteceram recentemente. A profusão de situações que vivenciamos e de que temos notícia pela mídia também nos faz acreditar que algo que aconteceu há dois anos foi no século passado. Se uma pessoa vem três dias com a mesma roupa nessa semana, depois fica três meses sem usá-la e, após esse período, a usa mais uma vez, é bem provável que achemos que essa pessoa sempre usou essa roupa. Ou seja, distorcemos muito o tempo dos acontecimentos, por falta de atenção, interesse ou simplesmente porque estamos absortos em outras atividades e não temos a menor obrigação de saber tudo nos mínimos detalhes.

Há também o fato de que vivemos pouco e temos pouco tempo para aprender sobre a vida na Terra e como funcionam seus ciclos. Quando finalmente estamos começando a entender como as coisas se passam, qual a dinâmica dos seres vivos, do clima, da geologia, morremos.

A nossa relação com fatos como guerras e epidemias segue essa lógica. Já passamos por duas guerras mundiais e uma infinidade de conflitos. Mesmo assim, sempre que um novo conflito se desenha no universo geopolítico, achamos que o mundo vai acabar. Não acaba, pelo simples fato de que há sempre uma força contrária atuando em relação a qualquer movimento. Faz parte das leis da física, a ação e a reação e todo aquele blá-blá-blá de que para cada força aplicada em determinado corpo, outra igual em intensidade e inversa em sentido também atua sobre aquele corpo.

Com a gripe suína e os vírus é a mesma coisa. Já tivemos o HIV, o ebola, a Sars, a gripe espanhola etc. Todas essas epidemias acabariam com a humanidade. Não acabaram. Porque na mesma intensidade que as atuais gerações são vulneráveis a novos vírus, as futuras já serão automaticamente mais resistentes a esses mesmos vírus. Ou seja, a tal da teoria evolucionista do Darwin. Inclusive me pergunto se os bebês que sobreviveram às mães que morreram de gripe suína já não nascerão com anticorpos ao vírus H1N1.

Por isso, acho que a frase que bem resume essa situação toda é uma que vi no Twitter: "4.000 pessoas têm gripe suína e todo mundo quer usar máscara. 33 milhões têm HIV e ninguém quer usar camisinha..."
Fonte : Blog  bette davis' eyes-http://www.tipos.com.br/