REICH DO CORPO AO SEXO , DO SEXO À ENERGIA UNIVERSAL



          Outro importante pioneiro da ideia de que corpo e mente deveriam ser integrados e recuperados em conjunto foi Wilhelm Reich (1896-1957). Nascido na aldeia de Dobrzanica, a noroeste da Ucrânia(*a), Reich veio cursar faculdade de medicina na Alemanha, concluindo sua formação em  1922.  Iniciou suas atividades profissionais na Policlínica Psicanalítica de Viena, instituição destinada àqueles que não poderiam pagar o tratamento convencional. Ali Reich incluiu no tratamento de pacientes com distúrbios mentais técnicas de hipnose e de psicoterapia. 

Antes de formar-se, este pioneiro terapeuta do corpo havia ingressado em 1920 na Sociedade Psicanalítica de Viena, liderada por Sigmund Freud. Considerado um clínico brilhante, certos analistas, inclusive o próprio Freud, “encaminhavam para Reich os clientes considerados difíceis de serem tratados”.(1) Reich conhecera Freud na faculdade, tornando-se um seguidor e admirador do criador da psicanálise. Contudo, em 1929, mestre e discípulo se desentenderiam em uma reunião na casa do próprio Freud, “durante uma reunião do círculo íntimo psicanalítico.”(2) Reich, baseando-se em mais de dois anos de experiência no atendimento que realizava à população carente, apresentou uma série de reflexões de como se produzia socialmente as prisões do corpo, as amarras emocionais/sexuais da população, e defendeu a necessidade de se encontrar medidas para combater este estado presente, que privava o ser humano de suas expressões interiores vitais. Freud desaprovou totalmente esta tentativa de intervenção social porque, segundo as novas teorias que desenvolvia no período, não seria possível evitar de um modo efetivo os  conflitos na vida civilizada; viver em sociedade sempre implicaria, “necessariamente, em uma certa restrição da felicidade.”(3) Esta ideia se verifica claramente em “O mal-estar na cultura”, obra onde Freud afirmou: “... a intenção de que o homem seja ‘feliz’ não se acha incluída no plano da ‘Criação’.”(4) Em seu conceito de pulsão de morte, Freud apontou igualmente para uma visão fatalista quanto à conquista da felicidade. O criador da psicanálise afirmava que o instinto para a vida (Eros) e o instinto para a destruição (Thanatos), estão sempre em conflito no ser humano, sendo este último igualmente inerente à natureza do homem, e portanto, inevitável.       
 Reich dedicou sua vida a provar o contrário, que o princípio de autodestruição (pulsão de morte ou Thanatos) não é inerente à natureza humana, mas provocado por condições sociais, e portanto, pode ser erradicado do corpo e da alma. Em 1952, afirmou: “Enquanto Freud elaborou a sua teoria da pulsão de morte, que dizia ‘a miséria vem de dentro’, eu fui ao encontro das pessoas onde elas estavam.”(5) E foi assim, em meio às pessoas, pesquisando o corpo, trabalhando-o, que Reich descobriu: este podia ser de fato libertado. Observou que toda sorte de bloqueios, repressões de caráter sexual e emocional se expressavam diretamente no corpo por meio de rigidez muscular. Desse modo, resolveu na década de 1930 a trabalhar diretamente no corpo, nestas regiões de repressões e angústias visíveis fisicamente, que formavam a couraça muscular, assim denominada por Reich. Primeiramente, este brilhante terapeuta começou a analisar as atitudes de seus pacientes, os detalhes da postura, os hábitos físicos. Esforçou-se para fazê-los compreender de como eram prisioneiros de seu próprio corpo. Para isso, Reich imitava com frequência suas características, seus gestos, suas posturas; fazia com que repetissem ou exagerassem certo comportamento habitual, por exemplo, um sorriso nervoso. Reich fazia os pacientes intensificarem uma tensão particular para que se apercebessem mais desta, e aliviassem a emoção prisioneira naquela parte do corpo. O objetivo era fazer que compreendessem como seu corpo não lhes pertencia totalmente. Assim, conforme “os pacientes cessavam de tomar como certa a sua constituição de caráter, aumentava sua motivação para mudar.”(6)

          A afirmação do teatrólogo Antonin Artaud, de que não “se separa o corpo do espírito...” era comprovada na prática por Reich, que percebia este fato: cada emoção estrangulada se manifestava fisicamente por meio de rigidez. Em outras palavras, a emoção era detida, aprisionada na tensão do corpo. Reich descobriu que apenas com a liberação da emoção reprimida, a tensão crônica correspondente poderia desaparecer por completo.  Portanto, prisão do corpo ou prisão da mente, basicamente eram a mesma coisa, duas faces de uma mesma moeda.


Estudando a couraça muscular repressora, Reich concluiu que ela “está organizada em sete principais segmentos de armadura (...). Estes segmentos formam uma série de sete anéis mais ou menos horizontais, em ângulos retos com a espinha e o torso. Os principais segmentos da couraça estão centrados nos olhos, boca, pescoço, tórax, diafragma, abdome e pelve.”(7)

          A energia biológica deveria fluir naturalmente por todo o corpo, de cima a baixo, paralela à espinha. Contudo, os anéis da couraça, colocando-se em ângulo reto com este fluxo, o interrompem. Reich afirma que não é por acaso que “na cultura ocidental aprendemos a dizer sim movendo a cabeça para cima e para baixo, na direção do fluxo de energia do corpo, enquanto que aprendemos a dizer não movendo a cabeça de um lado para o outro, na direção transversa da couraça.”(8) Assim, a couraça acaba restringindo “tanto o livre fluxo de energia como a livre expressão de emoções do indivíduo. O que começa inicialmente como defesa contra sentimentos de tensão e ansiedade excessivos, torna-se uma camisa de força física e emocional.”(9)


 Aos poucos, Reich percebeu que poderia trabalhar diretamente sob esta couraça, utilizando as mãos sobre os músculos tensos dos pacientes, a fim de desprender deles as emoções bloqueadas. Percebeu que a bioenergia era reprimida de forma mais intensa na área pélvica. Em seus estudos, concluiu que a energia sexual era uma força extremamente poderosa, sendo a sua repressão extremamente prejudicial ao ser humano. Para Reich, os distúrbios físicos e emocionais tinha sua causa central na insatisfatória descarga da excitação sexual. Com a libertação dos bloqueios do corpo, a terapia deveria também propiciar uma plena capacidade para o orgasmo sexual, que Reich percebia bloqueado na maioria dos homens e das mulheres.

          Assim que os pacientes de Reich renunciavam à sua couraça e desenvolviam capacidade para uma plena entrega genital, toda sua existência e estilo de vida mudavam basicamente. Acreditava Reich que a liberação do reflexo do orgasmo restabelecia as sensações de profundidade e seriedade. Seus pacientes lembravam-se “do tempo da sua primeira infância, quando a unidade de suas sensações corporais não estava perturbada. Tomados de emoção, falam do tempo em que, crianças, sentiam-se identificados com a natureza e com tudo que os rodeava, do tempo em que se sentiam ‘vivos’ e como finalmente tudo isto fora despedaçado e esmagado pela educação.”(10) A rígida moral da sociedade já não se apresentava como certa a estes indivíduos, mas como algo verdadeiramente estranho, antinatural. Suas lembranças da infância, todas suas experiências e liberdade alcançadas fazem lembrar os anseios e reflexões do personagem central da obra nomeada “Antonin Artaud – Almas Manipuladas”:

"O que significaria tudo aquilo? Estaria de fato perdendo a noção do real e do irreal? Quais eram os pensamentos deles e quais eram os meus? Afinal, o que dentro de mim era natural de mim? Natural no sentido de verdadeiro, não construído, não inventado, não contaminado. O que em mim seria a vida real do meu ser-criança, a graça em sua origem pura, liberta desse esgoto repleto da fecalidade e da urina do mundo? (11)

    


Mas como – esta era a questão inicial que em mim se debatia –, como poderia obter aquilo de que o meu ser tanto necessitava? de que modo recuperar aquela parte tão preciosa de mim mesmo, que se perdera? (12)    


(...) descobriria que o Teatro (...) seria o meu destino; (...) uma busca intrépida (...) do meu ser-criança, do meu ser desperto – inteiro – perdido em algum ponto desta vida, ou mesmo antes: quando era em um tempo fora do tempo, quando a sensibilidade unia-se a todas as coisas, e minha alma se via inteiramente livre, não bloqueada, não separada do mundo... (13)" 


                              

 


Em sua busca para libertar o corpo de suas amarras, Reich chegou nos anos de 1930 a uma decisiva conclusão: que a bioenergia presente em cada ser vivo é um aspecto de uma energia universal, presente em todas as coisas, base de toda criação. Deu a esta energia o nome de orgone, termo que derivou de organismo e orgasmo.



 O conceito do orgone como uma força primordial responsável pela estabilidade de toda a natureza, remetia a noções menosprezadas pela ciência tradicional, como, por exemplo, o “prana” da Teosofia ou mesmo o “fluído cósmico universal”, do fundador do espiritismo, Alan Kardec. Contudo, diferentemente dessas e outras doutrinas, Reich estava determinado a comprovar a existência dessa energia primordial por meio de rigorosa pesquisa científica. Assim, estendeu suas pesquisas inicialmente para as áreas de biologia e fisiologia, em laboratório, e posteriormente dedicou-se à física.
 Após desenvolver suas investigações em vários países europeus, Reich fixou residência nos EUA no ano de 1939. Em Nova Iorque, criou uma máquina com a qual pretendia acumular a energia orgônica. Mudando-se para o estado do Maine em 1944, “construiu ali uma casa, dando-lhe o nome de Orgonon.”(14) 

              Casa Orgonon, Maine.


Reich pretendia que seu invento, uma espécie de caixa acumuladora de orgone, pudesse auxiliar a restabelecer o equilíbrio energético das pessoas e mesmo curar várias doenças. No entanto, acusado por fraude, foi perseguido pelo FBI e pela FDA (agência americana responsável pela regulação de gêneros alimentícios e medicamentosos). Em 1954, a Administração de Alimentos e Drogas dos EUA(*b) proibia a distribuição das Caixas de Orgone, considerando-as fraudulentas. Os acumuladores de orgone criados para fins de pesquisa simplesmente foram destruídos e os livros de Reich queimados. Reich pretendia “a cura do câncer e neutralizar a energia atômica, fato que preocupava a indústria farmacêutica e o governo americano; os primeiros perderiam os milhões arrecadados com seus ‘tratamentos’ e os segundos...”(15) 


 Em 1957 Reich foi preso, acusado de ainda comercializar sem permissão seus acumuladores de orgônio. Em sua defesa, declarou não “reconhecer a competência dos tribunais no que se referia a emitir julgamentos sobre assuntos científicos.”(16) Acusado de desrespeito à Lei, foi condenado a dois anos de prisão e considerado paranoico. Na sua transferência à penitenciária de Lewisburg (Pensilvânia), que possuía tratamento psiquiátrico, o diagnóstico final declarou-o mentalmente são. Contudo, Reich não foi libertado, mas passou “por diversos constrangimentos e tratamentos suspeitos dentro da prisão”, entre os quais, a aplicação de drogas.(17) Veio a falecer na prisão em dezembro de 1957. Segundo as fontes oficiais, a causa da morte foi um ataque cardíaco.


   Assim, aquele que tanto lutou pelo bem estar do ser humano, que tanto contribuiu para sua cura; que demonstrou a necessidade de erradicar a neurose social tanto do corpo quanto da mente, aquele que deveria ser louvado por suas descobertas, foi assim tão injustamente recompensado pelos seus esforços. Felizmente, os seguidores de Reich preservaram os seus ensinamentos, que sobreviveram e vieram futuramente a serem reconhecidos por muitos. Contudo, é impossível não lamentar o triste fim desse revolucionário terapeuta do corpo, que muitas vezes foi considerado um louco por defender energicamente as suas descobertas. E “o que é um autêntico louco?”, pergunta Antonin Artaud. Sua resposta: “... louco é o homem que a sociedade não quer ouvir, pois é impedido por esta de enunciar certas verdades que lhe são intoleráveis.”(18)


VÍDEO SOBRE WILHELM REICH:

Desde a muito o ser humano tem perdido o contato com o seu corpo, com as suas reações físicas e emocionais mais vitais. Contudo, surgiram aqueles que ousaram levantarem-se contra todo o tipo de preconceitos, e lutaram com todas as suas forças para resgatar o corpo humano, para curá-lo, restaurando a sua conexão com a mente e o espírito. O Resgate do Corpo Perdido é uma verdadeira aventura de descobertas, uma viagem pelo trabalho e pelas ideias de importantes artistas e terapeutas QUE idealizaram seus próprios métodos revolucionários. Artaud, Boal, Reich, Moreno, Janov, Bert Hellinger. Teatro, terapia corporal, psicanálise. Os vários caminhos e os obstáculos de uma fascinante jornada para a cura da alma em conjunto com o corpo. Uma obra de Dan Thoth! Venha embarcar em incríveis descobertas.







      O TEXTO DESTE POST FAZ PARTE DA OBRA "O RESGATE DO CORPO PERDIDO". SAIBA MAIS LOGO ABAIXO.  




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NOTAS:


(*a) Esta região pertencia na época ao Império Austro-Húngaro. Hoje é parte da Polônia.
             
(*b) FDA (Food and Drug Administration dos E.U.A.).



            BIBLIOGRAFIA:


(1) DANTE, Moretti. Wilhelm Reich. [online]. Localizado em 19.06.2010.  In: < http://blogs.abril.com.br/arteteiadapalavra/2010/06/resgate-corpo-perdido-parte-tres.html>.


         (2) REICH, Wilhelm apud
 BEDANI, Airton; ALBERTINI, Paulo. Política e Sexualidade na trajetória de Reich: Viena (1927-1930) - O confronto com a teoria cultural freudiana [online]. In: < http://www.org2.com.br/sexologiapolitica-viena.htm >. Localizado em 19.06.2010. Artigo publicado originalmente em Encontro – Revista de Psicologia, vol. 11, n.o 14, jul/dez 2006, p. 62-77. Fonte original da citação: Higgins, M., & Raphael, C. (Org.). (1972). Reich speaks of Freud. New York: Condor Book, p. 42.

(3) BEDANI, Airton; ALBERTINI, Paulo. Política e Sexualidade na trajetória de Reich: Viena (1927-1930) - O confronto com a teoria cultural freudiana [online]. In: < http://www.org2.com.br/sexologiapolitica-viena.htm >. Localizado em 19.06.2010. Artigo publicado originalmente em Encontro – Revista de Psicologia, vol. 11, n.o 14, jul/dez 2006, p. 62-77.

(4) FREUD, Sigmund apud BEDANI, Airton; ALBERTINI, Paulo. Op. Cit. Original da citação: Freud, S. (1930/1974). O mal-estar na civilização (J. Salomão, Trad.). In: Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. XXI, pp. 81-171). Rio de Janeiro: Imago, entre p. 94/95.

(5) REICH, Wilhelm apud BEDANI, Airton; ALBERTINI, Paulo. Op. cit. Original da citação: Higgins, M., & Raphael, C. (Org.). (1967/1972). Reich speaks of Freud.New York: Condor Book, pag. 42.

(6) Personalidade. WILHELM Reich – A Couraça Muscular [online]. Baseado no livro “Teorias da Personalidade” – J. Fadiman, R. Frager – Habra – 1980.  In: <       http://virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?art=161&sec=53 >. Localizado em 19.05.2010.

(7) Op. cit. Crescimento Psicológico [online].  

(8) Op. cit. [online].

(9) Op. cit. [online].

(10) Op. cit. A pelve [online]. 

(11) THOTH, Dan. Antonin Artaud: Almas Manipuladas – A Opressão do Pai. São Pedro do Sul, RS: Copirraite©Dan Thoth, 2010. , p. 71. Impressão: Clube dos Autores, in: < http://clubedeautores.com.br/ >.

(12) THOTH, Dan. Op. cit., pág. 21.

(13) THOTH, Dan. Op. cit., pág. 83.

(14) Uol Educação. Biografias. Psicanalista austríaco WILHELM Reich [online]. In: <http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u314.jhtm >. Localizado em 19.05.2010.

(15) DANTE, Moretti. Wilhelm Reich. [online]. Localizado em 19.06.2010.  In: < http://www.indicapira.com.br/padrao.aspx?texto.aspx?idcontent=4710&idContentSection=1979 >.


(17) DANTE, Moretti. Op. cit.

(18) ARTAUD, Antonin. Van Gogh: o Suicidado Pela Sociedade. In: WILLER, Cláudio (Org.). Rebeldes e Malditos: Escritos de Antonin Artaud. 1. ed. Porto Alegre, RS: L&PM, 1983, p. 133.

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