O VAZIO EXISTENCIAL : EM BUSCA DO SENTIDO DA VIDA


O VAZIO EXISTENCIAL: Em Busca do Sentido da Vida* [1]

EXISTENTIAL VOID: In Search of the Life  Direction

RESUMO

O vazio existencial está presente na vida de todo ser humano, em maior ou menor grau. É sentido e vivenciado em inúmeras circunstâncias da existência humana. Ele emerge diante de situações peculiares e às vezes estressantes na vida do sujeito. Está presente em momentos da iminência da própria morte ou do falecimento de pessoas próximas. Também pode ser observando diante dos vários lutos e perdas vividos ao longo da vida do indivíduo. É explícito e explicado através da filosofia nas mais variadas fases e períodos e por diversos filósofos, autores e estudiosos. Permeia alguns distúrbios e patologias psíquicas, como a própria depressão. É vivenciado, de forma explícita ou implícita, no cotidiano de cada ser humano toda vez que o mesmo se questiona, reflete e filosofa acerca do verdadeiro sentido da vida. Do mesmo modo com se faz presente diante de inúmeras situações de vida, o vazio existencial também pode ser entendido, preenchido, amenizado, acolhido e abraçado em algumas circunstâncias – sejam elas através da filosofia que tenta apreender e explicar a sua essência; através do trabalho que proporciona ao indivíduo um sentido de utilidade e bem-estar; por meio das artes de uma forma geral, visto que as mesmas preenchem ou extravasam sentimentos e vivências; com a religião que consegue dar ao indivíduo um sentido e sentimento de transcendência; ou mesmo através da Psicologia que proporciona ao cliente um verdadeiro mergulho na sua essência, possibilitando-o entender-se e aceitar-se tal como verdadeiramente é. Por fim, pode-se dizer que o vazio existencial perpassa todos os campos da vida do indivíduo – em maior ou menor grau. E, sendo assim, merece um estudo e trabalho aprofundado acerca de sua temática. Demonstrando consequentemente a necessidade da Psicologia em entender e aprender a lidar com este momento tão peculiar na vida do ser humano: o vazio existencial.


Palavras-chave: Vazio. Existência. Filosofia. Perdas. Psicologia.


ABSTRACT

The existential void is present in all human being’s life, in greater or minor degree. It is felt and lived deeply in innumerable circumstances of men’s existence. It emerges ahead of peculiar situations and in stressful times in the citizen’s life. It is present at moments of the imminence of death. It also can be observed in losses lived throughout the individual’s life. It’s explicit and explained throughout philosophy in the most varied phases and periods and for many philosophers, studious and authors. It’s also present throughout psychic suffering, as depression itself. It is lived deeply, in explicit or implicit form, in daily life of each human being all of the time that they questioned themselves, reflecting about their lives. In a similar way it is present in innumerable life situations, the existential emptiness can also be understood, be filled up, be brightened up and be received in some circumstances – they are present through the philosophy that tries to apprehend and to explain its essence; through the work that provides to the individual a direction of utility and well-being; by arts in general, since the same ones fill or put out feelings and experiences; with the religion that tries to give a direction and feeling of transcendence to the believers; or even through Psychology that provides to the patient a true diving in inside its essence, making possible to understand themselves and to accept them as they truly are. Finally, the existential void can be felt in all the fields of human being’s life - in greater or minor degree. And, by its importance, deserves a deepened study and work concerning its thematic. All of that demonstrates the necessity of Psychology in understanding and learning to deal with this so peculiar moment in the life of all human being: the existential emptiness and human void.

Key-words: Emptiness. Existence. Philosophy. Losses. Psychology.


SUMÁRIO



2.1 O Homem e seu Vazio Existencial trilhando os diversos caminhos da Filosofia através


      da História da Humanidade




3.1 Formas e Mecanismos de Fuga


3.2 Do Sofrimento Psíquico às Manifestações Físicas e Psicológicas


3.2.1 Depressão


3.2.2 Os Excessos


3.3 Diante da Morte




4.1 O Pensamento Ocidental encontrando o Pensamento Oriental


4.2 Em Busca de si mesmo


4.3 O Vazio preenchido, atenuado, compreendido, aceito, afirmado, vivido e acolhido


4.3.1 O Papel das Religiões


4.3.2 O Trabalho


4.3.3 A Experiência Artística


4.3.4 A Psicologia como Caminho



NOTA EXPLICATIVA 





1 INTRODUÇÃO


O vazio existencial representa um caminho por qual todo ser humano, mais cedo ou mais tarde, tem de trilhar. Essa estrada é, muitas vezes, um momento que traz em si uma ambigüidade que deixa perplexo o indivíduo que a experiência. Sua contradição está justamente por trazer à tona o que há de mais complexo, obscuro e, ao mesmo tempo, fértil no homem.


Sua relevância como tema de investigação e pesquisa se fez e faz presente numa perspectiva histórico-filosófica, que conduz a uma trajetória de permanente reconstrução. O referido “vazio” tão largamente citado e explorado pela filosofia necessita, neste momento, de uma visão psicológica, cabendo a esta entender que tipo de mecanismos são utilizados pelo indivíduo neste momento tão peculiar de introspecção e reflexão acerca da vida e do viver.


Do ponto de vista sócio-cultural, o vazio existencial é vivenciado de diferentes formas em diversas culturas e civilizações, porém se faz presente de forma notória em grande parte, senão em todas elas. Sendo assim, cabe-nos entender o que há em comum e o que há de diverso nesse sentir tão único e complexo, que leva o ser a um crescente questionamento perante a vida e a morte e tudo o que os permeia.


Numa perspectiva atual, podemos nos perguntar que tipo de sinais e conseqüências esse vazio existencial nos coloca expostos. Cabe-nos questionar se o agravamento desse sentir universal não pode evoluir para um verdadeiro sofrimento psíquico, como a própria depressão (tão presente nos dias atuais) e com todo o tipo de lidar de forma distorcida com a realidade. É uma questão importante para a psicologia entender até que ponto os transtornos alimentares, a ansiedade, a angústia e o sofrimento psíquico em todas as suas nuances não tem uma ligação intrínseca movida pelo sentimento de vazio que acomete os seres humanos em alguma fase da vida ou da sua existência.


            Concomitantemente à preocupação com o sofrimento humano, cabe também à psicologia observar, pesquisar e compreender as formas mais saudáveis de lidar, ou mesmo tentar preencher esse vazio – a religião tem uma importância fundamental nesse aspecto, e tudo o que lida com o transcendental e algo superior que ultrapassa a existência atual. Numa perspectiva individual, os diversos tipos de trabalho surgem como forma de realização pessoal que consegue, ao mesmo tempo, ser útil à comunidade e também satisfazer os anseios de sentir que sua vida tem um propósito maior. A arte é outro espaço que permite explorar e expor o vazio de forma simbólica, seja através da dança, da pintura, da escultura, do teatro, do cinema, da literatura e de tantas outras formas... Através dessa exploração da simbologia inconsciente, os artistas se vêem mais próximos do vazio existencial, atingindo uma intimidade que tanto explora como preenche esse mesmo estado de espírito. Por fim, se faz necessário afirmar que a própria psicologia tem um papel fundamental em toda essa temática, por ser o homem e suas implicações o objeto de estudo dessa ciência, cabe a mesma propiciar ao indivíduo um entendimento mais profundo e uma aceitação mais verdadeira de seus anseios, dificuldades e reflexões, visto que, se ela não consegue preencher esse vazio existencial, ao menos facilita ao indivíduo um “conhecer-se” mais substancial, permitindo-o conviver de forma mais saudável, agradável e com uma melhor qualidade de vida.


            O presente trabalho tem como objetivo primordial proporcionar uma investigação mais aprofundada acerca do vazio existencial e suas implicações nas formas de se entender o verdadeiro sentido da vida. A metodologia utilizada foi a pesquisa bibliográfica que tem como finalidade apontar como o vazio existencial se fez presente na história da humanidade através da filosofia, empreendendo uma busca pelos mais variados períodos históricos e escolas filosóficas, dando assim uma perspectiva geral do que já foi pesquisado e exposto acerca do tema. Iremos também explorar as possíveis implicações que o agravamento do sentir o vazio existencial possam repercutir no indivíduo através do sofrimento psíquico. Por fim, realizaremos uma reflexão mais ampla sobre as mais diversas formas de se empreender um mergulho saudável no vazio, buscando lidar, preencher, atenuar, acolher, abraçar, adentrar, entender e aceitar o próprio vazio existencial.


Após o que foi exposto, fica evidente a importância de um estudo mais aprofundado acerca do tema, tendo em vista a sua historicidade, a sua atualidade, as suas implicações no sofrimento psíquico e as maneiras encontradas pelos homens para lidar com o vazio existencial.





2 PERSPECTIVA HISTÓRICO-FILOSÓFICA





O vazio existencial se fez e faz muito presente na história e na filosofia da humanidade, é enfatizada em distintos momentos e nas mais diversas culturas durante todo o percurso evolutivo do ser humano. Tendo em vista a amplitude e interdisciplinaridade do tema em questão, se faz necessária uma visão holística que discorra sobre os mais variados campos que a abordam – seja de forma abrangente englobando a visão do homem como um todo, seja de forma específica sobre este momento tão peculiar e rico na vida do ser humano: o vazio existencial.


A busca de um sentido vital une ciência, literatura, história, religião, filosofia e arte. A ciência procura seu fundamento na experiência da natureza adquirida pelo homem; a literatura e a arte procuram-no na experiência interior do homem e em suas relações com os seus semelhantes; a história, no passado humano; a religião, na relação do homem com um Ser Supremo; e a filosofia em todos esses ramos do conhecimento humano. Cada uma dessas formas do conhecimento merece ser aprofundada. À sua maneira própria, cada uma delas nos familiariza com uma parte da realidade. Cada uma tem seu foco e seu grau de importância na compreensão do todo. Cabe ao homem unir todos esses conhecimentos para ter uma visão mais ampla e global de si mesmo e do mundo em que vive.


A visão filosófica representa a mais antiga e profunda investigação acerca do sentido da vida. Inúmeros filósofos dedicaram toda uma vida na tentativa de criar sistemas e correntes de idéias que se aproximassem com a realidade vivida e sentida pelo ser humano. Essas perspectivas se modificaram, moldaram e foram moldadas pelo seu tempo histórico – são muitas vezes contrárias, mas, ao mesmo tempo, complementares, pois refletem uma visão ampla e aprofundada sobre o homem como essência e existência.


Após o que foi exposto, cabe-nos discorrer retrospectivamente sobre os mais diversos momentos e teorias que abordaram o homem através da história e da filosofia – história e filosofia estão intrinsecamente interligadas quando o tema central se constitui o homem – em todas as peculiaridades e particularidades que lhe são inerentes.


2.1 O Homem e seu Vazio Existencial trilhando os diversos caminhos da Filosofia através da História da Humanidade


Enfatizando o vazio existencial e o sentido da vida numa visão histórico-filosófica podemos citar diversos autores que abordaram a questão de forma única e aprofundada. A História e a Filosofia caminham entrelaçadas numa tentativa de apreender e explicar o homem em todas as suas peculiaridades, anseios, questionamentos e lacunas.


Para Sócrates, a principal preocupação é o homem e a sua interioridade “Conhece-te a ti mesmo” – este sentido imperativo socrático é um imperativo moral, para que o homem tome posse de si mesmo, seja dono de si, pelo saber.


A pergunta essencial que Sócrates tentava responder era: o que é a essência do homem? Ele respondia dizendo que o homem é a sua alma, entendendo-se “alma”, aqui, como asede da razão, o nosso eu consciente, que inclui a consciência intelectual e a consciência moral, e que, portanto, distingue o ser humano de todos os outros seres da natureza.  (COTRIM, 2000, p. 94, grifo do autor).


O vazio na perspectiva agostiniana seria preenchido apenas através de uma figura divina. O homem que não entra em contato com Deus seria, em sua visão, inacabado, incompleto, vazio. Em contrapartida, aquele que entra e compartilha do divino torna-se iluminado, completo, descobrindo a verdadeira felicidade.


Como o homem é a imagem de Deus, encontra-o, como num espelho, na intimidade de sua alma; afastar-se de Deus é como extrair as próprias entranhas, esvaziar-se e ser cada vez menos; quando o homem, em troca, entra em si mesmo, descobre a Divindade. Mas é apenas mediante uma iluminação sobrenatural que o homem pode conhecer Deus de modo direto.  (MARÍAS, 2004, p. 127, grifo do autor).


            Deve-se acrescentar que a idéia de homem sofreu transformações muito essenciais. Na Antiguidade, o homem é um ente peculiar, tem uma propriedade estranha que é a de saber o resto das coisas e, sendo ele uma dentre elas, em certo sentido as envolve todas. Na Idade Média, o homem é uma criatura feita à imagem e semelhança de Deus; isso faz com que Deus fique envolvido no problema do homem. Na Idade Moderna ocorre algo totalmente novo. Até então, falava-se do homem; na época moderna se fala do eu, da vontade, da razão, da luz natural etc., mas não se fala do homem. (op. cit, 2004).         Schopenhauer desenvolveu uma visão pessimista da vida, encarada como uma história de sofrimentos. Para ele, o ser humano seria essencialmente vontade, que o levaria a desejar sempre mais, produzindo uma insatisfação constante. A essência do mundo seria essa vontade insaciável, sendo ela a origem das lutas entre os homens, da dor e do sofrimento. A história é, para ele, a história de lutas, onde a infelicidade seria a norma, a regra geral. Para Schopenhauer, apenas pela arte e pelo abandono de si, o homem poderia se libertar da dor.


Em sua obra, Kierkegaard procurou analisar os problemas da relação existencial do homem com o mundo, consigo mesmo e com Deus. As relações do homem com o mundo – outras pessoas e a natureza seriam dominadas pela angústia. A angústia é entendida como o sentimento profundo que temos ao perceber a instabilidade de viver num mundo de acontecimentos possíveis, sem garantia de que nossas expectativas sejam realizadas. No possível, tudo é possível; ou seja, vivemos num mundo onde tanto é possível a dor como o prazer, o bem como o mal, o amor como o ódio, o favorável como o desfavorável – explicitando a constante instabilidade das coisas. A relação do homem consigo mesmo é marcada pela inquietação e pelo desespero – ou porque o homem nunca está plenamente satisfeito com as possibilidades que realizou, ou porque não conseguiu realizar o que pretendia, esgotando os limites do possível fracasso diante de suas expectativas. A relação do homem com Deus seria talvez a única via para a superação da angústia e do desespero. Entretanto é marcada pelo paradoxo de ter de compreender pela fé o que é incompreensível pela razão. (COTRIM, 2000).


         O surgimento da fenomenologia coincide com o começo do século XX. A fenomenologia é uma ciência das essências das vivências. Em Husserl, os problemas da realidade contingente, da morte, do destino, do sentido da história reaparecem. Assim se constitui um sistema de disciplinas fenomenológicas cuja base é a tomada de consciência de si mesmo, plena, íntegra e universal. É preciso perder primeiro o mundo para recuperá-lo em seguida nessa tomada de consciência. Este é o sentido final que Husserl dá à fenomenologia.


Analisando a vida humana, Heidegger descreveu três etapas básicas que marcam a existência e que, para a maioria dos homens, culminam numa existência inautêntica, são elas: o fato da existência – o homem é lançado ao mundo, sem saber por quê. Ao despertar para a consciência da vida, já está aí, sem ter pedido. O desenvolvimento da existência – o ser humano estabelece relações com o mundo. Para existir, o homem projeta sua vida e procura agir no campo de suas possibilidades. Assim, move uma busca permanente para realizar aquilo que ainda não é. Em outras palavras, existir é construir um projeto. A destruição do eu – tentando realizar seu projeto, o homem sofre a interferência de uma série de fatores adversos que o desviam de seu caminho existencial. Trata-se do confronto do eu com os outros. Um confronto no qual o homem comum é, geralmente, derrotado. O seu eu é destruído, arruinado, dissolve-se na massa humana. Em vez de tornar-se si mesmo, o homem torna-se aquilo que os outros desejam. (COTRIM, 2000).


Para Heidegger, na cura de si mesmo, o indivíduo põe-se acima das coisas mundanas, assumindo a angústia do Nada. Só assim torna-se autêntico, sendo capaz de superar o Nada cotidiano, o Nada do futuro, o Nada da morte. Quando o homem não assume a sua própria cura, se perde e se aliena. O ser autêntico exige o mergulho na angústia do Nada.


O sentimento profundo que faz o homem despertar da existência inautêntica é a angústia, pois ela revela a nossa impessoalidade no cotidiano, o abandono do nosso próprio eu diante da opressão do mundo como um todo. (COTRIM, 2000, p. 218, grifo do autor).


A angústia surge como um sinal de alerta que traz à tona a existência inautêntica do homem. Esse estado provoca no indivíduo uma inquietação que o conduz à experienciar a sua realidade objetiva e subjetiva de forma verdadeira e autêntica – esse é o papel da angústia na vida do homem – despertá-lo para a existência de seu vazio existencial e levá-lo a uma busca pelo sentido de sua vida.


A angústia é o caráter típico e próprio da vida. A vida é angustiosa. E por que é angustiosa a vida? A angústia da vida tem duas facetas. De um lado, é necessidade de viver, é afã de viver, é anseio de ser, de continuar sendo, para que o futuro seja presente. Mas, de outro lado, esse anseio de ser leva dentro o temor de não ser, o temor de deixar de ser, o temor do nada. Por isso, a vida é, de um lado, anseio de ser e, de outro lado, temor do nada. Essa é a angústia. Pois o nada amedronta o homem. (GARCÍA MORENTE, 1970, p. 311 apud COTRIM, 2000, p. 218).


O termo existencialismo – ou filosofias da existência – designa o conjunto de tendências filosóficas acerca da existência humana. Existem alguns traços que caracterizam o existencialismo, como: o ser humano é representado como uma realidade imperfeita, aberta e inacabada, que foi lançada ao mundo e vive sob riscos e ameaças. A liberdade humana não é plena, mas condicionada às circunstâncias históricas da existência. O homem age no mundo superando ou não os obstáculos que se apresentam. A vida humana não é um caminho linear em direção ao progresso, ao êxito e ao crescimento. Ao contrário, é marcada por situações de sofrimento, como a doença, a dor, as injustiças, a luta pela sobrevivência, o fracasso, a velhice e a morte. Assim, não podemos ignorar o sofrimento humano, a angústia interior, a exploração social. É preciso considerar essas adversidades da vida e enfrentá-las com determinação. (COTRIM, 2000).


Sartre afirma que o homem está condenado a ser livre – condenado porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre porque, uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer. O homem, sem qualquer apoio e sem qualquer auxílio, está condenado a inventar o homem.


Ortega afirma que essa vida é algo que temos de fazer. É, portanto, problema, insegurança, naufrágio. Como a vida não está feita, mas tem de ser feita, o homem tem de determinar previamente o que vai ser. Por isso o homem não pode viver sem um projeto vital, original ou comum, valioso ou torpe: tem de ser bom ou mau, romancista de sua própria vida, tem de imaginar ou inventar a personagem que pretende ser; e, por conseguinte, a vida humana é antes de tudo pretensão. (MARÍAS, 2004).


Surge, então, uma importante questão – a vida humana é sempre minha, a de cada qual, a de cada um de nós. É vida individual ou pessoal e consiste em que o eu se encontra numa circunstância ou mundo, sem ter a certeza de existir no instante imediatamente posterior e tendo sempre que estar fazendo algo para garantir essa existência. A ação humana supõe então um sujeito responsável, e a vida é, por essência, solidão.


Entender o vazio existencial numa perspectiva histórico-filosófica nos permite ter um panorama geral e, ao mesmo tempo, amplo e abrangente que abarca diversas linhas de pensamentos dos mais diversos autores e filósofos. Compreender esse apanhado histórico significa tomar posse dos conhecimentos, teorias e visões que influenciaram e influenciam o que hoje entendemos sobre o tema, nos possibilitando, agora, empreender uma jornada que identifica o vazio existencial no momento atual, observando suas implicações no nosso cotidiano, no sentido de nossa existência e nas nossas vidas como um todo.


3 A FUGA DO VAZIO


A Filosofia nos forneceu um panorama histórico bem abrangente acerca das questões existenciais inerentes ao ser humano. A busca de sentido e significado perpassa as mais variadas épocas e as mais diversas civilizações – cada uma imprimindo o seu modo de pensar e sentir o vazio existencial.


Entretanto, deve-se ressaltar que, assim como muitos buscam um sentido na existência humana, outros se esforçam por fugir e evitar tais questões. Isso ocorre porque esses questionamentos causam uma angústia, um incômodo, uma certa aversão em pessoas que simplesmente desejam viver suas vidas sem ter que necessariamente se perguntarem sobre o sentido delas. Esse mal-estar é provocado por razões muito mais profundas do que se imagina, e podem-se atribuir inúmeros significados inconscientes para tal comportamento de esquiva.


A fuga representa uma não aceitação, uma dificuldade de encarar o fato tal como ele realmente é. Uma necessidade de preencher o tempo – e por que não, o vazio – com coisas rotineiras, deixando a dinâmica do cotidiano guiar suas vidas. Vivem assim, em muitos aspectos como se estivessem anestesiados, entorpecidos pelo dia-a-dia, numa sucessão de eventos que muitas vezes lhes parecem insignificantes. Nesse ponto o indivíduo tem duas escolhas: ou entra no seu vazio existencial e começa um processo sem retorno de um autoconhecimento verdadeiro e autêntico; ou decidem fugir a todo instante daquela sensação de falta de significado das coisas.       


3.1 Formas e Mecanismos de Fuga


            O vazio e a falta de sentido da e na vida surgem como poderosas forças que, muitas vezes, o homem não sabe como controlar e vivenciar. Entrar em contato com essa deficiência de saber como agir, assim como se defrontar com a sua incapacidade como ser de entender-se criam um ambiente de angústia, muitas vezes insuportável para o indivíduo. Ele sofre, e como seu sofrimento o incomoda profundamente, sua reação mais freqüente é querer se distanciar ao máximo dessa fonte de desprazer. Sendo assim, ele foge; e para isso se utiliza de inúmeros artifícios e mecanismos para que o contato com tais questões angustiantes sejam o menor possível.


A importância do contato se faz presente nas questões existenciais, pois é justamente através dele que o homem se comunica com os outros e com ele mesmo. É somente através do contato real, verdadeiro e único que algum significado pode ser encontrado, tanto para explicar o homem, como para entender a complexidade da vida.


[...] O contato, como expressão de vida, é eternamente renovável, permitindo à pessoa se reconhecer e se renovar, ao modelo do universo, mediante ciclos de mudança. Somos os contatos que fizemos e nossa transformação segue a dinâmica de nosso jeito de encarar a vida. Somos o que ouvimos, vimos, cheiramos, comemos e tocamos. As pessoas fizeram, fazem, mantêm, interrompem e cortam o contato. Se soubermos como uma pessoa manipula o contato, saberemos como ela funciona. O ciclo, tanto na expressão de saúde quanto de bloqueio, retrata esse experienciar existencial pelo qual as pessoas tornam a realidade presente. (RIBEIRO, 2006, p. 88, grifo do autor).


   Contato é saúde. Saúde é contato em ação. Qualquer interrupção do contato implica uma perda na saúde. Doença significa interrupção do contato nos vários campos do espaço vital da pessoa. Saúde diz respeito à satisfação adequada de necessidades, em um processo de auto-regulação entre pessoa e meio. Saúde é um contínuo dinâmico entre organismo e meio numa relação recíproca, harmoniosa, entre necessidades presentes, no aqui e agora, e sua satisfação. Assim, atrás de toda doença existe a não satisfação ou a satisfação inadequada de necessidades que precisam ser atendidas. Saúde é fruto da satisfação harmoniosa e constante de nossas necessidades. Doença é o esquecimento, a desatenção ou a negação delas.


Às vezes, as pessoas reagem de maneira excessiva a sentimentos dolorosos e constroem defesas impenetráveis. Existe um tempo em que as defesas são necessárias, e outro em que é essencial pô-las de lado. A finalidade das defesas é proteger contra danos futuros, permitindo alguma distância e tempo em relação ao problema. Entretanto, quando elas são usadas com muita freqüência, acabam por consumir toda a energia do indivíduo, tendo quase o mesmo efeito que o próprio problema. A energia que é consumida vai para a criação e a manutenção de uma barreira frente à realidade. Cada ser humano necessita encontrar um equilíbrio entre a dor e a defesa e se apoiar em sua própria experiência como guia.


Os mecanismos de defesa surgem na dinâmica dos indivíduos quando estes não conseguem lidar realisticamente com suas próprias questões. São, portanto, formas de comunicar suas dificuldades existenciais. Fugir do contato verdadeiro, para muitos, funciona como uma barreira de proteção contra a angústia do existir. Entretanto, essa barreira que tem como função principal proteger, acaba também por isolar, restringir e aprisionar o indivíduo dentro de seus próprios temores. Acaba por embotar sua vida, tornando-a opaca, rígida, sem fluidez e espontaneidade.


Essa falta, esse vazio acarretam uma procura incessante por objetos que, teoricamente, poderiam preenchê-lo ou satisfazê-lo de alguma forma. Quando, na verdade, a verdadeira busca deveria começar dentro de si mesmo. A realidade interna conduz à real consciência de si mesmo.


3.2 Do Sofrimento Psíquico às Manifestações Físicas e Psicológicas


 O sentido da vida e o vazio existencial levam os indivíduos por caminhos tortuosos e ao mesmo tempo ambíguos: ou há um mergulho verdadeiro na sua própria existência; ou surge a fuga como forma de evitar o contato real e imediato com as questões existenciais que angustiam os indivíduo.


Quando o segundo caminho é o escolhido, ou seja, quando a fuga surge como melhor alternativa para se lidar com a angústia do viver, o indivíduo interrompe o contato – seja com os outros, seja com ele mesmo. Com o contato sendo interrompido constantemente e por tempo suficiente, criam-se estruturas rígidas que acarretam no indivíduo um verdadeiro sofrimento psíquico.


 [...] Não prestamos atenção ao ar que respiramos, às batidas do coração, até que um tipo de emoção diferente nos invada. Adoecemos porque não nos tornamos presentes a nós mesmos. Agimos com um eterno “deixar para depois”, sempre na expectativa de que o organismo terminará por resolver uma situação que não conseguimos compreender. A deflexão é a inimiga número um da auto-regulação. O não prestar atenção, o não estar presente a si mesmo e o fazer de conta são formas habituais de cortar contato, de desregular o organismo. Problemas mentais retratam necessidades não atendidas, retratam uma violência silenciosa dentro do espaço vital e, sobretudo, um não se dar conta de que o organismo não pode ultrapassar a si mesmo. O organismo, apesar de sua perfeição, não é divino, é humano e ser humano é, especialmente, tratar-se com respeito e reverência. (RIBEIRO, 2006, p. 58, grifo do autor).


   Doenças físicas e mentais são, muitas vezes, formas desesperadas de ajustamento criativo, representam uma linguagem que, por meio da dor, consegue se fazer ouvir, pois o intelecto já não encontra resposta adequada a suas demandas. Adoecer é perder as fronteiras e os contornos de si mesmo, é tentar ir além dos horizontes, esquecendo que limites, fronteiras e contornos existem ou são criados para nossa proteção.      


   Diante do que foi exposto, surge, então, a consciência de que precisamos de uma oportunidade para nos pormos em contato conosco mesmos, de ouvir nossos pensamentos, de prestar atenção a nossos sentimentos. A pessoa livre aceita a responsabilidade tanto pelo que há de bom como pelo que há de mau em sua vida. Está consciente de sua própria vulnerabilidade e, em vez de ocultá-la, utiliza-a. Ela permite ser aberta para se relacionar com a dor do mundo. (VISCOTT, 1982).


3.2.1 Depressão


         O agravamento do sofrimento psíquico em decorrência do vazio existencial pode acarretar num estado em que o indivíduo sente-se incapaz de se auto-regular. Surge, então, a depressão como forma de expressar essa lacuna interior, que usualmente leva a pessoa a uma sensação de perda do sentido da vida.


A depressão é a imperfeição do amor. Para podermos amar, temos que ser criaturas capazes de se desesperar ante as perdas, e a depressão é o mecanismo desse desespero. Quando ela chega, degrada o eu da pessoa e finalmente eclipsa sua capacidade de dar ou receber afeição. É a solidão dentro de nós que se torna manifesta, e destrói não apenas a conexão com os outros, mas também a capacidade de estar apaziguadamente consigo mesmo. [...] Quando estão bem, alguns amam a si mesmos, alguns amam outros, alguns amam o trabalho e alguns amam Deus: qualquer uma dessas paixões pode fornecer o sentido vital de propósito que é o oposto da depressão. O amor nos abandona de tempos em tempos, e nós abandonamos o amor. Na depressão, a falta de significado de cada empreendimento e de cada emoção, a falta de significado da própria vida se tornam evidentes. O único sentimento que resta nesse estado despido de amor é a insignificância. (SOLOMON, 2002, p. 15).


  É na depressão que a solidão se torna mais evidente, a sensação de estar sozinho consigo mesmo diante do mundo se aprofunda. Há um embotamento dos sentimentos, das relações e da vida como um todo. A existência perde seu significado, o indivíduo sente-se vazio, abandonado, insignificante.


  É justamente na depressão que todas as questões existenciais se tornam mais fortes e mais presentes. Se o indivíduo utilizou inúmeros mecanismos de defesa para interromper o contato consigo mesmo e com o mundo, é provável que seu quadro tenderá a evoluir para um sofrimento psíquico cada vez maior. Com a depressão, ele se vê diante de si mesmo e começa a se questionar acerca de sua vida e do significado de sua existência. [...] “Começo cada manhã com uma incerteza que tira meu fôlego: quem sou eu?” [...] (op. cit, p. 78).


Ao mesmo tempo, deve-se levar em conta que o indivíduo ainda pode retomar o rumo de sua vida, quando busca ajuda dos outros e dele mesmo há uma mudança significativa no seu existir. [...] “Jamais escaparemos da própria escolha. O eu de alguém reside em escolher, reside em cada escolha, a cada dia. Eu sou o que escolhe tomar remédio duas vezes por dia”. (SOLOMON, 2002, p. 379).


Aceitando a responsabilidade por sua própria vida, o sujeito se vê como fonte de seu processo de cura, visto que cabe a ele continuar vivendo cada dia como dono de sua própria existência. Encontrando forças dentro dele mesmo, seu vazio existencial lhe fornecerá a oportunidade única de se autogerir como um ser existindo no mundo.


“Nós atravessamos o inferno para encontrar o paraíso”, diz Tina Sonego. “Minha recompensa é muito simples. Agora sou capaz de entender coisas que eu simplesmente não entendia antes; e as coisas que não entendo agora, entenderei com o tempo, se elas forem importantes. A depressão é responsável por fazer de mim o que sou hoje. O que ganhamos não passa de um sussurro, mas é muito intenso”. (SOLOMON, 2002, p. 388).


            Quando a vivência da depressão se torna uma oportunidade de autoconhecimento e, principalmente, quando a pessoa está disposta a mergulhar dentro de si mesma, então, ao sair do seu sofrimento, o indivíduo tomará posse do que lhe pertence – sua identidade, suas dúvidas, seu vazio existencial, do sentido da sua vida.


3.2.2 Os Excessos


            O vazio existencial também se faz presente nos excessos. O que, primeiramente, pode parecer uma contradição e uma ambigüidade – como uma lacuna, uma falta pode se transformar em exagero? Pois a resposta está intrinsecamente ligada à própria pergunta: é justamente devido ao incômodo provocado pelo vazio que se procura preenchê-lo de qualquer forma, inclusive com o seu próprio oposto o excesso. Nesse sentido, o indivíduo fica transitando entre dois pólos: a escassez e a abundância. Mas na verdade um só faz reforçar o outro. Quando uma pessoa faz uso abusivo de substâncias entorpecentes, ela tenta fugir, esquecer, negar suas questões mais difíceis, seu mais profundo vazio existencial; entretanto, quando o efeito sedativo ou atordoante passa, resta apenas uma sensação mais aguçada do seu vazio, de insignificância, e de falta de sentido na vida.


O comportamento destrutivo visto hoje em dia no alcoolismo, no vício em drogas, na delinqüência e na promiscuidade, reflete o grau até onde os indivíduos em nossa cultura tornaram-se seres isolados, desligados e desesperados. Mas não é só no uso abusivo de drogas que os excessos estão presentes. O hábito de comer compulsivo e a incapacidade de adormecer são sintomas de uma desesperação interior que surge de uma necessidade de auto-aceitação.


O meio em que vivemos também reforça esse tipo de atitude. A indústria publicitária nos ensina a querer coisas e nos orienta com relação ao que devemos querer. Se reconhecermos que é improvável que a aquisição de posses nos torne pessoas mais contentes e satisfeitas se nossas necessidades humanas mais profundas não forem atendidas, a publicidade nos leva a acreditar que novas posses nos trarão todas essas coisas mais profundas que desejamos. Se comprarmos coisas e criamos nossas vidas à imagem dos anúncios publicitários, seremos felizes. A criação da imagem pessoal, por essa razão, torna-se muito importante. Essa atitude é mais do que tudo desenvolvida no que se refere à aparência física. (BUCKROYD, 2000).


Dentro dessa concepção que tenta nos vender uma imagem ideal de como devemos ser, nos vestir e nos comportar; surge toda uma gama de doenças compulsivas – seja através da busca incessante pelo dinheiro, à procura de experiências entorpecentes, ou pela vontade de possuir um corpo perfeito – tudo isso emerge como uma tentativa de preencher o vazio existencial e, assim, alcançar a tão almejada felicidade.Toda essa experiência também pode representar um novo olhar, uma nova saída. Através do autoconhecimento, essas pessoas podem enfrentar seus maiores temores de frente e saírem vitoriosas. Podem começar a entender suas lacunas e o seu vazio existencial de forma mais concreta, procurando meios mais adequados de preenchê-lo e atenuá-lo.


3.3 Diante da Morte


A experiência do vazio existencial se dá de forma mais clara e evidente quando o indivíduo se vê diante de uma situação de morte iminente. Esse representa um momento peculiar na vida de cada pessoa, visto que permite uma maior introspecção e reflexão acerca do sentido da vida. É nesse período que costumam surgir questionamentos sobre o que é a vida, o que é a morte, qual o significado de viver, se a vida que foi levada até então realmente foi a desejada, o que ficou satisfeito e o que ficou inacabado... Enfim, é um período de “balanço” em que a pessoa se vê diante de questões que permearam a sua vida inteira, e, em muitos casos, pode se experienciar um “certo vazio interior”, vazio este que se faz mais presente diante da morte.


As pessoas, em geral, quando se vêem forçadas a encarar a realidade da morte de frente, se mostram despreparadas e confusas justamente pelo fato de nunca terem se permitido adentrar em tal assunto de forma verdadeira e consciente. Assim, se mostram necessitadas de ajuda, um auxílio que lhes permita entender e aceitar esse momento tão ambíguo de suas vidas.


[...] Creio que deveríamos criar o hábito de pensar na morte e no morrer, de vez em quando, antes que tenhamos de nos defrontar com eles na vida. Se não fizermos assim, o diagnóstico de câncer, no seio da família, irá nos lembrar brutalmente de nosso próprio fim. Portanto, pode ser uma bênção aproveitar o tempo da doença para refletir sobre a morte e o morrer em relação a nós mesmos, independentemente de o paciente encontrar a morte ou ter a vida prolongada. (KÜBLER-ROSS, 2002, p. 33).


            A morte traz à tona sentimentos de vazio e solidão, pois representam uma cisão final e derradeira do mundo e das pessoas com quem se partilhou inúmeras experiências. Essa separação ou a iminência dela produz efeitos marcantes nos seres humanos. Representa uma oportunidade única de reflexão e introspecção que pode – e deve – ser compartilhada com os demais, como uma forma de ver que não se está sozinho no sentir a solidão.


Surge, então, o momento em que a morte se torna cada vez mais próxima e mais presente. É o momento em que a dor do paciente cessa, em que a mente entra num estado de torpor, em que a necessidade de alimentação se torna mínima, em que a consciência da realidade aos poucos vai desaparecendo. É o período em que os parentes vivem num estado de tensão, alarme e expectativa. É o momento em que as palavras se tornam ineficientes. É um estágio muito ambíguo para um parente próximo, pois ele deseja que tudo passe, que tudo termine, mas, ao mesmo tempo, se agarra desesperadamente à pessoa que está prestes a perder para sempre. É o momento de possibilitar o silêncio para o paciente, e da disponibilidade para com os parentes.


Aqueles que tiverem a força e o amor para ficar ao lado de um paciente moribundo, com osilêncio que vai além das palavras, saberão que tal momento não é assustador nem doloroso, mas um cessar em paz do funcionamento do corpo. Observar a morte em paz de um ser humano faz-nos lembrar uma estrela cadente. É uma entre milhões de luzes do céu imenso, que cintila ainda por um breve momento para desaparecer para sempre na noite sem fim. Ser terapeuta de um paciente que agoniza é nos conscientizar da singularidade de cada indivíduo neste oceano imenso da humanidade. É uma tomada de consciência de nossa finitude, de nosso limitado período de vida. Poucos dentre nós vivem além dos setenta anos; ainda assim, neste curto espaço de tempo, muitos dentre nós criam e vivem uma biografia única, e nós mesmos tecemos a trama da história humana. (op. cit, p. 282).


            Depois de aprofundar no sofrimento psíquico do ser humano. Após percorrer a trilha da depressão, da ansiedade, dos excessos e nos depararmos com a morte, o ser humano ressurge para mergulhar ainda mais em sua essência. Ao entrar verdadeiramente no seu vazio existencial, o homem acabará por encontrar novas trilhas e oportunidades de se preencher e se conquistar verdadeiramente. É o que veremos a seguir ao realizarmos o outro caminho possível – o da conquista do homem em busca de si mesmo.


4 UM MERGULHO NO VAZIO


O ser humano é repleto de possibilidades e potencialidades, entretanto, adentrar no vazio existencial requer muita força e coragem, como vimos anteriormente, significa lidar com os assuntos mais penosos e difíceis para a humanidade, como por exemplo, enfrentar a morte, a angústia, a solidão e o sofrimento. Mas para se realizar como um ser pleno, o indivíduo deve aproveitar essa oportunidade e mergulhar no seu vazio particular, realizando um verdadeiro conhecer-se, que, consequentemente, emergirá numa pessoa mais integrada consigo mesma e com o mundo que a cerca.


As perguntas sobre as quais se fundam a maioria das ambivalências são universais: sou bom ou mau? Fraco ou forte? Esperto ou estúpido? Independente ou dependente? Livre ou controlado? Pelo fato de as pessoas terem receio de que, ao se defrontarem com a verdade sobre si mesmas, poderão descobrir suas carências, elas tendem a evitar estas perguntas básicas, tipo ou/ou. Enfrentar tais perguntas é o primeiro e, amiúde, o mais importante passo para resolvê-las; e aceitar as respostas, por mais difícil que seja, é a melhor maneira de diminuir o desconforto da ambivalência. (VISCOTT, 1982).


O que você quer para si, nesta vida? O que você vai fazer para alcançar isto? O que é que está no seu caminho? Quem foi que pôs isso lá? Por que foi que você esperou que uma crise o forçasse a agir? Estas são as grandes perguntas que se seguem às primeiras. Uma vez mais, enfrentando-as, você começou a se libertar da paralisia da ambivalência. As perguntas pedem resposta – decida quem você é, o que é melhor para você. (op.cit., 1982, p. 103).


A tendência a tentar preencher o vazio existencial com coisas, objetos materiais, ações, sucesso e prestígio social levam a uma busca frenética e inútil muito presente no mundo ocidental. Entretanto, nada disso consegue verdadeiramente completar a sensação de vazio presente no homem. Já no mundo oriental, a visão do homem, do mundo, do vazio existencial e do sentido da vida nos trazem uma abordagem completamente nova e de grande utilidade – o conceito de que este vazio é, na verdade, um vazio fértil, do qual podem emergir as melhores potencialidades dos seres humanos, transformando-o num ser pleno e detentor de suas maiores capacidades e possibilidades.


4.1 O Pensamento Ocidental encontrando o Pensamento Oriental


Em nossa época, o mundo ocidental é representado como uma era vazia, onde a vida humana é oca, sem sentido e significado. O homem representa apenas um barquinho à procura do porto – ele nunca sabe quem é, e no entanto, se reserva o direito de saber.


Grande parte da cultura do mundo ocidental fomenta a luta contra o vazio. No Ocidente o mundo é preenchido com objetos. Espaço vazio é desperdício, a não ser que seja preenchido com ação. Sutilmente, a cultura ocidental ensina a temer e evitar o vazio e a preencher o espaço, tanto quanto é possível, com ação e com objetos. Ou então deixamos a ação dos objetos (carros, TV) preencher nosso espaço. No oriente, o vazio pode ter máximo valor em si mesmo. Pode-se confiar nele. Ele pode ser produtivo.


Na cultura oriental, o taoísmo propõe o movimento interno de pensar menos e sentir mais. Nossa cultura ocidental privilegia o pensamento e disfarça e até condena certas emoções e vivências. Às vezes, é proibido sentir. Na cultura oriental, é importante deixar o corpo fluir, expressando-se livremente através dos sentidos. É importante perder o pensamento para se chegar aos sentidos, e a sabedoria oriental completa que é preciso esvaziar-se para poder encher-se. Com o modo de pensar ocidental o vazio tende a ser visto como uma deficiência. Nos escritos orientais esse sentimento é considerado como um vazio fértil.


Quando aceitamos e entramos neste nada, no vazio, descobrimos que o deserto começa a florescer. O vazio estéril torna-se o vazio fértil. O vazio ganha vida, se enche. (PERLS, 1977).


O budismo afirma que a frustração deriva de nossa dificuldade em enfrentar o fato básico da vida, isto é, que tudo aquilo que nos cerca é impermanente e transitório – todas as coisas surgem e vão embora. A noção de que o fluxo e a mudança são as características básicas da natureza está na raiz do Budismo. O sofrimento vem à tona, na concepção budista, sempre que resistimos ao fluxo da vida e tentamos nos apegar às formas fixas. (CAPRA, 1983).


Os ensinamentos orientais falam sobre o vazio útil e frutífero. O vazio fecundo é aquele momento supremo de abandono, de entrega a si mesmo como única resposta possível e a partir da qual tudo pode acontecer. Tudo nasce do vazio, como do nada surge o ser.


Pode-se citar um exemplo de como o pensamento oriental se processa: [...] “Paredes e portas formam uma casa, mas somente no vazio entre elas é que está sua capacidade”. (STEVENS, 1977, p. 126).


 O zen tem uma postura de colocar o indivíduo de volta para si mesmo, num sentido de integração da pessoa na sua totalidade. Traz um apelo à tomada de posse, efetiva, do indivíduo por si mesmo. Trata-se de um re-ajuntar-se existencial, de um re-membrar-se total.


Deste modo, precisamos, então, esvaziar-nos para que novos conhecimentos, sentimentos, sensações, intuições possam nos preencher novamente. Estar sempre aberto e disponível para o novo significa, de forma mais ampla, estar aberto para a vida e para o viver integralmente.


O zen-budismo, o taoísmo e o budismo tântrico influenciam sobre a vivência e consciência do aqui e agora, sobre a visão do sentido das polaridades, sobre a ênfase em um contínuo processo de crescimento, no apelo à totalidade do corpo, ao predomínio das emoções sobre o pensamento, sobre a necessidade de autoconfiança, de auto-realização e auto-atualização, sobre a necessidade de aceitar as experiências mais que analisá-las, na crença, na capacidade de um verdadeiro crescimento do ser humano. (RIBEIRO, 1985).


A perfeição do Zen reside precisamente em viver-se a vida diária com naturalidade e espontaneidade. Esse modo de viver pode nos indicar uma nova oportunidade para o mundo ocidental atenuar suas angústias mais profundas. Precisamos realizar uma verdadeira ponte entre Ocidente e Oriente – ter a sabedoria para transportar os conhecimentos de todos os cantos do mundo para que possamos viver de forma mais integral e verdadeira, deixando a vida fluir naturalmente.


          


4.2 Em Busca de si mesmo


O vazio existencial absorvido, vivenciado, experienciado por pessoas das mais diversas culturas, de todos os cantos e recantos do mundo leva, então, o homem a uma verdadeira busca acerca de si mesmo. Essa busca apresenta inúmeros caminhos – no mundo oriental ela é encarada como um viver de forma integral, natural e espontânea; no mundo ocidental ainda é vista como algo amedrontador, onde a principal reação diante desse ente desconhecido é a fuga. Entretanto, em todas as épocas o homem sempre procurou respostas às suas indagações mais profundas: Quem sou eu? O que é, finalmente, o homem?


Em geral falam fluentemente sobre o que deveriam desejar – completar com êxito um curso superior, arranjar um emprego, apaixonar-se e casar, constituir família – mas torna-se logo evidente, até para eles, estarem descrevendo o que os outros – pais, professores, patrões – deles esperam e não o que realmente desejam. [...] (MAY, 1991, p. 14, grifo do autor).


            A existência baseada na rotina leva o indivíduo a automatizar sua própria vida. Mas o que seria isso? Isso ocorre quando as pessoas deixam de vivenciar cada instante como um momento único que nunca mais voltará a se repetir. A cada segundo vive-se sentimentos, pensamentos, idéias e sonhos novos; porém, quando o indivíduo passa a experienciar sua vida como uma simples sucessão de repetições de fatos e acontecimentos, ele acaba por se desligar do momento presente, e, consequentemente, de si mesmo.


 [...] O quadro mais nítido de uma vida vazia é o do homem suburbano, que se levanta à mesma hora todos os dias, toma o mesmo trem para trabalhar na cidade, executa as mesmas tarefas no escritório, almoça no mesmo restaurante, deixa diariamente a mesma gorjeta para o garçom, volta para casa no mesmo trem, tem dois-três (sic) filhos, cuida de um pequeno jardim, passa duas semanas de férias na praia todo verão, férias que ele não aprecia, vai à igreja no Natal e na Páscoa, levando assim uma existência rotineira, mecânica, ano após ano, até finalmente aposentar-se aos sessenta e cinco e morrer, pouco depois, do coração, num colapso causado talvez por hostilidade recalcada. Sempre suspeitei, porém, que morre mesmo de tédio. (op. cit, p. 19).


Quando as pessoas fogem à ameaça isolando a imaginação, voltando os pensamentos para detalhes práticos ou corriqueiros, como o preparo do almoço, na verdade, estão se desligando de si mesmas, tentando fugir de algo que lhes amedronta. Mas fugir à própria ansiedade ou racionalizar a fuga enfraquece, no fim das contas, a pessoa.


[...] O herói da história é o típico rapaz moderno, vazio, levando uma vida rotineira de vendedor, voltando a intervalos regulares para sua casa de classe média, comendo roast-beef todos os domingos, enquanto o pai adormece à mesa. Sua vida é tão vazia, sugere Kafka, que certa manhã ele acorda não mais como um ser humano e sim uma barata. Como não preenchera sua condição de homem perdera todas as suas potencialidades humanas. Uma barata, como os ratos, os vermes, vive de restos. É um parasita e simboliza de modo geral tudo o que é sujo e repugnante. Seria possível encontrar um símbolo mais expressivo do que acontece quando um ser humano renuncia a sua própria natureza? (op. cit, p. 79).


Outra característica do homem moderno é a solidão. Ela pode ser considerada uma ameaça não violenta e penosa para muitas pessoas que se assustam com a possibilidade de ficar sós. Essas pessoas sofrem do medo da solidão.


É importante ressaltar que a sensação de vazio e a solidão estão associadas e intrinsecamente ligadas. Um exemplo disso ocorre quando alguém fala do rompimento de uma relação amorosa, essa pessoa raramente manifesta tristeza ou mesmo humilhação pela conquista perdida; mas sim relata que sente um vazio. A perda por si só deixa um imenso vácuo. Esse sentimento de vazio está presente quando alguém revela que espera que o cônjuge atual ou futuro preencha uma falta, um vácuo no seu íntimo e fica ansioso e zangado quando o mesmo não consegue preencher as suas necessidades. (op. cit, 1991).             Na sociedade contemporânea existem todos os tipos de dependência fazendo-se passar por amor, uma vez que há tantas pessoas ansiosas, solitárias e vazias. Não é raro encontraram-se duas pessoas que, sentindo-se solitárias e vazias, entram numa espécie de relacionamento, um mútuo acordo, para proteger-se da solidão. Mas quando o “amor” é chamado com a finalidade de vencer a solidão só realiza seu objetivo ao preço de maior vazio para ambos.


A incapacidade do homem ser espontâneo está ligada precisamente à falta de autoconsciência. A autoconsciência expande o controle da própria vida e com essa força ampliada vem a capacidade de sentir-se mais livre. Quanto mais autoconsciência tenha a pessoa, tanto mais espontânea e criativa será ao mesmo tempo.


Para chegar à autoconsciência, a maioria das pessoas precisa começar do princípio, redescobrindo os próprios sentimentos. É surpreendente quantas pessoas tem apenas um conhecimento geral do que sentem – dizem sentir-se “muito bem”, ou “péssimo”, de modo tão vago como se não reconhecessem verdadeiramente seu estado interior.


Um ser humano integrado envolve a consciência da própria subjetividade. Reconhece ser único, abraçando sua história pessoal como parte constituinte do que é hoje. Possui uma verdadeira experiência de ser ele mesmo percorrendo seu passado, vivendo o presente e se projetando no futuro. O conceito de ipseidade revela um pouco mais acerca dessa questão.





Ipseidade: a pessoa em que me tornei, a sensação única de ser eu mesmo, o sentir-me um ser que se reconhece numa estrada feita de ontem, um ser de força, coragem, medo, esperança, feita de hoje, um projeto realizável no amanhã. Tudo isso é uma função da mente, tudo isso é produzido por uma entidade que mora em mim, tão real quanto meu coração que bate, minha memória que recorda, minha inteligência que descobre. [...] o self me dando uma sensação de presença e a ipseidade uma sensação de eterna continuidade. Quando penso o que sou, quem sou, como sou e para que sou, percebo o conceito de ipseidade. [...] (RIBEIRO, 2006, p. 142, grifo do autor).





A ipseidade é a sensação experienciada de si mesmo, algo que vem de dentro, como uma síntese vivenciada daquilo em que nos tornamos ao longo da vida. Essa sensação de quem somos existe em cada um de nós e é ela a matriz que dá origem e significado a todos os processos que explicitam e explicam nossas caminhadas diante da vida.


Por fim, essa longa caminhada por qual passa o homem o leva a novos horizontes e novas perspectivas. O indivíduo à procura de si mesmo descobre-se como ser único, repleto de possibilidades e expectativas. Mesmo sendo difícil – e às vezes angustiante – o ser humano que consegue se perguntar de forma verdadeira e honesta quem realmente é, se depara, após sua intensa jornada, como um ser integral, consciente de quem é, do que quer, do que sente, do que anseia e deseja. Portanto, é coerente afirmar que, quando o homem vai em busca de si mesmo, acaba por se achar e descobrir-se existindo no mundo, assumindo e reconhecendo a própria essência. E de forma mais ampla, revelando o mistério do sentido de sua vida.





4.3 O Vazio preenchido, atenuado, compreendido, aceito, afirmado, vivido e acolhido


O homem, mergulhando no seu vazio, investigando sua herança tanto no mundo ocidental como no mundo oriental, termina em busca de si mesmo. E o que ele acha? O que, afinal, ele descobre? O vazio! Mas agora esse vazio já está repleto de novas descobertas, sentimentos e vivências únicas e originais que antes ele não possuía. Pode parecer ambíguo e contraditório afirmar que o homem descobre que seu vazio está cheio – mas esta é a realidade de quem se propõe a se aprofundar na emaranhada natureza de ser o que é e quem é.


[...] “Basicamente, o que necessitamos é informação sobre nós mesmos. Quem sou eu? O que me acende? Como eu me impeço? Como eu me machuco? O que eu quero? O que preciso? Como me satisfaço? [...]”. (STEVENS, 1977, p. 296). Respondendo a essas questões o homem se vê diante dele mesmo. E dentro de si mesmo o ser humano descobre que seu vazio pode ser preenchido, atenuado, compreendido, aceito, afirmado, vivido e acolhido.


[...] para achar um caminho para percorrer o vazio entre suas limitações intelectuais e as forças infinitas que nele atuam. Talvez esse vazio possa ser preenchido. Talvez ninguém possa, verdadeiramente, compreender o cosmo ou por que fomos feitos com consciência de nossa jornada nesse mesmo cosmo. Não obstante, estamos vivos porque sentimos a vida, e temos de cuidar de preservar os dons que nos tiverem sido concedidos. Se não podemos entender o mundo maior, podemos concentrar nossa atenção no mundo interior, o mundo dos sentimentos, e lá estabelecer uma ordem e uma compreensão. Se podemos sentir e sermos nós mesmos e permitirmos que nossos sentimentos fluam para onde eles parecem naturalmente inclinados, nós nos sentiremos melhor – sendo o melhor de nós mesmos.  (VISCOTT, 1982, p. 134).


A Religião, o Trabalho, a Arte e a Psicologia surgem como novas alternativas de se empreender um diálogo interior. Elas apontam como formas de se aprofundar na existência humana e proporcionam (de forma mais ou menos intensa) o que o homem realmente deseja: preencher, atenuar, compreender, aceitar, afirmar, viver e acolher o próprio vazio existencial. Veremos adiante como cada uma delas consegue lidar com o vazio presente na humanidade.


4.3.1 O Papel das Religiões


O vazio existencial presente em toda a humanidade pode ser percorrido por inúmeros caminhos – e a religião é um deles. Mas poderíamos nos perguntar por quê, ou mesmo como isso é possível, tendo em vista que (como já foi afirmado anteriormente) o vazio é sentido e experienciado de forma única e singular por cada individuo. De que forma, então, uma religião poderia preencher algo tão subjetivo?


Primeiramente, quando uma pessoa se integra a uma religião, de forma mais ou menos implícita, ela está também reconhecendo que há algo superior a ela, alguma força criadora mais poderosa que ela própria. E diante desta constatação, resolve entregar os mistérios da vida nas mãos deste Ente Superior. Isso quer dizer que, diante das questões fundamentais da vida, da morte, da existência e do vazio, o homem recorre às suas crenças para obter respostas, conforto, ou mesmo para preencher as lacunas de seu ser.


Com essas afirmações surgem outros questionamentos: E a religião realmente consegue preencher o vazio existencial do indivíduo? Como foi dito anteriormente, não precisa o homem trilhar o seu vazio sozinho e com autonomia? Não deveria ele mergulhar no seu próprio ser? Sim e não! Por mais estranho que pareça estamos novamente diante de uma ambigüidade por inúmeras razões.


Primeiramente, devemos ter em mente que o ser humano é um ser em constante construção – e isso significa que não poderá se dar por “acabado”. Em outras palavras, vai sempre haver lacunas, espaços, vazios dentro de cada indivíduo. Por mais que se empreenda as mais duras jornadas, o homem tem sempre mais o que aprender, vivenciar e crescer.


A religião, embasada nos seus próprios fundamentos, crenças e dogmas surge como uma “possível” resposta às indagações humanas. Como o sentimento de vazio é universal, os homens, por sua vez, também procuram respostas que sejam universais. E para isso, abdicam de uma busca pessoal para abraçar uma busca coletiva. Qual é a melhor ou a mais correta, só a própria pessoa pode dizer. Cada qual trilha seu próprio caminho em busca de si mesmo, seja através do mergulho na própria subjetividade, seja abraçando o caminho fornecido pela religião.


A religião surge, então, como um caminho de orientação para a própria vida. Traz em si a crença em valores que regem a vida das pessoas. É ela que guia e dirige a existência do sujeito que a adota.


Pode-se observar que a religião pode ser prejudicial ou benéfica para o indivíduo. Depende da forma como é encarada, vivida, entendida, exposta e experienciada. Cabe ao homem questionar-se verdadeiramente acerca do sentido e da real intenção que está por trás da adoção de uma determinada religião – é uma busca autêntica? Ou apenas uma forma de evitar o próprio vazio existencial, fugindo dele?Mas se a necessidade de fugir ao terror e à solidão são os principais motivos de a pessoa voltar-se para Deus, sua religião não a tornará forte e amadurecida; e nem sequer lhe dará segurança futura. O desespero e a ansiedade jamais serão resolvidos até que a pessoa os enfrente em sua crua e total realidade. A maturidade e eventual domínio da solidão só se tornam possíveis quando a pessoa corajosamente aceita, de início, sua própria solidão. (MAY, 1991).


O resultado desta discussão é que a religião é construtiva quando fortalece na pessoa seu senso de dignidade e valor, ajuda-a a confiar no uso e desenvolvimento de sua consciência ética, liberdade e responsabilidade pessoal. Assim a fé ou as práticas religiosas não podem ser chamadas <boas> ou <más> em si mesmas. A questão é: até que ponto a crença ou prática, para determinada pessoa, é uma fuga à liberdade, um modo de se tornar <menos> pessoa? até que ponto é um modo de fortalecê-la no exercício de sua responsabilidade e capacidade ética. [...] (op. cit, p. 170-171, grifo do autor).


            Não há dúvida de que a solidão e a ansiedade podem ser enfrentadas de maneira construtiva. Isto será conseguido se o indivíduo enfrentar diretamente as várias crises do seu desenvolvimento, passando da dependência a maior liberdade e integração, desenvolvendo e utilizando suas aptidões e relacionando-se com seus semelhantes através do trabalho criativo, do amor e da religião que cumpre sua verdadeira função etimológica: a de religar.


Por fim, precisamos ter em mente que a religião não é em si “boa” ou “má”, mas que, para ser benéfica para o indivíduo, deve ser adotada como um caminho na busca de si mesmo. Promovendo uma integração do indivíduo com ele mesmo e com o mundo que o rodeia. Religando o que estava perdido, esclarecendo o que estava obscuro, entendendo e atenuando o vazio existencial presente na humanidade.





4.3.2 O Trabalho





O vazio existencial e o próprio sentido da vida estão intimamente ligados ao trabalho. Isso ocorre porque é através do trabalho que o homem transforma e é transformado pelo meio em que vive. É a oportunidade que ele tem de ação dentro da vida, papel esse que traz um sentimento de utilidade, de que sua vida é necessária e que, de alguma forma, contribui para a humanidade da qual faz parte.


Quando pensamos sobre o papel do trabalho em seu aspecto individual, percebemos que ele pode permitir ao homem expandir suas energias, desenvolver sua criatividade e realizar suas potencialidades. Pelo trabalho o ser humano é capaz de moldar e mudar a natureza e, ao mesmo tempo, transformar a si próprio. Em outras palavras, podemos afirmar que: trabalhando podemos modificar o mundo e a nós mesmos.


No âmago da questão, o homem usa o trabalho para se auto-afirmar. Alimentando a crença que, ao produzir algo, deixará para a humanidade algum resquício de sua existência quando não mais estiver aqui. Isto pode ser observado em inúmeros líderes políticos do passado e do presente que deixaram obras, monumentos, pesquisas e inúmeras contribuições numa tentativa de manter viva a lembrança de sua existência, e num sentido ainda mais profundo, de que ela não foi em vão.


Por outra perspectiva, o trabalho surge como um objeto de fuga da angústia interior. Representa uma tentativa – muitas vezes frustrada – de preencher um vazio que existe dentro de cada um. Sendo assim, preenchem seus dias, horas e segundos numa frenética produção de objetos, serviços e pensamentos para evitar um silêncio e uma calmaria assustadores. Esse ócio poderia levá-los a escutar e vivenciar o próprio vazio interior. Permitir esse momento nem sempre é fácil, principalmente para o homem ocidental moderno.


O prazer na atuação está muito presente também no trabalho voluntário. Ele proporciona ao indivíduo uma integração com outras pessoas, mas ao mesmo tempo, produz uma satisfação íntima por se sentir útil e necessário quando se está auxiliando os demais.  Este tipo de trabalho é exercido pela sua pura realização – não tem um motivo maior, como por exemplo o dinheiro ou o próprio sustento – mas sim, é produzido pelo simples prazer de realizá-lo sendo permeado pela solidariedade entre os homens.


De forma sucinta, assim como as demais formas de se tentar preencher ou atenuar o vazio existencial, o trabalho em todas as suas diretrizes, tem dois lados que precisam ser ressaltados: ou podem ser uma fuga do silêncio, do vazio e da angústia; ou podem representar uma realização pessoal consciente e consistente, seja através de sua produção rotineira, seja através de um trabalho voluntário que desenvolva a solidariedade entre os homens.


4.3.3 A Experiência Artística


A experiência artística é mais um caminho a ser trilhado na tentativa de se atenuar e acolher o vazio existencial. Através dela, o homem consegue expressar aquilo que estava impresso dentro dele. É uma forma simbólica de declarar e expor seu vazio através das inúmeras possibilidades dentro da arte.


A arte pode ser definida como a prática de criar formas perceptíveis expressivas do sentimento humano. É prática de criar, pois, a arte é produto do fazer humano. Deve combinar a habilidade desenvolvida no trabalho (prática) com a imaginação (criação). Através de formas perceptíveis, pois a arte se concretiza em formas capazes de serem percebidas por nossa mente. Essas formas podem ser estáticas (arquitetura, escultura) ou dinâmicas (música, dança). Qualquer que seja sua forma de expressão, cada obra de arte é sempre um todo perceptível, com identidade própria. Perceptível não apenas nas formas captadas pelos sentidos exteriores, mas também pela imaginação. E a arte é sempre a manifestação (expressão) dos sentimentos humanos. Esses sentimentos podem revelar a emoção diante daquilo que amamos ou a revolta em face dos problemas que atingem uma sociedade. Sentimentos de alegria, esperança, agonia ou decepção diante da vida. (COTRIM, 2000).


A arte pode ser entendida como um fenômeno social, pois é percebida socialmente pelo público, por mais íntima e subjetiva que seja a experiência do artista deixada em sua obra, esta será sempre percebida de alguma maneira pelas pessoas. A obra de arte será, então, um elemento social de comunicação da mensagem de seu criador.


Neste sentido, a arte surge como uma comunicação alternativa, porém direta entre as pessoas. Tudo aquilo que estava guardado no inconsciente tem a possibilidade de emergir e sair em forma de obra de arte. A criação envolve em si reconhecer e projetar na realidade os seus próprios conteúdos – angústias e/ou potencialidades.


Indivíduos frequentemente muito criativos podem se deixar ficar no vazio e não pensar em nada, com a expectativa de sair dele com a idéia para um quadro, ou outro trabalho de arte. Muitos deliberadamente usam o vácuo para encontrar soluções criativas para os seus problemas.


O fato de o Zen afirmar que a iluminação se manifesta nas ocupações cotidianas tem exercido enorme influência em todos os aspectos do modo tradicional oriental de viver. Esses aspectos incluem as artes da pintura, da caligrafia, do desenho de jardins, as várias atividades artesanais, os cerimoniais como servir o chá e o arranjo de flores, as artes marciais de manejar o arco e a flecha, a esgrima e o judô. Cada uma dessas atividades é conhecida no Japão como um “caminho para a iluminação”. Todas exploram diversas características da experiência Zen e podem ser utilizadas para treinar a mente e colocá-la em contato com a realidade. (CAPRA, 1983).


Existe uma diferença marcante entre o modo de vida ocidental e o oriental, e essa diferença também se faz presente na arte. Entretanto, podemos aqui citar as semelhanças entre ambas, pois tanto a arte ocidental como a arte oriental tem como objetivo primordial interligar as vivências intrapsíquicas à realidade externa. As duas criam pontes entre o mundo subjetivo e o mundo objetivo. São formas de comunicar os conteúdos inconscientes presente em cada ser humano e na humanidade de uma forma geral.


Por fim, a arte surge como uma experiência singular, pois permite ao pintor, ao escultor, ao ator, ao dançarino e tantos outros criar algo que lhe represente de alguma forma. Surge como uma oportunidade de expor e tornar público os seus anseios, suas dúvidas, suas angústias, seu vazio existencial – sempre numa busca incessante sobre o sentido da vida.


4.3.4 A Psicologia como Caminho


Mergulhamos no vazio, fizemos pontes entre o pensamento ocidental e oriental, empreendemos a busca do homem acerca de si mesmo. Vimos como a religião, o trabalho e a arte podem atenuar ou mesmo tentar preencher o vazio. Cabe agora, finalmente, entender e integrar o papel da Psicologia nessa temática.


A Psicologia como ciência do comportamento humano e como estudo da psiquê deve se ocupar, de maneira intensa e aprofundada acerca da questão do vazio existencial. O vazio representa um campo vasto em termos de pesquisa acerca da subjetividade humana, visto que representa um momento de profunda reflexão e introspecção na vida dos indivíduos.


[...] Quando a experiência interna de nossa existência é sofrida, quando perdemos seu sentido por falta de horizontes que nos norteiem, a grande caminhada terapêutica terá de passar pelas perguntas: quem sou eu? o que quero? para onde caminho? Ou seja, passar por um retorno aos existenciais que influenciam e orientam nossa essência mais íntima. [...] (RIBEIRO, 2006, p. 116).


Como foi visto anteriormente, o vazio está impregnado em cada ação e sentimento presentes no dia-a-dia dos indivíduos, em circunstâncias de perda, de luto, de morte, do tédio da rotina, no medo da solidão, enfim... O vazio está representado em cada campo da vida do sujeito.


Nessa perspectiva é interessante observar que qualquer organismo que deixe de cumprir suas potencialidades adoece. Igualmente, caso o homem não preencha suas potencialidades como pessoa humana, torna-se limitado e doente. A psicoterapia surge, então, como uma oportunidade especial do homem fazer conhecer-se verdadeiramente.


[...] Trata-se da ciência que o psicoterapeuta adquire no contato com gente que luta para resolver seus problemas. Ele possui o privilégio extraordinário, embora às vezes penoso, de acompanhar as pessoas em sua luta íntima e profunda para alcançar uma nova integração. [...]. (op. cit, p. 9).


Pode-se dizer que, ao se aprofundar nas crises e angústias de um único indivíduo, poderemos estar lidando com questões que mais tarde eclodiram de forma expansiva por toda a sociedade. Sendo assim, ao estudar o sujeito de forma profunda e séria, poderemos entender e auxiliar grandes questões da humanidade que estão por vir.     


 “O terapeuta não pode deixar de ficar profundamente grato pelo que aprende diariamente sobra a importância e a dignidade da vida com aqueles a quem chama seus pacientes”. (op. cit, p. 9-10).


O psicoterapeuta, tendo o privilégio de testemunhar a luta íntima de um certo número de pessoas, seus combates muitas vezes graves e amargos, consigo mesmas e com as forças externas que as desafiam, adquire por elas um grande respeito e uma nova compreensão do potencial de dignidade do ser humano. Além disso, inúmeras vezes por semana tem provas, em seu consultório, de que, quando o homem finalmente aceita o fato de não poder mentir com êxito para si mesmo e resolve levar-se a sério, descobre no íntimo uma capacidade de recuperação anteriormente desconhecida e às vezes mesmo notável. (op. cit, 1991).


O paciente vai em busca de uma psicoterapia porque teme o vazio. Se ele não o temesse seria uma pessoa produtiva e não necessitaria de ajuda. Se o terapeuta também teme o vazio, será incapaz de ajudar o paciente. Para cada paciente o vazio tem significado diferente. Para o compulsivo pode ser a desordem, para alguns pode ser a idade e a morte, para a mulher pode ser a perda da identidade, para o esquizofrênico em estágios precoces pode ser a força destruindo o ego. (STEVENS, 1977).


Não há somente o vazio maior nesses sintomas, mas também, vários vazios pequenos que surgem na relação imediata com o paciente. A saída é através dos vazios. À medida que é explorado, o vazio se torna menos assustador. O paciente não só deixa de temer o vazio, como também sabe usá-lo produtivamente.


[...] “Fazer psicoterapia é reconhecer e retomar, livremente, nossas fronteiras e contornos para, de novo, reolharmos nossos horizontes de desejos e de poder, e, com autoridade própria, nos apossarmos deles”. (RIBEIRO, 2006, p. 136).


Concluindo, a Psicologia surge como um caminho possível ao homem para empreender sua própria jornada rumo ao autoconhecimento. Seu vazio pode até não ser preenchido totalmente, mas com certeza será afirmado, aceito e acima de tudo acolhido. E dele saíra uma pessoa que conseguiu ultrapassar suas lacunas e atingiu o processo de integração. Autonomia, autoconsciência, aceitar-se tal como verdadeiramente é, constituem os elementos para entender a essência do homem e, de forma mais ampla, compreender o verdadeiro sentido de sua existência.


5 CONCLUSÃO


      Ao longo da nossa jornada acerca do vazio existencial, trilhamos os mais diversos caminhos, passamos pelos mais variados períodos históricos, pelas diferentes escolas de filosofia, fizemos pontes entre diferentes povos, investigamos o sofrimento psíquico, nos confrontamos com a morte, mergulhamos no vazio, saímos em busca de nós mesmos, para no fim procurar preencher, atenuar, abraçar, aceitar e acolher nosso próprio vazio, seja através da religião, do trabalho, da arte ou mesmo da Psicologia.


E o que achamos, afinal? O que ficou dessa longa trilha percorrida? O que restou foi o homem – o homem com toda a sua riqueza interior, a sua unicidade, a sua subjetividade, a sua luta pela autonomia, sua busca pela integração, sua necessidade de entender-se e compreender a verdade da sua existência, enfim, achar o real sentido da vida.


A vida humana apresenta inúmeras possibilidades e potencialidades. Cabe a cada um de nós saber apreciá-la, e, acima de tudo, nutrir um grande respeito e admiração por cada ser que luta pela sua existência. Devemos acreditar nas nossas próprias capacidades, devemos encorajar a nossa força interior, para que ela possa ter a audácia de percorrer os caminhos mais obscuros e difíceis da nossa essência. Para que, no fim, possamos sair das profundezas do ser sendo cada vez mais nós mesmos – nos assumindo tal qual realmente somos.


Não devemos temer o vazio, muito menos fugir dele. Evitar encontrar-se com essa realidade humana só traz maiores sofrimentos para a vida psíquica (e física!) do indivíduo. Os lutos e as perdas estão sempre presentes na vida do ser humano, elas são necessárias para promover o crescimento e o amadurecimento do sujeito. Negar a própria realidade existencial, como já foi demonstrado anteriormente, só trará prejuízos na vida do indivíduo. E, no final das contas, ele terá que se deparar com suas angústias de qualquer jeito, pois sempre surge a morte para nos lembrar da nossa finitude. Fugir de seus medos é, no fundo, fugir de si mesmo e da própria vida.


            Já mergulhar com coragem no próprio vazio traz inúmeras possibilidades de realização para o ser humano. Quando nos permitimos verdadeiramente adentrar nesse universo desconhecido, estamos, na verdade, adentrando em nós mesmos. Empreendendo uma jornada única, particular, subjetiva e verdadeiramente transformadora. Através da revelação de sua própria identidade, o homem estará cada vez mais perto da sua integração.


            Seja qual for o caminho escolhido, seja através da religião, do trabalho, das artes ou mesmo através da psicologia, estará certamente escolhendo o rumo que o conduzirá para o centro de si mesmo. Para a evolução de sua autonomia como ser. Caminhará para a sua verdade. Para a consciência de que existe tal qual realmente é.


            Por fim, cabe mais uma vez defender o verdadeiro aprofundamento no vazio existencial de cada um. Lidar com o ser humano de forma tão íntima exige da Psicologia um compromisso verdadeiro com seus clientes. Um respeito absoluto pelas particularidades e peculiaridades do ser humano. Cabe a ela, auxiliar esse processo tão rico e tão magnífico do descobrir-se verdadeiramente. Empreender essa jornada de lágrimas, alegrias, tristezas, dor, sofrimento, aceitação, acolhimento, respeito e acima de tudo amor exige um compromisso verdadeiro com cada ser humano, e de forma ainda mais ampla, com a humanidade.






NOTA EXPLICATIVA



[1] Artigo extraído da monografia apresentada e aprovada em Julho/2007, no Curso de Psicologia da FCH/CESMAC, como requisito para obtenção do título de Bacharel em Psicologia




REFERÊNCIAS


BUCKROYD, Julia. Anorexia e Bulimia: esclarecendo suas dúvidas. São Paulo: Ágora, 2000.


CALLIGARIS, Contardo. Cartas a um jovem terapeuta: reflexões para psicoterapeutas, aspirantes e curiosos. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.


CAPRA, Fritjof. O Tao da Física: Um paralelo entre a Física Moderna e o Misticismo Oriental. São Paulo: Cultrix, 1983.


CLÉMENT, Catherine. A Viagem de Théo: Romance das religiões. 20. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.


COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia: História e Grandes Temas. 15. ed. reform. e ampl. São Paulo: Saraiva, 2002.


DAVIDOFF, Linda L. Introdução à Psicologia. 3. ed. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2001.


KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a Morte e o Morrer. 8. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002.


______. A Morte: Um Amanhecer. São Paulo: Editora Pensamento, 1991.


MARÍAS, Julián. História da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2004.


MAY, Rollo. O homem á procura de si mesmo. 18. ed. Petrópolis: Vozes, 1991.


PERLS, Frederick Salomon. Gestalt-terapia explicada: “gestalt therapy verbatim” 2. ed. São Paulo, Summus, 1977.


PETRELLI, Rodolfo. Para uma psicoterapia em perspectiva fenomênico-existencial. Goiânia: Ed. UCG, 1999.


RIBEIRO, Jorge Ponciano. Gestalt-terapia: refazendo um caminho. 2. ed., São Paulo: Summus, 1985.

 
______. O Ciclo do Contato: temas básicos na abordagem gestáltica. 2. ed., rev. e ampl.  São Paulo: Summus, 1997.


______. Vade-mécum de Gestalt-Terapia: conceitos básicos. São Paulo: Summus, 2006.


RODRIGUES, Hugo Elídio. Introdução à Gestalt-Terapia: conversando sobre os fundamentos da abordagem gestáltica. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.


SOLOMON, Andrew. O Demônio do Meio-Dia: Uma anatomia da depressão. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.


STEVENS, John O. (compilador). Isto é Gestalt. São Paulo: Summus, 1977.





VISCOTT, David Steven. A Linguagem dos Sentimentos. São Paulo: Summus, 1982.


Renata Pires de Oliveira*




Graduando em Psicologia


Rosângela Maria da Silva*


Centro de Estudos Superiores de Maceió/ CESMAC


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