PSICOTERAPIA E A CONDIÇÃO DO SER-NO-MUNDO

          

Este texto pretende trabalhar questões relacionadas ao atendimento psicoterápico na abordagem fenomenológica-existencial, a qual não está comprometida com a cura ou remoção de sintomas, mas sim trabalhar com o que emerge, transcendendo a mera interpretação e entendendo que a experiência do vazio, a compreensão da falta de sentido que o mundo faz, que Heiddeger chama de angústia existencial, é a condição do ser-no-mundo. A partir destes pressupostos procuramos esboçar alguns aspectos relativos à compreensão de que somos seres da falta, nos falta muitas vezes nosso próprio ser e que constantemente estamos buscando algo, porque somos abertura, mas quando essa busca é de alguma forma interrompida ou inautêntica o processo terapêutico realizado através   do cuidado profissional do psicólogo com o outro, do acolhimento e da fomentação da angústia se torna um meio de resgatar e fazer fluir este processo.
  Para Heidegger a solidão é a condição do ser humano no mundo. Todo ser humano está só. Esta é a grande questão da existência, mas não significa uma coisa negativa, nem que precise de uma solução definitiva. Ou seja, a solução não é acabar com a solidão, não é deixar de sentir angústia, suprimindo este sentimento, mas sim entrar em contato, pois essa é a condição do ser, que um dia emerge. Como diria Humberto Gessinger na música alívio imediato “... o melhor esconderijo, a maior escuridão, já não servem de abrigo, já não dão proteção, (...) que a chuva caia como uma luva, um dilúvio, um delírio que a chuva traga o alívio imediato,(...) agora paciência ...” Pereira (1994) ilustra esse processo quando diz que:
  “...o  horror produzido pelo desamparo decorrente da angústia, pode conduzir o sujeito, a qualquer momento, ao movimento de encantamento do mundo pela produção de seres supepoderosos, a finalidade desse movimento encantatório é de proteger o sujeito face aos abismos do desamparo...” 
  Porém não existem subterfúgios inexoráveis que aplaquem esta condição. A solução não é encontrar uma pessoa para preencher o vazio existencial, não é encontrar um hobby ou uma atividade. A solução não é se matar de trabalhar e se concentrar nisso para não se sentir sozinho. As tentativas desenfreadas de remoção dessa angústia, de encontrar um escape através da satisfação em coisas materiais, muitas vezes nos desembocam, como dito na música em abrigos, esconderijos que nos conduzem a impropriedade. Segundo Critelli (1996):
“Lançados num mundo desde o nosso nascimento, somos chamados, convocados e pressionados para sermos um qualquer dos outros; convocados a ser o que e como os outros são. Convocados a aprender a ser impessoais. Somos chamados para sermos como se é no mundo, como se é de praxe, segundo o padrão. No máximo, o que é admitido como modo próprio de se cuidar de ser é um estilo pessoal, mas jamais um rompimento do padrão. Esta impessoalidade não é uma entidade, uma pessoa, ou uma coletividade, uma coisa, mas um modo de se cuidar da vida inautenticamente (ou impropriamente).” 
 
A solução é sentir um apelo peculiar para vivermos a vida segundo quem nós mesmos somos.” (CRITELLI, 1996)
“A solidão, sempre presente na existência, a angústia e o temor, enquanto condições de abertura para o mundo, são contingências das quais não se pode escapar” (FEIJÓ, 2000 p. 23). Deve-se compreender que se é lançado ao mundo e se está só no mundo. Simplesmente isso. E sabendo-se só no mundo, viver a própria vida, respeitar a própria vontade, expressar os próprios sentimentos, buscar, simplesmente buscar, e não se privar dessa busca por mais quimérica que possa ser.
           A busca no sentido fenomenológico-existencial é o grande mobilizador e, às vezes nos leva ao encontro do nada, de uma clareira dentro de nós mesmos, a qual tanto queremos encontrar e da qual tanto fugimos, como diria Amatuzzi(2001) “...será como um peixe vivo na mão, puro susto e terror” . Quando se faz isso, a vida se enche de significado, onde experienciamos nossa condição de solidão com o sentimento de liberdade ou de abandono que dela decorre, o que não significa felicidade ou infelicidade, mas sim propriedade no sentido fenomenológico-existencial, descrito por Castro (1998) como fugaz, não contabilizado “... mais profundo mergulho no movimento da vida...” Humberto Gessinger ainda na música alívio imediato descreve essa sensação de liberdade e entorpecimento ·.
“Hoje eu acordei mais cedo, tomei sozinho chimarrão. Procurei a noite na memória... procurei em vão. Hoje eu acordei mais leve, nem li o jornal, tudo deve estar suspenso, nada deve pesar. Ainda era noite, esperei o dia amanhecer. Como quem aquece a água sem deixar ferver. Hoje eu acordei(...) agora sei viver no escuro. Até que a chama se acenda...”
Na grande maioria das vezes quando nosso existir se defronta com nossa condição, com o vazio, com a angústia, com a escuridão, o comum é sentirmos medo e tentarmos fugir e, muitas vezes provisoriamente conseguimos, mas a sensação de falta é ontológica, não passa. Diante dessa falta, o desejo é capturado, como se observa por exemplo em sujeitos que engolem sem problematizar, sem questionar, qualquer novo sentido produzido pela mídia. Outras vezes as pessoas se sentem paralisadas diante dessa aproximação do nada sufocador, desse estranhamento, uma sensação na qual não nos reconhecemos e então, a passagem para o fluxo do sentido, para a busca, é interrompido.  
O atendimento psicoterápico segundo Amatuzzi (2000) é um facilitador no processo de significar, que de alguma forma ficou bloqueado e não consegue mais seguir sozinho, e só se fará possível através de uma escuta aberta de um profissional, também ser humano, comprometido como pessoa nessa relação, então surge uma relação dialógica, que transcende a mera interpretação.
Na frase “Como quem aquece água, sem deixar ferver”, podemos fazer uma comparação ao processo psicoterápico, onde o terapeuta acolhe o sofrimento – deixa a água morna – e aos poucos vai permitindo que o sujeito experimente sua condição sem extirpar a angústia, e aos poucos a água esquenta, o que para Heidegger representa a experiência, “o sentir na pele” e se deixar ser afetado, mas a temperatura da água nunca deve se tornar insuportável, a ponto de obliterar a busca ao mesmo tempo não se deve deixar esfriar para não sermos afogados no mar da impropriedade, é preciso estar sempre em uma temperatura oscilante, que permita o permear entre a cotidianeidade e abertura para o vir-a-ser, que favoreça sempre à inquietação. A clínica é permanentemente o lugar do inesperado, do agora, dessas oscilações. 
Para a fenomenologia-existencial, o outro é muito importante para compartilhar, trocar. O outro é muito importante para a convivência, mas não para preencher a vida, não para dar sentido e significado à uma outra existência, e isso cabe ao outro, terapeuta. Em termos heideggerianos entendemos que o dasein (ser-aí) caracterizado como abertura para o mundo, só se concretiza quando é ser-com, o mundo partilhado com os outros, no entanto em termos fenomenológicos haverá sempre o instante que é vivido somente pelo sujeito, é pessoal, Heidegger designa “Tempo” diferente de tempo cronológico, cotidiano, mas algo marcado por momento significativo. A presença do outro nos ajuda, compartilhando, efetivando a troca. Mas o outro não é o elemento para saciar a angústia ou para minimizar a condição de solidão."     
            Etimologicamente psicoterapia é formada por duas palavras gregas: psykhé (sopro de vida, alento, alma, vida, ser vivo) e therapéia (cuidado, previsão, solicitude, trato cuidadoso). Assim, psicoterapia traduz-se por cuidado pela vida. (Neto, 1994). Boff (1999) postula que cuidar significa implicar-se, ter intimidade, senti-las dentro, acolhe-las, que o cuidar é entrar em sintonia-com, auscutar-lhes a cadência e harmonizar-se com ele. Esse modo-de-ser-no mundo deixa que o humano viva a experiência fundamental do valor, daquilo que tem importância e a partir desse valor substantivo emerge a dimensão de alteridade, de reciprocidade e de complementaridade, o cuidado portanto, é estar junto a si com os outros no mundo.
            A psicoterapia é a busca de se passar dos discursos vazios aos discursos transformadores. Não tanto transformadores dos outros, mas transformadores daquele mesmo que o pronuncia (Amatuzzi,2000 p.62), o terapeuta deve ser interlocutor para que seja favorecida essa passagem. O encontro que se dá na clínica fenomenológica-existencial, não é nunca avaliação de um objeto por um sujeito pensante, é muito mais do que um conjunto de métodos e técnicas, este se define como um posicionamento de compreender o que é a singularidade de uma situação, entrar em contato com o outro através de um vínculo singular, o que diverge de uma ciência aplicada de acordo com Lévy (2001) “...tudo deve ser feito para evitar que os conceitos e os pressupostos teóricos se interponham entre o clínico e aquele ou aqueles que ele tenta escutar e compreender.” (p.124) Então, “Quando um acolhe o outro e assim se realiza a co-existência, surge o amor como fenômeno (...)”. (BOFF, 2002, p. 110).
Ao se instaurar como espaço do cuidado, a clínica diferencia-se da possibilidade de cura, a própria expressão psicopatologia - que etimologicamente significa estudo do sofrimento psíquico - adquiriu um cunho positivista como doença a ser curada, ao invés de facilitar a continuidade do diálogo, para compreensão como estudo do sofrimento humano, Galimberti, (1999) diz que todo e qualquer sofrimento humano é, inevitavelmente, experiência emocional sofrida que busca representação, que pede sentido.
A  interlocução só se dará verdadeiramente através do encontro com o outro e o terapeuta como ouvinte precisa se sentir afetado, segundo Buber somente através da interpelação do outro é que nos sentiremos tocados e o encontro se concretizará. “O discurso já não estará nele. Está agora em mim” (BUBER apud AMATUZZI, 2001, p.71)  Neste momento, a psicoterapia deixa de ser uma simples intervenção técnica, pois o ouvir realmente significa perceber que o mundo do outro tem coisas em comum com meu próprio mundo, no entanto tem coisas que lhe são próprias, por isso que ouvir profundamente nos mobiliza a questionar nosso próprio mundo pela aproximação do mundo do outro.
“Mas para que este novo modo de aproximação possa se efetuar é necessário romper com um conjunto de pressupostos e, em primeiro lugar, com as facilidades dos sistemas conceituais. Para esta criação desalojadora nada melhor que o impacto que a própria fala pode produzir; é como uma espécie de aríete contra o muro maciço dos preconceitos...” (FIGUEIREDO, 1994, p.128)
 
Para Amatuzzi (2001) o ouvir no sentido fenomenológico refere-se a:
“...ouvir-se a si mesmo recriado neste encontro com o outro. E o paradoxo aqui é que ouvir-se a si mesmo é ainda ouvir ao outro que se comunica comigo. Se eu não me ouço no que ele diz, ele não foi ainda plenamente ouvido e se como ouvinte não fui afetado não ouvi realmente.”      
 
A clínica deve propiciar um ambiente onde o sujeito que está de alguma forma em sofrimento possa sentir tudo o que diz, possa se ouvir, e de alguma forma compreender o sentimento sufocador e vago, que o paralisa. Para Amatuzzi    (2001), no atendimento psicoterápico quando o sentimento que até então sufocava, quando dito e tomado para si, se transforma e dá lugar a outros sentimentos, porque sempre será uma verdade parcial e efêmera que ao emergir e se desvelar também se oculta, por isso a nossa possibilidade de sempre vir a ser e, é através da palavra que tudo muda. Neste contexto a psicoterapia jamais será cingida a função fantasiosa de “entender a alma humana”, a “que tudo irá resolver”, pois como conhecer verdadeiramente algo que se transforma, algo que é permanentemente abertura para o mundo e possui infinitas possibilidades de vir-a-ser?
O “entender” no processo psicoterápico da abordagem fenomenológica-existencial não leva a lugar algum, o sentido vive pela palavra. Compreender deriva de compraehendere que em latim significa, apreender, tomar para si, abraçar, portanto somente através do compreender que se pode dá sentido a experiência e nos aproximar dela, de uma forma que esteja nem tão longe que eu não possa ver e nem tão perto que eu possa tocar, porque experiência é algo que se sente e muitas vezes resiste ou se opõe a qualquer captura, ela é que nos arrebata, para Heidegger fazer uma experiência consiste em ser afetado, e em ser transformado, deixando a coisa “vir sobre nós”, para que nos caia em cima e nos faça outro.” (HEIDEGGER apud FIGUEIREDO, 1994, p. 122)  
Se etimologicamente clínica faz referencia ao inclinar-se do médico sobre o leito do paciente, para psicólogos clínicos, clínica deve ser o encontro, segundo Heidegger o encontro é uma experiência com o outro e sua alteridade (HEIDEGGER apud FIGUEIREDO, 1994), representando, portanto não um encontro romântico ou cordial, mas essencialmente um momento único de desvelamento através da fala espontânea. O terapeuta segundo Amatuzzi (2001), deve favorecer à palavra para que seja aquilo que nasceu para ser “um momento fugaz que nos abre os olhos para realidade, e muda tudo”.
Como profere Heidegger: a fala fala. Para Heidegger (1999), a angustia caracteriza-se como disposição ontológica privilegiada para termos a possibilidade de vir-a-ser-próprios, torna-se uma espécie de voz silenciosa que permanentemente pede passagem àquilo (sentido) que se pode configurar enquanto fala. Portanto, a angústia de quem procura a escuta parece ser a libertadora voz silenciosa daquilo que pede passagem. (FERREIRA, 2004).
A clínica através da escuta – dispositivo fundamental de cuidado - deve remeter ao acolhimento sem que haja extirpação da angústia, isto representa o compromisso com a escuta do interditado e com a sustentação dos conflitos e tensões, propiciando ao outro o ouvir a si mesmo naquilo em que lhe faltam as palavras, na sua estranheza. Para Heidegger, “ o discurso situa-se no  mesmo nível existencial original que o sentimento da situação e da compreensão... enquanto compreensível no modo do sentimento da situação, o ser-no-mundo exprime-se pelos discursos”. (grifo nosso). (AUGRAS apud HEIDEGGER, p.76, 2002).
       Não extirparemos a dor, tampouco ditaremos as escolhas. Não tentaremos descobrir em que tempo da vida é a origem (fixação) dos problemas, tampouco aplicaremos testes para descobrirmos com que tipo de personalidade estaremos lidando. Oferecemos espaços na relação, tal que o existir possa se libertar e recuperar sua força criadora e possa fluir para os caminhos e formas que o façam se sentir mais próprio. É o cuidado  com a existência. Para Critelli (1996):
Quem, propriamente, o eu será é imodelável desde o presente. Sua mais tangível configuração está apenas em que não se quer mais ser como se estava sendo: como se estava escolhendo cuidar das coisas, do mundo, e como se estava escolhendo cuidar desse cuidar.” (p.125)
                   Por isso, Camon (2004) fala: “A minha condição humana me permite reconstruir a mim mesmo a cada instante e a qualquer momento” (p.153), explicando  que somos uma totalidade existencial que transcende o conjunto de fatores acomodados em algum lugar do passado. A preocupação é com a existência e não com uma parte “adoecida”. O que importa é a totalidade do ser-no-mundo. E não se fala em estrutura e sim em condição humana. E esta não está presa a tempo algum.
         Assim a fenomenologia-existencial abre-se como um caminho possível para a compreensão do homem, além de um sujeito epistêmico, mas como um ser existencial com seu modo de ser-no-mundo, singular, plural, próprio e impróprio.
 F onte : Marjorie Vieira e Nádia Freitas –Universidade Federal do Amazonas