CINEMA: O ABISMO DO DESCONFORTO

 

Imagem: Divulgação

Cinema: O abismo do desconforto

De volta aos cinemas, o clássico A professora de piano (2001), de Michael Haneke, é um estudo da violência dentro das relações humanas e dos espaços de intimidade que deveriam ser protegidos. Mostra um mundo de isolamento e voyeurismo – e as fantasias dos amores abusivos

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Poéticas

Por Wibsson Ribeiro

Publicado 13/08/2026 às 15:57 - Atualizado 13/08/2026 às 16:01

Retornou às salas de cinema o clássico A professora de piano, filme de Michael Haneke lançado em 2001 e vencedor de três prêmios em Cannes: melhor ator, para Benoît Magimel, melhor atriz, para Isabelle Huppert e o Grande Prêmio do Júri. Adaptação de romance da escritora austríaca Elfriede Jelinek, o filme acompanha a vida de Erika Kohut, uma severa professora de um conservatório em Viena que se envolve sexualmente com seu aluno Walter Klemmer.

O filme é austero em sua forma e conteúdo. Haneke filma grande parte das cenas em espaços fechados, usando da construção de atmosfera através de música erudita, evitando ao máximo o uso de música extradiegética para comentar as emoções dos personagens ou sugerir o que os espectadores devem sentir. Além disso, o filme se aproveita muito também do silêncio entre os personagens. As casas, quartos, banheiros, salas de aula e até cabines eróticas tornam-se lugares de isolamento e de exploração do voyeurismo. Os espectadores são convidados a espionar esses seres, mas o que a intimidade revela é devastador.

A barbárie começa em casa

Em uma das primeiras cenas do filme vemos Erika chegando em casa e se envolvendo numa briga com sua mãe. A velha senhora vasculha a bolsa da filha, encontra uma nota fiscal e rasga a roupa nova que Erika acabou de comprar, gesto que é respondido pela personagem de Huppert com violência, golpeando a própria mãe na cabeça. Em poucos minutos percebemos que o autoritarismo de Erika com seus alunos é uma continuação do que acontece em sua casa. Em outra cena igualmente estranha, a filha deita-se sobre o corpo da mãe (elas dormem, curiosamente, no mesmo quarto) e declara seu amor por ela, em uma mistura muito constrangedora de carência e erotismo.

O mal-estar é na verdade a tônica de quase todas as cenas. Vemos Erika cortar-se na região genital com uma gilete em sua banheira, arrancando sangue de si própria em uma cena longa e dolorosa. Em outro momento do filme ela urina enquanto espiona um casal fazendo sexo em público.

Quando entra em cena o estudante Walter Klemmer tudo desanda. A relação de autoridade sustentada pela professora começa a desmoronar e, ao confessar suas parafilias e intimidades, Erika assiste ao aluno transformar o erotismo em desprezo, humilhando-a e abusando sexualmente de seu corpo.

A falsa neutralidade proposta por Haneke é uma estratégia para aprisionar o espectador e castigá-lo. Tudo parece simples, sem truques, cru, mas o resultado é doloroso. A protagonista começa nos causando asco, mas é difícil não sentir compaixão por ela.

Huppert é uma das grandes responsáveis pela qualidade do filme. Sua Erika convence por saber, apenas com um olhar, ou um escorrer de lágrimas silenciosas, transmitir toda a dor de uma criatura em agonia. Em algumas cenas a atriz não precisa sequer se movimentar muito: apenas seu corpo parado, bem posicionado diante dos outros personagens (em muitas cenas de diálogo, Haneke sabiamente opta por permanecer filmando apenas a personagem de Huppert, em vez de realizar os esperados movimentos de plano e contraplano), revela uma mulher em descompasso com a sociedade, estagnada, incapaz de viver os próprios desejos, glacial, repulsiva, mas em muitos momentos também sublime e digna de compaixão, como um animal ferido.

Desconforto e ambiguidade

Essa neutralidade e frieza, conforme o filme caminha para seu fechamento, pode indicar uma narrativa de punição para Erika. Por um lado, muitos espectadores podem chegar à conclusão de que a mãe severa e suas exigências contra a filha, além da sombra de um pai que morreu louco internado em um sanatório, seriam as “fontes” do comportamento desviante da protagonista. É de se pensar se, não intencionalmente, o modo como Haneke construiu sua história não acabou dando margem a fracas leituras moralistas. Pode parecer que, em nome da provocação e do incômodo, o que se criou foi uma fábula punitiva, um castigo ao voyeurismo do espectador e aos desejos de Erika. Outra leitura seria a de que ao ser estuprada e agredida por Walter, Erika veria a realização, de forma distorcida, de uma de suas fantasias. Interpretação possível, mas difícil, já que na cena final vemos a personagem de Huppert esfaquear o próprio ombro e sair caminhando pelas ruas de Viena, logo após encontrar Walter feliz com um grupo de amigos, abandonando o concerto em que ela deveria tocar. Fica sugerido o profundo incômodo que o ex-aluno lhe causa.

O fato é que Haneke (e Jelinek, autora do romance) nos joga tão fundo no abismo do desconforto vivido pela personagem que é difícil se apegar apenas a uma interpretação. É impossível decodificar em sentimentos simples o que se passa com Erika quando ela abandona o filme e decide vagar por Viena. Haneke deixa aberto o espaço para que sintamos compaixão por ela e percebamos que sua vida interior é muito mais complexa do que parece.

É a sociedade burguesa que pune Erika, por meio de sua mãe, de Walter e das rígidas regras morais que a protagonista também reproduz. A professora de piano é um estudo da violência dentro das relações humanas e dos espaços de intimidade burguesa que prometiam ser locais de conforto e de proteção.

Existe, por mais estranho que seja, um vislumbre de insubordinação na ferida que Erika faz em seu próprio ombro quando o filme está prestes a acabar. Por um lado, esta é a imagem de uma criatura acuada e em desespero, mas também é a sua primeira tentativa de fuga dos espaços fechados que a oprimiram por toda a vida.

Fonte:https://outraspalavras.net/poeticas/cinema-o-abismo-do-desconforto/

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