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"120 anos será nosso próximo marco":
clínicas e spas atendem clientes ricos que buscam viver mais
Clínicas especializadas, hotéis e
clubes de luxo prometem uma vida mais longa com o uso de técnicas como o
biohacking. Por outro lado, a tecnologia não substitui hábitos saudáveis para
envelhecer bem; vale lembrar que nem tudo está no nosso controle
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13/05/2026 08h01 Atualizado há 4 dias
A sala de espera é decorada com cores claras e tem latinhas de kombucha para os visitantes. Em uma estante, livros como Tempo de Vida, de David A. Sinclair, de subtítulo 'Por que envelhecemos — e por que não precisamos'. A clínica Longevitar, aberta em agosto do ano passado em um imóvel de 700 m² na Vila Nova Conceição, em São Paulo, consiste em um centro de luxo voltado para soluções que propõem viver de forma mais saudável e por mais tempo. “Hoje, acredita-se que 120 anos será nosso próximo marco de longevidade”, aposta Gabriel Azevedo, fundador do negócio e médico nutrólogo com experiência em medicina regenerativa e musculoesquelética.
Seu time trabalha com métodos de regeneração celular e otimização hormonal e metabólica — o chamado biohacking, termo que descreve a ideia de manipular o organismo para aproveitá-lo ao máximo. “Buscamos entender como retardar o envelhecimento, ou então como pegar um órgão lesionado e devolver função a ele”, resume. As assinaturas, de três meses a um ano, envolvem um regime de exames personalizado, medindo desde o estado da microbiota até respostas do corpo a dietas, além do acompanhamento de um “health manager”. O plano anual custa R$ 60 mil, e a consulta individual, R$ 2.200.
A clínica trabalha, por exemplo, na implantação da plasmaférese, técnica que remove substâncias nocivas ou em excesso na corrente sanguínea. “Fala-se muito sobre a retirada dos microplásticos por meio dessa tecnologia. A ideia é que a gente possa fazer uma filtragem de componentes deletérios, que fazem envelhecer e adoecer mais”, explica Gabriel.
Entre os clientes do endereço, boa parte são homens na faixa dos 40 anos. “É o empresário que tem sucesso profissional”, afirma o fundador. “Às vezes, ele já dedicou muito tempo ao trabalho, dormiu mal, se estressou e agora quer usar os recursos que conquistou para investir na saúde.”
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A vida longa faz a cabeça de afluentes há algum tempo. Em outubro, o norte-americano Larry Ellison, cofundador da Oracle, anunciou um investimento de 10 bilhões de libras em dez anos em seu instituto de tecnologia em Oxford, dedicado, entre outros temas, à saúde e à biologia regenerativa. Desde 2021, o empresário californiano Bryan Johnson faz da sua rotina um laboratório biológico, com o intuito de rejuvenescer seus órgãos e viver o máximo de tempo possível.
"Pela proximidade que temos com nossos clientes, notamos que, sem dúvida, há um desejo de viver mais e melhor com suas famílias", diz Paola Sarkis, diretora comercial e de experiência do cliente do Itaú Private, segmento do banco que atende a indivíduos que têm a partir de R$ 10 milhões. "Isso abrange o acesso às inovações que a indústria de saúde e wellness tem proporcionado constantemente, em velocidade muito rápida, inclusive possibilitando serviços e produtos hiper personalizados."
O interesse motiva ainda o turismo de longevidade. Trata-se do filão de um mercado maior, voltado a viagens destinadas ao bem-estar, que movimenta US$ 894 bilhões ao ano, segundo levantamento do instituto de pesquisa Global Wellness Institute. Muitos dos clientes de Gabriel procuram seus serviços após rodar por clínicas em Miami e na Costa Rica, por exemplo. A meta, inclusive, é instalar um novo centro da Longevitar na Flórida, fruto de um investimento de mais de US$ 5 milhões.
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Em julho passado, o grupo Soho House lançou um estúdio de longevidade para membros no Farmhouse, um de seus clubes exclusivos no Reino Unido, com serviços como infusão intravenosa de vitaminas, conhecida como soroterapia. O plano é expandi-lo ao longo de 2026 para endereços em Nova York, Miami, Londres e Los Cabos, no México, por meio da plataforma Soho Health Club.
Inaugurado no ano passado na paisagem alpina de Goten, na Suíça, o hotel Huus Quell tem apelo bucólico. “É um lugar remoto, no coração do país, com muitas vacas e cabras passeando”, explica Hans-Peter Veit, diretor do spa do local. O espaço se destacou em março na relação The World’s Greatest Places of 2026, da revista “Time”, como “um dos centros de bem-estar mais modernos da Suíça”.
Seus programas de dois dias e três noites são personalizados, com exames realizados por uma equipe médica interna. O complexo possui setenta quartos e capacidade para efetuar de quarenta a 100 tratamentos ao dia. Os planos incluem técnicas bastante presentes no universo do biohacking. Entre elas aparecem crioterapia (exposição a baixas temperaturas), terapia hiperbárica (câmara pressurizada com oxigênio puro) e outras baseadas em luz (como feixes infravermelhos ou LED). Uma diária cinco-estrelas ali custa a partir de R$ 6.400.
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A maioria dessas soluções traz resultados comprovados no tratamento de situações e diagnósticos específicos. A crioterapia ficou conhecida entre os atletas por seu potencial de regeneração muscular após treinos; estudos de 2025 reforçaram o papel da hiperbárica em casos de infecções severas e doenças ósseas; e a terapia de luz vermelha tem papel no controle da miopia. Porém, ainda há discussões sobre seus efeitos isolados para viver mais e melhor. Além disso, pacientes com tumores ativos ou problemas sanguíneos podem ser prejudicados por alguns desses métodos; portanto, recomenda-se cautela.
Regeneração e recuperação são palavras-chave nas brochuras desses centros, mas também algo que nosso corpo naturalmente realiza diariamente. “Trata-se de processos naturais, como a autofagia, a faxina celular que remove componentes velhos”, afirma a geriatra Andressa Dias, professora de pós-graduação da Afya Educação Médica. “Para envelhecer bem, devemos estimular esses mecanismos. A boa notícia é que isso não exige luxo: eles são ativados principalmente por exercício físico, sono reparador e boa nutrição.”
Pequenas mudanças já ajudam. “Saia, caminhe na rua, em um parque. É uma solução democrática”, comenta José Anísio da Silva, especialista em gerontologia e assistente social. Por fim, procedimentos pouco adiantam se o idoso não constrói uma rede afetiva que o auxilie a alcançar uma vida ativa e plena. “A amizade cura, faz bem para a nossa saúde”, nota José.
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Na questão da alimentação, o chef alemão Heinz Beck, do premiado restaurante La Pergola, em Roma, recrutado para criar o menu do retiro de saúde italiano Palazzo Fiuggi, destaca como boa prática a escolha de produtos que leva em consideração as estações do ano. “Um ingrediente que está no seu máximo potencial tem mais nutrientes, mais sabor e requer menos intervenções. É um pequeno gesto com grande impacto”, afirma.
Heinz, formado em bioenergia e naturopatia, argumenta que “a cozinha prazerosa pode melhorar a saúde”. Ele exalta a popular dieta mediterrânea, com a qual tem décadas de experiência. “O emprego de vegetais, legumes, grãos integrais, azeite de oliva extravirgem e uma quantidade moderada de proteínas cria um balanço perfeito. Vemos uma culinária que respeita tanto nosso corpo quanto nosso tempo”, diz.
Gabriel, da Longevitar, avisa: “A tecnologia não substitui o que a gente precisa fazer para conseguir uma boa saúde. Não existe longevidade sem mudança de hábitos”. No suíço Huus Quell, Hans-Peter e Jan Schoch, diretor do hotel, calculam que o biohacking leva uma pessoa a avançar até 20% ou 30% deste caminho. Por lá, a palavra longevidade é, inclusive, usada com cautela. “Acredito que logo ela estará desgastada”, prevê Hans-Peter. “Não prometemos que alguém vá viver mais, porque a pessoa pode ter uma boa resposta aos tratamentos e daí acabar atingida por um caminhão no dia seguinte”, complementa Schoch.
Envelhecer bem depende, em parte, de fatores que escapam ao nosso controle - e não falamos só de acidentes automotivos. “A longevidade concentra uma herança genética prevalente”, pontua o gerontólogo José Anísio. Uma pesquisa publicada em fevereiro na revista “Nature” a respeito dos chamados “super-agers” - pessoas de 80 anos ou mais com capacidade cognitiva comparável à de adultos de 50 - revelou não só rastros de maior formação de novos neurônios nesses indivíduos mas também uma programação genética que protege essas células dos efeitos da idade. No ano passado, a Universidade de Barcelona encontrou no organismo da centenária estadunidense Maria Branyas Morera, morta em 2024 aos 117 anos, genes responsáveis pela proteção cardiovascular, da saúde cerebral e do sistema imunológico.
Além da genética, hábitos, estilo de vida e ambiente fazem a diferença. A Suíça, que desponta nesse mercado, viu sua população de centenários dobrar a cada década entre 1950 e 2018, segundo o escritório de estatística local.
Hoje, há 24 centenários por 100 mil habitantes. Daqui a 45 anos, indivíduos com mais de 60 anos devem compor 37,8% da população brasileira, de acordo com o IBGE. “Não basta chegar aos 100 ou 90 anos. Pode ser muito legal? Sim, mas em que condições de saúde? Em que nível de sociabilidade?”, questiona José Anísio.
Fonte:https://gq.globo.com/saude/noticia/2026/05/longevidade-clinicas-spas-atendem-clientes-ricos-que-buscam-viver-mais.ghtml
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