ZARATUSTRA – DAS TRÊS METAMORFOSES

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ZARATUSTRA – DAS TRÊS METAMORFOSES

O discurso sobre as três metamorfoses abre o livro Assim falou Zaratustra, escrito por Nietzsche entre 1883 e 1885. A importância deste primeiro discurso é enorme. Nele, além de encontrarmos um primeiro indício do que significa o nome Zaratustra para além do superficial “estrela dourada”, encontramos referências que nos permitem pensar com alguma clareza o percurso da obra do próprio Nietzsche, que jamais teve a pretensão de escrever uma obra sistemática. Há de se “desconfiar dos sistemáticos”, dizia ele. É possível, entretanto, pensar um projeto nietzschiano a partir deste pequeno discurso de duas páginas.
edição finlandesa
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Este projeto se apresenta como uma transformação. Transformação de quê? Três metamorfoses do espírito é o que ele apresenta. É necessário algum cuidado com a noção de espírito: aqui, ela está para além daquela de “espírito livre” presente em Humano demasiado Humano (1878), ou melhor, ela é talvez um desdobramento daquela. Se naquele prefácio ele apontava para uma libertação do homem, tal qual “pássaro audaz”, que se desgarra dos valores que o superam, aqui este espírito ganha mais três representações, momentos de uma mesma libertação. Entretanto, deve-se notar também a enorme distância entre este espírito livre, representado pelo pássaro, e a derradeira forma do espírito, representado pela criança. O que os separa? A vontade de verdade. Vejamos…
O que é pesado? Assim pergunta o espírito resistente, e se ajoelha, como um camelo, e quer ser bem carregado.
Sob o signo do Camelo, encontra-se a vontade de verdade. Alimentar-se da “erva daninha do conhecimento e pela verdade padecer fome na alma”. Encontra-se também a vontade de submissão, de rebaixamento, de humilhação, de humildade, de “fazer brilhar sua tolice”. Aqui, não há nada para além da aceitação. Por mais atrozes que sejam as condições e mais forte seja o espírito, haverá apenas sujeição e a obediência. E com todo o peso dos valores por sob as costas, ele ruma para o deserto. Mas é no deserto que acontece a segunda metamorfose:
Qual é o grande dragão, que o espírito não deseja chamar de senhor e deus? “Não farás” chama-se o grande dragão. Mas o espírito do leão diz “Eu quero”.
No solitário deserto, o dragão de escamas douradas aparece como a encarnação dos “valores milenares”. Em cada escama, um “Não farás”, um “Tu deves” para o qual o camelo teria pressa em se ajoelhar, mas não o leão. Ele brada a plenos pulmões: “Eu quero”, “Eu farei”. Desafia este dragão, senhor dos valores, a personificação de toda proibição a fim de “criar liberdade para si e um sagrado Não ante o dever”. O leão nada mais é do que o camelo que toma conta de sua força, apercebe-se de suas capacidades e diz não, ao invés de renunciar. Mas para quê este não? De que serve esta luta? Qual sue propósito? Criar novos valores? Não, isto não está no poder do leão, ele é apenas um combatente. Este não leonino só é não na medida em que está a serviço de um sim, de uma afirmação por vir. Ele cria “a liberdade para a nova criação”:
Inocência é a criança, e esquecimento; um novo começo, um jogo, uma roda a girar por si mesma, um primeiro movimento, um sagrado dizer-sim.
Eis a derradeira transformação. Este espírito, que amou outrora sua devoção, passou a desafiar todo e qualquer sagrado, apaixonou-se por sua vontade e agora, com posse de direito por sob a criação, quer afirmar este amor! Quer tornar sagrado o dizer-sim. A criança pode o que nem camelo, nem leão puderam fazer: criar, brincar, jogar, “girar por si  mesma”. Que é querer uma vontade? É dizer Sim para o “jogo da criação”. É tomar o mais pesado dos fardos pela mais leve das plumas.
Que distância! Do espírito livre de Humano Demasiado Humano à criança de Assim falou Zaratustra. Onde foi parar a vontade de verdade? Nesta última fase, ela não passa do primeiro momento, daquele que busca motivos para jogar o tal jogo, daquele que quer saber ao certo os culpados por seu sofrimento, ela habita o coração do camelo. Qual a relevância da Verdade para a criança? Nula. Toda veracidade termina por se submeter à intencionalidade: a verdade estará daqui em diante a serviço da vontade, não o contrário.
Após entender o que o Camelo representa para Nietzsche, podemos pensar então um segundo significado mais profundo para o nome Zaratustra. Um livro do historiador Friedrich Von Hellwald, chamado História da civilização em seu desenvolvimento natural (1874), possivelmente consultado por Nietzsche, mostra um outro significado do nome Zaratustra: “aquele que possui bravos camelos”. O que é o profeta? Um adestrador de camelos? O contrário: ele é aquele que deve lidar com eles. Colocá-los no caminho das metamorfoses: incitá-los a recusar seu peso, enfrentar seus demônios e dizer um gracioso Sim para suas vontades.
Fonte:https://razaoinadequada.com/2013/11/09/zaratustra-das-tres-metamorfoses/

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