Vacinas personalizadas, exercício e IA impulsionam
nova era no tratamento do câncer
De medicamentos personalizados de alta tecnologia a
intervenções tão simples e baratas quanto um programa de exercícios físicos
estão entre as novas armas inovadoras contra a doença
Por Thiago Jorge
12/07/2026 04h00 Atualizado há um mês
Durante muito tempo, a história dos avanços contra
o câncer foi marcada e celebrada pelo anúncio de uma grande descoberta, como um
novo remédio, uma nova tecnologia ou um estudo capaz de mudar o tratamento de
determinado tumor. Mas a principal mensagem da 61ª reunião anual da Sociedade
Americana de Oncologia Clínica (ASCO), realizada em maio deste ano, em Chicago,
nos Estados Unidos, foi outra. Em vez de uma única descoberta, diferentes
frentes começaram a produzir resultados relevantes ao mesmo tempo.
Essa mudança ficou evidente ao longo de toda a
conferência. Um dos momentos mais marcantes ocorreu durante a apresentação dos
resultados do estudo RASolute 302, conduzido pelo Dana-Farber Cancer Institute,
nos Estados Unidos, quando uma plateia de milhares de médicos se levantou para
aplaudir.
A terapia que emocionou a audiência foi o daraxonrasibe,
um novo tratamento contra o câncer de pâncreas, doença cuja sobrevida em cinco
anos é de apenas cerca de 3% e que sempre foi considerada uma das mais
frustrantes quanto à eficácia de novas drogas. Os dados do estudo mostraram que
o medicamento quase dobrou a sobrevida desses pacientes em comparação com a
quimioterapia.
O medicamento que rompeu a habitual sisudez dos
congressos ataca um gene chamado RAS, descrito pela primeira vez em tumores de
ratos nos anos 1960 e identificado em câncer humano em 1982, hoje conhecido
como possível alvo em quase um terço dos tumores existentes. Durante mais de
quarenta anos, o câncer de pâncreas foi considerado impossível de combater.
Para uma doença que resistiu a décadas de tentativas, a palavra que ecoou nos
corredores sobre o novo tratamento foi “transformador”.
Da vacina
personalizada ao exercício
Como oncologista, vivo para equilibrar esperança,
expectativas e ceticismo. E o que mais me chamou atenção na conferência deste
ano não foi apenas essa droga, por mais notável que seja. Foi perceber que ela
era apenas uma entre várias frentes de avanço. E que essas frentes não se parecem em nada umas com as outras. De um
lado, vacinas personalizadas de altíssima tecnologia e reposicionamento de
medicamentos. Do outro, intervenções tão simples e baratas quanto uma caminhada
ou um comprimido de aspirina.
A primeira dessas frentes nasceu de uma tecnologia
que o mundo inteiro conheceu na pandemia. As vacinas de mRNA contra a Covid-19
funcionavam como um bilhete de instruções: ensinavam nossas células a produzir
um pedacinho do vírus, treinando o sistema imune a reconhecê-lo. A mesma ideia
está agora sendo expandida contra o câncer, com um verdadeiro tratamento
personalizado para a neoplasia de cada paciente.
O princípio é elegante. Depois da cirurgia para remover o tumor, os cientistas analisam o
material genético daquele câncer específico e identificam as mutações que o
tornam diferente das células saudáveis. Com base nisso, produzem uma vacina sob
medida, que ensina o sistema imune do paciente a “caçar” exatamente
aquelas células.
Um remédio
diferente para cada pessoa
Na conferência deste ano, foram apresentados também
os resultados de cinco anos de estudo com pacientes de melanoma de alto risco
(o câncer de pele mais agressivo). Quem recebeu a vacina personalizada (chamada
Intismeran) somada à imunoterapia teve quase metade do risco de a doença voltar
ou levar à morte em comparação com quem recebeu só a imunoterapia. Cinco anos
depois, cerca de 69% dos pacientes que tomaram a vacina seguiam livres do
câncer.
Ainda é um estudo de porte modesto, e a confirmação
definitiva depende de testes maiores já em andamento. Mas a mesma estratégia já
está sendo testada em tumores de pâncreas, pulmão e bexiga. É a fronteira mais
sofisticada da oncologia: um remédio diferente para cada pessoa.
A segunda frente não poderia ser mais diferente e,
talvez por isso, seja a mais surpreendente. Enquanto laboratórios investem
bilhões em vacinas personalizadas, parte das melhores notícias recentes veio de
coisas que já estão ao alcance de quase todo mundo.
O estudo internacional CHALLENGE acompanhou
pacientes operados de câncer de intestino e
mostrou que um programa estruturado de exercício físico, depois do tratamento,
reduziu o risco de a doença voltar e aumentou a sobrevida. A taxa de sobrevida livre da doença em cinco anos foi de 80,3%
para o grupo de exercícios, contra 73,9% para o grupo que recebeu apenas
orientações educativas de saúde.
O ganho era comparável ao de alguns medicamentos
aprovados, só que o “remédio” aqui era atividade física orientada. Na
conferência deste ano, pesquisadores foram além e mostraram que esse tipo de
programa também é vantajoso do ponto de vista de custo, um argumento importante
para sistemas públicos e privados de saúde de todo o mundo.
A contribuição
da IA
Algo parecido vem acontecendo com remédios sendo
redescobertos para novos usos, o que chamamos de reposicionamento de
drogas. Uma dose baixa de aspirina, aquele comprimido de centavos, reduziu
pela metade o risco de recidiva num grupo de pacientes com câncer de intestino
identificado por um exame genético do tumor. Mais marcante ainda
foi o caso de um remédio originalmente criado para câncer de
mama, o abemaciclibe: testado contra um sarcoma raro e agressivo, tornou-se o
primeiro tratamento da história a funcionar nessa doença.
A lógica é o que há de mais moderno na oncologia.
Em vez de classificar o câncer pelo órgão onde nasce, olhamos para o defeito
biológico que o move. Esse sarcoma e alguns tumores de mama compartilham a
mesma engrenagem celular avariada. Faz sentido, então, que o mesmo remédio
trave as duas.
Para um país como o Brasil, essa frente é
especialmente valiosa: aqui, a esperança que cabe no orçamento pode chegar a
muito mais gente e doenças raras, tantas vezes esquecidas, ganham uma chance.
Usando drogas que estão no mercado e muitas já com medicações genéricas
disponíveis.
O que conecta extremos tão distantes? Uma vacina
sob medida e um comprimido de aspirina? Cada vez mais, a resposta é a
inteligência artificial. Nenhuma das descobertas deste ano foi “inventada” por
um computador; todas vêm de anos de biologia paciente. Mas o gargalo comum a
elas é a capacidade de enxergar a biologia certa, na pessoa certa: prever quais mutações o sistema imune realmente reconhece,
decifrar qual paciente responde à aspirina, encontrar o defeito celular
escondido. São a agulha no palheiro, achar padrões em montanhas de dados,
exatamente onde a IA se destaca.
Na conferência deste ano, os estudos usando IA se
multiplicaram a ponto de a organização criar trilhas dedicadas ao tema,
inclusive uma voltada a levar essas ferramentas a regiões com poucos recursos.
Convém ter os pés no chão, pois muitos desses trabalhos ainda são preliminares.
Mas a direção é clara: a IA é o tecido que costura as demais frentes e acelera
todas elas.
Volto, então, àquela plateia de pé em Chicago. A
ovação não celebrava um lampejo de sorte, mas o acúmulo de décadas de ciência
teimosa. É essa a verdadeira mensagem de 2026: o progresso contra o câncer
raramente é um milagre súbito. É paciente, vem de muitas direções ao mesmo
tempo e, agora, conta com uma ferramenta nova para apressar o passo.
Thiago Jorge é coordenador do
Setor de Tumores Gastrointestinais do Centro Especializado em Oncologia do
Hospital Alemão Oswaldo Cruz. O autor também coordena o Programa de Inovação em
Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Fonte: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/07/12/vacinas-personalizadas-exercicio-e-ia-impulsionam-nova-era-no-tratamento-do-cancer.ghtml
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