VACINA EXPERIMENTAL E PERSONALISADA CONTRA CÂNCER REDUZ RISCO DE MELANOMA VOLTAR, APONTA RESULTADO PRELIMINAR DO ESTUDO NA FASE 3


 Vacina personalizada contra câncer vence etapa decisiva em estudo de fase 3

Vacina experimental contra câncer reduz risco de melanoma voltar, aponta resultado preliminar

Resultado foi divulgado pelas empresas Moderna e Merk, responsáveis pela pesquisa, em relatório preliminar. Melanoma é um tipo agressivo de câncer de pele.

Por Poliana Casemiro, g1

19/08/2026 09h39  Atualizado há 2 semanas

Uma vacina experimental personalizada contra um tipo de câncer de pele (melanoma), desenvolvida pela Merck e pela Moderna, reduziu o risco de a doença voltar após a cirurgia, segundo resultados preliminares do primeiro ensaio clínico de fase final do tratamento. O relatório foi divulgado pela Moderna nesta quarta-feira (19).

Chamada de intismeran autogene, a vacina é diferente das usadas para prevenir doenças infecciosas: em vez de proteger contra o câncer antes que ele apareça, ela é fabricada sob medida para tratar um tumor que já existe, a partir das mutações genéticas específicas daquele paciente.

🔎 O melanoma é um tipo de câncer de pele que se desenvolve nos melanócitos, células responsáveis pela produção de melanina, pigmento que dá cor à pele. Embora seja menos comum que outros tipos de câncer de pele, é considerado o mais agressivo por ter maior capacidade de se espalhar para outras partes do corpo (metástase).

No estudo, ela foi testada em combinação com o Keytruda (pembrolizumabe), imunoterápico da Merck já usado no tratamento do melanoma — um tipo agressivo de câncer de pele.

De acordo com a empresa, o tratamento atingiu os dois principais objetivos:

  • Prolongar significativamente o tempo de sobrevida dos pacientes sem recidiva do melanoma, em comparação com o tratamento apenas com Keytruda.
  • Além de reduzir o risco de disseminação do câncer para outras partes do corpo.

A vacina foi testada em pacientes com melanoma que haviam passado por cirurgia para retirada completa do tumor, mas ainda corriam risco de a doença voltar.

Pacientes que receberam os dois tratamentos juntos tiveram menos recorrências da doença e menos casos de metástase do que os tratados apenas com Keytruda.

Como funciona a vacina

Diferentemente das vacinas usadas para prevenir doenças infecciosas, a intismeran não protege contra o câncer antes que ele apareça: ela é fabricada sob medida para tratar um tumor que já existe, a partir das mutações genéticas específicas de cada paciente.

E como isso acontece?

  • Uma amostra do tumor é sequenciada para identificar essas mutações — uma espécie de "impressão digital" molecular daquele câncer.
  • A partir daí, é produzida uma molécula de mRNA capaz de codificar até 34 alvos (neoantígenos) presentes só naquele tumor.
  • Injetada no paciente, ela ensina o sistema imunológico a reconhecer essas mutações e atacar as células que as carregam.

O Keytruda age de outra forma: bloqueia uma proteína (PD-1) que os tumores usam para escapar da vigilância do sistema imune, permitindo que os linfócitos T ajam com mais eficiência. A combinação busca unir os dois mecanismos — um aponta o alvo, o outro remove o freio da resposta imune.

O que o estudo descobriu?

O estudo atual incluiu 1.137 pacientes com melanoma cutâneo. Dois terços receberam a combinação da vacina com Keytruda, e um terço recebeu apenas o imunoterápico, por cerca de um ano.

Numa análise interina — feita antes do fim previsto do estudo —, o grupo que recebeu a combinação apresentou resultados estatisticamente superiores tanto na sobrevida livre de recorrência quanto na sobrevida livre de metástase à distância.

A informação foi divulgada em um comunicado das empresas nesta quarta-feira. O estudo ainda está em andamento e não foi publicado. Moderna e Merk não divulgaram os percentuais exatos de redução de risco observados nesta nova análise.

Em um estudo de fase intermediária com pacientes de melanoma de alto risco submetidos à cirurgia, a mesma combinação havia reduzido o risco de recorrência ou morte em 49% após cinco anos, resultado consistente com os dados de acompanhamento de três anos apresentados em 2023.

O perfil de segurança da combinação, segundo o comunicado, foi consistente com o observado em estudos anteriores, sem novos sinais de risco identificados.

Tecnologia está sendo testada em outros tipos de câncer

O estudo divulgado nesta quarta trata especificamente de melanoma, mas a tecnologia por trás da vacina está sendo testada em outros tipos de tumor.

O programa de pesquisa, chamado INTerpath, reúne nove estudos de Fase 2 e Fase 3 em andamento, incluindo câncer de pulmão de não pequenas células, câncer de bexiga e carcinoma de células renais.

Há ainda estudos em fase inicial para câncer de pâncreas, estômago e outro tipo de tumor de pulmão.

A tecnologia por trás dela é a mesma plataforma de mRNA usada pela Moderna para desenvolver sua vacina contra a Covid-19. A empresa tem buscado transformar sua plataforma de mRNA em uma franquia mais ampla e duradoura, aplicando a outros quadros.

O que esperar com essa tecnologia?

Para o oncologista Stephen Stefani, tratamentos personalizados como esse ocupam um espaço cada vez mais relevante na literatura médica, mas os resultados anunciados nesta quarta ainda precisam avançar por outras etapas antes de mudar a prática clínica.

Ele pondera que a estratégia de usar vacinas customizadas contra o câncer já é discutida pela comunidade científica há bastante tempo, mas que transformar esse conhecimento em um tratamento disseminado depende de fatores que ainda não podem ser avaliados a partir do que foi divulgado até agora.

"A boa notícia é que sim, estamos avançando em termos de novos conhecimentos. Agora, fato é de transformar isso numa prática disseminada e institucionalizada vai depender de muitos aspectos que não estão ainda disponíveis para avaliar. Há muito tempo se vem falando nessa estratégia de tratar pacientes com esse modelo de vacina. E, obviamente, se eu tenho algum dado que mostrou um aumento de sobrevida global, ele tem que ser olhado com atenção", explica.

Fonte: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/08/19/vacina-cancer.ghtml

Vacina personalizada contra câncer vence etapa decisiva em estudo de fase 3

Por

 renatochimirri

 -

21 de agosto de 2026

 

Apesar da expressão “vacina contra o câncer”, há uma diferença fundamental: não estamos falando de uma vacina aplicada em pessoas saudáveis para impedir que elas desenvolvam câncer

Uma vacina feita praticamente sob medida para o tumor de cada paciente acaba de superar uma das etapas mais importantes antes de um medicamento chegar à medicina cotidiana.

Um estudo clínico de fase 3 mostrou resultados positivos para uma terapia personalizada de RNA mensageiro desenvolvida para pacientes com melanoma, um dos tipos mais agressivos de câncer de pele.

O resultado foi anunciado nesta semana e representa um avanço importante para uma ideia que a ciência persegue há anos: utilizar informações genéticas do próprio tumor para ensinar o sistema imunológico a reconhecer e combater células cancerígenas que tenham permanecido no organismo.

A tecnologia, denominada intismeran autogene (V940/mRNA-4157), é desenvolvida pela Moderna em parceria com a Merck, conhecida como MSD fora dos Estados Unidos e Canadá.

Apesar da expressão “vacina contra o câncer”, há uma diferença fundamental: não estamos falando de uma vacina aplicada em pessoas saudáveis para impedir que elas desenvolvam câncer.

Trata-se de uma vacina terapêutica e personalizada, destinada, neste estudo, a pessoas que já tiveram melanoma e passaram por cirurgia para retirada completa do tumor.

Como é possível criar uma vacina para o tumor de uma pessoa?

É justamente aqui que está um dos aspectos mais interessantes da tecnologia.

Depois da retirada do câncer, uma amostra do tumor é analisada. Os pesquisadores procuram alterações genéticas capazes de produzir proteínas anormais — os chamados neoantígenos — que diferenciam aquelas células cancerígenas das células normais.

A partir dessa espécie de “impressão digital” molecular do tumor, é produzida uma terapia individualizada de RNA mensageiro.

Ela pode carregar informações relacionadas a até 34 neoantígenos específicos daquele câncer.

Quando administrada, a intenção é fazer com que o sistema imunológico reconheça esses alvos e desenvolva uma resposta contra células que apresentem aquelas mesmas características.

Isso significa que o tratamento produzido para um paciente não é necessariamente igual ao utilizado em outro.

Vacina foi combinada com imunoterapia

A estratégia não foi testada isoladamente.

No estudo, a vacina personalizada foi administrada juntamente com pembrolizumabe, uma imunoterapia já utilizada no tratamento de diferentes tipos de câncer.

O pembrolizumabe atua retirando uma espécie de “freio” do sistema imunológico, permitindo que as células de defesa tenham maior capacidade de atacar o câncer.

A vacina, por sua vez, procura mostrar ao sistema imunológico quais características específicas ele deve reconhecer naquele tumor.

É justamente a combinação dessas duas estratégias que está sendo estudada.

Fase 3 atingiu os principais objetivos

O estudo internacional, chamado INTerpath-001, envolveu pacientes com melanoma de alto risco nos estágios IIB a IV, que haviam passado pela retirada completa do tumor.

A pesquisa comparou a combinação da vacina personalizada com pembrolizumabe ao tratamento com pembrolizumabe e placebo.

Os resultados preliminares divulgados nesta semana mostram que o estudo atingiu seus dois principais objetivos.

Um deles foi a chamada sobrevida livre de recorrência — em termos simples, quanto tempo o paciente permanece sem que o câncer retorne.

O segundo avaliou a sobrevida livre de metástase a distância, ou seja, o período sem que a doença apareça em órgãos ou regiões distantes do local original.

Segundo as informações divulgadas, houve melhora estatisticamente significativa e considerada clinicamente relevante nos dois indicadores.

É justamente por se tratar de um estudo de fase 3 que o resultado ganhou repercussão internacional. Essa é uma das etapas mais rigorosas do desenvolvimento de um novo tratamento e normalmente antecede uma eventual submissão às autoridades regulatórias.

Mas qual foi o tamanho do benefício?

Essa pergunta ainda não pode ser respondida completamente.

As empresas anunciaram que a fase 3 atingiu seus objetivos, mas os dados detalhados ainda não foram apresentados publicamente à comunidade científica.

Isso significa que ainda será necessário conhecer números fundamentais para avaliar a dimensão do avanço, como a redução percentual do risco de retorno do melanoma observada no novo estudo.

Os resultados completos deverão ser apresentados em um congresso médico e encaminhados para publicação científica.

Portanto, é importante evitar conclusões como “vacina contra o câncer foi aprovada” ou “vacina cura câncer”.

Nenhuma dessas afirmações corresponde ao estágio atual da pesquisa.

Pesquisa anterior já havia chamado atenção

O otimismo em torno da fase 3 não começou agora.

Um estudo anterior, de fase 2b, já havia apresentado resultados considerados promissores para a mesma combinação.

No acompanhamento de longo prazo divulgado em 2026, a associação da terapia personalizada com pembrolizumabe manteve benefício em pacientes com melanoma de alto risco quando comparada ao uso do imunoterápico sozinho.

Esses resultados contribuíram para que o desenvolvimento avançasse até estudos maiores.

É importante, entretanto, separar os dados: os percentuais divulgados nos estudos anteriores não devem ser automaticamente atribuídos à nova fase 3.

Os números definitivos dessa etapa ainda serão apresentados.

Por que a fase 3 é tão importante?

Antes de um novo medicamento chegar aos pacientes, ele passa por uma longa sequência de estudos.

As primeiras fases procuram responder questões relacionadas principalmente à segurança, dose e sinais iniciais de atividade.

Conforme o desenvolvimento avança, os estudos ficam maiores e mais rigorosos.

Na fase 3, centenas ou milhares de pacientes podem participar e o tratamento experimental é comparado com a estratégia considerada padrão ou com um grupo de controle.

Um resultado positivo nessa etapa pode fornecer as evidências necessárias para que os responsáveis pelo medicamento solicitem sua avaliação por autoridades sanitárias.

Ainda assim, fase 3 positiva não significa aprovação automática.

Os órgãos reguladores precisam analisar os dados completos sobre benefícios, riscos, efeitos adversos e fabricação antes de autorizar um tratamento.

Uma tecnologia que ficou famosa na pandemia

O RNA mensageiro tornou-se conhecido mundialmente por causa das vacinas contra a Covid-19, mas sua utilização na medicina não começou com a pandemia.

Pesquisadores estudam há décadas maneiras de utilizar essa molécula para transmitir temporariamente instruções às células.

No caso do câncer, o objetivo é aproveitar essa capacidade para fornecer ao sistema imunológico informações que permitam reconhecer características específicas do tumor.

E existe uma diferença enorme entre fabricar uma vacina contra um vírus e produzir uma terapia individualizada contra câncer.

Neste caso, é necessário analisar o tumor, identificar mutações relevantes, selecionar os alvos e fabricar uma terapia específica para aquele paciente.

Isso também cria desafios de custo, logística e velocidade de produção caso a tecnologia venha a ser utilizada em larga escala.

Pesquisa não significa vacina para todos os tipos de câncer

Outro cuidado é necessário diante da repercussão da notícia.

“Câncer” não representa uma única doença. Existem centenas de tipos e subtipos diferentes, com comportamentos biológicos próprios.

O resultado divulgado agora envolve especificamente melanoma de alto risco retirado cirurgicamente.

Não é possível concluir, a partir desse estudo, que a mesma vacina funcione contra câncer de próstata, mama, pulmão, intestino ou qualquer outro tumor.

A tecnologia, entretanto, está sendo investigada em outros tipos de câncer, incluindo estudos envolvendo câncer de pulmão e outros tumores.

Cada indicação terá que demonstrar separadamente sua eficácia e segurança.

O que acontece agora com a vacina?

Com os resultados positivos da fase 3, os próximos passos serão decisivos.

Os pesquisadores deverão apresentar os dados completos para que especialistas independentes possam avaliar a magnitude dos benefícios e os possíveis efeitos adversos.

As empresas também pretendem discutir os resultados com autoridades regulatórias.

Somente depois dessas análises será possível saber quando — e em quais condições — a terapia poderá ser aprovada.

Ainda existe, portanto, um caminho entre o anúncio desta semana e a utilização rotineira nos hospitais.

Mas o resultado representa um marco importante: uma terapia personalizada de RNA mensageiro contra o câncer conseguiu alcançar resultados positivos em uma das etapas clínicas mais exigentes do desenvolvimento de medicamentos.

Se os dados completos confirmarem o benefício observado, a medicina poderá estar mais perto de transformar a genética particular do tumor de cada paciente em uma arma para evitar que a doença volte.

Fonte:https://saocarlosemrede.com.br/vacina-contra-cancer-fase-3-melanoma-rna-mensageiro/

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