DESCOMPASSO METABÓLICO A DOIS: MENOPAUSA, QUEDA HORMONAL MASCULINA E GANHO DE PESO ABALAM VIDA ÍNTIMA
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Descompasso
metabólico a dois: menopausa, queda hormonal masculina e ganho de peso abalam
vida íntima
Envelhecimento simultâneo do casal
desafia intimidade; e conceitos de ‘double pause’ e ‘duo pause’ explicam
distanciamento físico e emocional na meia-idade
Por
Luísa Giraldo
, em colaboração para Marie Claire — do Rio de Janeiro (RJ)
06/09/2026 06h00 Atualizado há uma semana
Angela (Olivia Wilde) e Joe (Seth Rogen) vivem um relacionamento em crise, preso na rotina e marcado pela falta de desejo na meia-idade. As décadas transformaram o casal, protagonista do recém-lançado filme O Convite, em pessoas que dividem o mesmo teto, porém relutam em aceitar que a passagem dos anos alterou a dinâmica romântica. É preciso um jantar com os vizinhos Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz), que transbordam química e paixão, para que eles exponham sentimentos e reconheçam, pela primeira vez, o peso do tempo sobre o amor e o sexo.
O drama vivido na ficção reflete uma realidade que bate à porta de milhares de lares, uma vez que as transformações do corpo maduro cobram um preço alto na convivência conjugal. O chamado “divórcio cinza” (separações registradas a partir dos 50 anos) já representa entre 30% e 36% dos processos de dissolução matrimonial no país, segundo dados consolidados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2023.
O descompasso hormonal pode ter impacto direto nesse cenário. Uma pesquisa conduzida pelo Family Law Menopause Project, em parceria com a Newson Health Research and Education, revelou que 73% das mulheres divorciadas entrevistadas identificaram a menopausa ou a perimenopausa como fator decisivo para o término do casamento.
O debate ganha urgência diante do novo mapa demográfico global. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, até 2030, uma em cada seis pessoas terá 60 anos ou mais. Em 2050, a população de idosos vai duplicar e alcançar 2,1 bilhões de indivíduos.
Em celebração ao 6 de setembro (6/9), o Dia do Sexo, Marie Claire optou por lançar luz sobre a sexualidade na maturidade, que ainda é cercada de mitos, silêncios e desinformação.
‘Double pause’: quando a biologia dos dois entra em pane
Na endocrinologia moderna, o descompasso biológico que atinge casais na faixa dos 40 aos 50 anos ganhou o nome de double pause. O conceito clínico define o momento em que os parceiros enfrentam problemas orgânicos e hormonais simultâneos que os impedem de exercer a sexualidade plenamente.
A presidente eleita da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) para o biênio 2027-2028, Karen De Marca, avalia que o processo de envelhecimento feminino é fisiológico, universal e marcado por uma queda abrupta na produção dos ovários.
“Quando a menopausa chega, ocorre uma mudança hormonal que pode gerar sintomas que afastam a mulher da relação sexual. Sem tratamento, surgem sintomas vulvovaginais e geniturinários, como o ressecamento, que dificultam o ato. Também há perda de sono, alteração de humor e calores, que causam desconforto. Existe uma diminuição da libido; embora não seja algo que a encerre de forma definitiva, a queixa é muito circunstancial e ligada ao contexto do envelhecimento”, observa.
Assim como Claudia Raia e Mônica Martelli, a atriz e jornalista Monique Curi, de 57 anos, quebrou o tabu em torno do tema e transformou as redes sociais em um espaço de relatos sobre o climatério. Quando a artista entrou na menopausa, aos 50, a perda repentina do desejo sexual abalou o relacionamento com o companheiro.
“Fugia do meu marido igual o diabo foge da cruz. A minha libido foi embora. Colocava o meu pijama de flanela mais feio que tinha e enchia o rosto de creme. De uma hora para outra, não sentia mais desejo. Cheguei até a questionar o amor pelo meu marido: ‘Será que amo ele? O que está acontecendo?’”, relembra.
Ainda sem relacionar o quadro à menopausa por falta de informação, Curi pesquisou por conta própria e buscou ajuda especializada. “Depois que fui ao endocrinologista, comecei a entender que várias coisas que sentia já eram da menopausa. É o corpo pedindo atenção. Tem jeito, e a faísca pode voltar”, reforça ela.
Em contrapartida, o organismo masculino vive um processo gradual, já que o homem não passa pela menopausa nem sofre um declínio hormonal obrigatório. Alexandre Hohl, presidente da Associação Brasileira de Estudos em Medicina Sexual, analisa que o declínio nos níveis de testosterona depende de fatores externos e do estilo de vida.
“O homem pode, por uma questão de envelhecimento, ter um grau de queda de testosterona. Ela pode ser intensificada se houver obesidade ou diabetes, o que chamamos de hipogonadismo associado à obesidade: uma condição que causa queda de libido, disfunção erétil e redução da performance sexual”, detalha.
A obesidade e o ganho de peso funcionam como um catalisador desse distanciamento físico e psicológico. Como pontua De Marca, a baixa autoestima faz com que o indivíduo deixe de se sentir confortável com o corpo e perca a iniciativa íntima:
“No homem, o hipogonadismo relacionado à obesidade é causado pela síndrome metabólica e pela inflamação, mas pode ser revertido apenas com a perda de peso, sem a necessidade de fármacos. O tratamento da obesidade pode impactar a libido pelo mecanismo de recompensa da comida: quando a pessoa perde o prazer de comer, o prazer social também diminui, o que afeta o aspecto íntimo”.
O desequilíbrio metabólico feminino também cobra a conta e exige investigação médica, destaca ela. Condições como a síndrome ovariana metabólica poliendócrina (Somp), a antiga síndrome dos ovários policísticos (SOP), trazem sintomas visíveis que podem minar a confiança, a exemplo de aumento de pelos, queda de cabelo e gordura abdominal.
‘Duo pause’: a barreira do silêncio e o fim do diálogo
Enquanto o double pause se refere às alterações clínicas e hormonais que reduzem a resposta física dos corpos, o duo pause define o momento em que a comunicação do casal, especialmente sobre a sexualidade, é interrompida.
Os endocrinologistas identificam que o perigo do silêncio reside no distanciamento progressivo: quando os parceiros não verbalizam os incômodos físicos e emocionais, a vida íntima é abandonada e os problemas de saúde subjacentes deixam de ser tratados.
“A mulher pode ter dificuldades, vergonha ou falta de coragem para se expressar; o homem, por sua vez, pode não abrir o diálogo, estigmatizar, rotular ou ignorar. Eles deixam de conversar e de resolver as questões. Muitas vezes, essa 'pausa' pode ser resolvida com diálogo, terapia, mudanças de hábitos ou buscando novas formas de prazer, mesmo que não envolvam a relação sexual tradicional”, sugere De Marca.
Essa barreira marcou o fim do casamento de quase três décadas do professor Henrique*, de 57 anos. A crise foi construída pelo desgaste da rotina e pela ausência de diálogo sobre o corpo e os desejos de cada um ao longo do tempo.
“Nós não tínhamos o hábito de falar sobre sexo com profundidade. Se falava o básico, durante ou após o ato, mas nunca para entender o funcionamento dos organismos ou os desejos. O distanciamento sexual veio primeiro: preservamos a casa, os filhos e o convívio, mas a intimidade não existia mais. Foi um poço sem fundo, e a gente se acostumou com aquela situação”, relata o professor.
O casal tentou recorrer à terapia conjunta para resgatar hábitos e memórias do relacionamento, mas a ajuda profissional chegou tarde demais. “Fui de coração aberto e com boa vontade, mas a relação já tinha entrado em um estágio sem volta. Não houve reconciliação possível”, lamenta.
Casos como o de Henrique mostram que, embora crises conjugais decorram de múltiplos fatores, a biologia do envelhecimento costuma ser o elemento oculto do distanciamento. Ao presumir que o “esfriamento da cama” decorre apenas do desgaste emocional ou da falta de amor, muitos casais negligenciam que o corpo maduro pode estar em descompasso funcional.
Diretor do Departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade (Defat) da Sbem, Hohl acrescenta que a interrupção da conversa decorre, em grande parte, de tabus sociais que reprimem a vulnerabilidade madura.
“Outro desafio é que, às vezes, você está em um grupo de mulheres e uma amiga diz: 'Ah, minha vida sexual é maravilhosa'. A outra mulher, às vezes, se intimida e não fala. O homem, por sua vez, não vai falar para o outro que não tem ereção; isso não é 'papo de boteco'. Porém, se eles leem sobre essas dificuldades, sentem-se no direito de buscar ajuda”, afirma.
Para o especialista, a ausência de relações sexuais transcende o desgaste afetivo cotidiano: “Parar de fazer sexo pode ser um indicativo de queda na saúde, não apenas de um desencontro de sentimentos. Ambos podem estar com alterações orgânicas que têm tratamento.”
O olhar integrado
A superação desse descompasso exige romper o isolamento clínico em que cada parceiro trata o corpo de forma fragmentada, reforça Hohl.
“Muitas vezes, a mulher está no ginecologista, mas o homem está sem médico. Ou o homem está no urologista, e a mulher está sem acompanhamento. Como endocrinologista, recebo ambos no meu consultório. Na prática, tenho vários casais que chegam em momentos separados, mas cujas demandas surgiram simultaneamente”, reitera.
O presidente da Associação Brasileira de Estudos em Medicina Sexual defende que a classe médica precisa incluir ativamente a rotina íntima na avaliação clínica dos pacientes. Para o endocrinologista, investigar a presença de dor na relação, capacidade de atingir o orgasmo, níveis de libido e qualidade da ereção espontânea deve se tornar um padrão de consulta, pois grande parte dos pacientes não expõe essas queixas espontaneamente.
A reconexão depende da disposição mútua para acolher as transformações biológicas sem julgamentos. Esse processo exige paciência, sobretudo quando os corpos não respondem com a mesma velocidade.
“O envelhecimento é um desafio para qualquer casal. Se os dois não caminham no mesmo ritmo ou não estão em sincronia, surgem distanciamentos. É fundamental abrir o jogo, falar sobre o que está acontecendo na vida de cada um e trabalhar a sexualidade com base nesse momento atual”, conclui De Marca.
*A pedido do entrevistado, o sobrenome foi omitido.
Fonte:https://revistamarieclaire.globo.com/saude/noticia/2026/09/descompasso-metabolico-a-dois-menopausa-queda-hormonal-masculina-e-ganho-de-peso-abalam-vida-intima.ghtml
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