Uma célula de câncer de mama. — Foto: NIH/Domínio Público
Cientistas modificam bactérias para combater câncer
Pesquisadores estão trabalhando para desenvolver
bactérias capazes de destruir tumores cancerosos, reduzindo ao mesmo tempo os
danos às células e tecidos saudáveis do paciente
Por Brian Ingalls, Marc Aucoin
21/07/2026 04h01 Atualizado há um mês
A medicina moderna tem feito avanços significativos
nos tratamentos contra o câncer ao longo das últimas décadas. Mas todas as
terapias ainda enfrentam um desafio crucial: como atacar as células cancerosas
sem danificar as células saudáveis.
Soluções imperfeitas levam a efeitos colaterais:
cirurgia e radiação podem danificar tecidos saudáveis próximos, enquanto a
quimioterapia pode atacar indiscriminadamente células de crescimento rápido,
danificando folículos capilares saudáveis e o revestimento do estômago, por
exemplo.
Uma abordagem alternativa envolve recrutar um
aliado surpreendente: as bactérias. Algumas espécies de bactérias não conseguem
sobreviver na presença de oxigênio. Elas vivem em ambientes com baixo teor de
oxigênio, como nas profundezas do solo ou no fundo de lagos. Essas bactérias,
chamadas de anaeróbicas, geralmente são incapazes de infectar tecidos
saudáveis, nos quais o oxigênio é abundante.
Em contrapartida, os
tumores cancerosos não são bem oxigenados. À medida que os tumores crescem, seu
suprimento sanguíneo torna-se anormal e ineficiente, levando à formação de
regiões com baixo nível de oxigênio no seu interior. Esse ambiente com baixo teor
de oxigênio oferece um nicho único para uma infecção por bactérias anaeróbicas.
Para empregar essas
bactérias em terapias contra o câncer, os médicos poderiam injetar no paciente
esporos dormentes de uma bactéria anaeróbica. Esses esporos viajariam pela
corrente sanguínea e permaneceriam inertes em tecidos saudáveis e oxigenados.
Quando os esporos chegam aos tumores, eles podem iniciar infecções
autolimitadas que atacariam o tumor. Esse é o objetivo. Na prática, no entanto,
isso é mais complicado.
Com os colegas Bahram Zargar, CEO e cofundador da
CREM Co Labs, e Sara Sadr, ambos ex-alunos do Departamento de Engenharia
Química da Universidade de Waterloo, publicamos recentemente uma pesquisa que
investiga o potencial anticâncer da bactéria Clostridium sporogenes.
Uso de
bactérias no tratamento do câncer
Relatos de regressão de cânceres causada por
infecções bacterianas são registrados há milênios. No contexto da medicina
moderna, William Coley, um médico que atuava em Nova York na virada do século
XX, documentou o caso de um paciente cujos tumores foram suprimidos por uma
infecção grave.
Coley começou a testar terapias injetando bactérias
vivas coletadas dessas infecções em pacientes com câncer. Em sua documentação
inicial dos casos, um terço dos pacientes apresentou melhora, a maioria não
apresentou resposta e cerca de 5% morreram devido à infecção.
Não foi um começo animador. Mas Coley perseverou e
desenvolveu um tratamento utilizando bactérias tratadas termicamente, o que
resultou em melhores resultados. Esses tratamentos, que envolviam a estimulação
do sistema imune (um dos primeiros exemplos de imunoterapia), passaram a ser
conhecidos como “toxinas de Coley”.
A popularidade dos tratamentos de Coley diminuiu à
medida que outras abordagens terapêuticas foram desenvolvidas. O tratamento
cirúrgico tornou-se mais seguro, enquanto a radioterapia e a quimioterapia se
mostraram eficazes. Essas terapias eram muito mais fáceis de caracterizar do
que os micróbios presentes nas toxinas de Coley.
C.
sporogenes e nossa
pesquisa
As terapias bacterianas, no entanto, continuaram
sendo objeto de pesquisa. Em meados do século XX, foram realizados ensaios
clínicos para testar os resultados da injeção de esporos da bactéria
anaeróbica Clostridium
sporogenes, uma bactéria de solo não patogênica. Talvez você
conheça algumas parentes mais famosas da C.
sporogenes, como a C.
tetani, que causa o tétano, e a C. botulinum,
a fonte do botox.
Testes pré-clínicos em camundongos haviam
confirmado que os esporos injetados de C.
sporogenes permaneciam inativos no tecido saudável, mas
cresciam nos tumores. Os pacientes nos ensaios clínicos apresentaram alguma
regressão tumoral, mas ela foi de curta duração.
As bactérias danificaram o interior do tumor, mas
não alcançaram a sua borda externa, que é mais oxigenada. Os tumores
continuaram a crescer a partir dessas bordas externas não afetadas.
Adiantamos o relógio para o século XXI e os avanços
modernos na engenharia genética. O campo da biologia sintética está focado na
construção de novas entidades biológicas como ferramentas para enfrentar
desafios desta engenharia.
A caixa de ferramentas da biologia sintética pode
ser usada para construir variantes de bactérias anaeróbicas que podem ser
supressoras de tumores mais eficazes do que suas contrapartes nativas.
A intolerância ao oxigênio da C. sporogenes permite
o direcionamento ao tumor, mas também limita o potencial terapêutico.
Reconhecendo esse fato, estamos buscando uma solução de engenharia genética que
possa aproveitar a vantagem do direcionamento sem enfrentar a limitação de
desempenho.
Modificamos geneticamente as células da
bactéria C. sporogenes de
duas maneiras: primeiro, introduzindo um gene que aumenta a capacidade da
bactéria de tolerar oxigênio. O objetivo é permitir que ela penetre mais
profundamente a borda externa do tumor.
Em segundo lugar, introduzimos um sistema de
controle que ativa as bactérias apenas nas condições desejadas. Esse sistema de
controle, chamado de “quorum sensing”,
garante que a tolerância ao oxigênio modificada seja “ativada” apenas quando as
células bacterianas tiverem encontrado um tumor e atingido uma densidade
populacional mínima.
Estudos futuros poderiam conectar esse sistema de
controle a outras atividades bacterianas, como a ativação de partículas de
medicamentos ou a estimulação do sistema imune do hospedeiro.
Nossa investigação ainda está em estágios iniciais.
Seu desenvolvimento contínuo contribuirá para os esforços da comunidade
científica no sentido de desenvolver produtos bioterapêuticos vivos com o
objetivo de melhorar o tratamento do câncer.
Brian Ingalls
recebe financiamento da MITACS.
Marc Aucoin não
presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer
empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo
e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
Fonte: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/07/21/cientistas-modificam-bacterias-para-combater-cancer.ghtml
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