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Cem horas de sirenes e cinzas: o que vi em Nova
York após o 11 de Setembro
Enviada a Nova York no primeiro voo
saído do Brasil depois dos atentados, diretora da Editora Globo relembra, 25
anos depois, uma cidade em choque
Por
Daniela Tófoli
11/09/2026 06h00 Atualizado há 2 dias
Em alguns locais, o desespero fazia com que tentassem invadir os veículos que chegavam em busca de alguma lembrança no meio dos escombros misturados aos restos mortais. Em outros, o silêncio das vigílias e orações só eram quebrados mesmo pelo barulho das sirenes. As luzes de emergência se misturavam às das velas permanentemente acesas. Ainda que fosse dia, a nuvem de poeira causada pelos desabamentos fazia tudo ficar na penumbra. Foram 103 horas de tanta névoa que, mesmo chegando às margens do rio Hudson, não era possível ver a Estátua da Liberdade. Lá, as cinzas ainda voavam pelos ares e o cheiro forte de queimado teimava em ficar.
Era a minha primeira vez em Nova York. Eu trabalhava como repórter de cidades no Jornal da Tarde, em São Paulo, e fui enviada para cobrir os atentados do 11 de Setembro no primeiro voo que saiu do Brasil com destino ao centro da tragédia. O espaço aéreo norte-americano estava fechado desde terça-feira, dia dos ataques, e foi reaberto na sexta. Cheguei a Manhattan no sábado de madrugada.
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No voo, comissários e tripulação emocionados tentavam manter certa normalidade. Tom Cruise nas TVs coletivas do avião (não havia telas em cada assento naquela época), interpretando Ron Kovic em Nascido em 4 de Julho, não ajudava a melhorar o astral dos passageiros. Ao meu lado, Bóris, um nova-iorquino que trabalhava no Brasil e perdeu um primo e dois amigos nos ataques, chorava silenciosamente ao não conseguir ver a estátua da janela do avião ao chegarmos perto do aeroporto. “O que está acontecendo? O que fizeram?”, ele se perguntava.
Saí do aeroporto, deixei as malas no hotel e encontrei uma cidade em transe. Não havia carros no centro da ilha, poucos táxis circulavam, muitas estações de metrô seguiam fechadas e pelo menos uma janela de cada apartamento exibia uma bandeira dos Estados Unidos pendurada para o lado de fora. Eram milhares delas. As praças estavam divididas em estações de doações: em uma, recebia-se alimentos para as equipes de resgate; em outra, roupas de frio para os voluntários (com a nuvem de poeira, a temperatura caiu e nem todos estavam preparados); havia os locais para doação de sangue e medicamentos para os mais de 6 mil feridos, e até um ponto para receber cães treinados que poderiam ajudar a identificar sobreviventes.
Nova York recebeu a ajuda de mais de 60 mil voluntários civis, muitos vindos de outras cidades. Era tanta gente que, no sábado, as inscrições para qualquer tipo de auxílio estavam fechadas. Nunca vi tanta organização no meio do caos. Pelas ruas, os postes da região sul estavam cobertos de cartazes de desaparecidos.
A cada quarteirão, uma esquina era escolhida como ponto de homenagem e abrigava, além das fotos, coroas de flores e velas de todos os tipos. Os moradores organizavam vigílias em vários pontos da cidade. Não importava a religião, sempre havia uma prece sendo feita. Em alguns parques, multidões se reuniam para compartilhar a dor e o assombro, tentando entender, assim como Bóris, o que havia acontecido. Era muito triste, mas também emocionante ver tanto patriotismo, organização e solidariedade tomando conta de uma metrópole que nunca parava.
No domingo, a missa solene na St. Patrick's reuniu mais de 4 mil fiéis que não couberam na igreja. Ao lado da catedral, quase todas as lojas da Quinta Avenida tinham trocado suas vitrines coloridas por sóbrias homenagens aos mortos. Velas, flores e palavras de conforto decoravam os templos de luxo. A maioria deles permanecia fechada. Na rua do consumo, ninguém comprava, ninguém vendia. O mesmo acontecia no Carnegie Hall, que havia suspendido sua programação e só retomaria os shows no fim do mês, com o “Concerto da Memória”, em homenagem as vítimas. Os poucos carrinhos de comida de rua também tinham se tornado memoriais e eram mais um ponto para os cartazes dos desaparecidos.
No fim da tarde, a reportagem que tinham me encomendado era descobrir o que os turistas ainda “presos” na cidade estavam fazendo. Achei que nem teria uma matéria para escrever até encontrar grupos de orientais passeando nos poucos ônibus vermelhos de turismo que avançavam pelas ruas. Além das fachadas de museus e prédios históricos, o roteiro passou a incluir os principais pontos de vigília dos familiares das vítimas. Em cada um deles, o grupo do meu ônibus tirava fotos — e fazia uma oração respeitosa.
O dia seguinte foi de angústia. Pela manhã, parte das escolas e das linhas de metrô voltaram a funcionar. Nas portas dos colégios, pais se demoravam ao se despedir das crianças. Alguns desistiam de ir ao trabalho e voltavam com os filhos para casa, inseguros, em choque, sem saber direito o que fazer. Professores tentavam acalmar a todos, mas eles também precisavam ser acalmados. Algumas crianças choravam, com medo de se separar de suas famílias.
Mas nada se comparava ao terror dos moradores de uma região no Brooklyn conhecida como Little Pakistan. Lá viviam várias famílias afegãs e, com a declaração oficial do presidente Bush, no dia anterior, de que a Guerra ao Terror havia começado contra a Al-Qaeda, várias casas e estabelecimentos comerciais tinham sido vandalizados durante a noite.
Lojas e mesquitas ganharam pichações acusando a comunidade de terrorismo, ninguém tinha coragem de sair na rua. Minha missão era entrevistar uma dessas famílias. Eu era enxotada aos berros a cada campainha que tocava até que encontrei um restaurante afegão fechando as portas. Corri para falar com o cozinheiro e ele pediu para eu entrar pelos fundos. Consegui que ele conversasse comigo sem ser identificado.
Morando na cidade há dezessete anos, ele e a família tinham o restaurante havia doze e viviam em paz antes do 11 de Setembro. Até então, mal tinham ouvido falar da Al-Qaeda, não acompanhavam muito o noticiário internacional, mas estavam em choque. Em choque com a brutalidade dos atentados e com a violência que se abateu sobre a vizinhança. Temiam trabalhar, sair na rua e mandar os filhos para a escola. Rezavam pelos mortos, mas também por suas famílias.
Na terça-feira, o clima era de preparativos para uma longa guerra. Com um inimigo identificado, os ânimos estavam exaltados. O jornal decidiu que eu deveria voltar ao Brasil no dia seguinte porque o espaço aéreo poderia ser fechado novamente. Fazia uma semana dos atentados e a cidade estava tomada por solenidades, missas e cultos às vítimas. Percorri vários deles.
Nas inúmeras homenagens aos civis e bombeiros mortos naquela primeira semana, emoção, choque e raiva se misturavam. Nova York contava seus mortos (foram cerca de 3 mil vítimas na cidade) e ninguém sabia ainda, mas, nesse dia, foram postadas em Nova Jersey as primeiras cartas contendo esporos de antraz que chegariam aos principais veículos de comunicação nova-iorquinos e deixariam mais 5 mortos e 22 pessoas infectadas. O pesadelo estava longe de acabar.
Na minha última noite na cidade, fui para o Strawberry Fields, no Central Park acompanhar mais uma vigília noturna. Havia centenas de pessoas. Algumas discursavam lembrando a semana anterior, outras entoavam mantras, havia os que circulavam com as fotos dos parentes e amigos ainda não encontrados. Lá pelas tantas, alguém puxou o hino dos Estados Unidos. Um coral se formou, sob uma lua crescente, quase cheia, tentando iluminar o futuro. Impossível esquecer aquela cena. Faz 25 anos, mas parece que foi ontem.
Fonte:https://revistamarieclaire.globo.com/comportamento/noticia/2026/09/cem-horas-de-sirenes-e-cinzas-o-que-vi-em-nova-york-apos-o-11-de-setembro.ghtml
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