CÂNCER INFANTOJUVENIL: QUANDO FEBRE, MANCHAS ROCHAS E MUDANÇAS NO CORPO MERECEM INVESTIGAÇÃO?

 


Setembro Dourado é mês de conscientização sobre o câncer infantojuvenilFoto: © 2009 St. Jude Children's Research Hospital; all rights reserved

Câncer infantojuvenil: quando febre, manchas roxas e mudanças no corpo merecem investigação?

Sintomas podem ser confundidos com doenças comuns da infância, mas persistência, recorrência e falta de melhora devem acender o alerta

07 de setembro de 2026 | 06:00 - Atualizado há 20 horas

Febre, cansaço, dor nas pernas, manchas roxas e falta de apetite são sintomas comuns na infância e, na maioria das vezes, têm causas simples. O alerta deve surgir quando essas alterações persistem, voltam com frequência, pioram ou aparecem acompanhadas de outros sinais sem uma explicação clara.

É esse o principal recado do Setembro Dourado, mês de conscientização sobre o câncer infantojuvenil. A proposta não é transformar qualquer sintoma em motivo de preocupação, mas ajudar pais e responsáveis a reconhecer mudanças fora do padrão da criança e procurar avaliação médica.

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 7.560 novos casos de câncer infantojuvenil por ano no Brasil entre 2026 e 2028, sendo 3.960 em meninos e 3.600 em meninas. A doença é a principal causa de morte por enfermidade entre o público de 1 a 19 anos no país.

“Os tumores pediátricos têm comportamentos muito diferentes dos cânceres em adultos. Em muitos casos, são doenças agressivas, mas altamente responsivas ao tratamento. O problema é que os sintomas iniciais podem ser confundidos com doenças comuns da infância, o que muitas vezes atrasa a investigação”, explica o oncologista pediátrico Sidnei Epelman, coordenador do Serviço de Oncologia Pediátrica do Santa Marcelina Saúde e fundador da TUCCA (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer).

Quando uma febre merece atenção?

Febre isolada é extremamente comum entre crianças. O cuidado aumenta quando ela é prolongada ou recorrente, não apresenta a evolução esperada ou não vem acompanhada dos sinais habituais de uma infecção, como coriza, congestão nasal ou dor de garganta.

O mesmo vale para palidez persistente, cansaço excessivo, desânimo, irritabilidade ou perda de disposição para brincar. Manchas roxas que surgem sem quedas ou traumas conhecidos, principalmente quando frequentes, também precisam ser avaliadas.

Nas dores, um sinal de alerta é quando elas persistem, pioram ou interferem na rotina e no sono. Uma criança que acorda durante a noite por causa da dor ou deixa de realizar atividades habituais deve ser examinada. “Um sintoma isolado nem sempre é motivo de preocupação. O que deve chamar a atenção é, principalmente, a persistência do sintoma, sua intensidade, a ausência de uma explicação clara ou a associação simultânea de vários sinais”, afirma Joaquim Caetano, oncologista pediátrico e coordenador médico do Instituto de Oncologia da Santa Casa BH.

Segundo o médico, os pais não precisam tentar diferenciar em casa uma dor comum de um possível sinal de câncer. “O papel deles é levar realmente ao profissional, especialmente quando percebem que existe uma queixa específica, que não há resolutividade, pois não dá para diferenciar uma dor comum de crescimento de uma mudança através da família.”

O que observar no banho e nas fotografias

O dia a dia também pode ajudar a perceber alterações. Durante o banho ou a troca de roupa, os responsáveis podem notar caroços, endurecimentos ou aumentos de volume que não existiam antes, inclusive na barriga, braços ou pernas. Uma barriga endurecida, assimétrica ou com uma massa palpável merece avaliação.

Nas fotografias, um sinal particularmente importante é a leucocoria, o reflexo esbranquiçado na pupila que pode aparecer em imagens com flash e lembrar o “olho de gato”. O achado pode estar relacionado ao retinoblastoma, tumor ocular que acomete principalmente crianças pequenas. “Para o retinoblastoma é muito mais fácil, porque tem o reflexo do olho de gato, o reflexo branco, que aparece com a luz que bate no olho de uma criança, com uma fotografia com flash, ou pode aparecer também como estrabismo”, explica Epelman.

O oncologista ressalta, porém, que o aparecimento desse reflexo não significa necessariamente diagnóstico precoce. Por isso, alterações nos olhos devem ser avaliadas, podendo ser necessário exame oftalmológico com avaliação do fundo de olho.

Leucemias são os tumores mais frequentes

As leucemias são os cânceres mais comuns na infância, entre elas, a leucemia linfoblástica aguda (LLA). Também estão entre os mais frequentes os tumores do sistema nervoso central e os linfomas. Neuroblastomas, tumores renais, retinoblastomas e tumores ósseos e de partes moles também podem ocorrer.

Por que o diagnóstico é difícil?

O câncer infantojuvenil é raro e seus primeiros sinais são, em geral, inespecíficos. Febre, dor, palidez, cansaço e perda de apetite podem estar relacionados a doenças muito mais comuns. Além disso, crianças pequenas podem ter dificuldade para explicar o que estão sentindo.

Por isso, o acompanhamento pediátrico tem papel central. A história do sintoma - quando começou, se está piorando, com que frequência ocorre e se interfere na rotina - deve ser associada ao exame físico. “Na medicina, o diagnóstico começa pela suspeita. Só se investiga uma determinada doença quando essa possibilidade também faz parte do raciocínio clínico”, explica Caetano.

Não existe exame de rastreamento para toda criança

Não há, atualmente, exame de sangue, ultrassom ou outro teste que deva ser feito periodicamente para rastrear câncer em crianças e adolescentes saudáveis, sem sintomas ou síndrome genética conhecida de predisposição à doença.

A principal estratégia é manter o acompanhamento de saúde, observar crescimento e desenvolvimento e procurar atendimento quando algo foge do padrão.

Quando procurar atendimento imediatamente?

Alguns sinais exigem avaliação rápida, independentemente da causa: sonolência excessiva ou dificuldade para acordar, convulsões, desmaios, dificuldade para respirar, vômitos repetidos e incontroláveis, sinais de desidratação, fraqueza intensa ou piora rápida do estado geral.

Sangramentos sem causa evidente, especialmente quando acompanhados de muitas manchas roxas, também precisam de atenção. “Deve-se observar se tem anemia importante, alguns sinais no hemograma, sangramentos, aumento de gânglios, convulsões, dentre outros, são urgências pediátricas que entram dentro do diferencial, que pode ser câncer ou outras doenças”, diz Epelman.

Quanto antes, melhor?

De modo geral, reconhecer rapidamente uma suspeita, confirmar ou descartar o câncer e iniciar o tratamento adequado é fundamental. Em alguns tumores, diagnosticar a doença antes de uma evolução maior pode significar menor quantidade de doença, tratamentos menos complexos e melhores resultados. A relação, porém, varia conforme o tipo de câncer e suas características biológicas. “Quanto mais cedo, melhor o diagnóstico, a rapidez e o estagiamento. As chances de cura vão diminuindo quanto mais avançada a condição”, explica Epelman.

Conforme o oncologista, apesar de alguns tumores serem agressivos, muitos respondem muito bem ao tratamento. Em diversos cenários da oncologia pediátrica, os índices de cura chegam a cerca de 80%, embora o prognóstico dependa do tipo de tumor, estágio e resposta ao tratamento. “O diagnóstico precoce é essencial, mas ele só produz impacto real quando está inserido em um sistema que consegue responder com precisão e rapidez”, realça Epelman.

Informação, não alarmismo

A principal mensagem do Setembro Dourado não é desconfiar de toda febre ou dor, mas não normalizar uma mudança que persiste. Uma mancha roxa depois de uma queda ou uma febre passageira não significam câncer. Mas uma criança que permanece abatida, apresenta sintomas recorrentes, perde peso, fica persistentemente pálida, tem dores que pioram ou interrompem o sono, sangramentos sem explicação, uma massa no corpo ou um reflexo branco no olho deve ser avaliada.

Como resume Caetano, os pais conhecem o comportamento habitual dos filhos. Quando percebem que algo mudou e não volta ao normal, o melhor caminho é procurar o pediatra. “O mais importante é ter uma postura proativa: observar, procurar atendimento quando algo não evolui como esperado e permitir que o médico faça uma avaliação completa. Essa atenção, sem alarmismo, é uma das formas mais importantes de favorecer o diagnóstico precoce”, conclui.

Campanha “De Olho nos Olhinhos”

Para marcar o Setembro Dourado, a Santa Casa BH se junta à campanha “De Olho Nos Olhinhos”, criada para chamar atenção para o retinoblastoma, um tipo de câncer que afeta a visão e costuma ser mais comum em crianças de 0 a 5 anos. No dia 26 deste mês, o hospital fará várias ações no Parque Guanabara, em Belo Horizonte, com orientações para os pais e atividades recreativas para os pequenos. 

Além disso, a Santa Casa BH realizará mutirão para atender crianças cadastradas na Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte no Ambulatório Especializado de Oftalmologia.

 

Fonte: https://www.otempo.com.br/interessa/2026/9/7/cancer-infantojuvenil-quando-febre-manchas-roxas-e-mudancas-no-corpo-merecem-investig

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