Pâncreas é um órgão que 'se esconde' — Foto: IAS Academy, CC
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Câncer de pâncreas: por que o tumor de menor
sobrevida quase sempre é descoberto tarde
Não existe, em nenhum país do mundo, exame de
rastreamento recomendado para a doença —e os primeiros sinais se confundem com
gastrite, cansaço e má digestão. Quando o corpo emite o aviso inequívoco, o
tumor já cresceu o bastante para obstruir a passagem da bile.
Por Talyta
Vespa, g1
27/07/2026 03h00 Atualizado há um mês
Elizabeth Paes Gomes tinha uma explicação
confortável para as próprias dores. Havia anos, os gastroenterologistas que a
acompanhavam diziam a mesma coisa: gastrite,
sistema nervoso, nada grave.
Quando o desconforto apertou, em 2024, ela mesma
completou o raciocínio: estava de férias, era o mês do aniversário, tinham
vindo os feriados.
"Nessa época a gente sempre exagera na comida,
na bebida. Achei que fosse só isso", diz a aposentada, de 74 anos.
Poucas semanas depois, a pele começou a amarelar.
Ela procurou um pronto-socorro. A tomografia encontrou um tumor
no pâncreas, e ela foi operada em três dias.
Elizabeth
Paes, 74, descobriu um câncer de pâncreas por acaso. — Foto: Arquivo Pessoal
A sequência é quase um roteiro: meses de sintomas que ninguém associa
ao pâncreas, um sinal inequívoco que só chega tarde, e então a
pressa.
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) projeta mais
de 13 mil novos casos
de câncer de pâncreas por ano no Brasil entre 2026 e 2028 —pouco
mais de 1% de todos os diagnósticos oncológicos do país, mas 5% das mortes por
câncer.
Nos Estados Unidos, onde as séries de sobrevida são
mais consolidadas, o levantamento SEER, do National Cancer Institute,
aponta que 12,8% dos pacientes chegam vivos ao quinto ano após o diagnóstico.
Quando o tumor é encontrado antes de se espalhar, o índice sobe para 44%.
Quando já há metástase, cai para 3%.
A distância entre
44% e 3% é o argumento inteiro. E é justamente
ela que a medicina não consegue encurtar no pâncreas.
Câncer de pâncreas é
silencioso — Foto: Reprodução / Redes sociais
Um órgão que se
esconde
O pâncreas ocupa uma posição privilegiada para
passar despercebido. Fica entre a coluna e o estômago, cercado pelos principais
vasos do abdome.
"Essa vizinhança, que deveria funcionar
como proteção, atua contra o paciente: o tumor alcança as veias e as artérias
em pouco tempo e se dissemina antes de dar qualquer sinal", explica Marcos
Belotto, cirurgião do Centro Oncológico do Hospital Nove de Julho.
A consequência aparece na estatística: menos de 30% dos pacientes chegam
ao diagnóstico em condições de serem operados —e a
cirurgia segue sendo o único tratamento com potencial de cura. Para os demais,
o objetivo muda de natureza. Deixa de ser retirar o tumor e passa a ser
controlá-lo, com quimioterapia e, mais recentemente, com terapias dirigidas às
alterações genéticas que o impulsionam.
A localização do tumor determina o tipo de aviso
que o corpo dá.
- Quando cresce na cabeça do pâncreas, ele
comprime a via biliar e provoca icterícia.
- Quando
aparece no corpo ou na cauda,
produz dor nas costas e dificuldade para comer, porque invade o estômago.
"Uma parte considerável dos diagnósticos
nasce de uma investigação que começou em outro lugar", diz Belotto.
Sintomas que
servem para tudo
Antes da icterícia,
quase sempre há meses de sinais que não apontam para lugar nenhum. Cerca
de 80% dos pacientes
têm dor ou desconforto abdominal em algum
momento; 85% perdem peso;
entre 50% e 60% relatam
falta de apetite e cansaço.
"O problema não está na intensidade
desses sintomas, e sim na inespecificidade deles", afirma Stephen Stefani,
oncologista do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation.
"Dor abdominal, cansaço e perda de
apetite cabem em dezenas de diagnósticos mais prováveis, e é para esses que
médico e paciente olham primeiro. Ninguém que acorda cansado desconfia que tem
câncer de pâncreas."
Há ainda uma distorção de memória que embaralha a
reconstrução do caso depois.
"O primeiro sintoma que o paciente
identifica quase nunca é o primeiro que ele teve", observa Stefani.
"Se a pergunta for genérica, a resposta é que não havia nada. Se você
ancorar em uma data, o Natal ou o aniversário, família e paciente começam a
reconstituir sinais de meses antes."
A icterícia costuma
ser o sinal que finalmente leva o paciente ao consultório —e ela não vem
sozinha. Stefani descreve o mecanismo: a bile é produzida no fígado e percorre
um conduto, o colédoco, que atravessa o pâncreas antes de desembocar no
intestino.
Quando o tumor destrói esse caminho, a bile deixa
de passar, retorna e transborda para a circulação. Daí decorre o conjunto de sinais.
- A pele e o branco dos olhos ficam amarelados.
- A bile depositada na pele provoca coceira
intensa.
- A urina escurece até a cor de refrigerante de
cola, quadro que os médicos chamam de colúria.
- E as
fezes, que deveriam ser tingidas pela bile, ficam esbranquiçadas —a
comparação que o oncologista usa é com massa de vidraceiro. Em cerca de um
terço dos casos, elas também boiam, por excesso de gordura não digerida.
"Urina escura acompanhada de fezes
esbranquiçadas indica obstrução da via biliar", resume Stefani. "Não
é sinônimo de câncer de pâncreas, mas é motivo para investigar sem
demora."
Elizabeth atravessou essa sequência em poucos dias.
Achou que fosse hepatite, embora já estivesse vacinada.
Por que não
existe rastreamento
A pergunta se impõe: se encontrar o tumor cedo
multiplica por catorze a chance de sobreviver cinco anos, por que não há um
exame de rotina para o pâncreas, como a mamografia para a mama ou a
colonoscopia para o intestino?
Stefani responde a partir dos critérios que definem
um bom teste de rastreamento. "Ele precisa ser simples de aplicar em larga
escala, não pode acusar alterações irrelevantes e, acima de tudo, precisa mudar
o destino de quem ele encontra", diz.
"Nenhum exame de pâncreas chegou perto
disso. Não há, em nenhum país e em nenhuma sociedade médica, recomendação de
rastrear a doença."
A ressonância
magnética, lembrada com frequência como saída, detecta o
tumor —em tese. Aplicada a quem não tem sintoma, vira loteria: para cada achado
real entrariam na conta milhares de casos que passariam despercebidos e uma
enxurrada de alterações sem significado clínico, cada uma delas capaz de levar
a uma biópsia de pâncreas desnecessária.
"Examinar em excesso produz doença onde
não há", diz Stefani. "E existe um limite material. Não há
ressonância para a população inteira, e ocupar as máquinas com quem não precisa
significa tirá-las de quem precisa."
Sem exame, o que
sobra é reduzir risco: não fumar, evitar bebida
alcoólica, manter atividade física e um padrão alimentar saudável. Cada
item corta uma fração da probabilidade —nenhum deles a elimina.
Quem entra na
vigilância
O rastreamento não existe para a população geral,
mas existe para grupos específicos.
Stefani trabalha com uma escala de risco: a chance de desenvolver a doença em
algum momento da vida fica entre 1% e 1,5%, patamar compatível com o da American Cancer Society,
que estima 1 caso a cada 56 homens e 1 a cada 60 mulheres.
Com dois parentes de primeiro grau afetados —pai,
mãe, irmãos ou filhos—, o
risco sobe para 7% a 8%. Com três ou mais, chega perto de 20%.
Em síndromes genéticas raras, como a de
Peutz-Jeghers, algumas estimativas apontam que até um terço dos portadores
desenvolverá o tumor.
Para esses pacientes, e também para quem tem pancreatite crônica ou de repetição,
a recomendação é acompanhamento anual por imagem, além de teste genético quando
o histórico familiar aponta para uma mutação hereditária.
"A idade em que esse parente adoeceu
muda a leitura", pondera Belotto. "Um caso aos 70 anos pode ser
esporádico. Um caso aos 40 aumenta bastante a probabilidade de haver uma
mutação por trás."
O tratamento
andou; o diagnóstico, não
O contraste que define o momento é esse. Enquanto o
rastreamento segue parado, a terapia se moveu. Na sessão plenária do congresso
da American Society of Clinical Oncology (ASCO) de 2026, foram apresentados os
resultados do daraxonrasib,
primeiro inibidor de RAS a chegar a um estudo de fase 3 no pâncreas, publicados
simultaneamente no New
England Journal of Medicine.
A sobrevida global mediana passou de 6,7 meses com
quimioterapia para 13,2 meses com o medicamento oral, com redução de 60% no risco de morte. Cerca de 90% dos tumores de pâncreas
são movidos por mutações no gene RAS.
O daraxonrasib segue investigacional: não tem registro na Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa) nem aprovação da Food and Drug Administration
(FDA). A agência americana autorizou, em abril, um
programa de acesso expandido para pacientes elegíveis nos Estados Unidos —a
aprovação definitiva é considerada possível ainda em 2026.
É por essa aprovação que Elizabeth espera.
"Minha maior esperança é me segurar até
esse remédio chegar. Que a Anvisa e o FDA aprovem logo, e que ele seja liberado
para todo mundo. Pelo SUS, inclusive."
"Até pouco tempo atrás, o horizonte
oferecido a esses pacientes era de 12 a 18 meses", diz Belotto.
"Depois de décadas sem nenhuma novidade relevante, o câncer de pâncreas
voltou a ter perspectiva. O que se persegue agora é transformá-lo numa doença
crônica."
Dois anos
depois
Elizabeth voltou à quimioterapia depois de pouco
mais de um ano sem sinais da doença, quando surgiu uma metástase no pulmão. Do
dia do diagnóstico, fala como quem descreve um tsunami. "Você está plena
de vida e, de repente, parece que recebeu uma sentença de morte."
Da rotina, fala com carinho. Continua andando na
praia, faz pilates, toma café com as amigas, vai ao teatro, a shows e ao
cinema.
"Sempre fui muito positiva, e decidi que
essa positividade ia trabalhar a meu favor. Que eu vou ficar bem e vou superar
tudo isso."
Fonte: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/07/27/cancer-de-pancreas-por-que-o-tumor-de-menor-sobrevida-quase-sempre-e-descoberto-tarde.ghtml
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