ATAQUES DE 11 DE SETEMBRO AGILIZARAM MUDANÇA CULTURAL AO EXPOR RISCO DE USO DE SALTOS À SEGURANÇA DAS MULHERES
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Ataques do 11
de Setembro agilizaram mudança cultural ao expor risco de uso de saltos à
segurança das mulheres
Sapatos das sobreviventes revelam como
a fuga das Torres Gêmeas, muitas vezes descalça e com os pés feridos, deixou
marcas no vestuário feminino
Por
—
Rio de Janeiro
11/09/2026 03h30 Atualizado há 2 dias
Sapatos são parte importante da coleção do Memorial e Museu do 11 de Setembro, inaugurado em 2014 no exato lugar onde ficavam as Torres Gêmeas. São centenas de pares — dezenas deles em exposição — que servem como evidência material das consequências dos atentados nas vidas das milhares de pessoas que estavam no World Trade Center (WTC) naquela manhã de terça-feira de 2001. Uma parte desse acervo oferece ainda pistas de uma lenta transformação cultural vivida por muitas mulheres nos 25 anos que se seguiram aos ataques.
Linda Raisch-Lopez é uma delas. Hoje com 64 anos, ela trabalhava em um fundo fiduciário no 97º andar da Torre Sul, a segunda a ser atingida pelos terroristas. Decidiu sair assim que percebeu que algo estranho tinha acontecido na Torre Norte.
— Estava quente e havia fumaça. Eu lembro de levantar a minha saia para as minhas pernas se moverem mais rápido, e também para aliviar o calor. Acho que desci um lance de escada e pensei que eu não conseguiria sair a tempo se descesse com aqueles saltos. Então tirei os sapatos, os coloquei na bolsa e desci descalça— conta Linda em entrevista ao GLOBO. — Havia muita adrenalina pela necessidade de ser rápida. Naquela hora, eu acho que nem notaria se estivesse correndo sobre vidro.
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Ela só voltou a colocar os sapatos depois de percorrer, ainda descalça, alguns quarteirões em Lower Manhattan. Foi apenas na estação onde pegaria o ferry boat para Nova Jersey, onde ainda vive, que Linda entendeu que tinha se machucado.
— As pessoas me olhavam na fila e gritavam: “Os seus pés!”, “Os seus pés!”. Olhei e vi meus pés ensanguentados. Houve quem me oferecesse garrafas d'água para limpar meus ferimentos.
Linda não é a única mulher que precisou tirar os saltos para sair mais rápido do WTC durante o 11 de Setembro. No mesmo museu onde está seu escarpim amarelo manchado de sangue está o sapato de veludo preto que Florence Jones tirou para descer 77 andares, também na Torre Sul. Em um relato divulgado pela instituição, ela diz ter percebido que os saltos limitavam sua mobilidade. Desceu descalça.
Em outro relato ao Museu, Joanne Capestro conta que desceu do 87º andar da Torre Norte, a primeira a ser atingida, usando os saltos pretos que doou à instituição. Mas chegou à rua descalça, com os sapatos nas mãos e coberta de poeira, no exato momento em que a Torre Sul colapsou.
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Em meio à tragédia que chocou o mundo e deixou quase 3 mil mortos, as imagens de mulheres como Linda, Florence e Joanne caminhando descalças em meio aos escombros, muitas vezes com os pés machucados, criaram uma iconografia que serviu, de certa maneira, como um alerta para outras mulheres.
— É impossível falar do 11 de Setembro sem abordar a cultura material. A moda daquela época começava a apontar para o conforto e o despojamento, e o atentado acelerou esse processo. São muitas as cenas de mulheres descalças ou com sapatos cobertos de poeira. Diante dessas imagens, que continuam sendo reproduzidas, muitas de nós entendemos que saltos e saias apertadas eram bons dentro dos escritórios e com os elevadores funcionando, mas prejudicavam a nossa mobilidade numa emergência como aquela — explica Carina Rufino, pesquisadora em Comunicação, Consumo e Moda.
A perda de mobilidade é real. Uma pesquisa sobre as condições de segurança para a evacuação das Torres Gêmeas no 11 de Setembro feita pelo Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia, ligado ao Departamento de Comércio dos Estados Unidos, analisou imagens e mensagens, revisou os padrões de segurança do WTC e entrevistou mil sobreviventes para entender em que condições se deu a saída em massa das duas torres atingidas pelos terroristas.
O trabalho concluiu que havia um número de ocupantes [como a pesquisa chama quem estava nos escritórios do WTC] cuja locomoção foi mais lenta. Entre eles, os pesquisadores destacam pessoas com deficiência usando cadeiras de rodas ou muletas, idosos, aqueles com condições de saúde preexistentes como asma e problemas cardíacos, e mulheres usando saltos.
“A velocidade da evacuação pelas escadas pode ser significativamente afetada pela escolha de sapatos dos ocupantes, especialmente as mulheres. Sapatos de salto alto, especialmente saltos com mais de 7 centímetros, diminuem dramaticamente a capacidade de movimento nas escadas. As pessoas, a maioria delas mulheres, tirou os sapatos nas escadas das duas torres. Isso acabou se tornando um risco potencial para todos que estavam nas escadas, que tinham que desviar da pilha de sapatos, assim como para as mulheres que caminharam descalças pelas partes danificadas dos prédios”, afirma o texto.
Uma das sobreviventes entrevistadas para o estudo afirmou ter visto sapatos nas escadas da Torre Norte. Segundo ela (os nomes não são divulgados pela pesquisa), havia “sapatos empilhados na escada por volta do 28º andar, e as pessoas tinham que desviar deles”.
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Linda lembra de ter visto muitos sapatos deixados de lado nas escadas da Torre Sul:
— Havia pilhas de sapatos que foram descartados nas escadas. Elas se livraram deles enquanto desciam — conta.
Mas não foi apenas em Nova York que as mulheres precisaram tirar os sapatos para ter agilidade. O jornalista Steve Holland, que em 2001 era o presidente da Associação dos Correspondentes da Casa Branca, conta em artigo publicado na quarta-feira (9) no site da agência de notícias Reuters, o que viu em Washington naquele dia.
“A Casa Branca foi evacuada, e o Serviço Secreto orientou as funcionárias a tirarem os sapatos de salto e correrem”, escreve Holland.
A pesquisadora Carina Rufino explica que é importante levar em conta que tanto o WTC quanto a Casa Branca são símbolos de poder.
— Não estamos falando de quaisquer espaços nem de quaisquer cidades. As mulheres que estavam nos escritórios das Torres Gêmeas, em Nova York, e na Casa Branca, em Washington, se vestiam para galgar espaços no mundo corporativo e no mundo político — explica. — Nesses lugares, por construções culturais que remetem ao século XIX, a beleza, a feminilidade e o salto são símbolos do poder feminino.
Linda conta que, antes do 11 de Setembro, nunca havia questionado se suas vestimentas poderiam ser, de alguma forma, um obstáculo a sua segurança. Diz que sempre teve roupas e sapatos que ajudassem a passar uma imagem de sucesso.
— Eu sempre lidei com os saltos como as mulheres fazem: trabalhava o dia todo neles, aguentava a dor e tratava os eventuais machucados —conta. — Mas cheguei a um ponto da minha vida em que não aceito mais fazer isso. Hoje, eu uso muito mais calças e não uso salto. Quero poder me movimentar com rapidez, caso alguma coisa aconteça.
Experiências como a de Linda de fato têm um impacto cultural. A associação de Distribuidores e Varejistas de Calçados dos EUA calcula que, hoje, sapatos sem salto sejam mais de 70% do mercado de calçados femininos no país. Estudos do grupo apontam para um “efeito caminhada” gerado pelo 11 de Setembro que acelerou a transformação do vestuário das mulheres no mundo corporativo. Já nos anos seguintes aos atentados, entre 2002 e 2004, o setor que mais cresceu neste mercado foi o de sapatilhas e sapatos confortáveis sem salto.
É interessante notar, no entanto, que Linda, Florence e Joanne não descartaram seus sapatos. Elas os levaram nas mãos até a segurança de suas casas. Muitas mulheres, em grupos de sobreviventes do 11 de Setembro, contam com orgulho que caminharam longas distâncias em saltos de 10cm.
— Os relatos mostram o valor que esses objetos têm. Não é algo natural, foi culturalmente construído — diz Carina. — O que podemos observar 25 anos depois do 11 de Setembro é que o antigo não morreu, mas as mulheres parecem ter entendido a partir daquele momento que o poder delas não está no salto, mas em ter escolha.
Fonte:https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/09/11/ataques-do-11-de-setembro-agilizaram-mudanca-cultural-ao-expor-risco-de-uso-de-saltos-a-seguranca-das-mulheres.ghtml
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