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Solidão na velhice é tão prejudicial à saúde quanto
grandes fatores de risco, alerta geriatra
Especialistas apontam a construção de
vínculos ao longo da vida como um pilar do bem-estar, da autonomia e da
qualidade de vida na velhice
Por
, Marie Claire
24/06/2026 04h29 Atualizado 25/06/2026
14h06
Anos depois, reencontrou o amor, mas enfrentou um novo luto após quatro anos de relacionamento. Mesmo depois das perdas, seguiu construindo uma rotina própria, com trabalho, vida social e novos afetos. “O que motiva é a vida mesmo. Eu acho a vida tão legal.”
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A trajetória de Neuza desafia imagens ainda comuns sobre a velhice, frequentemente associada à dependência, ao isolamento e ao fim dos projetos pessoais. Hoje, envelhecer pode significar morar só, iniciar novos relacionamentos, manter uma vida social ativa, empreender ou descobrir novos interesses. Não há uma única forma de viver essa etapa da vida.
Ainda assim, a construção e a manutenção de vínculos ao longo dos anos permanecem fundamentais. Segundo a médica geriatra Thays Kelly, “a solidão pode ser tão prejudicial quanto alguns fatores de risco tradicionais para as idades mais avançadas”.
O que significa envelhecer bem?
Camila Appel, jornalista e autora do livro “Enquanto Você Está Aqui”, relaciona uma boa morte — “se é que isso existe”, como ela mesma pondera — à ausência de dor. Para ela, envelhecer bem depende de autonomia, liberdade para continuar fazendo escolhas e preservação dos próprios desejos.
“É continuar sendo quem você é, com liberdade para fazer o que deseja. Desejar, para mim, é estar viva. E eu gostaria de envelhecer sem dor, porque a dor se impõe a tudo.”
Kelly compartilha dessa visão. A médica explica que longevidade não é sinônimo de expectativa de vida saudável. O objetivo não é apenas prolongar o tempo de vida do paciente, mas garantir que os anos adicionais sejam vividos com capacidade funcional, vínculos significativos e senso de propósito. Por isso, os cuidados não podem se limitar ao corpo e também devem considerar aspectos emocionais e sociais. Aceitar a finitude faz parte desse processo.
Essa reflexão ganha dimensão particular entre as mulheres. Dados do Censo Demográfico de 2022, do IBGE, o levantamento censitário mais recente sobre a população idosa no país, mostram que o Brasil tem mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, e que elas são maioria nesse grupo.
Segundo Kelly, a maior sobrevida feminina resulta de uma combinação de fatores. Diferenças hormonais, imunológicas e genéticas ajudam a explicá-la, “mas isso não é tudo”. Em geral, mulheres procuram mais os serviços de saúde, adotam mais medidas preventivas e se expõem menos a alguns comportamentos de risco historicamente mais comuns entre homens, como tabagismo, consumo excessivo de álcool, violência e negligência diante de sintomas.
Viver mais, no entanto, não garante melhor qualidade de vida. “Muitas mulheres vivem mais anos, mas podem passar parte importante desse tempo sofrendo com doenças crônicas, dor, limitações funcionais, sobrecarga familiar ou solidão", alerta a especialista.
Solidão X Independência
Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgados pelo IBGE em março de 2026, quase um em cada cinco domicílios brasileiros tinha apenas um morador em 2025. Entre as mulheres que viviam sozinhas, mais da metade tinha 60 anos ou mais
“Hoje, morar sozinho não significa necessariamente isolamento ou abandono; muitas vezes representa autonomia e uma forma bem-sucedida de envelhecimento”, ressalta Kelly. Famílias menores, redução da fecundidade e mudanças nos arranjos familiares também contribuem para o cenário.
Ela explica que, em muitos casos, são as próprias mulheres que preferem morar sozinhas, seja pela independência, seja pela preservação da própria identidade. Em outros, a vida solo decorre de viuvez, ausência de filhos próximos, conflitos familiares ou falta de alternativa.
Independentemente do cenário, Kelly defende que é importante não romantizar a situação. Morar sozinha pode ser saudável quando há autonomia, segurança e rede de apoio; torna-se preocupante, porém, quando vem acompanhada de abandono, vulnerabilidade ou solidão.
Nessas circunstâncias, o isolamento pode favorecer o sedentarismo, piorar a alimentação, dificultar a adesão a tratamentos e reduzir os estímulos cognitivos. Também pode estar associado ao agravamento de quadros de depressão, ansiedade, dor crônica e distúrbios do sono, além de afetar a saúde cardiovascular e a capacidade funcional.
"O que mais preocupa não é necessariamente a ausência de pessoas na casa, mas a falta de vínculos significativos, de propósito e de participação social”, explica a médica.
Por isso, na prática clínica, o objetivo é preservar a capacidade de decisão das pacientes pelo maior tempo possível. Isso exige equilíbri: oferecer acompanhamento médico, segurança e atenção a eventuais mudanças cognitivas ou funcionais sem transformar cuidado em perda de liberdade.
Nem sempre é fácil. Muitas idosas resistem a pedir ajuda por medo de “dar trabalho”, perder a independência ou serem tratadas de forma infantilizada. “Para aquelas que passaram grande parte da vida cuidando dos outros, ocupar o lugar de quem precisa de cuidado pode ser especialmente difícil”, observa Kelly.
Importância do apoio no final da vida
Ao longo da carreira, Appel entrevistou médicos paliativistas — profissionais que acompanham pacientes com doenças graves e ajudam a preservar sua qualidade de vida. Nessas conversas, ela percebeu um tema recorrente: no fim da vida, muitos pacientes lamentam não ter construído ou mantido vínculos significativos. "Quem vive sozinho morre sozinho também", diz.
Mas a importância dessas relações também revela uma face dolorosa do envelhecimento. À medida que os anos passam, é comum ver amigos e pessoas que fizeram parte da própria história morrerem.
É neste ponto que observa a trajetória da mãe, a dramaturga Leilah Assumpção, de 84 anos. “Ela já está vendo tantos amigos morrerem, e eu me pergunto como deve ser assistir a isso… imaginar que a sua hora está próxima, de uma forma ou de outra, conforme você vê aquelas testemunhas da sua vida partirem.”".
Onde buscar atividades de conexão no Brasil
Serviços e iniciativas públicas e comunitárias voltadas ao envelhecimento ativo e ao combate ao isolamento entre pessoas idosas estão disponíveis em diferentes regiões do Brasil.
Os Centros de Referência da Assistência Social (CRAS), presentes em praticamente todos os municípios brasileiros, oferecem acompanhamento socioassistencial e encaminhamento para atividades em grupo, oficinas e serviços de convivência, com foco no fortalecimento de vínculos familiares e comunitários.
Outra opção são os Centros de Convivência da Pessoa Idosa, mantidos por prefeituras e governos estaduais em diversas localidades. Eles promovem atividades culturais, físicas e sociais.
Para além da rede pública, o Serviço Social do Comércio (SESC) atua em todo o país com programas de envelhecimento ativo, oferecendo cursos, oficinas, atividades culturais e esportivas.
Fonte:https://revistamarieclaire.globo.com/comportamento/noticia/2026/06/solidao-na-velhice-e-tao-prejudicial-a-saude-quanto-grandes-fatores-de-risco-alerta-geriatra.ghtml
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