CIENTISTAS CRIAM SPRAY NASAL QUE PROMETE REVERTER ENVELHECIMENTO CEREBRAL COM APENAS DUAS DOSES

 

Spray nasal — Foto: Getty Images
Spray nasal — Foto: Getty Images

Cientistas criam spray nasal que promete reverter envelhecimento cerebral com apenas duas doses

Pesquisadores da Texas A&M desenvolveram tratamento que promete combater inflamação crônica no cérebro e restaurar memória com efeitos que duram meses

Por 

Diogo Rodriguez

27/05/2026 10h01  Atualizado há 4 dias

Pesquisadores da Universidade Texas A&M desenvolveram um spray nasal que promete reverter marcadores do envelhecimento cerebral em modelos experimentais. Após apenas duas aplicações, o tratamento reduziu inflamação crônica, restaurou funções de memória e melhorou o desempenho cognitivo por meses. Os resultados foram publicados no Journal of Extracellular Vesicles e abrem caminho para novas abordagens no combate à demência e ao Alzheimer.


O envelhecimento do cérebro está associado a um processo chamado neuroinflamação crônica, que os pesquisadores descrevem pelo termo técnico "neuroinflammaging". Trata-se de uma inflamação persistente e de baixa intensidade nas células cerebrais que compromete a memória, o raciocínio e a capacidade de adaptação a novas situações. Esse processo também é considerado um dos principais fatores por trás de doenças neurodegenerativas como Alzheimer e demência vascular.


Por muito tempo, esse tipo de deterioração foi tratado como inevitável. O estudo da Texas A&M contesta essa visão, segundo comunicado da universidade.

"Doenças relacionadas ao envelhecimento cerebral, como a demência, são uma das maiores preocupações de saúde no mundo", disse Ashok Shetty, professor emérito da universidade e diretor associado do Instituto de Medicina Regenerativa. "O que estamos mostrando é que o envelhecimento cerebral pode ser revertido, para ajudar as pessoas a permanecerem mentalmente ativas, socialmente engajadas e livres do declínio relacionado à idade."

Linha direta com o cérebro

O mecanismo central do spray são as chamadas vesículas extracelulares (VEs), partículas biológicas microscópicas que as células usam naturalmente para transportar material genético entre si. No estudo, essas partículas foram carregadas com microRNAs, moléculas que atuam como reguladores de processos biológicos no cérebro.

"Os microRNAs funcionam como reguladores-mestres", explicou a pesquisadora sênior Madhu Leelavathi Narayana. "Eles ajudam a modular e regular muitas vias gênicas e de sinalização no cérebro."

A via nasal foi escolhida porque permite que o tratamento contorne a barreira hematoencefálica, a proteção natural do cérebro contra substâncias externas, e chegue diretamente ao tecido cerebral sem necessidade de procedimentos invasivos. "O modo de entrega é um dos aspectos mais empolgantes da nossa abordagem", disse o pesquisador Maheedhar Kodali. "A administração intranasal nos permite alcançar e tratar o cérebro diretamente."

Uma vez no cérebro, o tratamento atuou sobre células imunológicas responsáveis pela inflamação crônica, inibindo vias específicas ligadas ao envelhecimento cerebral, como o inflamassoma NLRP3 e a via de sinalização cGAS-STING.

Restauração de energia das células

Segundo o estudo, além de reduzir a inflamação, o spray restaurou a função das mitocôndrias, as estruturas responsáveis pela produção de energia dentro das células. O envelhecimento e a inflamação tendem a danificar esses componentes, tornando os neurônios menos eficientes e mais vulneráveis ao declínio. "Estamos devolvendo a faísca aos neurônios, reduzindo o estresse oxidativo e reativando as mitocôndrias do cérebro", afirmou Narayana.


Os testes comportamentais confirmaram os efeitos biológicos: os modelos tratados apresentaram desempenho significativamente melhor em tarefas de memória e reconhecimento, como identificar objetos familiares, reconhecer novidades e detectar mudanças no ambiente, em comparação aos grupos de controle não tratados. "Estamos vendo os próprios sistemas de reparo do cérebro sendo ativados, curando a inflamação e se restaurando", disse Shetty.

Uma urgência crescente

Nos Estados Unidos, o número anual de novos casos de demência deve subir de cerca de 514 mil em 2020 para aproximadamente 1 milhão em 2060. No Brasil, segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde, o país pode ter mais de 5 milhões de pessoas com algum tipo de demência até 2050.

"A tendência sinaliza uma necessidade urgente de políticas e intervenções inovadoras que possam minimizar o risco e a gravidade de distúrbios neurodegenerativos como a demência", disse Shetty.

O estudo também registrou respostas semelhantes ao tratamento em ambos os sexos, algo que os pesquisadores consideraram relevante, dado que essa equivalência não é comum em estudos biomédicos.

Por ora, os experimentos foram realizados em modelos animais, e ainda são necessários estudos adicionais antes de qualquer teste em humanos. Ainda assim, a equipe projeta aplicações futuras que poderiam beneficiar não só pacientes com demência, mas também pessoas em recuperação de acidentes vasculares cerebrais ou com declínio cognitivo relacionado ao envelhecimento.

"Nossa abordagem redefine o que significa envelhecer", afirmou Shetty. "Estamos mirando em um envelhecimento cerebral bem-sucedido: manter as pessoas engajadas, alertas e conectadas. Não apenas viver mais, mas viver de forma mais inteligente e saudável."


Fonte:https://epocanegocios.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2026/05/cientistas-criam-spray-nasal-que-reverte-envelhecimento-cerebral-com-apenas-duas-doses.ghtml

 


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