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‘Desenvolvi uma doença autoimune e um nódulo no
seio depois de colocar prótese de silicone’
A médica Beatriz Serraglio Narciso
recebeu diagnóstico de artrite reumatoide e enfrentou a suspeita de câncer.
Para ela e para os profissionais que a trataram, a causa foi um par de
implantes colocado alguns anos antes nas mamas
Por
Marcella
Centofanti
, em colaboração para Marie Claire — de São Paulo (SP)
02/05/2025 06h00 Atualizado há 11
meses
A médica otorrinolaringologista Beatriz Serraglio Narciso, de 31 anos, é alérgica desde que se conhece por gente. No começo deste ano, no entanto, notou piora nos sinais e sintomas: passou a ter coceiras pelo corpo e inchaço na boca, sem causa aparente. Em paralelo, começou a apresentar dores e rigidez nas mãos, o que a levou a suspeitar de artrite. Uma investigação apontou um fator inesperado: seus implantes de silicone poderiam estar relacionados ao quadro.
A cirurgia plástica havia sido feita em novembro de 2020, motivada por questões estéticas. Após perder peso, Narciso decidiu colocar 390 ml em cada mama, para levantá-las. O procedimento foi bem-sucedido, sem complicações iniciais.
Como boa paciente, a médica fazia ultrassom das mamas anualmente e não apresentava alterações. No fim de 2023, um exame de rotina confirmou que tudo estava dentro da normalidade. Não havia sinais de contratura, nódulos ou ruptura.
Diagnóstico de doença autoimune
Em janeiro, os sintomas começaram a se acumular. Além das manifestações alérgicas, surgiram dores em todas as articulações das mãos e dos punhos, acompanhadas de rigidez matinal. “Eu acordava sem conseguir apertar a pasta de dente”, lembra ela, que mora em São Paulo (SP).
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O quadro preocupava porque impactava diretamente sua profissão. Narciso é especialista em cirurgias de mudança de voz em mulheres trans e em pacientes que usaram anabolizantes. Desconfiada de que poderia se tratar de artrite, procurou uma colega reumatologista.
A hipótese se confirmou com exames de imagem e de sangue. A médica foi diagnosticada com artrite reumatoide, uma doença autoimune que provoca inflamações nas articulações. O tratamento foi iniciado com medicamentos imunossupressores, como metotrexato e hidroxicloroquina.
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Embora o diagnóstico explicasse parte dos sinais e sintomas, nem todos se encaixavam. Narciso relatou à reumatologista que também sentia dores na sola dos pés e insônia, o que não era típico da artrite reumatoide. A partir daí, sua médica levantou a suspeita de que os implantes de silicone poderiam estar envolvidos no quadro.
O choque ao descobrir o nódulo no seio
A hipótese levou à realização de uma ressonância magnética das mamas. O resultado revelou um nódulo no seio esquerdo, classificado como BI-RADS 4, categoria que indica suspeita de câncer.
“Eu até conversei com a radiologista que laudou esse exame. Ela falou que a imagem era estranha, porque o nódulo estava captando muito contraste. Isso significa que ou era câncer ou tinha alguma coisa muito inflamatória ali”, diz a médica. Uma biópsia confirmou tratar-se de uma inflamação local.
Diante do quadro, a indicação dos médicos foi clara: retirar os implantes. “Não havia 100% de certeza que eu iria melhorar, porque o diagnóstico da doença de silicone é feito por exclusão. Só pode fechar o quadro quando a pessoa tira a prótese e melhora”, afirma Narciso.
Doença do silicone
A operação, realizada há três semanas, durou cerca de 5 horas, porque exigiu a reconstrução das mamas, feita com enxerto de gordura retirada dos flancos da paciente. Durante o procedimento, os cirurgiões descobriram que a prótese estava rompida, com vazamento de silicone para o organismo — algo que nenhum exame de imagem havia detectado até então.
A suspeita é que a ruptura e o vazamento de composto tenham servido de gatilho para a ativação do sistema imune e o desenvolvimento da artrite reumatoide. Para ela e seus médicos, o quadro se encaixa na chamada síndrome autoimune-inflamatória induzida por adjuvantes (ASIA).
A expectativa é que, nos próximos meses, ela consiga reduzir ou até suspender o uso de medicamentos imunossupressores. Narciso deixa um alerta: "Muita gente pode estar sofrendo sem saber que a prótese é a causa. Cansaço, dor, insônia, queda de cabelo podem ser sinais de rejeição".
O que a ciência sabe sobre a síndrome ASIA
A síndrome ASIA foi descrita em 2011 como uma condição clínica atribuída à ação de adjuvantes, substâncias que aumentam a resposta imunológica a um antígeno.
“O autor agrupou sob essa denominação algumas doenças previamente descritas, como síndrome da guerra do Golfo, síndrome da miofascite macrofágica, siliconosis e fenômenos pós-vacinação com adjuvantes, que apresentam sintomas semelhantes”, afirma a reumatologista Emília Inoue Sato, membro da Comissão de Lúpus da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR).
Siliconosis é um outro nome para a chamada doença do silicone, um quadro com diversas manifestações clínicas, associado à prótese mamária. Segundo Sato, embora existam casos documentados e alguns estudos em modelos animais, a maioria dos indivíduos com os implantes não terá uma enfermidade por esse motivo.
“Provavelmente, apenas pessoas com alguma predisposição genética desenvolvem manifestações clínicas após o implante de silicone. A relação causal é difícil de ser determinada, pois não há um marcador para a doença”, explica.
Sintomas da síndrome ASIA
Entre os sintomas mais relatados por pacientes que suspeitam da síndrome estão fadiga crônica, dores articulares difusas, dificuldade de concentração e distúrbios do sono. Mais raramente, há febre e queixas gastrointestinais ou respiratórias inespecíficas. Em casos mais raros, de acordo com Sato, há relatos de desenvolvimento de doenças autoimunes como esclerose sistêmica, doença de Sjögren e miopatias inflamatórias.
“Isso indica que, em algumas pessoas o implante de silicone pode servir de gatilho para o desenvolvimento de algumas doenças autoimunes”, afirma. Com relação à artrite reumatoide, “é muito difícil comprovar o nexo causal”, diz a reumatologista.
Explante pode ajudar, mas não há garantias
Segundo a médica, cerca de 70% das mulheres que retiraram a prótese relataram melhora dos sintomas, mas há registros de retorno das queixas meses depois. Em casos de doenças autoimunes estabelecidas, o explante não dispensa o tratamento convencional com imunossupressores.
Ela acrescenta que, em casos de prótese rompida, o risco inflamatório aumenta, e a retirada pode ser indicada. “Existem vários relatos de desenvolvimento de lesão nodular granulomatosa, devido à presença de silicone até mesmo em locais distantes de onde foi colocado, como pernas, tórax e abdome”, aponta.
A médica acrescenta que existe um aumento de risco de desenvolvimento de um tipo raro de linfoma em mama de pacientes com um tipo específico de prótese de silicone: “Mas esse implante foi motivo de recall há alguns anos e já não é mais comercializado”.
Apesar dos riscos, Sato acredita que a maioria das mulheres com prótese não apresenta qualquer sintoma associado. “Mas quem tiver queixas persistentes, como cansaço, dor crônica e distúrbios do sono, deve procurar avaliação médica”, orienta.
Fonte:https://revistamarieclaire.globo.com/saude/noticia/2025/05/desenvolvi-uma-doenca-autoimune-e-um-nodulo-no-seio-depois-de-colocar-protese-de-silicone.ghtml
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