Homem levanta pneu em treino de CrossFit. Foto:
Freepik.com
Criticado por muitos, crossfit é como uma religião
para os adeptos; entenda por que
Modalidade é
associada à intensidade excessiva dentro e fora da academia
DeMark Oppenheimer, do The New York Times
31/03/2022 - 11:50
/ Atualizado em 31/03/2022 - 12:22
Ali Huberlie, uma consultora educacional de 27 anos, de Boston, acorda
às 4h45 todas as manhãs para ir ao seu box de crossfit, onde passa duas horas.
Quando ela e seu namorado, que ela conheceu através da modalidade, foram
procurar um apartamento, eles escolheram um bairro perto da academia. Este ano,
como aluna da Harvard Business School, Huberlie escreveu um estudo de caso
sobre um fundador do crossfit que foi incorporado ao currículo da
escola. E quando pesquisadores da Harvard Divinity School estavam estudando
outros espaços além de igrejas que funcionam como comunidades espirituais, eles
entrevistaram Huberlie.
— Crossfit é família, riso, amor e
comunidade — disse Huberlie aos pesquisadores, que a citaram em seu estudo,
“How We Gather” ("Como nos reunimos", em tradução literal). —
Não consigo imaginar minha vida sem as pessoas que conheci através do crossfit.
Uma franquia de academias de crossfit fundada em 2000 que tem mais
de 13 mil operadoras licenciadas e atende pelo menos dois milhões de pessoas
tornou-se o foco de estudo de pesquisadores que tentam identificar o que
constitui religiosidade nos Estados Unidos.
Afinal, é surpreendentemente difícil dizer o que faz uma
religião. Huberlie fala sobre sua academia como outros podem falar sobre
uma comunidade de igreja ou sinagoga. O mesmo vale para alguns membros do
programa de 12 passos (das Sociedades Anônimas, como os Alcoólicos Anônimos) e
fãs dedicados do futebol universitário. Em um país cada vez mais secular,
todos os tipos de atividades e subculturas fornecem o significado que no
passado, pelo menos como imaginamos, as comunidades religiosas davam.
Qualquer critério que você escolher
para definir a religião revelará rapidamente suas deficiências. É sobre a
crença em uma divindade? O judaísmo e o cristianismo têm isso, mas muitas
variedades de budismo não. Existência após a morte? Os mórmons acreditam
nisso, mas muitos protestantes liberais não.
No entanto, considere o futebol. Estudiosos da religião
notaram que ele reúne as pessoas em grandes multidões para “adorar” e tem um
dia santo semanal e até feriados anuais, como o dia do draft da NFL e, é claro,
o Super Bowl (final do campeonato nacional de futebol americano).
Casper ter Kuile e Angie Thurston, alunos da Harvard Divinity
School que também escreveram “How We Gather”, foram os anfitriões de uma
palestra chamada “CrossFit como Igreja?!” com Greg Glassman, cofundador da
modalidade. Cerca de 100 pessoas compareceram, muito mais entusiastas
locais do crossfit do que estudantes.
Enquanto falava para a multidão
animada, as observações de Glassman às vezes soavam religiosas, salvíficas e
até messiânicas.
— Estamos salvando vidas e salvando muitas delas — disse
Glassman. — Trezentos e cinquenta mil americanos vão morrer no ano que vem
por ficarem sentados no sofá. Isso é perigoso. A televisão é
perigosa. Agachar não é.
Ele disse que se absteve de comercializar seus
próprios equipamentos de ginástica porque isso prejudicaria seus fornecedores
existentes, o que seria um “pecado”.
Na clássica coletânea de ensaios de 2000
"Religião e Cultura Popular na América", estudiosos argumentaram que
atividades tão diversas quanto o fã clube de "Jornada nas Estrelas",
dietas da moda e futebol poderiam constituir religiões. Mas se alguma
coisa que cria comunidade e gera devoção apaixonada pode constituir religião, a
palavra perde todo o significado? Se tudo é religião, então talvez nada
seja.
Para Joseph L. Price, que ensina religião e cultura
popular no Whittier College, na Califórnia, o critério-chave é se determinada
atividade estabelece uma visão de mundo.
— Até que ponto a visão de mundo dos
"crosfiteiros" é determinada por suas práticas, suas aspirações para
o corpo perfeito ou para o homem ou mulher mais apto do mundo?. A
aspiração deles por ser fitness molda sua visão de como seu mundo é ordenado e
organizado? — questionou.
Usando essa lógica, pode-se ver como os fãs de
"Jornada nas Estrelas", com seu profundo interesse em ciência e
cosmologia, podem se qualificar como religiosos. Mas os membros de um
clube de café da manhã masculino que se reúnem semanalmente em um restaurante,
por outro lado, embora possam derivar grande alegria e conforto de seu ritual,
não seriam, em virtude disso, religiosos.
Claro, essa é apenas uma maneira de responder à
questão do que é uma religião. Na discussão em Harvard com Glassman, Kuile
ofereceu outros critérios.
— O que realmente nos impressionou foi a maneira
como as pessoas estavam trazendo seus filhos para a academia ou a maneira como
os diferentes treinos do dia receberam nomes de soldados que morreram em
batalha. Portanto, há todas essas coisas que você esperaria ver em uma
igreja: lembrar os mortos através de algum tipo de ritual e comunidade
intergeracional — disse Kuile.
Lindsey Carfagna, estudante de pós-graduação em
sociologia, disse que o CrossFit a ajudou a encontrar outro tipo de comunidade,
a de “atletas adaptativos”, ou aqueles que superaram desafios físicos.
— Perdi minha carreira atlética universitária
para concussões (lesão no cérebro que perturba seu funcionamento normal de
forma temporária ou permanente) e, desde então, tenho lutado com desafios
físicos de longo prazo — disse Carfagna, que competiu no futebol e atletismo na
graduação.
— Como atleta adaptável, o crossfit me deu a voz na
minha cabeça que diz: "Você não está quebrado, você só precisa se
adaptar". Isso me deu a comunidade de outros atletas adaptativos que
diariamente escolhem ouvir essa mesma voz, em vez da voz da limitação.
Os ministros cristãos falam sobre
curar pessoas quebradas, mas parece que hesitariam em focar nos atletas,
porque, na teologia cristã, todos são pecadores caídos, todos estão
quebrados. Por outro lado, grupos evangélicos como os Atletas em Ação, de fato,
concentram seu evangelho cristão nos atletas.
Os céticos podem zombar que o crossfit é apenas uma
academia. Mas em uma entrevista, Glassman disse que para muitos
participantes é obviamente muito mais.
Glassman definiu os valores do crossfit como responsabilidade,
comunidade e transformação pessoal.
— No futuro, esses valores se transformarão. Vai chegar o momento
em que uma pessoa vai perguntar 'Vou me mudar — as pessoas da academia vão me
ajudar?" Claro que vão.
Huberlie descreveu a experiência do crossfit como íntima e
solidária, na qual era esperado torcer uns pelos outros para atingir as metas
de condicionamento físico. É uma cultura que pode produzir efeitos mais
frequentemente associados à igreja.
Fonte: https://oglobo.globo.com/saude/criticado-por-muitos-crossfit-como-uma-religiao-para-os-adeptos-entenda-por-que-25456460
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