COMO A FIGURA DA MÃE DE JESUS AINDA DIVIDE CRISTÃOS 75 ANOS APÓS DOGMA DA ASSUNÇÃO DE MARIA E POR QUE PARA QUER 'CORRIGIR' DEVOÇÃO A NOSSA SENHORA?

Como a figura da mãe de Jesus ainda divide cristãos 75 anos após dogma da Assunção de Maria
Edison Veiga- De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
- Tempo de leitura: 11 min
"Pronunciamos, declaramos e definimos como sendo um dogma revelado por Deus: que a Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, tendo completado o curso de sua vida terrena, foi assumida, de corpo e alma, na glória celeste", publicou o papa Pio 12 (1876-1958) em 1º de novembro de 1950.
Foi a última vez que a Santa Sé proclamou um dogma: a assunção de Maria, portanto, integra a lista de 43 "verdades de fé", crenças oficializadas pela Igreja Católica como sendo "inquestionáveis" para os que seguem essa religião.
A afirmação papal de 1950 foi feita por meio de um documento chamado constituição apostólica, categoria dentre as mais importantes dentro da máquina burocrática que rege os assuntos da fé católica.
Assim, Pio 12 buscou encerrar uma questão que desde os primeiros séculos era debatida por teólogos e controversa entre populares: qual teria sido o fim da mãe de Jesus, já que os textos bíblicos não se ocuparam de contar sobre seus últimos dias.
O entendimento religioso era o de que ela não poderia ter tido um fim comum aos demais humanos.
"Para ser mãe de Deus, Maria não estava sujeita ao poder do pecado, portanto, não poderia também ficar sujeita ao poder da morte", explica à BBC News Brasil a cientista da religião Wilma Steagall De Tommaso, coordenadora do grupo de pesquisa A Palavra É Imagem: Arte Sacra Contemporânea, História e Religião, na Fundação São Paulo, e coautora do livro A Glorificação de Maria em Corpo e Alma.
"Jesus foi gerado por Maria e, por isso, a carne do filho era a mesma carne da mãe. Se a carne do Filho, Jesus Cristo, não se corrompeu, a mãe também não deveria experimentar a corrupção da carne, sendo glorificada na alma e no corpo da mesma forma que Jesus", completa De Tommaso
"Embora o dogma seja algo recente, estamos falando de uma crença antiga", diz à BBC News Brasil o teólogo Raylson Araujo, pesquisador na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
"O dogma veio de uma reflexão interna da Igreja."
Mas se o papa Pio 12 buscava encerrar a questão, fato é que nem o dogma foi capaz de botar uma pedra sobre o assunto.
Em outros meios cristãos, a ideia de Maria alçada de corpo e alma ao céu é vista como uma invenção; dentro da Igreja Católica, também não há consenso teológico se a mãe de Jesus morreu e, então, foi levada para junto de Deus ou se, chegado o momento, ela foi alçada aos céus sem precisar passar pela experiência da morte.
Há ainda duas curiosidades — um tanto opostas em si — sobre a proclamação do último dogma.
Por um lado, Pio 12 tomou o cuidado de, em um movimento um tanto democrático, consultar bispos de todo o mundo para saber se havia apoio popular para que a tradição da assunção de Maria se convertesse em uma verdade de fé.
Em maio de 1946, o papa publicou uma encíclica na qual apresentou a questão ao episcopado, questionando como suas comunidades viam a proposta de um "dogma de fé" da "assunção corpórea da santíssima Virgem".
Pio 12 citava que era importante saber a posição tanto do clero quanto dos fiéis.
De acordo com informações do Vaticano, 1181 respostas foram recebidas, sendo a esmagadora maioria favorável — 1169 diziam concordar com a definição do novo dogma.
Em artigo publicado sobre o tema, o cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, Orani João Tempesta afirmou que, por causa dessa consulta, a decisão papal veio para confirmar "a fé de toda a Igreja".
No livro O Dogma da Imaculada Conceição, o bispo Pedro Carlos Cipolini escreveu que o que se fez foi "uma espécie de concílio por escrito". Já o frade, teólogo e professor Clodovis Boff afirmou que o que foi feito foi "uma democracia de verificação".

Por outro lado, a declaração do dogma da assunção de Maria foi o único episódio em que o papa claramente evocou um princípio formulado por outro dogma — e que soa como autoritário: a ideia da infalibilidade papal, instituída em 1870 por Pio 9º (1792-1878). Afinal, na sua declaração ele enfatiza que o faz pela "própria autoridade".
"Dogma de fé é tudo aquilo que o magistério da Igreja, de modo ordinário e costumeiro, proclama como verdade revelada por Deus e que os católicos aceitam na profissão de fé ou no credo", define a cientista da religião De Tommaso. A especialista explica que a palavra tem origem grega e significa "uma obediência de fé".
A construção teológica
Ao longo dos séculos de cristianismo, a Igreja Católica sedimentou as poucas informações dos textos bíblicos sobre Maria, mesclou-as com tradições populares e, pouco a pouco, foi consolidando uma biografia da mãe de Jesus calcada em doutrina, fé e dogmas.
Destas verdades consideradas inquestionáveis, são quatro os pilares que ajudam a compreender o status de Maria dentro do catolicismo: a ideia de que ela é a Mãe de Deus, por ter gerado Jesus; a narrativa de que ela também foi concebida "sem a mancha do pecado original", ou seja, de forma milagrosa; sua virgindade perpétua; e, por fim, a assunção.
Mas se a história da assunção só foi oficialmente sacramentada há 75 anos, essa versão sobre o destino de Maria circula desde os primeiros séculos do cristianismo. Em 377, o bispo Epifânio de Salamina (c. 320-403) afirmou que ninguém sabia se Maria havia morrido ou não.
Desde essa época, textos apócrifos relatando Maria sendo levada ao céu já circulavam. São possivelmente do século 4º o texto chamado O Livro do Repouso de Maria e também os relatos das Narrativas da Dormição dos Seis Livros.
"O que se percebe, historicamente, é uma construção visando a justificar a importância teológica de uma mulher tão especial para ter sido escolhida para gerar Jesus", afirma à BBC News Brasil o historiador e teólogo Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Nos séculos seguintes, espalharam-se diversas versões, muito possivelmente baseadas nessas, de que a mãe de Jesus não havia morrido — e, sim, levada diretamente ao Reino de Deus.

Algumas narrativas diziam que anjos a vieram buscar. Outras, que o próprio Jesus encarregou-se disso. O historiador e bispo Gregório de Tours (538-594) debruçou-se sobre o assunto, buscando explicações teológicas para o que ele chamou de "assunção corpórea" de Maria.
De Tommaso ressalta que as dimensões da vida de Maria estiveram em ampla discussão durante "toda a Patrística", o período filosófico cristão do século 1º ao século 8º.
"Percebe-se essa realidade nos primeiros escritos da literatura cristã antiga", exemplifica.
Ela lembra que Aristides de Atenas, intelectual que viveu no século 2º, defendia o cristianismo como religião ressaltando que Jesus seria o "Filho de Deus […] que nasceu de uma virgem santa, sem germe de corrupção".
Há registros que por volta do ano 600 já havia celebração em memória desse episódio da assunção. Os papas Sergio 1 (650-701) e Leão 6º (880-929) reconheceram e aceitaram esse costume, que se arraigava.
Teólogos católicos passaram a oscilar entre aceitar e defender a doutrina — ou, pelo menos, tolerar.
E o assunto acabou aparecendo em textos de Boaventura (1217-1274), Tomás de Aquino (1225-1274), Afonso de Ligório (1696-1787) e muitos outros. O papa Bento 14 (1675-1758) declarou que a ideia da assunção de Maria era "uma opinião piedosa e provável".
Convenientemente, a data da comemoração foi trazida para o 15 de agosto, data que desde o ano 18 a.C., por imposição do imperador Augusto (63.a.C - 14 d.C.) era o grande feriado festivo de Roma Antiga.
Segundo Moraes, em 1925, o papa Pio 11 (1857-1939) recebeu de um grupo de religiosos eslavos "uma petição" que buscava inserir a crença na assunção de Maria no rol dos dogmas católicos. "Havia a expectativa que isso ocorresse ainda naquele ano", conta.
Quando o dogma foi proclamado, há 75 anos, a tradição já era tão forte que a afirmação estava "naturalizada" dentro da Igreja, argumenta o teólogo.
Ele reconhece que esse papel importante de Maria dentro do catolicismo funcionou muito bem porque "é um rosto feminino" que dá o toque materno à religião.
"A Igreja Católica passou a extrair os relatos a respeito de Maria a partir de tudo o que era construído pela própria Igreja, pelas opiniões dos teólogos, pelos documentos papais e também pelas lendas transmitidas, pela tradição, pelos milagres atribuídos a Maria", enumera.
"Soa como se sempre tivesse existido e se apaga, principalmente aos fiéis, a história do dogma", comenta.
"Esse dogma é o último estágio da exaltação a Maria. Coloca a assunção de seu corpo ao céu sem que este tivesse experimentado qualquer tipo de corrupção, uma visão piedosa largamente sustentada pela comunhão romana", analisa Moraes.
Dormição
De Tommaso lembra que os evangelhos e outros textos bíblicos "silenciam sobre a morte" de Maria. E isto fez com que a explicação precisasse deixar de ser histórica e ser dogmática, segundo ela.
A cientista da religião cita entendimento teológico de Joseph Ratzinger (1927-2022), que depois seria o papa Bento 16, para definir a assunção de Maria como "afirmação teológica" e não "histórica".
Nunca houve consenso, contudo, sobre como teria se dado essa assunção, se com a mãe de Jesus ainda viva ou imediatamente após a morte.
Em geral, os de tradição oriental, os ortodoxos, tendem a entender que Maria teve morte natural, sua alma foi recebida por Jesus e seu corpo foi ressuscitado e levado aos céus — no que seria uma antecipação privilegiada daquilo que ocorreria com todos os humanos para o julgamento final.
É o que eles costumam chamar de dormição de Maria, episódio celebrado também no 15 de agosto.

Entre os católicos de tradição ocidental, contudo, prevalece o entendimento de que Maria foi levada ao céu, de corpo e alma, antes de morrer.
Na definição do dogma, o papa se furtou a definir isso.
"No texto em que proclama o dogma, o papa fala em 'terminado o curso de sua vida terrena'. Virou um grande 'morreu ou não morreu'", pontua Araujo.
"É fato que um dogma não pode ser anulado, negado, mas ele pode ser revisitado e passar por reinterpretações. E escolas teológicas entendem o dogma da assunção porque ele nos comunica o que o Senhor nos espera no dia final. Em Maria há a antecipação disso e, preservada do pecado original, ela não precisa ter seu corpo corrompido. […] Essa é a interpretação, para além de pensar Maria sendo levada por anjos."
"A discussão teológica é essa. Claro que no popular, essa conversa geralmente é tratada de maneira mais convencional: alguns vão dizer que ela morreu e depois foi levada por anjos, outros que ela era vista pelos discípulos quando subiu aos céus", diz ele.
"O detalhe, para o fiel, pode não fazer diferença. Afinal, ele vê na assunção a esperança de vida eterna para todos e ponto. Para os teólogos, contudo, isso é importante", diz Moraes.
O que está claro no entendimento católico é a diferença entre a subida de Jesus aos céus e a subida de Maria. Conforme explica De Tommaso, é por isso que se diz "ascensão", no caso de Jesus — este teria subido por sua própria conta. De Maria, o termo é "assunção", porque "ela é levada".
"Por isso a Igreja no primeiro milênio representava a dormição em imagens em que Maria está deitada. Em torno dela estão os apóstolos. E sua alma, como criança envolta em um pano, está no colo do filho que desceu em glória rodeado por anjos para buscar a mãe", descreve De Tommaso.
Protestantes
Os cristãos protestantes têm mais divergências com os católicos sobre as questões envolvendo Maria.
O ponto de partida dessa impossibilidade de conciliação é a premissa de que, para esses segmentos cristãos, tudo precisa ser embasado pela Bíblia.
"No universo protestante a autoridade última é concedida às escrituras sagradas, enquanto na Igreja Católica Romana esta detém a autoridade última. Os dogmas, neste sentido, são ou pronunciamentos do próprio papa, quando fala da cátedra de Pedro, ou quando há uma manifestação do papa juntamente com o colégio de bispos, num concílio ecumênico", contextualiza à BBC News Brasil o teólogo e pastor luterano Valdir Steuernagel, autor do livro Um Olhar Sobre Maria, Serva do Senhor.
"No caso do dogma sobre Maria se pode perceber que há vários dogmas que se referem a ela e que foram sendo desenvolvidos no decorrer dos séculos", observa ele.
Steuernagel também acredita que no Brasil, por conta da formação católica da nação construída pela colonização portuguesa, historicamente foi consolidada uma visão dos protestantes como "oposição", de "contraditório".
"Estabeleceu-se assim [o cristianismo não católico] com uma postura e linguagem fortemente crítica a esse catolicismo e, como tal, acabou relegando o papel de Maria a uma 'escondida' personagem em nosso alfabeto bíblico", reconhece ele, lembrando que os evangélicos costumam considerar os católicos "mariólatras".
Para o pastor, essa leitura está mudando.
"A minha percepção é de que quanto mais vamos nos encontrando num Brasil menos católico e mais evangélico, tanto mais liberdade a tradição evangélica, à qual pertenço, terá para mergulhar nas Escrituras e então perceber o papel dessa Maria que se qualifica como serva do Senhor e de quem tanto se pode aprender e que tanto nos ajuda a moldar o seguimento a Jesus", avalia ele.

O teólogo Moraes vê esse papel de Maria, embasado por dogmas dentro do catolicismo, como se ela fosse vista como um meio-termo entre um santo e o próprio Deus.
"Ela tem um local de destaque incomum, acima de um santo normal. É vinculada diretamente com a Santíssima Trindade, alguém que não é inserida diretamente na Trindade [o entendimento de Deus como Pai, Filho e Espírito Santo], mas alguém que orbita essa Trindade de maneira especial, afinal porque é mãe de Deus", analisa ele.
O professor acredita que aí esteja o ponto de difícil entendimento entre protestantes e católicos.
"Os protestantes reconhecem o valor da Maria histórica, mãe de Jesus, mulher escolhida para trazer ao mundo o Messias. Mas aí dar a ela um grau de adoração, uma função que a Bíblia não atribui, isso já é ir longe demais", compara.
"A 'mariolatria' dos católicos é algo que sempre incomodou os protestantes", diz Moraes.
O teólogo Araujo discorda dessa visão protestante. "Definitivamente, Maria não pleiteia ser a quarta pessoa da Santíssima Trindade. Definitivamente", diz o teólogo. "A Igreja leva isso muito a sério."
Ele comenta que há uma cobrança do Vaticano para que a devoção mariana seja feita "com os pés no chão".
Segundo ele, o que ocorre é chamado de hiperdulia, que seria uma veneração especial a Mãe de Jesus.
Dulia, que vem do termo grego para o verbo honrar, é a denominação teológica para a devoção que os católicos nutrem pelos santos.
Fonte:https://www.bbc.com/portuguese/articles/c629z119110o
Por que papa quer 'corrigir' devoção a Nossa Senhora?

- Edison Veiga
- De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
- Tempo de leitura: 11 min
O papa Leão 14 colocou os pingos nos is sobre o papel que Maria, a mãe de Jesus, ocupa na doutrina e na tradição do catolicismo, em documento publicado nesta semana.
Para alguns, soou como se a principal santa da mística católica tivesse sido "rebaixada".
Para especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, o gesto foi um ajuste à "mariolatria" que buscava colocá-la em um papel central na "narrativa da salvação" — e, de forma ecumênica, uma resposta às constantes críticas de protestantes à veneração que católicos promovem à personagem.
Na prática, o documento é uma maneira de frear certos abusos de uma devoção que cresceu muito nos últimos séculos — em determinado momento, roubando para a santa o protagonismo que, para a Igreja, deveria caber à Santíssima Trindade, ou seja, Deus, o pai, Jesus, o filho, e o Espírito Santo, a força divina.
Preparado pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, assinado por Leão 14 e publicado na quarta-feira (5/11), o documento apresenta um arrazoado histórico de como Maria foi entendida ao longo do cristianismo, veta o uso do título "corredentora" para seu papel e cobra prudência na referência a ela como "medianeira".
Na terminologia cristã, redentor é aquele redime, que liberta — título dado a Jesus. Já medianeira seria a intercessora, aquela que intermedia.
Para o teólogo Vinícius Paiva, especialista em mariologia e membro do conselho diretor da Academia Marial de Aparecida — onde também é professor —, o foco do documento papal não é a piedade popular, mas sim "ajustar a devoção mariana".
"São alvos principais do documento os títulos de 'corredentora' e de 'medianeira de todas as graças'", explica ele, lembrando que não são termos muito difundidos na piedade popular.

O texto da Igreja também critica a "instrumentalização política" da figura religiosa e, ao mesmo tempo que valoriza o papel de Maria no projeto de salvação de Jesus, explica que ela é uma intercessora, a "mãe do povo fiel" que roga — mas não tem, por si só, a autonomia para salvar.
Segundo o documento, é necessário evitar "o perigo de ver a graça divina como se Maria se convertesse em uma distribuidora dos bens ou energias espirituais em desconexão com a nossa relação pessoal com Jesus Cristo".
Nas redes sociais, muitos católicos reclamaram. No X (antigo Twitter) há postagens chamando o documento de "nefasto" e até de "satânico".
"Tomara que estejamos vivos para ver, um dia, reinar um papa que declare o dogma de que a Virgem Maria é corredentora", postou um usuário.
"Contra a Mater Populi Fidelis", escreveu outro, citando o nome oficial do texto do Vaticano.
"Mais um ataque do Vaticano à Santa Igreja Católica", postou uma outra pessoa.
Há críticas também no YouTube e em outras redes sociais.
2 mil anos de controvérsias
Professor no Centro Universitário Adventista de São Paulo e pesquisador de história do cristianismo na Universidade Andrews, nos Estados Unidos, o teólogo Alberto Tasso lembra que "as discussões sobre o papel de Maria" remontam aos primeiros tempos do cristianismo.
O próprio documento desta semana recorda que data "dos primeiros séculos" o interesse pela "maternidade divina", quando Maria recebeu o título de Theotokos, ou seja, mãe de Deus — decisão tomada pela cúpula cristã reunida no Concílio de Éfeso, no ano de 431.
"Essa ideia elevou Maria para uma posição acima da de uma mãe comum", diz Tasso.
Com o documento, Tasso entende que Leão não está "alterando" a ideia de Theotokos, "mas enfatizando o papel de Cristo como único mediador".
"Eu diria que é uma postura interessante, até louvável, de esclarecer e exaltar a figura de Cristo como único mediador", afirma ele.
De um lado do cristianismo, essa devoção mariana só aumentaria.
Na Igreja Católica, sucessivos dogmas foram proclamados — que ela foi concebida sem a mancha do pecado original, que ela se manteve virgem por toda a vida e, o mais recente deles, de 75 anos atrás, que ela subiu ao céus de corpo e alma.
Já os protestantes, que se fiam exclusivamente na Bíblia sem buscar respostas em entendimentos construídos por um magistério histórico de doutrinas, relegaram a ela um papel, geralmente respeitoso, de natureza mais humana — situando-a como uma piedosa e virtuosa mãe, que possibilitou a vinda de Jesus, mas nada muito além disso.
A visão católica se desenvolveu de tal forma que, muitas vezes, Maria passou a assumir um protagonismo que nunca esteve presente na doutrina.
Uma ilustração um tanto caricata mas com fundo que encontra lastro social está na peça O Auto da Compadecida, escrita por Ariano Suassuna (1927-2014) em 1955 e transformada em famoso filme no ano 2000.
Na trama, quando o protagonista João Grilo vai ao temido julgamento final, ele tinha tudo para ser condenado ao inferno, mas consegue escapar quando apela para que a mãe de Jesus, a "compadecida", faça o julgamento. E ela, como uma mãe amorosa, consegue uma segunda chance para o personagem.

Historicamente, o teólogo Tasso observa que o catolicismo permitiu, nos últimos séculos, um certo "distanciamento" de Jesus como mediador. Para ele, a figura do filho de Deus acabou sendo deixada cada vez mais divina e menos humana.
E isso abriu espaço para uma veneração a Maria como essa personalidade mais próxima dos fiéis.
"Daí veio a ideia de que o filho jamais diria não a um pedido de sua mãe. A própria oração da Ave Maria, em que se pede que ela 'rogue por nós, os pecadores' [denota isso]", observa.
"A devoção mariana é muito antiga e sempre esteve muito próxima da fé popular. Sua figura de mãe a aproxima do fiel simples de forma muito mais prática e palpável que a ideia de um Deus imaterial, espiritual", comenta à historiadora e antropóloga Lidice Meyer, autora do livro Cristianismo no Feminino.
"A fé popular usa todos os sentidos humanos: necessita do contato físico do objeto que se olha e venera, dos sons repetidos das rezas e mesmo do odor da vela acesa ou das flores oferecidas."
"A representação de Maria em quase todas as igrejas católicas no altar principal, muitas vezes até mesmo mais destacada que Cristo e a quase ausência de representações de Deus-Pai e do Espírito Santo leva a uma interpretação mesmo que inconsciente de sua importância relativa à fé e à salvação."
"Não é de hoje que a liderança da Igreja tem se atentado para os possíveis desvios doutrinários perpetuados pelo senso comum", completa ela.
Na seara da fé, o cenário, portanto, é complexo.
"Existem grupos eclesiais, grupos inclusive conservadores e ultraconservadores, que há muitas décadas pedem que a Igreja proclamem o dogma da corredentora e da medianeira de todas as graças", salienta o teólogo Paiva.
"Mas a Igreja recusou isso. O magistério papal após o [Concílio] Vaticano 2º vem veementemente desqualificando essa palavra para explicar a relação de Maria com a obra de salvação."
"Para o povo não muda nada", diz Paiva. "A relação de filiação que o povo fiel tem com Maria vai continuar."
Para o teólogo, este é o "grande resgate" do documento. Ele ressalta que Leão 14 cunha um "novo título que resume essa relação com o povo".
"Nossa Senhora é e mãe do povo fiel", observa, traduzindo a expressão latina que intitula o texto. "O documento salvaguarda essa maternidade espiritual de Maria."
"Ele não toca na piedade popular. Ele ajusta terminologias que vinham sendo usadas dentro da Igreja por alguns segmentos maximalistas", esclarece Paiva.
Dentro da mariologia, este é o nome que se dá aos que se preocupam mais com as dimensões "divinas" de Maria do que com seus aspectos históricos e humanos.
Os maximalistas são vistos como aqueles que colocam Maria como uma figura acima dos demais santos.
"Quase que equiparada a Deus", afirma Paiva.
"É uma visão que entende Maria como se fosse uma quarta pessoa da Santíssima Trindade", complementa o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Desde a proclamação do último dogma mariano, em novembro de 1950 — pelo papa Pio 12 (1876-1958) —, algumas correntes do catolicismo vinham pedindo um novo dogma que a denominasse oficialmente corredentora.
"Maria como corredentora seria um quinto dogma mariano, que embora proposto por alguns, não corresponde à doutrina cristã", resume a antropóloga Meyer.
"Aceitar que Maria possua a função de corredenção seria atrelar à sua pessoa a divindade de Cristo e diminuir o papel de Jesus na cruz. A morte de Cristo na cruz ocorre de forma substitutiva e só pode ter eficácia por Cristo ser também Deus."

Oficialmente, a proposta sempre encontrou resistência na cúpula católica.
O Concílio Vaticano 2º, ocorrido de 1962 a 1965, deixou claro o entendimento de que Maria, na narrativa da salvação, estava subordinada a Jesus — não podendo ser igualada a ele.
Meyer enfatiza o papel desse encontro para "conferir novamente a humanidade à Maria", mostrando-a "como mulher e discípula e determinando que o culto a Maria deveria ser 'orientado ao centro cristológico da fé cristã'.
O papa João Paulo 2º (1920-2005) utilizou o termo em pelo menos sete declarações — mas nunca explicou o sentido que pretendia.
Nenhum papa demonstrou, contudo, um esforço para transformar a nomenclatura em dogma.
Francisco (1936-2025), o predecessor de Leão 14, negou explicitamente essa ideia, ressaltando o papel de Maria como "primeira discípula".
"É um ponto final na expressão corredentora. [Leão 14] diz que o nome é inadequado, inoportuno, que não pode ser usado", afirma Paiva.
"Em relação ao medianeira de todas as graças, as orientações são de que isso seja bem explicado ao povo: um cuidado pastoral para que não se entenda que Maria é a detentora de um poder dissociado do poder de Deus."
"Eu diria que foi feito um ajuste para que a linguagem, ao falar sobre Maria, seja mais ponderada, mais adequada, mais condizente com a própria doutrina da Igreja", contextualiza o teólogo Paiva.
"A nota não traz nenhuma novidade. Mas traz uma aplicação prática: o veto para a palavra corredentora", resume Paiva. "Não é uma resposta da Igreja à fé popular, mas um ajuste."
Rebaixamento?
"Entendo que a Igreja Católica [por este texto] não rejeita sob nenhuma hipótese a devoção popular [à Maria], mas a corrige à medida que torna bastante explícito o limite entre a adoração devida somente a Deus e a veneração à Virgem", comenta o teólogo e historiador Fabio Darius, professor no Centro Universitário Adventista de São Paulo.
Para ele, quando a Santa Sé a situa como "primeira discípula" em vez de "redentora", está apontando "para a primazia de Cristo", colocando a colaboração de Maria como "fruto de iniciativa divina".
"Penso, principalmente, que embora os fiéis de todas as épocas, inclusive hoje, refiram-se à Maria com as mais belas, eloquentes e sinceras palavras, é preciso buscar precisão teológica, pois uma compreensão errada obviamente pode levar a erros em um nível cristológico, ou seja, minimizando o papel de Cristo", enfatiza Darius.
"Quem interpreta as colocações do papa como um 'rebaixamento' do papel de Maria precisa ler com mais cuidado o texto", frisa Meyer. "Leão 14 não traz nada novo. Ele apenas diz que os títulos marianos devem ser usados com cuidado por poderem levar a interpretações erradas, principalmente entre as pessoas de devoção mais simples."
Ela toma como exemplo o entendimento de Maria como "medianeira". O texto do Vaticano diz: "Ela, a primeira redimida, não pode ter sido medianeira da mesma graça que ela mesma recebeu".
"Isto significa que Maria não distribui graças à revelia de Jesus. A teologia expressa na oração Ave Maria" diz que Maria pode rogar por nós e não, salvar-nos", contextualiza a antropóloga. "A expressão Maria medianeira, portanto surge desta possibilidade de mediação perante Jesus e não da mediação direta junto a Deus. Mas, devido a possibilidade de compreensões equivocadas, recomenda-se que seja evitado o uso deste vocativo mariano."
Diz o texto papal: "A expressão 'mediação participada' pode expressar um sentido preciso e precioso do lugar de Maria, porém, se inadequadamente compreendida, poderia facilmente obscurecê-lo e até contradizê-lo. A mediação de Cristo, que sob alguns aspectos pode ser 'inclusiva' ou participada, sob outros aspectos é exclusiva e incomunicável."
"O documento não rebaixa Maria. Exalta Cristo", pontua Tasso. "Não diz que Maria não deve ser venerada, não muda essa posição histórica do catolicismo, nem o papel que Maria tem."
Paiva concorda que o documento não rebaixa Maria. Ao contrário, engrandece. "Qualquer pessoa poderia ser chamado de corredentor, à medida que oferecesse seu sacrifício, unisse o seu sacrifício ao de Cristo", comenta. "Mas mãe do redentor só tem uma." Segundo sua visão, o documento "amplia o foco sobre Maria".
"Ela não foi rebaixada. Ela foi recolocada, contemplada sob o ângulo mais aberto e mais conforme a mariologia contemporânea", diz o professor.
"No âmbito popular isso tem pouco efeito. No âmbito pastoral, algumas iniciativas precisarão ser readequadas, reformuladas. Até agora, o grande impacto vai ser em quem mais está chiando, em quem está reclamando nas redes sociais. São os ultraconservadores e conservadores que faziam essa figura realesca de Maria, dando a ela uma lógica de poder."
"Parece-me um direcionamento teológico mais claro, visto que a devoção é sustentada, mas, por assim dizer, certas arestas são aparadas. Esse suposto freio é, a meu ver, uma tentativa correção doutrinal", diz Darius. "Maria nunca teve, tem ou terá um papel de coadjuvante na fé católica. E particularmente não acredito que essa nota vá mudar significativamente a forma de encarar Maria em muitas comunidades, que desde muitas gerações encontraram e continuaram encontrando na pessoa da mãe de Cristo conforto e mediação."
"O documento também fala que a figura de Maria não deve ser usada politicamente por grupos. Isso é muito comum: pessoas usam a figura de Maria dizendo 'aqui estamos rezando em prol da grande vitória'. O documento questiona isso", assinala Paiva.
Diálogo ecumênico com os evangélicos

"Não é uma reação católica [ao avanço evangélico]", defende Paiva. "Mas o documento tem uma preocupação ecumênica." Ele comenta que pela maneira como os católicos tratam Maria, muitas vezes o diálogo com os demais cristãos se torna "ainda mais desafiador". Ao promover esse ajuste, portanto, o papa pode favorecer pontes mais sólidas com outros segmentos cristãos.
Para o teólogo Tasso, o documento do pontificado de Leão 14 promove um "diálogo melhor" com o mundo "especialmente evangélico".
"Não há dúvida de que esse esclarecimento católico é uma reação ao movimento evangélico cada vez mais crescente, que critica duramente essa ideia de Maria como um ser quase divino, com prerrogativas quase divinas", destaca ele.
Darius afirma que a nota da Igreja "é claramente ecumênica". "Entendo que tal fator ecumênico seja uma forte razão, sim, para que a Igreja Católica desencoraje certos títulos. Ao afirmar que Cristo é o único redentor e mediador, [o catolicismo] tenta subsidiar uma aproximação, visto que a questão é um grande obstáculo teológico ao diálogo [com outras igrejas cristãs].
Meyer não crê que a motivação de Leão tenha sido o avanço evangélico. "É verdade, porém, que o critério maior sobre o papel especial de Maria na redenção acaba por criar uma maior possibilidade de diálogo entre as duas grandes vertentes do cristianismo: catolicismo e protestantismo", pondera.
Fonte:https://www.bbc.com/portuguese/articles/c9v1lkxrg21o
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