A ARRISCADA VOLTA DA ARTEMIS 2: COMO ASTRONAUTAS VÃO PILOTAR UMA 'BOLA DE FOGO' DE VOLTA À TERRA, PASSO A PASSO; DO ESPAÇO AO MAR EM 13 MINUTOS

A arriscada volta da Artemis 2: como astronautas vão pilotar uma 'bola de fogo' de volta à Terra, passo a passo
Catherine Heathwood- Serviço Mundial da BBC
- Tempo de leitura: 6 min
Depois de viajar pela maior distância já percorrida pelo ser humano, chega a hora de uma das partes mais arriscadas da missão Artemis 2: o retorno à Terra.
A cápsula Orion está programada para pousar no oceano Pacífico, perto do litoral de San Diego, no Estado americano da Califórnia, perto das 21 horas de Brasília desta sexta-feira (10/4).
"Na verdade, venho pensando na reentrada desde 3 de abril de 2023, quando fomos designados para esta missão", declarou recentemente do espaço o piloto da Artemis 2, Victor Glover.
"Ainda nem comecei a processar tudo o que aconteceu... e pilotar uma bola de fogo pela atmosfera é algo extremamente profundo."
As preparações
No seu último dia completo no espaço, a tripulação começou a se preparar para o retorno à Terra, estudando os procedimentos de reentrada e pouso. Eles também experimentaram suas roupas de compressão, que podem ajudar a evitar vertigens na volta à gravidade terrestre.

O módulo da tripulação e o módulo de serviço irão se separar cerca de 20 minutos antes que a Orion atinja a atmosfera superior da Terra.
A cápsula irá, então, se virar, para que seu escudo térmico possa suportar a maior parte das ardentes temperaturas que serão geradas e manter os astronautas em segurança no seu interior.
Se for necessário, um ajuste final da trajetória irá corrigir o ângulo de voo, cerca de 16 minutos e meio antes de atingir a atmosfera terrestre.
A espaçonave precisa entrar na atmosfera em um ângulo muito específico. O professor Chris James, do Centro de Hipersônica da Universidade de Queensland, na Austrália, explica que existe uma margem de erro, mas é muito pequena — um grau para mais ou para menos.
"Quando atingirem a interface de entrada, eles irão querer garantir que as condições sejam exatamente as esperadas", segundo ele. A interface de entrada é o ponto em que a espaçonave faz a transição do espaço para a atmosfera superior do planeta.
"Se eles estiverem no ângulo errado, o veículo simplesmente irá queimar na atmosfera. Se eles entrarem alto demais, com uma pequena elevação no veículo, poderão ser jogados para trás, para fora da atmosfera."
"Por isso, eles precisam realmente garantir que a cápsula esteja na posição exata."

'Começa a diversão'
O diretor de voo da Artemis 2, Rick Henfling, explicou durante uma entrevista coletiva na quarta-feira (8/4) que a Orion atingirá a interface de entrada a uma altitude de 122 km. "É ali que realmente começa a diversão", segundo ele.
À medida que a Orion se arremessar pela atmosfera, seu escudo térmico será exposto a temperaturas de cerca de 2.700 °C, equivalentes à metade do calor da superfície do Sol.
Houve muita preocupação com o escudo térmico, pois ele foi seriamente danificado durante a primeira missão Artemis, não tripulada. Mas os engenheiros estão confiantes de terem resolvido o problema, ajustando o ângulo de reentrada na atmosfera.

Henfling afirma que os astronautas irão pousar no Oceano Pacífico apenas 13 minutos depois que entrarem na atmosfera terrestre.
Espera-se que, 24 segundos após a reentrada, a cápsula perca completamente o contato com a Terra por seis minutos.
James explica que, durante a descida pela atmosfera, o aquecimento do ar causado pela espaçonave faz com que elétrons sejam arrancados dos átomos de oxigênio e nitrogênio, formando um plasma eletricamente carregado que bloqueia os sinais de rádio.
Segundo Henfling, após o blackout de seis minutos, a Orion estará a cerca de 46 km do solo — e ainda caindo com muita rapidez.
"Naquele momento, estaremos a algumas dezenas de quilômetros do local do pouso", explica ele. "Em seguida, nosso foco será abrir os paraquedas."
Reduzindo a velocidade
A espaçonave irá se lançar pela atmosfera da Terra a mais de 40 mil km/h. E, para reduzir a velocidade, James explica que a primeira etapa é usar a atmosfera como freio.
A cápsula Orion é projetada para não ser aerodinâmica. Por isso, "ela atinge a atmosfera literalmente como um tijolo voador e usa essa força de arrasto da própria atmosfera para reduzir sua velocidade".
A essa velocidade, James afirma que os astronautas "irão sacudir muito".
Os veículos não tripulados podem entrar na atmosfera em cerca de um minuto, a uma força de cerca de 100 Gs. Mas ele explica que os seres humanos não conseguem sobreviver nestas condições.
Para que a tripulação possa suportar a descida, entrar em ângulo faz com que ela possa levar cinco minutos em vez de um, reduzindo a força G a que eles serão expostos.
Quando a espaçonave estiver em segurança, diversos paraquedas serão abertos para reduzir a sua velocidade.
"Serão abertos dois paraquedas de desaceleração", explica Henfling. "Será a cerca de 6,7 km. Isso irá reduzir a velocidade para cerca de 322 km/h."
Os paraquedas de desaceleração são projetados para estabilizar e reduzir a velocidade da espaçonave antes da abertura dos paraquedas principais — o que, segundo Henfling, "só irá acontecer a cerca de 1,8 km de altitude, reduzindo a velocidade da espaçonave e dos seus quatro habitantes para uma queda suave a 32 km/h no Oceano Pacífico".
A queda
Uma equipe de resgate estará no aguardo dos astronautas, perto do litoral da Califórnia.
A cápsula poderá cair na vertical, de cabeça para baixo ou de lado. Airbags laranja brilhantes irão se inflar, para ajudar a virá-la na vertical, permitindo a saída da tripulação em segurança.

A vice-gerente do programa Orion, Debbie Korth, declarou na quarta-feira (8/4) que a Nasa "espera resgatar a tripulação e enviá-los para a assistência médica em até duas horas após o pouso".
Ela calcula que os astronautas estarão de volta a terra, na Base Naval de San Diego, em até 24 horas. E, com a missão cumprida, elas terão sua primeira oportunidade de andar novamente em terra firme e refletir sobre a viagem das suas vidas.
Eles terão entrado em um grupo de elite, de apenas 24 astronautas que já voaram em torno da Lua.
"Esta é a reentrada mais rápida de um ser humano na Terra nos últimos 50 anos", conta James. Ele destaca que a Nasa leva muito a sério sua missão de trazer os astronautas para casa em segurança.
"Mas ainda há uma parte de mim que se sentirá muito mais confortável quando eles estiverem de volta à Terra", conclui Chris James.
Fonte:https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpvxdd203pdo
Do espaço ao mar em 13 minutos: passo a passo da
volta da Artemis à Terra
Reentrada combina velocidade extrema, calor intenso
e sequência precisa de manobras até o pouso no oceano.
Por Redação
g1
11/04/2026 03h00 Atualizado há 9
horas
A volta da missão Artemis II à Terra acontece em
uma sequência rápida e altamente controlada. Em
exatos 13 minutos, a cápsula Orion sai do espaço, atravessa a
atmosfera e pousa no oceano —em um dos processos mais complexos da engenharia
espacial e considerado o momento mais crítico de toda a missão.
1. Separação e
ajuste de trajetória
Gif mostra cápsula desacoplando — Foto:
Reprodução
Na sequência, a nave realiza uma breve queima de
motores para ajustar com precisão o ângulo de entrada na atmosfera. Esse
detalhe é crucial: se a cápsula entrar inclinada demais, pode sofrer
aquecimento excessivo e danos estruturais; se entrar rasa demais, pode não
“grudar” na atmosfera e ser arremessada de volta ao espaço.
2. Entrada na
atmosfera (122 km)
A reentrada começa a cerca de 122 km de altitude,
no ponto chamado de “interface de entrada”. Nesse momento, a cápsula ainda
viaja a mais de 40 mil km/h —cerca de 30 vezes a velocidade do som.
É a partir daí que a nave deixa o ambiente
praticamente sem ar do espaço e passa a interagir com as primeiras camadas da
atmosfera terrestre, iniciando
um processo intenso de desaceleração.
3. Atrito,
calor extremo e desaceleração
Com o aumento da densidade do ar, o atrito passa a atuar como o principal
mecanismo de frenagem. A cápsula foi projetada para não ser
aerodinâmica: ao contrário, seu formato ajuda a gerar arrasto e reduzir a
velocidade rapidamente.
Esse processo
transforma energia cinética em calor. As
temperaturas ao redor do escudo térmico podem ultrapassar 2.700 °C, suficientes
para ionizar os gases da atmosfera e formar um plasma ao redor da nave.
Ao longo de poucos minutos, a Orion perde dezenas
de milhares de km/h, reduzindo drasticamente sua velocidade.
4. Blackout de
comunicação
Simulação
da Nasa mostrando plasma que se acumula ao redor da cápsula. Tripulantes
ficarão seis minutos sem comunicação. — Foto: Reprodução/YouTube
A formação de plasma ao redor da cápsula bloqueia
as comunicações com a Terra por cerca de seis minutos, um fenômeno conhecido
como blackout.
Durante esse período, a nave segue de forma
autônoma, guiada por seus sistemas internos. Para a equipe em solo, é um dos
momentos mais tensos da missão, já que não há contato direto com os
astronautas.
5. Forças
extremas sobre a tripulação
Ao mesmo tempo em que desacelera, a cápsula impõe uma carga física
significativa sobre os astronautas. Eles enfrentam forças de até 3,9 vezes a gravidade da Terra (3,9
G), o que faz o corpo “pesar” quase quatro vezes mais.
Para tornar essa desaceleração suportável, a
trajetória é calculada para distribuir o impacto ao longo de alguns minutos
—evitando forças ainda mais intensas que o corpo humano não suportaria.
6. Abertura dos
paraquedas
Paraquedas
da Orion — Foto: Reprodução
Com a velocidade já bastante reduzida, a cápsula
entra na fase final da descida.
A cerca de 6,7 km de altitude, são abertos os
paraquedas de estabilização, que ajudam a controlar a orientação da nave e
reduzir ainda mais a velocidade. Em seguida, a cerca de 1,8 km, entram em ação
os três paraquedas principais.
Esses paraquedas são responsáveis por transformar a
queda em uma descida controlada, reduzindo a velocidade para cerca de 32 km/h.
7. Pouso no
oceano (splashdown)
Gif
mostra pouso da cápsula oreon no mar — Foto: Reprodução
Com a velocidade já segura, a cápsula faz o pouso no Oceano
Pacífico, próximo à costa de San Diego, em um procedimento
conhecido como splashdown.
Mesmo controlado, o impacto ainda é significativo
—semelhante a uma desaceleração brusca—, mas dentro dos limites projetados para
a segurança da tripulação.
8. Resgate e
recuperação
Após o pouso, equipes de resgate da NASA e das
forças armadas dos Estados Unidos se aproximam da cápsula. Em alguns casos,
airbags são inflados para garantir que a nave fique na posição correta na água.
A retirada dos
astronautas ocorreu duas horas depois. Eles foram
levados de helicóptero até o navio militar USS John P. Murtha, onde passam
pelas primeiras avaliações médicas.
Na sequência, retornam ao continente e seguem para o Centro Espacial Johnson, no Texas, onde continuam sendo monitorados.
Fonte: https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2026/04/11/do-espaco-ao-mar-em-13-minutos-passo-a-passo-da-volta-da-artemis-a-terra.ghtml
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