VOCÊ FAZ O QUE SEU DNA MANDA? ENTENDA COMO OS FIOS INVISÍVEIS DA GENÉTICA MOLDAM NOSSAS DECISÕES DE VIDA
Até que ponto nosso comportamento é controlado pela herança
biológica? — Foto: GETTY IMAGES via BBC
Você faz o que seu DNA manda? Entenda como os fios
invisíveis da genética moldam nossas decisões de vida
Uma empresa
relaciona a estrutura do genoma a informações detalhadas sobre a vida de uma
pessoa — como a sua alimentação, personalidade, escolhas de relacionamento,
hobbies e doenças que acabaram causando sua morte — e assim pode iluminar uma
questão: o quanto do nosso comportamento é pré-determinado pela nossa biologia?
Por
David Cox, BBC
05/06/2023 07h23 Atualizado há 2 anos
Nas profundezas
do subsolo de um edifício de granito nos arredores da capital da Islândia,
Reykjavik, um robô reordena lenta e metodicamente o sangue resfriado de dezenas
de milhares de pessoas de todo o mundo.
O processo que
ocorre nesta câmara de concreto é bem calculado. O DNA é extraído das amostras
e alimenta máquinas de sequenciamento, que determinam lentamente as linhas
exclusivas de bases químicas que formam a identidade de cada uma daquelas
pessoas.
Posteriormente,
algoritmos de inteligência artificial irão relacionar esse código genético ou
genoma a informações detalhadas, que foram armazenadas em biobancos sobre a sua
vida — como a sua alimentação, personalidade, escolhas de relacionamento,
hobbies e doenças que acabaram causando sua morte — e buscar conexões que os
cientistas podem considerar estatisticamente significativas.
Esta câmara de
concreto é propriedade de uma empresa islandesa chamada deCODE genetics. Ela já
sequenciou mais genomas inteiros — mais de 400 mil e o número segue aumentando
— do que qualquer outra instituição do mundo.
Com este
processo, foi possível realizar contribuições importantes para compreender
nosso risco hereditário de sofrer de Alzheimer, esquizofrenia, doenças das
artérias coronarianas, diversas formas de câncer e muitas outras doenças
crônicas.
Mas a deCODE
também inspirou pesquisadores em outras partes do mundo a usar o mesmo processo
para mergulhar profundamente na psique humana e encontrar conexões entre o
genoma e a nossa personalidade, preferências alimentares e até a nossa
capacidade de manter relacionamentos.
Este tipo de
estudo começa agora a examinar algo mais íntimo do que simplesmente a busca de
novos remédios, revelando novas conexões entre o nosso código genético e nossas
escolhas de vida.
Muitos
cientistas começam a questionar até que ponto o nosso comportamento é produto
da nossa própria vontade ou simplesmente pré-determinado pela nossa herança
biológica.
"Quando
você olha para nós enquanto espécie, nós passamos a existir com base nas
informações que moram no nosso genoma e, depois, na interação daquelas
informações com o ambiente", segundo o cientista islandês Kári Stefánsson,
fundador da deCODE.
Criada em 1996,
a empresa tinha o objetivo inicial de usar o cenário genético exclusivo da
Islândia para aumentar a compreensão sobre doenças comuns.
O país tem uma
população pequena que foi relativamente isolada ao longo dos séculos. Por isso,
existe muito menos variação genética na Islândia do que em outras nações.
Esta
característica também significa que existe menos ruído de fundo para complicar
os estudos, facilitando a identificação de variantes genéticas significativas
para os cientistas.
Stefánsson tem
73 anos de idade. Neurologista e filósofo, ele se convence cada vez mais de que
o complexo coquetel de DNA que herdamos dos nossos pais, em conjunto com cerca
de 70 mutações espontâneas que adquirimos ao acaso, determina
subconscientemente o nosso comportamento, muito mais do que sabemos.
Podemos não
perceber, mas, aparentemente, muitos aspectos rotineiros do nosso dia a dia
podem ser parcialmente determinados pelo nosso genoma. Diferenças genéticas
sutis nos receptores de sabor, por exemplo, ajudam a determinar se você prefere
beber chá ou café.
Muitos cientistas começam
a questionar até que ponto o nosso comportamento é produto da nossa própria
vontade ou simplesmente pré-determinado pela nossa herança biológica — Foto:
GETTY IMAGES via BBC
O que ocorre é
que os amantes do café são menos sensíveis ao amargor da cafeína. Já os que
preferem chá não percebem outros tipos de substâncias amargas com tanta força.
A genética
também exerce influência quando o assunto são as nossas inclinações ou aversões
por todos os tipos diferentes de atividades.
Falando de forma
simplista, a genética determina o quanto você gosta de exercícios físicos e se
você prefere formas mais solitárias de atividade física, como correr, ou
competir com os demais em esportes de equipe.
Mas o nosso DNA
também pode nos orientar a buscar atividades de lazer mais específicas. Quinze
anos atrás, uma pesquisa entre 2.000 adultos britânicos indicou, pela primeira
vez, que pode existir uma espécie de "gene do hobby".
A simples
observação da árvore genealógica de uma pessoa e dos passatempos favoritos dos
seus ancestrais sugeriu forte inclinação para determinados tipos de atividades.
Muitos participantes da pesquisa ficaram surpresos ao descobrir que, na
verdade, eles vêm de uma longa linhagem de jardineiros amadores, colecionadores
de selos ou confeiteiros.
Na década
seguinte, muitas pessoas em todo o mundo referiram-se ao estudo depois de
descobrirem que o passatempo favorito de um pai ou avô subitamente ressurgiu de
forma inexplicável na idade adulta.
Em um blog na
plataforma Medium, o agente de seguros Michael Woronko, de Ottawa, no Canadá,
escreveu:
"Nunca tive
interesse por jardinagem, mesmo quando minha mãe me arrastava com ela para a
sua horta comunitária quando eu era criança. Eu não tinha o menor interesse em
tomates híbridos, germinação de pimentas etc. Mas, quando surgiu a oportunidade
(na idade adulta), algo profundo dentro de mim aflorou e levei aquilo
adiante."
Grandes estudos
de sequenciamento genômico estão agora começando a explicar os motivos.
Stefánsson descreve como os cientistas da deCODE chegaram a descobrir uma
variante genética específica que determina se você gosta de palavras cruzadas.
"Nós
sabemos que, se você tiver [a variante], você irá gostar de resolver palavras
cruzadas, mas ela não influencia se você é bom nisso ou não", ele ri.
Isso também é
verdade em relação ao complexo tema de como os nossos genes determinam os
caminhos de vida que seguimos.
De Boston, nos
Estados Unidos, até Shenzhen, na China, diversas startups de tecnologia vêm
procurando há anos os chamados genes do talento — variantes genéticas que podem
fornecer força natural congênita ou capacidades excepcionais de linguagem,
permitindo que as pessoas sejam levadas às áreas nas quais elas têm mais a
oferecer. Mas não é algo tão simples quanto parece.
Geneticistas do
Instituto Max Planck em Leipzig, na Alemanha, tentaram recentemente traçar
conexões entre um gene chamado ROBO1, que controla o desenvolvimento de matéria
cinzenta em uma parte do cérebro envolvida na representação numérica, e as
capacidades matemáticas das crianças.
Mas, até agora,
parece que, para todos os talentos, seja lidar com números, a capacidade
musical ou a destreza esportiva, a genética é apenas uma parte relativamente
pequena da equação.
Na verdade, como
Stefánsson descobriu com as palavras cruzadas, nossos genes aparentemente
influenciam nossas inclinações naturais para realizar certas atividades.
Mas o que
realmente determina se temos qualquer tipo de aptidão para elas são fatores
como os ensinamentos e outras oportunidades que recebemos no início da vida,
bem como nossa própria disposição de praticar, persistir e melhorar.
E isso nos leva
para pontos nos quais a genética pode exercer sua mais forte influência sobre
os nossos caminhos de vida — nossos traços de personalidade.
'DNA não é
destino'
O fundador da empresa
islandesa deCODE genetics, Kári Stefánsson, acredita que o DNA que herdamos
determina de forma subconsciente o nosso comportamento – muito mais do que
sabemos. — Foto: ALAMY via BBC
A professora de
psiquiatria Danielle Dick, da Universidade Rutgers em Nova Jersey, nos Estados
Unidos, é autora do livro The Child Code (“O código da criança”, em tradução
livre).
Ela afirma que a
maioria das dimensões de personalidade — se somos introvertidos ou
extrovertidos, cuidadosos, agradáveis, impulsivos ou até o quanto somos
criativos — tem algum tipo de componente genético.
"Isso
reflete o fato de que os nossos genes influenciam como se forma o nosso
cérebro, o que traz impactos sobre como pensamos e interagimos com o
mundo", afirma Dick.
"Algumas
pessoas têm cérebros que são mais inclinados a buscar experiências inovadoras
ou interessantes, mais propensos a assumir riscos ou atraídos por recompensas
mais imediatas."
Todas essas
características podem nos trazer benefícios. Empreendedores, CEOs, pilotos de
caça e atletas que competem em esportes extremos, por exemplo, costumam assumir
riscos de forma natural.
Mas esses
antecedentes genéticos também trazem certos custos. As pessoas que gostam de
correr riscos são mais propensas a desenvolver dependência, por exemplo. E o
trabalho de Stefánsson demonstrou que uma parte das pessoas portadoras da
genética que costuma incentivar o pensamento criativo, na verdade, acaba
desenvolvendo esquizofrenia.
Pessoas
naturalmente impulsivas podem ser melhores para tomar decisões e mais dispostas
a buscar oportunidades do que outras, mas podem também ser vulneráveis a
desenvolver problemas com jogos, abandonar a escola ou ser dispensados do
emprego.
Dick é uma das
autoras de um estudo recente, que compilou dados de cerca de 1,5 milhão de
indivíduos para identificar variantes genéticas relacionadas à impulsividade.
Ela concluiu que
pessoas impulsivas costumam apresentar maior propensão a desenvolver transtorno
de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) na infância, além de fumar e
ingerir substâncias na adolescência e na idade adulta, até desenvolverem, mais
tarde, condições associadas como obesidade e câncer do pulmão.
"Dito isso,
também é claro que o DNA não é destino", afirma Dick. "Nossos genes
influenciam nossas disposições, que influenciam nossas tendências naturais, mas
isso não significa que as pessoas irão sempre desenvolver problemas."
O ambiente à
nossa volta desempenha imenso papel para determinar se agimos ou não com base
nas nossas inclinações genéticas.
Stefánsson
afirma que as pessoas que têm variantes genéticas no cérebro que as fazem ter
problemas com inibição terão maior propensão a comer em demasia se trabalharem
perto de restaurantes fast food, além de dificuldades para deixar de fumar
depois de começarem.
Mas existem
também evidências de que ter uma vida familiar estável, amizades e
relacionamentos amorosos estáveis ou até exercitar-se regularmente podem ajudar
essas pessoas a ter uma vida produtiva.
"Os
indivíduos com risco mais alto são também os que mais se beneficiam do ambiente
saudável", segundo a professora de psiquiatria Cecilia Flores, da
Universidade McGill, no Canadá. "O ambiente positivo pode reprimir a
susceptibilidade genética e até revertê-la."
Mas isso não
ajuda apenas a explicar a conexão entre a personalidade e os padrões de
comportamento que levam à dependência.
Cientistas
sociais estão agora descobrindo que estudar este tipo de interação entre os
genes e o ambiente ajuda a explicar por que algumas pessoas são mais propensas
a manter relacionamentos duradouros do que outras.
A genética do
amor
A nossa genética determina
o quanto gostamos de nos exercitar — Foto: ALAMY via BBC
Quatro anos
atrás, sociólogos da Faculdade de Saúde Pública da Universidade Yale, nos
Estados Unidos, realizaram um estudo que envolveu 178 casais, com 37 a 90 anos
de idade.
Cada um dos
parceiros respondeu a uma série de questões relativas à sua felicidade e à
sensação de segurança no relacionamento, fornecendo uma amostra de saliva que
seria utilizada para analisar certos genes.
Os cientistas
descobriram há muito tempo que a genética influencia de alguma forma as nossas
escolhas de amigos e até de parceiros amorosos. Nos dois casos, nossa tendência
é de formar conexões com pessoas que têm certas similaridades físicas conosco.
"Nós
tendemos a formar relações sociais com indivíduos geneticamente mais similares
a nós", segundo Andrew DeWan, epidemiologista genético de Yale.
"Podemos
pensar nos genes que controlam essas características como exercendo alguma
influência sobre quem escolhemos para formar amizades."
Ocorre que os
genes também detêm responsabilidade significativa pela nossa capacidade de
manter relacionamentos estáveis e felizes ao longo de anos e décadas.
Pesquisas
anteriores demonstraram que filhos de pais divorciados apresentam maior
propensão ao divórcio. Já o estudo de Yale pesquisou o papel de um hormônio
chamado oxitocina, que dirige as conexões e faz com que os parceiros se sintam
mais próximos entre si.
O estudo
concluiu que, quando pelo menos um dos parceiros de um casamento tem uma certa
variante genética que aumenta a atividade da oxitocina e torna a mente mais
receptiva aos seus benefícios, aquele parceiro é menos propenso a exibir
sintomas psicológicos conhecidos como o apego ansioso. Como resultado, o casal
é mais feliz.
O apego ansioso
é uma forma específica de insegurança no relacionamento que se desenvolve a
partir de experiências do passado com familiares próximos e parceiros
anteriores. Ele resulta em redução da autoestima, alta sensibilidade à rejeição
e busca de aprovação.
"Isso
demonstra que as nossas variantes genéticas hereditárias podem contribuir para
a nossa felicidade nos relacionamentos", afirma DeWan.
"Nossa
genética não só determina nossa capacidade de formar relacionamentos
duradouros, mas é também um fator que colabora e pode nos orientar em uma
direção ou na outra, para perto ou para longe deles."
Em todo o
espectro da medicina e da psicologia, os psiquiatras, especialistas em
desenvolvimento infantil e em obesidade estão procurando usar a quantidade cada
vez maior de informações genéticas disponíveis para definir políticas de saúde
pública, fornecendo conselhos práticos às pessoas.
Nicola Pirastu é
especialista em bioestatística do instituto de pesquisa Human Technopole, na
Itália. Ele descobriu que variantes genéticas das preferências alimentares
podem nos fazer não gostar de frutas e legumes, em favor de alimentos
gordurosos, com alto teor de calorias.
Como grande
quantidade dessas variantes encontra-se no cérebro, Pirastu acredita que a
obesidade deve ser cada vez mais tratada como uma doença, com medicamentos, e
não com intervenções alimentares.
"Perder
peso é superdifícil", segundo ele. "E não é só questão de força de
vontade."
"Se você
estiver sempre com fome, é claro que você quer comer. Por isso, os medicamentos
que agem sobre essa ânsia por alimentos certamente podem ajudar as
pessoas", explica Pirastu.
"É claro
que você também pode fazer isso com a alimentação, mas manter a dieta é meio
que um trabalho em tempo integral que muitas pessoas não conseguem fazer."
Como o custo do
sequenciamento genético é cada vez menor, é possível que ele possa ser
utilizado no futuro para identificar crianças ou adolescentes com sinais de
comportamento que levam à dependência.
"Minha
esperança é que, conforme aumenta a compreensão do público de que problemas
como a adicção ou o comportamento infantil, muitas vezes, são relacionados à
sorte ou ao sorteio em relação aos genes herdados, a estigmatização seja
reduzida", afirma Danielle Dick.
"Identificando
os indivíduos em risco no início do seu desenvolvimento, podemos concentrar
recursos para ajudá-los a atingir todo o seu potencial."
Dick acredita
que, se o indivíduo e sua família souberem que têm propensão a dependências ou
a assumir riscos, talvez seja possível ajudá-los a buscar ativamente esses
ambientes. Mas ela afirma que a sociedade também precisa participar.
"Muitos de
nós, no campo da adicção, estamos particularmente preocupados com as novas leis
nos Estados Unidos, que estão facilitando o acesso à cannabis e a jogos online,
pois sabemos que ambientes que promovem maior disponibilidade e aceitação desses
comportamentos estão associados ao aumento da incidência de problemas",
segundo ela.
Mas ainda
estamos apenas começando a compreender exatamente como os nossos genes
determinam o que fazemos e o papel que eles desempenham nas nossas escolhas.
Nas últimas duas
décadas, Kári Stefánsson e outros pesquisadores vêm lentamente descobrindo
diversas dessas conexões, mas ainda existem muitas questões básicas aguardando
para serem respondidas.
"Uma das
grandes questões é se você pode herdar um pensamento", segundo ele.
"A forma como você pensa é transmitida pela sua mãe e pelo seu pai?"
"Um dos
problemas para comprovar isso é que não temos uma boa definição de pensamento.
Se você tomar a nossa espécie, podemos dizer que somos definidos, em grande
parte, pelos nossos pensamentos e emoções."
"Mas, em
2023, ainda nem chegamos a definir um dos atributos que nos definem",
conclui Stefánsson.
Leia
a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Future.
Fonte: https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2023/06/05/como-genetica-influencia-nossas-escolhas-de-vida.ghtml
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