OS HOMENS SERÃO EXTINTOS? A VERDADE SOBRE O CROMOSSOMO Y - DOENÇAS EM HOMENS MAIS VELHOS: PROBLEMAS DE CORAÇÃO E MORTE PREMATURA, APONTA PESQUISA

 


Cromossomo Y vem se degenerando ao longo da história evolutiva — Foto: Adobe Stock

Os homens serão extintos? A verdade sobre o cromossomo Y

Cromossomo que determina o sexo masculino vem perdendo genes há 180 milhões de anos e desaparece das células dos mais velhos. Mas, entre manchetes apocalípticas e dados reais, a ciência revela um quadro mais complexo.

Por Felipe Espinosa Wang

22/03/2026 04h01  Atualizado há um dia

Diminuto em comparação ao cromossomo X e com apenas cerca de cinquenta genes funcionais, o cromossomo Y vem há décadas ganhando manchetes, muitas vezes em tom apocalíptico. Muito se especula até sobre um eventual "fim dos homens".

Por trás da discussão, está o amplo consenso de que o cromossomo Y sofreu uma degradação histórica considerável, colocando em debate o seu destino a longuíssimo prazo. Ao mesmo tempo, acumulam-se evidências que vinculam a sua perda em algumas células a implicações para a saúde masculina.

Mas, na comunidade científica, não é consenso que o cromossomo Y poderia desaparecer, muito menos os homens. Os pesquisadores ainda desvendam os mistérios da genética, com um longo caminho adiante e uma história que já se prolonga há dezenas de milhões de anos.

A origem evolutiva do cromossomo Y

Há aproximadamente 180 milhões de anos, os cromossomos sexuais dos mamíferos formavam um par praticamente idêntico. Com o tempo, esse par ancestral se diferenciou até dar origem aos cromossomos X e Y atuais.

Nos seres humanos e outros mamíferos, o sexo é determinado cromossomicamente: as mulheres normalmente têm dois cromossomos X, e os homens, um X e um Y. Embora esse par represente apenas cerca de 4% do DNA total, seu papel biológico vai muito além de determinar o desenvolvimento de testículos ou ovários.

O cromossomo Y, em particular, se destaca pelo reduzido conteúdo genético. Enquanto o cromossomo X contém entre 900 e 1,4 mil genes, segundo diferentes estimativas, o Y conserva entre 45 e 51 genes codificadores de proteínas, dependendo do critério utilizado para contá-los.

Um deles, o gene SRY, atua como desencadeador do desenvolvimento masculino. Alguns outros participam da produção de esperma. As funções dos restantes seguem sendo objeto de estudo e debate, o que contribui para a percepção do Y como um cromossomo atípico do ponto de vista evolutivo.

A bióloga evolutiva australiana Jenny Graves estuda esse processo de degradação há décadas. Em um artigo publicado no The Conversation em 2014, ela estimou que, se a perda de genes continuasse no ritmo observado – quase dez genes a cada um milhão de anos desde há 166 milhões de anos –, o cromossomo Y poderia desaparecer em cerca de 4,5 milhões de anos.

A afirmação, incluída quase de passagem em um artigo técnico de 2004, provocou uma reação desproporcional. "Surpreende-me muito que alguém se preocupe com a extinção dos homens dentro de cinco ou seis milhões de anos", declarou Graves ao Science Alert, lembrando que a espécie humana sequer existe há 100 mil anos.

Por que o cromossomo Y se degrada?

De acordo com Graves, há duas razões principais. Como ela explicou à BBC Science Focus em 2024, a primeira é o contexto biológico. O cromossomo Y é transmitido exclusivamente pela linhagem masculina e, a cada geração, passa pelos testículos, que constituem um ambiente geneticamente exigente.

A produção de esperma requer numerosas divisões celulares, e cada uma delas implica uma nova oportunidade para que mutações se acumulem.

A segunda, e talvez mais determinante, é seu isolamento. Ao contrário dos demais cromossomos, o Y não dispõe de um homólogo com o qual possa trocar segmentos de DNA para corrigir erros.

Na maioria dos casos, os cromossomos "se apoiam" em seu par durante a recombinação para compensar danos. O Y carece desse respaldo estrutural, de modo que as alterações acumuladas se tornam muito mais difíceis de eliminar.

O cromossomo Y está condenado?

Nem toda a comunidade científica compartilha do diagnóstico. Como publicou a Vice no final do ano passado, a bióloga evolutiva Jenn Hughes, do Instituto Whitehead do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), sustenta há anos a visão contrária: os genes essenciais do cromossomo Y humano têm se mantido estáveis por 25 milhões de anos. A conclusão seria reforçada por estudos posteriores em primatas.

Seu argumento é que os genes remanescentes cumprem funções cruciais em todo o organismo, o que gera forte pressão evolutiva para preservá-los. Dessa perspectiva, o cromossomo Y não estaria desaparecendo, mas se estabilizando.

Jenny Graves não nega a estabilidade, mas introduz uma nuance: o fato de algo permanecer estável hoje não significa que vá perdurar indefinidamente. O cromossomo Y contém abundantes sequências repetidas, suscetíveis a degradação geração após geração. Os genes que hoje parecem firmes poderiam ser substituídos, se as condições evolutivas mudassem.

Ela resume, segundo a Vice, o horizonte temporal do Y como "qualquer coisa entre agora e nunca". Quando ambas as cientistas debateram publicamente em 2011, o público ficou dividido em partes iguais. A discussão permanece aberta.

O que se sabe com certeza é que, em outros animais, surgiram sistemas alternativos de determinação sexual. Segundo a BBC Science Focus, algumas ratas-toupeira da Europa Oriental e ratos-espinhosos do Japão perderam completamente o cromossomo Y e redistribuíram ou substituíram suas funções em outros cromossomos – e continuam sendo populações viáveis. As moscas-da-fruta, por sua vez, perderam quase todos os genes do cromossomo Y.

Graves sustenta que, se surgisse um gene determinante do sexo mais eficiente em uma população humana pequena e isolada, onde acidentes genéticos são mais prováveis, ele poderia se espalhar sem eliminar características masculinas visíveis.

"Talvez isso já tenha acontecido em alguma população humana em algum lugar", afirmou ao Science Alert.

Doenças em homens mais velhos

O debate evolutivo em escala de milhões de anos convive com uma preocupação muito mais imediata: a perda do cromossomo Y em células do corpo à medida que os homens envelhecem.

Em artigo recente no The Conversation, Graves explica que as novas técnicas de detecção genômica mostram que esse fenômeno é frequente em tecidos de homens idosos. Com o passar do tempo, o cromossomo Y desaparece de algumas células, e suas descendentes já não o recuperam.

O tecido acaba se tornando uma mistura heterogênea: coexistem células que mantêm o Y e outras que o perderam. Segundo dados compilados pela pesquisadora, 40% dos homens de 60 anos já apresentam essa perda, proporção que sobe para 57% aos 90 anos. Fatores ambientais como tabagismo ou exposição a cancerígenos também influenciam.

Durante anos, presumiu-se que essa perda fosse irrelevante. Se o cromossomo Y contém poucos genes e as células podem sobreviver sem ele, parecia lógico pensar que sua ausência não teria grandes consequências.

Contudo, segundo Graves, dados recentes apontam para outra direção. Diversos estudos encontraram associações entre a perda do Y e doenças cardiovasculares, neurodegenerativas e diferentes tipos de câncer.

Um estudo alemão em larga escala observou que homens acima de 60 anos com alta frequência de perda do Y tinham maior risco de sofrer ataques cardíacos. Também foi detectada uma frequência dez vezes maior dessa perda em pacientes com Alzheimer, além de uma associação com maior mortalidade por covid-19.

O desafio da causalidade

Estabelecer uma relação causal é complexo: as doenças poderiam provocar a perda do Y, ou um terceiro fator poderia estar por trás de ambos os fenômenos.

No entanto, um experimento com camundongos sugere um possível efeito direto. Ao transplantar células sanguíneas sem cromossomo Y em camundongos irradiados, os animais desenvolveram mais patologias associadas ao envelhecimento, incluindo alterações na função cardíaca e casos de insuficiência cardíaca.

Como um cromossomo com tão poucos genes pode ter impacto tão amplo? Parte da resposta está no fato de que vários desses genes se expressam em todo o organismo, não apenas nos testículos, e alguns atuam como supressores de tumores.

Além disso, o cromossomo Y abriga genes não codificantes que parecem regular a atividade de outros genes em cromossomos distintos. Sua perda pode, portanto, alterar mecanismos que vão muito além da determinação sexual.

Então, os homens vão desaparecer?

Não da noite para o dia. Humanos não podem se reproduzir por partenogênese, ou seja, sem a contribuição genética masculina, e existem pelo menos 30 genes com impressão genômica que devem vir do esperma.

Se o cromossomo Y desaparecesse, a alternativa não seria a extinção imediata, mas a evolução de um novo sistema de determinação sexual. Em teoria, esse processo poderia inclusive levar, a muito longo prazo, a uma diferenciação entre espécies, como sugere Graves.

Por ora, não há evidências de uma emergência evolutiva iminente. O cromossomo Y pode se manter por milhões de anos ou transformar-se em outra coisa. Sua trajetória futura segue incerta, mas está longe de um desfecho imediato.

Além disso, o sequenciamento completo do DNA do cromossomo Y humano foi alcançado há apenas alguns anos, de modo que nosso conhecimento detalhado sobre seu funcionamento ainda é relativamente recente.

Mais do que o obituário de um cromossomo em decadência, essa nova etapa pode permitir uma compreensão mais aprofundada de seu papel na biologia e na evolução humanas.

Fonte: https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2026/03/22/os-homens-serao-extintos-a-verdade-sobre-o-cromossomo-y.ghtml

 

Perda do cromossomo masculino pode levar a problemas do coração e a morte prematura de homens, aponta pesquisa na 'Science'

Estudo indica que 'morte' do cromossomo Y em algumas células pode levar a problemas cardíacos, causando, assim, a morte precoce em homens. Remédio já existente pode ser solução.

Por g1

14/07/2022 16h06  Atualizado há 3 anos

 


Kenneth Walsh, da Faculdade de Medicina da Universidade da Virgínia, descobriu que a perda do cromossomo Y (cromossomo sexual masculino) causa cicatrizes no músculo cardíaco e pode levar à insuficiência cardíaca fatal. A descoberta pode ajudar a explicar por que os homens morrem, em média, vários anos mais jovens que as mulheres. — Foto: Dan Addison/UVA Communications

 

Uma pesquisa publicada nesta quinta-feira (14) na revista científica "Science", uma das mais importantes do mundo, traz uma nova possível explicação para os homens viverem menos tempo do que as mulheres.

O estudo, liderado por cientistas da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, constatou que a perda do cromossomo masculino em algumas células pode estar levando a problemas cardíacos nos homens.

Mas como isso ocorre?

Enquanto as mulheres têm dois cromossomos X, os homens têm um X e um Y (considerado o cromossomo masculino).

Muitos homens, entretanto, começam a perder o cromossomo Y em parte de suas células à medida que envelhecem. Essa perda parece ocorrer, particularmente, em fumantes – e acontece, predominantemente, em células que sofrem renovação rápida, como as do sangue.

“O DNA de todas as nossas células inevitavelmente acumula mutações à medida que envelhecemos. Isso inclui a perda do cromossomo Y dentro de um subconjunto de células dentro dos homens", explicou Kenneth Walsh, diretor do Centro de Biologia Hematovascular da Universidade da Virgínia.

"Entender que o corpo é um mosaico de mutações adquiridas fornece pistas sobre doenças relacionadas à idade e o próprio processo de envelhecimento”, completou.

Para entender melhor os efeitos dessa perda, os pesquisadores usaram o Crispr – uma técnica de edição genética – para criar camundongos sem o cromossomo Y em algumas células da medula.

Os camundongos que nasceram resultantes tiveram mais propensão a fibrose – espécie de cicatriz – no coração e diminuição da função cardíaca, levando à morte precoce. Além disso, os animais sofreram uma série complexa de respostas no sistema imunológico, levando a fibrose em todo o corpo.

Em humanos

Os cientistas já sabiam que os homens que sofrem perda do cromossomo Y têm maior probabilidade de morrer mais jovens e sofrerem de doenças associadas à idade, como o Alzheimer. Estima-se que a perda do cromossomo masculino afete cerca de 40% dos homens de 70 anos de idade.

Ao analisar dados do UK Biobank, um enorme banco de dados biomédico do Reino Unido, os pesquisadores descobriram que a perda do cromossomo Y estava associada a doenças cardiovasculares e insuficiência cardíaca.

“Particularmente após os 60 anos, os homens morrem mais rapidamente do que as mulheres. É como se eles envelhecessem biologicamente mais rapidamente”, disse Walsh.

À medida que a perda de cromossomos aumentava, descobriram os cientistas, aumentava também o risco de morte.

“Os anos de vida perdidos devido à desvantagem de sobrevivência da masculinidade são impressionantes. Esta nova pesquisa fornece pistas sobre por que os homens têm uma expectativa de vida mais curta do que as mulheres", explicou Walsh.

Tratamento potencial

As descobertas sugerem que direcionar os efeitos da perda do cromossomo Y pode ajudar os homens a viver vidas mais longas e saudáveis.

Uma possível solução pode ser o remédio pirfenidona, aprovado pela FDA – espécie de Anvisa americana – para o tratamento da fibrose pulmonar de causa desconhecida (idiopática). A pirfenidona também é aprovada para uso no Brasil.

Além do problema pulmonar, o remédio também está sendo testado para o tratamento de insuficiência cardíaca e doença renal crônica.

Walsh acredita que homens com perda do cromossomo Y podem responder particularmente bem a esse medicamento e a outras classes de medicamentos que estão sendo desenvolvidos para combater a fibrose – embora sejam necessárias mais pesquisas para determinar isso.

“Estudos que examinam a perda do cromossomo Y e outras mutações adquiridas são uma grande promessa para o desenvolvimento de medicamentos personalizados adaptados a essas mutações específicas”, disse o cientista.

Fonte: https://g1.globo.com/saude/noticia/2022/07/14/perda-do-cromossomo-masculino-pode-levar-a-problemas-do-coracao-e-a-morte-prematura-de-homens-aponta-pesquisa-na-science.ghtml

 

 

 

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