ASPIRANTE AO NOBEL DA PAZ,TRUMP DESFAZ PROMESSAS AO TENTAR MUDANÇA DE REGIME NO IRÃ COM GUERRA.ATAQUES DE EUA E ISRAEL MATAM O LÍDER SUPREMO ESPIRITUAL DO IRÃ, QUE DOMINOU A POLÍDICA DE SEU PAÍS POR 4 DÉCADAS
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/b/f/uKTV9ARIaBPRz3Xan70g/114061595-us-president-donald-trump-gestures-as-he-arrives-at-palm-beach-international-airport-in-we.jpg)
Análise: Aspirante ao Nobel da Paz, Trump desfaz promessas ao tentar mudança de regime no Irã com guerra
Presidente tem se mostrado cada vez mais disposto a exercer o poder americano no exterior, uma década após alcançar o mais alto cargo dos EUA prometendo centrar-se nos “EUA em primeiro lugar”
Por
Peter Barker
, Em The New York Times — Washington
01/03/2026 12h36 Atualizado há 4 dias
Quando concorreu pela primeira vez à Presidência, em 2016, Donald Trump repudiou o aventurismo militar dos anos recentes, declarando que a mudança de regime é um fracasso comprovado e absoluto. Ele prometeu “parar de correr para derrubar regimes estrangeiros”.
Quando Trump concorreu à Presidência em 2024, ele se gabou de não ter iniciado “novas guerras” e afirmou que, se a democrata Kamala Harris vencesse, “nos levaria à Terceira Guerra Mundial garantida”, enviando os “filhos e filhas” dos americanos “para lutar em uma guerra em um país que você nunca ouviu falar”.
Pouco mais de um ano depois, Trump está correndo para derrubar regimes estrangeiros e enviando filhos e filhas americanos para travar outra guerra no Oriente Médio. O autoproclamado “presidente da paz” optou por se tornar o presidente da guerra, afinal, liberando todo o poderio militar dos EUA contra o Irã com o objetivo explícito de derrubar seu governo.
Enigma sem solução
O que o Trump de 2016 pensaria do Trump de 2026 nunca será conhecido. Mas são figuras marcadamente diferentes no que tange à intervenção no exterior. Uma década após impulsionar-se ao mais alto cargo prometendo centrar-se nos “EUA em primeiro lugar”, Trump tem se mostrado cada vez mais disposto a exercer poder no exterior.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/H/x/SWq1d3Roqv4BCbAxCHWg/114063997-files-this-handout-picture-provided-by-the-office-of-irans-supreme-leader-ayatollah-ali-k.jpg)
Os ataques ao Irã desde sábado foram a oitava vez que ele ordenou ação militar em seu segundo mandato, mesmo após decapitar o governo da Venezuela e ameaçar derrubar o ditador de Cuba.
No vídeo em rede social postado no meio da noite “anunciando o início dessa nova guerra”, Trump apresentou um catálogo de acusações contra o Irã remontando há quase meio século, incluindo sua busca por armas nucleares e mísseis balísticos, apoio a grupos terroristas que atacaram americanos e aliados, a tomada da Embaixada dos EUA em Teerã em 1979 e o recente massacre de manifestantes iranianos. Mas ele nunca explicou por que essas agressões exigiam ação agora, e não antes, ou por que seu pensamento mudou visivelmente.
Cada vez mais longe
Tampouco reconciliou suas declarações conflitantes sobre o status da ameaça iraniana. Após se juntar a Israel no ataque ao Irã em junho do ano passado, ele disse que havia “obliterado” o programa nuclear do país. Repetiu essa alegação no discurso sobre o Estado da União na semana passada e novamente em seu vídeo da madrugada de sábado. Mas não esclareceu por que era necessário atacar um programa já obliterado.
No entanto, ele foi mais longe do que nunca ao tornar a mudança de regime o objetivo explícito, convocando os iranianos a derrubar seus líderes. “Quando terminarmos, tomem o controle do seu governo”, disse Trump. “Será de vocês para tomar.” Ele repetiu isso em uma postagem na rede social no sábado, anunciando que o ataque matara o aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo — “uma das pessoas mais malignas da História”, nas palavras dele.
Mas como os iranianos deveriam proceder para tomar o controle permaneceu incerto. Trump escreveu que policiais e forças da Guarda Revolucionária deveriam “se fundir pacificamente aos Patriotas Iranianos e trabalhar juntos como uma unidade para trazer o País de volta à Grandeza que merece” — uma noção notável sugerindo que autoridades de segurança iranianas se aliem de alguma forma às mesmas pessoas que alvejavam nas ruas semanas antes.
Mais contradições
— Seu objetivo declarado aqui, mudança de regime, é exatamente o que ele combateu em 2016 — disse Brandan P. Buck, pesquisador em estudos de Política Externa no Instituto Cato, de orientação progressista. — Anteriormente, o presidente usava ataques aéreos, incursões e poder militar encoberto quando acreditava que poderia alcançar fins discretos com boa imagem e baixo custo. Este ataque ao Irã quebrou essa fórmula e constitui um salto para o desconhecido.
Os críticos de Trump rapidamente ressuscitaram suas declarações passadas para acusá-lo de abandonar suas próprias promessas, circulando clipes de vídeos de comícios de campanha e citações em redes sociais em que ele atacava Barack Obama, George W. Bush e Kamala Harris como belicistas.
Incoerências em série
Trump, 2012: “Agora que os números de Obama estão em queda livre — preparem-se para ele lançar um ataque na Líbia ou no Irã. Ele está desesperado.”
Trump, 2013: “Lembrem que eu predisse há muito tempo que o presidente Obama atacará o Irã por causa de sua incapacidade de negociar adequadamente — não é habilidoso!”
Trump, 2016: “Vamos parar a política imprudente e custosa de mudança de regime.”
Trump, noite da eleição 2024: “Não vou começar guerras. Vou parar guerras.”
E havia muitas citações de assessores como Stephen Miller, agora chefe de Gabinete adjunto da Casa Branca (“Kamala = III Guerra Mundial. Trump = Paz,” 1 de novembro de 2024), e o secretário de Defesa Pete Hegseth (“O Departamento de Guerra não será distraído por construção de democracia, intervencionismo, guerras indefinidas, mudança de regime,”6 de dezembro de 2025).
Entre os que atacaram Trump no sábado estavam não apenas liberais, mas também proeminentes líderes do movimento Faça os EUA Grandes Novamente, que reclamaram que ele havia sido capturado pelos neoconservadores que outrora repudiava, com críticas lideradas pelo podcaster de direita Tucker Carlson e a ex-deputada Marjorie Taylor Greene, republicana da Geórgia.
“Sempre é uma mentira e sempre são os EUA em último lugar”, escreveu Greene, que renunciou ao cargo no mês passado após romper com Trump. “Mas parece a pior traição desta vez porque vem do próprio homem e da administração que todos acreditávamos ser diferente e que disse ‘não mais’.”
O deputado Marlin Stutzman, republicano de Indiana, argumentou que o ataque de Trump ao Irã afastaria uma ameaça pior no futuro e pavimentaria o caminho para um novo Oriente Médio mais amigável aos EUA.
— Para aqueles que dizem: ‘Bem, o presidente Trump disse que não nos levaria a guerras’, ele está nos mantendo fora de guerras em longo prazo — disse ele à CNN.
Mudanças entre mandatos
Defensores de ação contra o Irã disseram que Trump ainda não se comprometera totalmente a mudar o governo em Teerã, deixando isso ao povo iraniano.
— O discurso de Trump não foi um discurso de mudança de regime, e eu gostaria que tivesse sido — disse Mark Dubowitz, CEO da Fundação para a Defesa das Democracias, grupo que há muito pressiona por política mais dura contra o Irã.
“A única ‘solução duradoura’, acrescentou ele, não é um ataque militar que atrase o programa de armas nucleares iranianas por meses ou anos, mas o fim do regime.
— Mas isso não é exatamente o que Trump priorizou esta noite — disse Dubowitz, acrescentando: — E precisamos ser honestos sobre o que ele disse, e não disse.
A crescente disposição de Trump para empregar força militar sublinha a mudança mais ampla entre seu primeiro e segundo mandatos. Ele está muito mais à vontade para usar os instrumentos de poder do que da última vez, tanto em casa quanto no exterior.
O que ele às vezes ameaçava ou considerava fazer em seu primeiro período na Casa Branca, agora age com mais prontidão, seja enviando forças federais às ruas americanas, processando inimigos percebidos, purgando o governo de desleais ou impondo tarifas a países ao redor do mundo.
A equipe que ele reuniu nos primeiros quatro anos incluía republicanos convencionais ou oficiais militares de carreira que frequentemente refreavam seus impulsos mais radicais. Mas desta vez não há John F. Kelly, Jim Mattis, Mark T. Esper ou Mark A. Milley. Em vez disso, cercou-se de conselheiros mais agressivos, impulsionando ações mais ambiciosas, e figuras como Hegseth, o secretário de Estado Marco Rubio e Susie Wiles, chefe de Gabinete da Casa Branca, que veem seus cargos como facilitadores dos desejos do presidente em vez de dissuadi-lo deles.
Uma jornada irregular
A jornada de Trump como comandante-em-chefe tem sido irregular. Ele não tinha experiência militar ou em cargo público quando chegou ao Salão Oval em janeiro de 2017. Promoveu uma guerra mais agressiva contra o Estado Islâmico, mas às vezes hesitava em usar força, em certo momento cancelando um ataque retaliatório ao Irã com minutos de antecedência, julgando que as baixas não valeriam a pena.
Ele estava decidido a recuar do mundo, buscando trazer tropas americanas de volta de lugares como Coreia do Sul, Alemanha e Síria. Negociou um acordo de paz com o Talibã para retirar todas as forças americanas do Afeganistão, um acordo executado por seu sucessor, o presidente Joe Biden, em uma operação desastrosa.
Mas ele também foi encorajado quando um ataque dos EUA em 2020 alvejou e matou o major-general Qassim Suleimani do Irã sem provocar as retaliações devastadoras ou guerra regional prolongada que alguns críticos previram. Da mesma forma, neste segundo mandato, a bem-sucedida operação que capturou o presidente Nicolás Maduro da Venezuela também energizou Trump.
Sua postura pública, no entanto, oscilou muito no último ano. Em um momento, ele se apresenta como um pacificador histórico, formando um suposto Conselho da Paz e reclamando por não ter ganhado o Prêmio Nobel da Paz enquanto se gaba, inexatamente, de ter encerrado oito guerras — incluindo uma com o Irã. No momento seguinte, ameaça tomar a Groenlândia, retomar o Canal do Panamá, estrangular Cuba e até ir atrás do presidente da Colômbia como fez com o da Venezuela.
Charles Kupperman, que foi assessor adjunto de segurança nacional de Trump no primeiro mandato do presidente, disse que não achava que ele tivesse evoluído em seu pensamento sobre ameaças estrangeiras. Mas, no caso do Irã, disse Kupperman, o presidente se colocou em uma posição ao investir em um esforço diplomático sempre condenado ao fracasso, deixando pouca alternativa senão ação militar.
Teatro Kabuki
— É difícil determinar o processo decisório de Trump dada a séria redução do papel do Conselho de Segurança Nacional e sua formulação de políticas — disse ele. — Quais opções foram desenvolvidas e apresentadas a Trump e o processo para gerá-las são questões-chave.
Mas ele acrescentou que “o esforço diplomático para engajar o Irã nunca renderia os resultados que Trump buscava. Teatro puro de Kabuki.”
O resultado do risco geopolítico de Trump dependerá não apenas de como a operação militar prossegue, mas do que vem depois. O sucesso tem o jeito de fazer os eleitores esquecerem promessas quebradas. Há pouco amor pelo regime de Teerã, e vídeos mostraram iranianos nas ruas aplaudindo relatos da morte do aiatolá Khamenei. Se Trump conseguir empurrar o governo remanescente para fora do poder, terá algo para se gabar que nenhum de seus predecessores ousou tentar.
Diferentemente das chamadas guerras eternas no Afeganistão e Iraque que ajudaram a impulsionar sua ascensão política, Trump não fez nenhum grande compromisso de tropas terrestres no Irã e parece determinado a se ater ao poder aéreo, evitando o tipo de guerra de guerrilha de conflitos passados.
Ainda assim, como o próprio Trump alertou em seu vídeo da madrugada, pode haver baixas americanas. E, se o governo de Teerã cair, poderia resultar em um substituto ainda hostil aos EUA, ou em caos fratricida, como aconteceu na Líbia após Muammar el-Qaddafi ser deposto e morto em 2011.
De um jeito ou de outro, seus aliados já falavam disso como um momento de legado para Trump. Que tipo de legado ainda não está claro. Mas não será o que ele originalmente prometeu.
Fonte:https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/03/01/trump-vai-a-guerra-em-busca-de-mudanca-de-regime.ghtml
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2022/h/k/74dcmGSuGAGMiENWsumA/39127394-irans-supreme-leader-ayatollah-ali-khamenei-addresses-04-june-2003-tens-of-thousands-of-ir.jpg)
Ataques de EUA e Israel matam Ali Khamenei, anuncia Trump; líder supremo dominou a política do Irã por quatro décadas
Ex-presidente foi figura central na política iraniana por mais de quatro décadas, e sua morte abre questões sobre o futuro do posto e da República Islâmica
Por Filipe Barini
28/02/2026 18h42 Atualizado há 4 dias
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/A/L/iHz3RBRdGK0YThJwJtKw/324620-1-.jpg)
Khamenei nasceu em um dos centros do islã do Irã, Mashad, em junho de 1939. Segundo filho de um teórico religioso, chamado pelo futuro líder supremo de “um pouco cético”, não teve uma infância de luxos, morando em uma casa pequena com seus pais e sete irmãos.
Na juventude, seguiu o caminho do pai nos estudos religiosos, e aos 19 anos foi para Qom, a “capital religiosa” do Irã, onde passou a ter contatos com intelectuais de diversas correntes políticas. Ali, teve aulas com o já influente Ruhollah Khomeini — na época, em meados dos anos 1960, começava a surgir um movimento organizado de oposição ao xá Reza Pahlevi, ao qual Khamenei se uniu em seus primeiros momentos.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/k/c/FHBctsS5yruypgNEjsYA/36037352-a-handout-pictures-made-available-by-the-official-website-of-iranian-supreme-leader-ayatoll.jpg)
Como escreveu o jornalista e dissidente Akbar Ganji em um longo perfil sobre as bases intelectuais de Khamenei para a revista Foreign Affairs, talvez nenhum líder religioso do Irã tenha sido tão cosmopolita como ele, um ávido consumidor de obras de autores clássicos iranianos, russos e franceses: em 2001, em uma entrevista na TV, disse que “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, era o melhor romance da História.
Ao mesmo tempo, seus anos acadêmicos moldaram posições de sua trajetória política, a começar pela ideia de que o Ocidente e os valores das democracias liberais estavam diante de um declínio inevitável, e que expressavam uma visão de mundo abertamente islamofóbica. Também era um admirador das ideias do poeta egípcio Sayyid al-Qutb, principal teórico da Irmandade Muçulmana e que propagava a ideia de um Estado islâmico: para Khamenei, “o Islã sem um governo e uma nação muçulmana sem o Islã são algo sem sentido”.
Ideias que coincidiam com o pensamento de Khomeini, que durante o reinado de Mohammad Reza Pahlevi agregou o apoio de todos os campos da sociedade, passando de líderes religiosos até o histórico partido comunista iraniano, o Tudeh, culminando com a Revolução Islâmica de 1979. Em fevereiro daquele ano, Pahlevi pilotaria seu Boeing 707 do aeroporto de Mehrabad, em Teerã, pela última vez, abrindo caminho para o retorno de Khomeini do exílio e a fundação da República Islâmica, como queria Khamenei, que não tardou a se inserir no novo governo.
Revolucionário
Próximo de outro nome dominante da vida política iraniana, Ali Hashemi Rafsanjani, Khamenei conseguiu um posto de vice-ministro da Defesa em 1979, ocupando ainda uma cadeira no novo Parlamento. O futuro líder supremo também foi indicado como o imã das orações de sexta-feira, um dos postos de maior prestígio no país.
Mas, em 1981, sua trajetória daria uma guinada brusca: naquele período, o Irã enfrentava uma violenta invasão do Iraque, e os principais grupos políticos travavam suas próprias batalhas pelo poder.
Em junho, dias depois de o Parlamento aprovar o impeachment do então presidente, Abolhassan Bani Sadr, Khamenei sofreu um atentado em uma mesquita de Teerã, que por pouco não o matou, mas o deixou com sequelas permanentes em um dos braços e nas cordas vocais. Em agosto, após o assassinato de outro presidente, Mohammed Ali Rajai, também em um atentado, Khamenei foi escolhido para sucedê-lo.
Seu governo foi duramente marcado pela guerra, que deixaria cerca de um milhão de mortos, pela intensificação dos laços com os militares e pelo fortalecimento da Guarda Revolucionária, que hoje comanda boa parte do Estado iraniano.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/K/m/B1KVyYQrOcoza0hcNfVQ/40043495-iraqi-president-saddam-hussein-delivers-a-televised-address-to-the-nation-17-january-2001-i.jpg)
O antagonismo aos EUA se intensificou diante do apoio de Washington a Saddam Hussein na guerra que durou oito anos: em 1987, usou a tribuna da Assembleia Geral da ONU para atacar as políticas americanas para seu país, no passado e no presente.
— Nosso povo demonstrou fé em seus objetivos, e que dará até mesmo a vida para permanecer comprometido com eles. Uma nação assim não pode ter medo dos Estados Unidos ou de qualquer outra potência — disse Khamenei. — Com a graça de Alá, nossa nação mostrará que a verdade prevalece e que a vitória pertence aos crentes justos.
Impossibilitado de concorrer novamente à Presidência, e diante dos problemas de saúde de Khomeini, Khamenei voltou-se para o processo de sucessão do líder supremo. Àquela altura, o aiatolá Ali Montazeri era o favorito, mas críticas que fez milhares de execuções extrajudiciais de dissidentes, ordenadas pelo próprio Khomeini, o tiraram da disputa. Após a morte do líder supremo, em 1989, coube à Assembleia dos Especialistas, órgão responsável pela escolha, decidir quem ocuparia o posto.
Khamenei agora era o favorito, mas dependeu de uma questionável mudança na Constituição para ser confirmado: ele não tinha as credenciais religiosas necessárias, e a reforma sofreu duras críticas de outros clérigos. Montazeri não participou da escolha, uma vez que tinha sido posto em prisão domiciliar, onde permaneceu até sua morte, em 2009.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/g/D/dI9LwcRh62qHhBhA3hZQ/34510120-iranian-president-elect-hassan-rowhani-2nd-r-and-hassan-khomeini-r-the-grandson-of-the-foun.jpg)
Dentro do complexo modelo de poder no Irã, o líder supremo tem a decisão final em políticas de Estado, como na economia e na diplomacia. Choques com o presidente, eleito pelo povo e que não necessariamente segue suas ideias, não são raros.
Foi o que aconteceu em determinados momentos do primeiro mandato de Rafsanjani, um moderado e que tinha como tarefa central a reconstrução no pós-guerra. O processo de reformas econômicas e sociais sofreu interferências do líder supremo e de seus aliados no Parlamento. Dissidentes eram reprimidos nas ruas e por vezes obrigados a deixar o país.
Em 1997, o establishment foi surpreendido pela eleição de Mohammed Khatami, um clérigo reformista que não escondia a vontade de melhorar os laços com os EUA, então a única superpotência no planeta. Como aponta Ganji, o discurso antiamericano de Khamenei se intensificou, assim como suas tentativas de minar os planos do novo governo para modificar a sociedade iraniana. O Parlamento, aliado de Khamenei, removeu vários ministros, e vozes progressistas foram silenciadas por meio do fechamento de jornais ou assassinatos políticos.
Com a chegada do conservador Mahmoud Ahmadinejad, um polêmico ex-prefeito de Teerã conhecido por seus comentários antissemitas, Khamenei obteve um certo alinhamento. O antagonismo aos EUA se intensificou, assim como os passos para o desenvolvimento do programa nuclear, acusado de ter fins militares — Khamenei chegou a emitir uma fatwa, um decreto religioso, negando tal possibilidade, mas muitos questionam se a ordem realmente existe.
— Não queremos uma arma nuclear. Não por causa do que dizem, mas por nós mesmos, por causa da nossa religião, por causa das nossas razões racionais. Esta é tanto a nossa fatwa religiosa quanto a nossa fatwa racional — declarou em um discurso em 2015. — Nossa fatwa racional é que não precisamos de armas nucleares hoje, amanhã ou nunca. As armas nucleares são uma fonte de problemas para um país como o nosso.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/t/d/bpYUP8RlyeCz4g7yreLg/36300118-supporters-of-defeated-iranian-presidential-candidate-mir-hossein-mousavi-try-to-calm-down.jpg)
Em 2009, após a contestada reeleição de Ahmadinejad, o líder supremo acusou os manifestantes que tomaram as ruas de serem uma ferramenta de “mudança de regime” patrocinada pelos EUA. Como esperado, ele aprovou a ampla repressão que deixou centenas de mortos e levou milhares à prisão. O líder supremo ainda deu aval para outras ondas de repressão, como a de 2022 a 2023, quando multidões foram às ruas contra as draconianas regras morais do país, que têm no uso do véu pelas mulheres seu maior expoente. Em 2026, autorizou outra contra manifestantes que se levantaram contra o regime, em uma repressão que deixou estimadas dezenas de milhares de mortos.
Sucessão
Um ponto central da ideologia de Khamenei é uma preocupação quase paranoica com supostas ameaças à República Islâmica: os ecos da invasão americana ao Iraque, das sanções internacionais e de uma "conspiração internacional" para derrubar o regime guiaram discursos e decisões. Mas em 2015, apesar das críticas públicas, ele deu aval às negociações de um acordo sobre o programa nuclear do país, firmado com cinco outros países, incluindo os EUA. Em troca de limites às atividades atômicas, parte das sanções seria suspensa, dando novo fôlego a uma economia com sérios problemas.
O plano viria abaixo em 2018, quando Donald Trump retirou os EUA do acordo e ampliou a política de sanções. Um ano depois, disse ter alertado o então presidente Hassan Rouhani sobre os riscos de lidar com os EUA e, em 2022, já em meio às negociações para a reativação do plano, disse que as conversas eram “fúteis”. Em 2026, passou a pressionar por um novo acordo enquanto estabelecia perto do Oriente Médio a maior mobilização militar dos EUA na região desde a guerra do Iraque.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/B/V/FFpnv7QM6CTtArpoE2lw/110550404-this-handout-picture-provided-by-the-office-of-irans-supreme-leader-ayatollah-ali-khamene.jpg)
Por questões de saúde, Khamenei foi se ausentando cada vez mais da vida pública, evitando grandes deslocamentos e reduzindo o número de visitas de aliados e líderes estrangeiros, especialmente durante a pandemia da Covid-19, que matou 144 mil iranianos. Em vez do combativo líder, conhecido por seus discursos incisivos contra seus inimigos, Khamenei era cada vez mais uma figura simbólica, com decisões políticas delegadas a assessores.
Mesmo assim, Khamenei entrou na lista de alvos de Israel, com o premier, Benjamin Netanyahu, dizendo que sua morte poderia levar ao fim do conflito.
Além do legado político de quase quatro décadas, a morte de Khamenei deixa no ar dúvidas sobre quem será seu sucessor. Até o ano passado, o então presidente Ebrahim Raisi era considerado um dos nomes mais fortes para se tornar o líder supremo, mas ele morreu em um acidente aéreo, desfazendo um acerto que era dado como praticamente certo. Outro candidato era seu filho, Mojtaba, mas ao contrário da sucessão de Khomeini, o processo atual pode ser bem mais complexo.
Como aponta Sina Toossi, pesquisador do Centro de Políticas Internacionais, Khamenei angariou tanto poder ao longo de sua carreira que será difícil, senão impossível, manter a coesão do cargo com apenas uma pessoa, sugerindo a formação de uma junta, possivelmente comandada pela ala mais conservadora do regime. Outra hipótese é a de que o novo líder supremo terá um aspecto mais simbólico do que prático, em meio a uma transição da estrutura da República Islâmica mais ampla, na qual a Guarda Revolucionária concentraria o poder e deixaria os clérigos em segundo plano.
Fonte:https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/02/28/ataque-de-eua-e-israel-matam-ali-khamenei-anuncia-trump-lider-supremo-dominou-a-politica-do-ira-por-quatro-decadas.ghtml
Comentários
Postar um comentário