Morcego raposa-voadora, da espécie Pteropus vampyrus — Foto:
nielspouldreyer / iNaturalist
Raposa-voadora: conheça o morcego 'gigante' ligado
ao vírus Nipah e entenda os riscos para o Brasil
Com quase 2 metros de envergadura e 'cara de cão',
morcegos do gênero Pteropus são reservatórios naturais do vírus que causou
alerta na Ásia; especialista explica o assunto.
Por Rodrigo
Peronti, Terra da Gente
31/01/2026 08h06 Atualizado há um dia
O
recente surto do vírus Nipah na Índia e em Bangladesh, que colocou
autoridades sanitárias globais em alerta neste início de 2026, trouxe os
holofotes para uma criatura fascinante, imponente e, muitas vezes,
incompreendida: a raposa-voadora.
Pertencentes ao gênero Pteropus,
esses animais são os reservatórios naturais do vírus. Mas, diferentemente do cenário de filmes de
ficção, eles não são vilões que cruzam oceanos para atacar. São, na verdade, gigantes dos ares com uma biologia única,
separados dos morcegos brasileiros por oceanos e por 40 milhões de anos de
evolução.
Para entender quem é esse animal, como ele
"hospeda" um vírus tão letal sem adoecer e qual a real chance de essa
ameaça chegar ao Brasil via fauna silvestre, o Terra da Gente ouviu o biólogo Roberto Leonan M.
Novaes, doutor em Biodiversidade e Biologia Evolutiva pela UFRJ e pesquisador
da Fiocruz, especialista em morcegos.
O gigante de
"cara de cão"
Morcego
raposa-voadora, da espécie Pteropus vampyrus — Foto: daltonoutside /
iNaturalist
Ao contrário dos morcegos que habitam o imaginário
popular e as cavernas brasileiras, a raposa-voadora não depende da escuridão
total e nem do som para se guiar.
"Enquanto os morcegos do Brasil são
completamente noturnos e usam a ecolocalização (radar) para se orientar, as
raposas-voadoras se orientam pela visão. Elas têm olhos grandes e comportamento
crepuscular, sendo ativas até quando ainda há luz do sol", explica Leonan.
O tamanho também impressiona. Eles são os maiores morcegos do mundo.
Espécies como o Pteropus vampyrus podem
ultrapassar 1,80 metro de envergadura (a distância de uma ponta da asa à
outra).
Além do porte, o pesquisador destaca uma curiosidade evolutiva:
"Eles possuem uma unha no dedo indicador, uma característica ancestral,
enquanto os demais morcegos só têm unhas nos polegares".
A dieta desses gigantes é pacífica: baseada quase
exclusivamente em frutos, néctar e pólen. O problema,
segundo os cientistas, começa quando o habitat deles é invadido.
O Brasil corre
risco?
Raposas-voadoras
conseguem se manter ativas à luz do dia — Foto: ethanbeaver / iNaturalist
A pergunta que domina as redes sociais é: o morcego infectado pode voar da Ásia
para o Brasil?
A resposta da ciência é categórica: não.
"Não existem raposas-voadoras e nenhum outro
pteropodídeo (família desses morcegos) no Brasil e nem nas Américas. Eles são
exclusivos do Sudeste da Ásia, Oceania, Madagascar e algumas regiões da
África", afirma o pesquisador da Fiocruz.
Segundo Leonan, os oceanos Atlântico e Pacífico
funcionam como barreiras intransponíveis.
- Barreira Geográfica: "Não
há qualquer chance desses morcegos saírem da Ásia ou África e chegarem
aqui voando de forma natural."
- Barreira Evolutiva: A
linhagem das raposas-voadoras se separou dos morcegos das Américas há mais
de 40 milhões de anos. Nossos morcegos têm anatomia, fisiologia e
metabolismo completamente diferentes.
E se um humano
trouxer o vírus?
O vírus Nipah é patógeno com alto índice
de letalidade — Foto: Universal Images Group/Getty Images
Se um turista infectado desembarcasse no Brasil,
ele poderia transmitir o vírus para os morcegos locais (Artibeus ou outras
espécies frugívoras), criando um novo ciclo silvestre?
- De acordo com o especialista, essa chance é
considerada "muito remota".
- A transmissão de vírus humano para morcego
silvestre exige cenários muito específicos e complexos.
- Não há
evidências de que o Nipah consiga infectar as espécies nativas do Brasil.
O foco da vigilância sanitária é a transmissão
humano-a-humano, que exigiria isolamento do paciente, não controle de fauna.
O segredo da
imunidade: vivendo com "febre eterna"
Uma das fronteiras mais fascinantes da ciência é
entender como as raposas-voadoras carregam vírus potentes (como Nipah e Hendra)
sem ficarem doentes. A
resposta está no voo.
Para sustentar um corpo pesado no ar, esses animais
têm um metabolismo aceleradíssimo, que eleva muito a temperatura corporal.
"Essa condição é quase como se os
morcegos estivessem sempre com uma febre. Isso acabou selecionando vírus mais
resistentes à temperatura em seus organismos", detalha Leonan.
Para não sofrerem danos celulares com esse calor
todo, os morcegos desenvolveram um sistema imunológico "de elite":
- Eles suprimem inflamações exageradas;
- Possuem alta concentração de interferons
(proteínas que impedem a replicação do vírus);
- Conseguem
recuperar rapidamente o DNA danificado pelo estresse metabólico.
O resultado é um animal "blindado", mas
que carrega um vírus "treinado" em altas temperaturas — o que o torna
perigoso para outros mamíferos com defesas menos sofisticadas, como humanos e
porcos.
O verdadeiro
vilão não tem asas
Raposa-voadora
da espécie Pteropus poliocephalus — Foto: aquaoz / iNaturalist
"Infelizmente essas notícias geram medo nas
pessoas, ainda mais depois da pandemia de Covid-19 e a avalanche de fake news
que foram e continuam sendo geradas. Mas os morcegos não são os vilões, ao
contrário. Morcegos são importantes sentinelas para a saúde do ambiente",
garante o especialista.
Os especialistas são unânimes: não se deve culpar, atacar ou matar
morcegos.
"Os vírus sempre existiram e estão no
nosso planeta muito antes de nós. O problema não é a existência dos vírus, mas
sim a forma como estamos alterando a natureza e aumentando as chances desses
vírus de saltarem para novos hospedeiros, como os humanos, e causarem
doenças."
O surto de Nipah na Ásia está diretamente ligado ao
consumo de seiva de tamareira crua contaminada e, principalmente, à destruição
ambiental.
"O problema não está nos morcegos, mas
na destruição das florestas. O desmatamento empurra os animais silvestres a
viverem cada vez mais perto das cidades", alerta o biólogo.
No Brasil, os morcegos prestam serviços ambientais
incalculáveis:
- Reflorestamento: Dispersam
sementes que recuperam matas.
- Polinização: Garantem
a reprodução de plantas alimentícias e farmacológicas.
- Controle de Pragas: Comem
toneladas de insetos que atacam lavouras.
"A diminuição de morcegos no mundo não o
fará mais seguro. Ao contrário: fará mais pobre, mais contaminado e com mais
riscos para nossa saúde. Manter a floresta em pé é manter o filtro ecológico
que impede esses vírus de chegarem nas pessoas", conclui Leonan.
⚠️
Encontrou um morcego?
Embora o Brasil não tenha Nipah, morcegos podem
transmitir raiva, uma doença letal. A orientação é nunca tentar capturar ou
tocar no animal.
- Se encontrar um morcego caído
(vivo ou morto): Não toque. Isole a área
com uma caixa ou balde para evitar contato de crianças e pets.
- Quem chamar: Acione
imediatamente o Centro de Controle de Zoonoses da sua cidade.
- Prevenção: Vacine
seus cães e gatos anualmente contra a raiva.
Fonte: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/01/31/raposa-voadora-conheca-o-morcego-gigante-ligado-ao-virus-nipah-e-entenda-os-riscos-para-o-brasil.ghtml
Comentários
Postar um comentário