HOMEM VIVE ISOLADO EM OBSERVATÓRIO ARGENTINO ABANDONADO NO MEIO DA PATAGÔNIA: 'BUSCA INTROSPECTIVA E ESPIRITUAL'
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/g/b/VQwiqoSsmtLG95ArEP8w/3bf8dfb1-b790-412d-b184-5b9c7da4ce8d.jpg)
Homem vive
isolado em observatório argentino abandonado no meio da Patagônia: 'Busca
introspectiva e espiritual'
Javier Soto, de 35 anos, tem como
propósito cuidar do túmulo do tio; na década de 1970, local estava sendo
preparado para sediar um centro de mapeamento do céu austral
Por La Nacion — Santa Cruz, Argentina
10/01/2026 09h20 Atualizado há 4 dias
"Decidi me isolar do mundo", confessa Javier Soto, um eremita de 35 anos que vive nas instalações de um antigo observatório abandonado na solitária estepe de Santa Cruz, ao lado da lendária Rota 40, a 500 metros do rio La Leona, a 100 metros de El Calafate — e longe de todos. A extravagante cúpula metálica brilha como um objeto espacial, um tanto enferrujada e desgastada pelas tempestades do esquecimento.
— As pessoas param e querem saber a história — diz Soto.
O eremita diz que o observatório "chama a atenção". A Rota 40, neste trecho, é asfaltada e ladeada por imensas extensões de terra árida, planaltos e colinas cor de cobre. As nuvens têm estranhas formas ovais. Uma velha cabana à beira da estrada, a ruína do posto de descanso Luz Divina, e então: a paisagem basáltica da solidão patagônica.
— Não é normal ver seres humanos neste território, muito menos um observatório — acrescenta Soto.
Mudança radical
Ele tem duas grandes histórias para contar. Nasceu em Puerto Deseado e morou em Trelew, mas em outubro passado sentiu que as vozes em seu interior o impeliam a deixar a cidade e seu ritmo frenético.
— Um dia acordei, juntei dinheiro para pagar as contas e o aluguel e me perguntei: ‘A vida vai ser sempre assim?’ Recusei — conta.
Ele também recebeu a notícia de que o terreno onde seu tio morou nos últimos 25 anos poderia ficar vago. Um primo cuidava da propriedade e o convidou para dar continuidade ao legado da família.
Em outubro passado, ele chegou ao observatório, que seu tio cuidou até sua morte, e desde então está sozinho. Soto conta que se exilou "em busca de um propósito". O interior da antiga estação astronômica é sua casa.
Abandonada na década de 1970, a estrutura agora carece de qualquer equipamento técnico, e sua moradia singular range e treme com o vento implacável da estepe.
— Eu queria mergulhar na introspecção e me distanciar da proposta que domina o mundo hoje: trabalhar mais para ganhar menos — afirma.
Dificuldades do isolamento
O rio La Leona corre a 500 metros de distância. Mas é um leito de água glacial.
— Essa água não é potável porque tem uma alta concentração de minerais, mas eu uso para cozinhar e limpar — explica.
Para beber, ele traz jarras de El Calafate (a 100 quilômetros de distância) ou conta com a gentileza de viajantes e turistas.
— Muitos sabem que estou aqui e me deixam ficar — diz.
Seu propósito é nobre: cuidar do túmulo de seu tio Ramón Epulef, chefe da comunidade Mapuche. Soto disse que cuidar do túmulo do tio, que descreve como "sagrado", é o seu "propósito"
O local fica no alto de uma colina, antes de chegar ao rio. Epulef chegou em 1998 e faleceu em 2023. Era um domador de cavalos renomado nos Andes e um guia respeitado da estepe patagônica. Ele tinha um método indígena que o tornou famoso: sua família era do povo Epulef, reconhecido por Marcelo T. de Alvear e que tinha seus territórios em Chubut.
— Meu tio foi descendo, se encontrou com este lugar e se estabeleceu aqui, cuidou — afirma Soto.
O observatório é outra grande história. Em 1934, o engenheiro Félix Aguilar assumiu a direção do Observatório de La Plata. Naquela época, o céu do hemisfério sul era em grande parte inexplorado e, para estudar a localização das estrelas perto do Polo Sul, ele propôs a criação de uma "Estação Astronômica Austral". Para isso, começou a procurar locais adequados.
— Ele achava que esta era a melhor — diz Soto.
Na fronteira da Argentina, ele escolheu este local remoto conhecido como La Leona, nome derivado do rancho e pousada situados cinco quilômetros mais ao norte. Desde o início, o local era considerado extremo. Río Gallegos ficava a 350 quilômetros de distância por estradas de terra, e a cidade mais próxima era El Calafate, fundada apenas alguns anos antes, em 1927.
A construção foi uma empreitada épica. Os tijolos foram fabricados e queimados no local. Encontrar mão de obra, transportar materiais e alimentos, e enfrentar o clima rigoroso — ventos com força de furacão, além de gelo e neve no inverno — foram tarefas difíceis.
— Hoje em dia é difícil, quero nem pensar naqueles anos — confessa.
A Patagônia foi construída rompendo com a palavra "impossível".
O projeto foi aprovado em 1940 e, em 1946, o governo nacional cedeu o terreno à Universidade de La Plata. A construção começou em 1950. Aguilar não viveu para ver seu sonho realizado: ele faleceu em 1943. Em 1951, o prédio que abrigaria o telescópio estava concluído, assim como os estábulos e uma casa para os astrônomos.
O plano original era construir uma usina elétrica e um prédio para uma bomba d'água, mas o projeto ficou sem verba e essas duas estruturas nunca foram construídas. A água utilizada era proveniente de algumas fontes próximas e também da chuva, embora a precipitação fosse sempre muito escassa.
Telescópio que não funcionava
Soto contou que "eles trouxeram um telescópio que não funcionava". Após o empreendimento hercúleo da construção, as coisas não correram bem. Em 1957, o diretor do Observatório de La Plata, Reynaldo Cesco, decidiu dar um último impulso para inaugurar a estação astronômica de La Leona. Isso foi finalmente alcançado em 1960. O plano era instalar um Círculo Meridiano Repsold.
O círculo era um instrumento astrométrico de alta precisão para a época, projetado em 1853 na Alemanha. Ele podia medir coordenadas celestes com grande exatidão. Em La Plata, havia um de 1908 que nunca havia sido retirado de sua caixa original e estava guardado há décadas, mas foi emprestado a um observatório em Córdoba. Cesco enfrentou um grande problema: ele tinha que inaugurar a estação astronômica de La Leona, mas não tinha a um telescópio.
A construção foi uma empreitada épica. Os tijolos foram fabricados e queimados no local. Encontrar mão de obra, transportar materiais e alimentos, e enfrentar o clima rigoroso — ventos com força de furacão, além de gelo e neve no inverno — foram tarefas difíceis.
— Hoje em dia é difícil, quero nem pensar naqueles anos — confessa.
A Patagônia foi construída rompendo com a palavra "impossível".
O projeto foi aprovado em 1940 e, em 1946, o governo nacional cedeu o terreno à Universidade de La Plata. A construção começou em 1950. Aguilar não viveu para ver seu sonho realizado: ele faleceu em 1943. Em 1951, o prédio que abrigaria o telescópio estava concluído, assim como os estábulos e uma casa para os astrônomos.
O plano original era construir uma usina elétrica e um prédio para uma bomba d'água, mas o projeto ficou sem verba e essas duas estruturas nunca foram construídas. A água utilizada era proveniente de algumas fontes próximas e também da chuva, embora a precipitação fosse sempre muito escassa.
Telescópio que não funcionava
Soto contou que "eles trouxeram um telescópio que não funcionava". Após o empreendimento hercúleo da construção, as coisas não correram bem. Em 1957, o diretor do Observatório de La Plata, Reynaldo Cesco, decidiu dar um último impulso para inaugurar a estação astronômica de La Leona. Isso foi finalmente alcançado em 1960. O plano era instalar um Círculo Meridiano Repsold.
O círculo era um instrumento astrométrico de alta precisão para a época, projetado em 1853 na Alemanha. Ele podia medir coordenadas celestes com grande exatidão. Em La Plata, havia um de 1908 que nunca havia sido retirado de sua caixa original e estava guardado há décadas, mas foi emprestado a um observatório em Córdoba. Cesco enfrentou um grande problema: ele tinha que inaugurar a estação astronômica de La Leona, mas não tinha a um telescópio.
— Meu tio foi quem reconstruiu tudo. Ele era a única pessoa que cuidava dela — diz Soto.
Em 2009, um projeto de lei para declarar o observatório um "Monumento Histórico Nacional" foi submetido à Comissão de Cultura, Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados. Até o momento, não houve notícias de nenhum progresso sobre o assunto.
Seguindo esse legado, após sua morte em 2023, a família continuou a cuidar da terra e das instalações. Durante sua vida, o governo de Santa Cruz concedeu ao lonco (cacique mapuche) a usucapião (posse da terra) depois que ele a ocupou por vinte anos.
— Estou aqui para defender esse patrimônio, que foi importante para a história da astronomia argentina. E também os direitos do meu tio, que escolheu viver aqui — acrescenta o sobrinho, olhando para a colina onde está localizado o túmulo do tio e acrescentando: — Abro os portões todos os dias para que os turistas possam vir.
Mas a sua presença incomodou alguns, e em outubro passado, a casa onde os astrônomos moraram muitos anos atrás, e que seu tio havia restaurado com tanto esmero, foi destruída por um incêndio. Esse incidente o preocupa, embora ele conte que preencheu "os relatórios necessários". Uma antena Starlink o conecta ao mundo. Três painéis solares permitem que ele use seu celular por algumas horas por dia. Dois cães lhe fazem companhia.
— Quando estou sozinho, me conecto com o universo — diz Soto pensativamente. — Precisamos resgatar a escuridão e a calma.
Ele não se preocupa com bens materiais. Tem arroz, macarrão e um pedaço de carne à mão.
— O que me trouxe aqui foi uma busca introspectiva e espiritual. Sinto que a civilização está em colapso e precisamos impedir isso — afirma, reconhecendo que nunca perde a capacidade de se maravilhar com a beleza. Com a voz embargada, lembrou: — Outro dia, algo maravilhoso aconteceu. A lua cheia nasceu e, do outro lado do céu, o sol se pôs. Foi lindo.
Fonte:https://oglobo.globo.com/mundo/epoca/noticia/2026/01/10/homem-vive-isolado-em-observatorio-argentino-abandonado-no-meio-da-patagonia-busca-introspectiva-e-espiritual.ghtml
Comentários
Postar um comentário