CHEMSEX: O LADO SOMBRIO DO SEXO SOB EFEITO DE DROGAS - CONHEÇA A CHAMADA 'ALQUIMIA DO PRAZER', COM NOVAS DROGAS USADAS PARA TURBINAR O SEXO MAS QUE PODEM MATAR!
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Alquimia do prazer: novas drogas usadas para turbinar o sexo, mas podem matar; entenda
Gama-hidroxibutirato, ou GHB, por exemplo, pode causar relaxamento e, combinado ou não a mais psicoativos, ser fatal
Por
— Rio de Janeiro
05/01/2026 04h30 Atualizado há uma semana
Um turista russo de 33 anos, Denis Kopanev, foi encontrado morto numa trilha do Horto, na Zona Sul do Rio, em 30 de setembro do ano passado, após quase quatro meses desaparecido. Na pochete ao lado do corpo, havia GHB, um produto químico para limpeza de aviões que no Rio, assim como em outras metrópoles, caiu no gosto dos adeptos de chemsex — sexo praticado sob o efeito de drogas. O gama-hidroxibutirato, ou GHB, pode causar relaxamento e, combinado ou não a mais psicoativos, levar à morte. Segundo a polícia, Kopanev usou tina (metanfetamina, conhecida como “crack dos ricos”) e cocaína, além do solvente.
Entre cariocas e turistas que não temem flertar com o risco, fazem parte do coquetel para apimentar a relação substâncias que aumentam os níveis de neurotransmissores no cérebro e proporcionam sensações que, perigosamente, se sobrepõem às dos hormônios sexuais do prazer. As práticas têm se tornado comuns na cidade, ainda que clandestinamente, e serão abordadas na série de reportagens do GLOBO “Alquimia do prazer: recortes de um Rio oculto”.
Os efeitos da adrenalina e da noradrenalina também são perseguidos por quem não está entre quatro paredes. Nas boates ou em festas ao ao livre, percebe-se que as novas drogas inspiram artistas em canções nada compatíveis com os discriminados “proibidões” e bem-aceitas em todas as classes sociais. Bad Bunny, ídolo latino, por exemplo, versa: “A coca é branca, sim, sim/ o Tusi, rosinha, melhor evitar”. O popstar com 49,6 milhões de seguidores no Instagram propaga o poder devastador da “cocaína rosa”, pó de cor delicada e teor explosivo: mistura de cetamina e MDMA; ou metanfetamina, cetamina e MDMA, entre outras variações.
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Mil reais o grama
Tusi vem de “tusibi”, que vem do inglês “two-cee -bee”, referência à fórmula química 2C-B. Um economista carioca decidiu experimentar, naquele clima de “já pintou verão e calor no coração”:
— Foi num bloco, quando um amigo colombiano trouxe— disse ele sobre o pó também conhecido como “droga de rico”, comum em festas de réveillon e com valor de mais de mil reais o grama.
Os componentes da “cocaína rosa”, encontrados também em outras substâncias psicoativas, estão entre os de maior uso no mercado global de ilícitos. Segundo estimativas do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, na sigla em inglês), no Relatório Global sobre Drogas publicado no ano passado, o consumo das sintéticas segue em expansão e é dominado justamente por eles: os estimulantes do tipo anfetamina (ATS), como metanfetamina. O relatório global ressalta, no Rio, uma condição favorável à proliferação: facções organizadas como empresas verticais.
X, um traficante carioca que vende pela Zona Sul e pela Zona Norte e consome MD, maconha e cigarro, contou ao GLOBO que usava tusi, até que recuou:
— Vicia muito. Todas as minhas eu joguei na privada em certo momento. Não estava dando mais, não.
Aumento de atendimentos
Os atendimentos nas redes de assistência social e de saúde crescem ano a ano. Segundo a Secretaria municipal de Saúde (SMS), em 2023 e 2024, respectivamente, 8.997 e 13.789 pacientes passaram por tratamento no Centro de Atenção Psicossocial - Álcool e Drogas (Capsad), um aumento de mais de 53%. E os casos seguem subindo: Em 2025, ainda sem os números fechados do ano inteiro, 14.956 pacientes foram acompanhados pela equipe.
“Na rede de urgência e emergência, 8.449 pacientes com relato de consumo de álcool e drogas foram atendidos em 2024. Neste ano, até o momento, 9.603 foram atendidos”, diz a SMS.
Dois jovens ouvidos pelo GLOBO admitiram que tiveram curiosidade de provar novas drogas após ouvir amigos e, concomitantemente, verem emergir na internet memes e músicas com referências a elas.
O psiquiatra e professor Paulo Roberto Telles Pires Dias, do Núcleo de Estudos em Uso de Drogas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), explica que fatores culturais e sociais estão diretamente ligados a uma maior propagação do consumo:
— Hoje, o que está se usando numa balada de São Paulo logo estará no Rio.
O patologista clínico e toxicologista Álvaro Pulchinelli, presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), destaca o aumento exponencial de variedades, devido às grandes possibilidades de combinações químicas. Ele cita, entre as principais apreensões registradas nas metrópoles, novidades como canabinoides sintéticos (K2, SPICE), catinonas (“sais de banho”), “cocaína rosa”, opioides sintéticos (como o fentanil) e os chamados “benzodiazepínicos de design”.
Diante do desafio de tanta variedade e altos riscos de intoxicação, há quatro meses foi publicada a Primeira Norma de Toxicologia do Brasil para laboratórios.
— Esta é uma indústria extremamente lucrativa e complexa, com uma criatividade quase inesgotável — analisa Pulchinelli.
A tusi já levou à morte adolescentes na Europa e nos Estados Unidos. Entre os efeitos prejudiciais ao organismo estão: aumento das frequências cardíaca e respiratória e da pressão arterial. A superdosagem pode, inclusive, levar ao infarto.
As apreensões de ATS atingiram um recorde em 2023, segundo as Nações Unidas, e representaram quase metade de todas as apreensões globais de drogas sintéticas, seguidas pelos opioides sintéticos, incluindo o fentanil.
No Brasil, o governo federal lançará um levantamento relacionado a drogas sintéticas no início deste ano. A autoria é da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad), do Ministério da Justiça e Segurança, que há poucos meses divulgou uma cartilha de prevenção e alerta a respeito de nitazenos — opioides de alta potência.
Mais forte que fentanil
De acordo com uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), nitazenos chegam a ser 20 vezes piores do que o fentanil, que é 50 vezes mais potente do que a heroína.
Bárbara Caballero, gestora de Estatística da Senad, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, conta que em São Paulo a substância foi identificada num comprimido adulterado.
— A pessoa teria comprado um comprimido de MDMA para consumir, mas na verdade foi identificado um nitazeno — diz a especialista.
Fonte:https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2026/01/05/alquimia-do-prazer-novas-drogas-usadas-para-turbinar-o-sexo-atraem-cariocas-mas-podem-matar-entenda.ghtml?
Chemsex:
o lado sombrio do
sexo sob efeito de drogas
A proposta é perigosamente sedutora: potencializar o prazer do sexo
com uma droga que causa euforia e aumenta a produção de dopamina, conhecida
como um dos hormônios da felicidade. Altamente viciante, a metanfetamina, no
entanto, causa uma série de problemas, incluindo delírios, e é vista por
especialistas como uma questão de saúde pública, principalmente
em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, onde é assustadoramente acessível
em aplicativos de encontro.
Alguns motéis na capital paulista já
se tornaram redutos de compra e têm até “enfermeiros” para aplicá-la nos
adeptos do chemsex. O termo vem do inglês e é uma abreviação de “chemical sex”,
ou “sexo químico”.
Produzida em laboratórios, a droga é
conhecida popularmente como cristal, pelo seu aspecto, ou “tina”. A substância
é comercializada, geralmente, em pedras.
Um usuário que faz parte do principal
público consumidor, o LGBTQIAP+, conta que passava dias acordado e chegou a
viver situações tensas.
Depois de conseguir ficar uns meses
longe da droga, ele teve recaídas, foi internado duas vezes e precisou sair do
emprego. Atualmente, faz tratamento em uma residência terapêutica, contando
ainda com cinco sessões de terapia por semana.
"Tem sido uma situação complicada, porque eu tenho contas para
pagar. Estou dependendo financeiramente dos meus pais e minha luta agora é
reconquistar minha independência em todos os sentidos", afirma.
O
sexo, que antes era o objetivo, virou apenas uma desculpa para usar a droga
depois que se tornou dependente. "É uma vida totalmente triste",
lamenta.
E o mais alarmante é o aumento da droga em circulação: as apreensões
só têm crescido nos últimos anos.
Parte da explicação está na queda no
preço durante a pandemia, o que favoreceu a sua popularização e explodiu a
procura por atendimento nos consultórios psiquiátricos.
Em março do ano passado, a Polícia Militar de
São Paulo encontrou 235 quilos de metanfetamina em uma casa no litoral. A quantidade supera o total apreendido pela Polícia Federal de
2017, primeiro ano de registro do entorpecente no país, a 2024.
Em julho, a polícia de São Paulo
encontrou um apartamento alugado no bairro da Aclimação, na Zona Sul da
capital, usado como laboratório para fabricar a droga – outro fator que fez o
preço cair, segundo as investigações.
A partir dos celulares e documentos
apreendidos, a polícia identificou mais de 60 pessoas de uma máfia envolvida na
produção e venda de metanfetamina no Brasil.
Em dezembro, houve uma megaoperação
policial para prendê-las.
Além de alucinações, o consumo de
metanfetamina pode levar à depressão, ansiedade e comprometimento cognitivo. Já
o uso constante pode causar danos graves à saúde, como problemas renais,
insuficiência no fígado e até infarto.
Há
ainda outro problema igualmente preocupante: no chemsex, a camisinha é
praticamente proibida, o que só eleva a chance de infecções sexualmente
transmissíveis (ISTs).
Para dificultar ainda mais,
especialistas apontam a falta de informações dos órgãos brasileiros de saúde
sobre o uso da metanfetamina e a ausência de protocolos específicos para
acompanhar os dependentes químicos deste entorpecente na rede pública.
“O uso de metanfetamina [no Brasil] é absolutamente desconhecido, está
num limbo nebuloso, mas muitas pessoas já estão se dando mal. Temos casos de
pessoas que acabaram morrendo”, afirma o infectologista Rico Vasconcelos,
pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
O g1 conversou
com 12 usuários de metanfetamina que moram em São Paulo e no Rio Janeiro e
pediram para ter a identidade preservada. Por isso, os nomes não serão
publicados. Todos são gays ou bissexuais e usam aplicativos de encontros
LGBTQIAP+, como Grindr e Scruff. (Veja ao final desta página o que dizem os
apps.)
Entre eles, há médicos, advogados,
profissionais de TI (tecnologia da informação) e garotos de programa. Os
relatos são de angústia e servem de alerta.
Abaixo, leia mais sobre os riscos,
como a droga age, a ausência de dados públicos e o que dizem especialistas.
Produzida em laboratórios
clandestinos, a droga surgiu na 2ª Guerra Mundial e foi essencial na estratégia
militar do nazismo. Os soldados faziam uso da substância para ficar acordados
no front de batalha por mais tempo e, assim, melhorar as condições de combate.
Nos
últimos anos, o avanço do entorpecente nos Estados Unidos e na Europa virou um
problema sério de saúde.
Aqui no
Brasil, a droga ficou conhecida do grande público por meio da série americana
Breaking Bad, que fez sucesso alguns anos atrás com a história de um professor
de química que passa a fabricar metanfetamina após descobrir um câncer.
Se
antes parecia só coisa de ficção, a droga agora está acessível na palma da mão:
basta abrir um aplicativo de encontros LGBTQIAP+ no Centro de São Paulo ou na
Zona Sul do Rio de Janeiro para o usuário receber um convite.
Ao chegar
ao local do encontro, que pode ser em um apartamento ou um motel disfarçado de
hotel barato, a pessoa se depara com cachimbos de vidro (conhecidos como
“pipe”), maçaricos e seringas.
Ao fumar
a droga, o efeito vem aos poucos e dá início à interação sexual com o(s)
parceiro(s). Ao injetá-la diretamente na veia, dissolvida em soro, a sensação é
mais potente e imediata – o chamado “rush”.
Muitos lugares têm
alguém com habilidades semelhantes às de um profissional de enfermagem para
fazer a aplicação da metanfetamina injetável, conhecida como “slam”.
A partir
de então, tem início o sexo – geralmente desprotegido – que se prolonga
madrugadas adentro e que explora os mais diversos tipos de inseguranças e
traumas relacionados à prática, na forma de “fetiches”, com a falsa sensação de
libertação dos estigmas.
E, se
começou a dois, o encontro pode ganhar novos convidados a partir dos
aplicativos de encontro e virar uma “festinha” 🎈. Em motéis, é comum que os
frequentadores se alternem entre os quartos para a prática de sexo grupal.
Independentemente
da forma de consumo, todos os usuários têm uma tendência ao vício. Essa prática
de sexo sem camisinha durante os encontros e os múltiplos parceiros em uma
única noite deixam as pessoas expostas a muitas ISTs, além de todos os
prejuízos para a saúde mental.
A metanfetamina, da família das anfetaminas, gera uma falsa sensação
de bem-estar e apetite sexual. Essa percepção é explicada pelo fato de ela
aumentar a produção de dopamina, neurotransmissor responsável pela sensação de
prazer no cérebro.
No livro “Nação Dopamina”, a
psiquiatra e professora da Universidade Stanford, nos EUA, Anna Lembke, compara
a droga com outros entorpecentes.
A prática de sexo sem uso de
substâncias químicas dobra a produção de dopamina. A nicotina, presente nos
cigarros, aumenta em 150%, e a cocaína eleva em 225%. No caso da metanfetamina,
chega a 1.000%. Ou seja, o prazer no cérebro é dez vezes mais forte que o
orgasmo.
“Eu acho que o crystal me ajudava a ficar muito mais feliz e a lidar com
uma insegurança em relação à minha sexualidade. Era o auge, o auge do prazer”,
conta um usuário, que, com a ajuda da família e amigos, luta diariamente para
não injetar nem fumar metanfetamina.
No organismo, os efeitos podem durar
por até 24 horas e são muito similares aos do crack, cocaína ou heroína:
euforia repentina, hiperatividade e insônia.
A droga também altera a frequência
cardíaca e a pressão arterial, o que pode aumentar o risco de infarto e AVC
(acidente vascular cerebral, popularmente conhecido como derrame).
No longo prazo, os
sintomas incluem distúrbios do sono, danos cognitivos, ataques de pânico,
crises de ansiedade e depressão.
"Eu não conseguia comer. Ficava sem dormir por dias. E aí começavam
as paranoias e as alucinações”, lembra outro usuário.
Muitos entrevistados mencionam a sensação de que
estão sendo filmados ou perseguidos, até mesmo por “satélites espiões” ou
agentes da CIA (serviço de inteligência estadunidense).
Um dos usuários mostrou à reportagem vídeos do
corredor do prédio onde mora, filmados por baixo da porta do apartamento, em que
seria possível ouvir os vizinhos condenando o que ele fazia dentro de casa, mas
não havia nada disso nos vídeos.
No reflexo do flash do celular em um espelho na
parede e nas tomadas de casa, ele pensava ter câmeras escondidas. O rapaz
chegou a rasgar um colchão acreditando que havia uma cobra costurada nele.
Esse
comportamento delirante é típico de pessoas com esquizofrenia – condição que
pode ser pré-existente e se acentuar ou surgir a partir do uso de
entorpecentes.
De acordo
com o psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise Júlio César
Nascimento, a superestimulação no cérebro gerada pela droga, causada pela alta
quantidade de dopamina, distorce a percepção da realidade.
Os relatos ouvidos pelo g1 sobre a
primeira vez usando metanfetamina são parecidos e seguem a mesma dinâmica.
Com exceção de dois usuários que
experimentaram no exterior, os outros 10 começaram o uso durante encontros
sexuais marcados pelos apps, principalmente durante a pandemia.
Hoje, grande parte deles apresenta comportamento de dependência química.
“Eu comecei a comprar crystal para
fazer sexo de uma forma melhor, e hoje preciso do crystal para viver”, afirma
um deles.
Segundo o infectologista Rico
Vasconcelos, as pessoas começam a consumir de forma eventual, mas logo aumentam
a frequência e a intensidade, ampliando a exposição aos riscos.
"Chega um momento em que elas
ficam o fim de semana inteiro usando e fazendo sexo com múltiplos parceiros”,
explica.
E a coisa rapidamente escala porque a
metanfetamina é uma substância que causa bastante vício. “A pessoa começa a não
achar mais sentido não só no sexo, mas também na vida, se não estiver usando a
substância.”
O psiquiatra Bruno Branquinho,
especialista em atendimento de pessoas LGBTQIAP+, tem uma agenda cheia de
pacientes dependentes da substância.
Outro ponto grave
que alarma os especialistas é a exposição a infecções sexualmente
transmissíveis nessas situações.
Muitos adeptos do chemsex argumentam que podem
dispensar a camisinha durante a relação sexual porque tomam os comprimidos da
PrEP (Profilaxia Pré-Exposição).
Acontece que a PrEP previne somente a infecção pelo
vírus da imunodeficiência humana (HIV). As pessoas, portanto, ficam expostas a
todas as demais ISTs, como sífilis e hepatite C.
Sem contar que o fato de os praticantes do chemsex
passarem dias seguidos acordados compromete a adesão à medicação, que deve ser
diária.
Rico Vasconcelos também alerta que a falta de
conhecimento e de preparo para lidar com seringas faz as pessoas injetarem a
droga de forma incorreta, nelas mesmas e nos outros. E levanta ainda outro
problema: o compartilhamento de agulhas.
“Quem está sob efeito de substâncias não percebe o que acontece no
entorno: se aquela seringa já foi usada ou não, se ela é estéril ou não, se
aquela embalagem de onde ela foi tirada estava lacrada ou não”, alerta o
infectologista.
Para
baratear os custos, é comum que outras substâncias sejam misturadas durante a
produção clandestina da substância.
Há até
casos de golpe, em que sal grosso, que tem aspecto similar às pedras de
metanfetamina, é vendido no lugar da droga. Foi o que aconteceu com duas das
pessoas ouvidas pelo g1, que só descobriram isso após
injetar sal na veia.
A queda no
preço da metanfetamina durante a pandemia favoreceu a popularização da droga no
Brasil.
Nos
apps de encontro onde a prática do chemsex é estimulada, há também perfis
oferecendo delivery de drogas.
“Antes, era mais
difícil de conseguir [comprar]. No início, eu pagava bem mais caro [pelo grama]
do que hoje”, conta um professor de educação física, que conheceu o
entorpecente em 2018, quando morou em Londres.
Dados da
Polícia Federal obtidos via Lei de Acesso à Informação mostram que as
apreensões cresceram exponencialmente nesse período, principalmente de 2020
para 2021, e os números só sobem desde 2022.
Se de um lado é perceptível o avanço
da metanfetamina nas capitais brasileiras, de outro, o poder público parece
alheio a isso, segundo especialistas.
Não há dados específicos em relação à
droga nas secretarias estaduais de saúde de São Paulo e do Rio de Janeiro, que
trabalham em cima de informações categorizadas e disponibilizadas pelo SUS.
O mapeamento existente considera
transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de substância psicoativas
no geral, desconsiderando as particularidades do contexto de uso e do
tratamento de cada tipo de droga.
Em 2024, no estado de São Paulo,
foram registrados 93.318 atendimentos ambulatoriais referentes a estes
transtornos, como por exemplo consultas médicas, e 18.335 internações. Em 2023,
foram 71.285 atendimentos e 16.054 internações.
No estado do Rio de Janeiro, também
houve um aumento significativo nos registros de transtornos mentais e
comportamentais por uso de drogas após a pandemia: em todo o ano de 2019, foram
786 casos. Cinco ano depois, em 2024, o número saltou para 27.617.
Procurado pelo g1 via pedidos de Lei de Acesso à Informação
realizados desde 2022, o Ministério da Saúde não tem informações exclusivamente
sobre os atendimentos na rede pública decorrentes do uso da substância.
A pasta classifica os pacientes
dentro do grupo de pessoas que fazem tratamento por “transtornos mentais e
comportamentais relacionados ao uso de estimulantes", mas não é possível
fazer um recorte somente para a metanfetamina.
A situação é parecida no âmbito das
secretarias municipais de Saúde de São Paulo e do Rio de Janeiro. Nenhuma delas
tem dados categorizados de atendimentos pelo tipo de droga consumida, nem um
olhar específico voltado para a situação do chemsex.
“Reconhecer
que existe o problema é o primeiro passo. A gente nem tem dados sólidos sobre o
uso de metanfetamina no Brasil, como é que a gente vai conseguir abordar essa
questão?", indaga o infectologista Rico Vasconcelos.
O g1 também buscou no Painel PrEP, do Ministério da
Saúde, mais evidências sobre a prática do chemsex. Atualmente, mais de 80% dos
usuários da PrEP são homens que fazem sexo com homens.
O último Relatório de Monitoramento
de PrEP e PEP aponta que, em 2023, 4% dos pacientes disseram ter usado
substâncias psicoativas antes ou durante o sexo, o que corresponde a 4.417
pessoas.
Para Belmiro Vivaldo, doutor em
Direito e pesquisador da Universidade do Estado da Bahia sobre o tema, a
chegada da metanfetamina ao Brasil e a prática do chemsex precisam ser
encarados como um crescente problema de saúde pública.
“O que nós observamos diante do próprio SUS é que não tem havido o
devido olhar sobre o chemsex. Muitas pessoas até não sabem o que significa”,
diz.
Na avaliação do professor de Direito
Penal da Estácio Douglas Galiazzo, os órgãos públicos encaram as drogas
sobretudo pela ótica do combate policial ao tráfico.
“O estado não entende ainda como saúde pública. Você tem um problema de
desintoxicar. Tanto que você não encontra um ex-usuário. Mesmo as pessoas que
há 20, 30, 40 anos pararam de usar entorpecente continuam precisando de
cuidados”, pondera.
A médica epidemiologista do Programa Estadual IST/Aids de São Paulo
Naila Santos, que acompanha há anos a questão do chemsex, reconhece que falta
um mapeamento dos usuários pela rede pública.
“Ainda
não há uma rede totalmente organizada para atender essas pessoas. Estamos
engatinhando”, diz.
Em 2021, ela integrou um grupo de
trabalho que elaborou um guia voltado a profissionais da saúde.
Além de informações farmacológicas, o
manual traz orientações sobre como deve ser o atendimento aos usuários e
recomenda que sejam levados em conta aspectos comportamentais.
“Esse entendimento deve incluir as
motivações psicológicas e socioculturais que levam indivíduos a participar
dessa cultura”, diz o documento.
Os pacientes que buscam atendimento
na rede estadual de São Paulo são encaminhados para o Programa de Orientação e
Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo e para o
Instituto Perdizes, do Hospital das Clínicas, que além de tratar dependentes
químicos realiza pesquisas na área.
“Além da medicação psiquiátrica antipsicotizante, o paciente precisa de
um ambiente familiar muito acolhedor, que possa funcionar como uma internação
terapêutica. O psicólogo que acompanhar o caso precisa ser capaz de lidar com
sentimentos e modos de processamento psíquicos muito primitivos”, afirma o
psicanalista Júlio César Nascimento.
Um usuário conta que, na visão dele,
o papel do psiquiatra era mais superficial e que a situação se resolvia com a
medicação.
"Depois, vi que o tratamento passa por um processo de
autoconhecimento muito mais importante do que os remédios. No caso do chemsex,
eu, como paciente, sinto a necessidade de um olhar individual. Cada um tem o
seu motivo de usar a droga, porque diz respeito ao emocional, ao psicológico”,
relata.
Uma
forma de tratamento que tem sido bastante buscada é uma rede de apoio similar à
dos Narcóticos Anônimos, mas voltada para a metanfetamina e as suas
particularidades: o "Crystal Meth Anonymous" (CMA). A iniciativa
começou no exterior e a adesão tem crescido no Brasil, em reuniões on-line.
"Fiquei sabendo do grupo de brasileiros há mais ou menos um ano. No
início, ele tinha duas, três pessoas e, agora, está crescendo. É muito bom
porque é um lugar de acolhimento", afirma o ator e professor Fábio T., um
dos brasileiros do grupo.
Ele teve contato com a metanfetamina
nos anos 2000, morando nos Estados Unidos, e atualmente comemora estar há mais
de 19 anos limpo.
“Quem procura o CMA é quem já tentou de tudo e nada deu certo. O que nos
une é a natureza da nossa derrota, do nosso fracasso. Há uma identificação. Os
relatos são de vivências parecidas”, diz.
O programa segue a filosofia dos “12
passos”, que surgiu com os Alcoólicos Anônimos.
“A gente prega a total abstinência. São necessárias duas coisas: parar
com o uso e mudar tudo na vida”, defende Fábio.
Na rede pública, a orientação do Ministério da Saúde aos usuários de
metanfetamina é a mesma para quem usa álcool e outras substâncias psicoativas,
apesar das particularidades do contexto do chemsex.
“A Rede de Atenção Psicossocial (Raps) do SUS realiza acolhimento,
suporte e tratamento em saúde mental, incluindo as pessoas com necessidades
decorrentes do uso de álcool e outras drogas. Todos os serviços da Raps
oferecem, como parte do tratamento, intervenções psicossociais personalizadas
para cada caso", diz a pasta.
A Raps é formada, por exemplo, pelas
Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e pelos Centros de Atenção Psicossocial
(Caps). O SAMU e os hospitais gerais também estão integrados na rede.
Em muitos casos, é a partir das
situações de emergência e overdoses que os usuários se dão conta da gravidade
do problema que estão enfrentando.
Na capital paulista, há 35 Caps para
cuidar de adultos que indicam sofrimento decorrente do uso nocivo de álcool e
outras drogas.
“Os Caps funcionam em regime de portas abertas. As equipes
multiprofissionais estão orientadas a realizar o acolhimento sem a necessidade
de encaminhamento", afirma a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo.
A pasta diz que, "desde o primeiro contato com o usuário, ou sua
família, é realizada a construção de um projeto terapêutico singular formulado
conforme as necessidades identificadas em cada caso”.
O pesquisador Belmiro Vivaldo
ressalta que a abordagem no sistema de saúde deve ser multidisciplinar, com
psicólogos, psiquiatras e infectologistas, mas que nem sempre essa é a
realidade na rede pública.
O O aplicativo
de encontro Grindr afirmou, em nota, estar comprometido em criar um ambiente
seguro para os usuários.
“A venda e solicitação de drogas são violações de nossos Termos de
Serviço e tomamos medidas contra contas que têm este comportamento”, diz.
O aplicativo informa também que qualquer atividade
que descumpra os termos pode ser denunciada por outros usuários.
Procurado, o Scruff não respondeu à reportagem.
Créditos:
Reportagem e imagens: Vítor
Anastácio
Design e Ilustrações: Gabs,
Luisa Rivas e Thalita Ferraz
Motion: Verônica
Medeiros
Desenvolvimento: Gabs
e Guilherme Luiz Pinheiro
Edição de vídeos: Luiz
Gabriel Franco e Vítor Anastácio
Edição de conteúdo: Fernanda
Calgaro
Coordenação:
Cíntia Acayaba (conteúdo)
Guilherme Gomes (arte)
Mariana Mendicelli e Tatiana Caldas (vídeos)
Data
de publicação: 15 de março de 2025
Fonte: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/chemsex-o-lado-sombrio-do-sexo-sob-efeito-de-drogas/
Prática do chamado sexo químico acarreta riscos para a saúde e tem potencial para aumentar DSTs
Maurício Yonamine discorre sobre os perigos do “chemsex”, que é o uso de drogas para aumentar a sensação de prazer durante o ato sexual

Chemsex (sexo químico) é um termo utilizado para descrever o uso de substâncias psicoativas durante o ato sexual, com o intuito de desinibir ou aumentar a percepção de prazer. A prática já é antiga, o termo chemsex foi cunhado por David Stuart e alguns amigos, em Londres, em meados dos anos 2000. É mais comumente entendido como o uso de qualquer combinação de drogas que inclua metanfetamina, mefedrona e/ou GHB/GBL, usado antes ou durante o sexo. Essas substâncias proporcionam efeitos singulares de duração, apetite e desinibição sexual, diferentes dos efeitos do álcool, ketamina, cocaína e mesmo do poppers ou sildenafil (Viagra), que são consideradas “adicionais” no chemsex. Esse tipo de comportamento explodiu na Europa há mais de dez anos e agora especialistas vêm observando um crescimento também no Brasil, especialmente após a pandemia de covid-19.
Apesar de os problemas do sexo químico já terem sido divulgados, a prática continua crescendo no Brasil. Sobre esse assunto, o professor Maurício Yonamine, do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo fala o seguinte: “Embora no Brasil não haja muitos estudos sobre a prática do chemsex, sabe-se que uma das principais drogas utilizadas nesse contexto é a metanfetamina, conhecida popularmente nesse meio como tina. A metanfetamina é um estimulante do sistema nervoso central, aumentando no cérebro os níveis de dopamina, serotonina e noradrenalina, substâncias relacionadas com o aumento do estado de alerta, euforia, sensação de bem-estar e autoconfiança”, afirma Maurício Yonamine.
Ação das substâncias químicas no corpo
As anfetaminas, que são estimulantes do sistema nervoso central, podem ter efeitos complexos sobre a sexualidade. Elas podem aumentar a energia e a euforia, o que pode levar a um aumento na libido para algumas pessoas. Contudo, o uso de anfetaminas também pode causar efeitos colaterais indesejados, como ansiedade, insônia e até disfunção sexual em doses mais altas ou com o uso prolongado. O pesquisador ainda fala mais sobre as diferentes substâncias utilizadas no ato sexual e suas similaridades.

“De acordo com estudos realizados em outros países, além da metanfetamina, outras drogas como a cocaína, o GHB e catinonas sintéticas, principalmente a mefedrona e até a MDMA, metileno de oxi metanfetamina – encontrada em comprimidos de êxtase – têm sido utilizadas nesse contexto do chemsex. São todas drogas que agem no sítio de recompensa do cérebro, ou seja, agem em dopamina, em maior ou menor grau e duração. Acredito que os usuários escolham a droga baseada nas suas próprias experiências, naquela que é mais disponível e que proporciona os efeitos esperados pelo usuário”, discorre o professor.
Ingerir álcool junto com drogas utilizadas no contexto sexual podem agravar ainda mais a situação do sexo químico. Um estudo brasileiro demonstrou uma forte associação entre o uso excessivo do álcool junto a outras substâncias. Como o álcool é uma droga legal, os riscos desse tipo de entorpecente é minimizado pela sociedade, no entanto, o uso de álcool também implica diversos riscos.
Problema de saúde pública?
É fato que o uso de entorpecentes durante o sexo é capaz de expandir o risco de doenças sexualmente transmissíveis se espalharem. O professor do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo comenta: “Ao mesmo tempo que a metanfetamina aumenta a sensação de prazer, ela também causa um sentimento de onipotência, de grandiosidade, de tal forma que o indivíduo se acha invencível e que nada poderá afetá-lo enquanto ele estiver sob efeito dessa droga. Sob esse estado mental alterado, o indivíduo não pondera riscos, assim aumenta muito a probabilidade de praticar sexo sem proteção e, consequentemente, a chance de transmissão de doenças infecciosas, como a sífilis, a gonorreia e a aids”, discorre.
Visto que os produtos ilícitos utilizados para a prática não são regulados na maioria dos países, o impacto na saúde e os riscos associados podem ser extremamente sérios. De maneira farmacológica, os nitratos de alquila podem interagir com outras drogas, como substâncias vasodilatadoras (tadalafila), usualmente utilizadas no sexo químico. A junção dessas drogas pode causar um aumento da pressão sanguínea, o que aumenta as possibilidades de um derrame ou até mesmo de um ataque cardíaco.
“As combinações entre diferentes estimulantes e outras substâncias psicoativas como a metanfetamina e cocaína, cocaína e mefedrona, metanfetamina com GHB, tudo isso muitas vezes regado a doses de bebida alcoólica, aumentam muito o risco de overdoses entre os adeptos do chemsex. Dentre os sintomas dessa intoxicação estão taquicardia, arritmias, aumento da pressão arterial, dor torácica, hipertermia, danos renais e convulsões, podendo ainda progredir para eventos fatais. Portanto, a prática do chemsex, de buscar o máximo prazer a qualquer custo, é um comportamento bastante arriscado, de tal forma que no final o preço disso tudo pode ser a própria vida”, explica Yonamine.
O professor ainda acrescenta: “Estudos têm demonstrado que a prática do chemsex pode induzir a transtornos psiquiátricos e levar a problemas familiares, profissionais e sociais. A probabilidade de dependência química aumenta à medida que alguns usuários só conseguem manter relações sexuais se estiverem sob o efeito de algumas drogas. O uso prolongado dessas drogas pode resultar em psicose, caracterizada por ideias persecutórias e delírios. Além disso, alguns usuários podem experimentar depressão prolongada e ainda ocorrência de ideias suicidas”, conclui.
*Sob supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira
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