O ESCÂNDALO DO CASO EPSTEIN DE ABUSO SEXUAL DE MENORES: ENTENDA AS ACUSAÇÕES DE ENVOLVIMENTO DE TRUMP E OUTROS POLÍTICOS, ARTISTAS POP E CEREBRIDADES
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Caso Epstein — Foto: Editoria de Arte
Caso Epstein:
Entenda como Trump prova do próprio veneno em briga inédita com sua base
Descrente de resultado de investigação
que desmente teorias de conspiração sobre milionário acusado de tráfico sexual
e abuso de adolescentes, militantes se voltam contra presidente dos EUA em
fratura que enfraquece extrema direita
Demorou até mais do que o esperado, mas, tal qual um bumerangue em altíssima velocidade, as teorias da conspiração da extrema direita americana sobre o empresário, milionário, pedófilo e amigo de Donald Trump, Jeffrey Epstein, voltaram-se contra a Casa Branca. E com o potencial de fazer um estrago inédito no apoio ao republicano do movimento Faça os EUA Grandes Novamente (Maga, na sigla em inglês).
Epstein se suicidou na cadeia em 2019, quando seu patrimônio valia US$ 560 milhões, de acordo com documentos fornecidos à época por seus próprios advogados. Acusado de abusar de meninas adolescentes e comandar uma rede internacional de tráfico sexual, ele dava festas disputadas por figurões e era considerado, até ser preso, um dos indivíduos mais influentes nos dois lados do Atlântico Norte. Desde então, tornou-se símbolo do que o Maga classifica como males de uma elite desconectada do cidadão comum, corrupta, criminosa, devassa e protegida pelo “Estado profundo”. Este, na cartilha de grupos-seita como o QAnon, controlaria o governo dos EUA.
Entre as teorias da conspiração marteladas pelo Maga, destaca-se a de que Epstein teria sido assassinado, entre outros motivos, por ter em seu poder uma lista com clientes poderosos de sua rede criminosa. Em tal lista apareciam nomes da realeza europeia, estrelas pop e bilionários que financiavam a sigla de Barack Obama e Joe Biden. Em comícios da campanha presidencial do ano passado acompanhados pelo GLOBO, Trump repetia que iria “finalmente revelar o conteúdo dos arquivos de Epstein”. O povo iria saber “a verdade”. A base respondia aos berros, em êxtase.
Mais interessados na lenda do que nas mudanças drásticas já conduzidas por Trump 2.0 no governo e na sociedade do país, os militantes do Maga aguardaram pelas respostas contidas nos arquivos do caso Epstein como se fossem as revelações de Fátima. E elas certamente viriam com o retorno de seu líder ao poder, desta vez, ao contrário do primeiro mandato, liberto das amarras da defunta ala country club do Partido Republicano, tão viciada nas tetas do governo quanto os democratas. Curiosamente, embora tenha congregado com Epstein e também sido denunciado por mulheres por abuso, o presidente surfou como ninguém na onda das fake news sobre a lista secreta. Prova agora do próprio veneno.
'Teorias nunca foram verdadeiras'
Semana passada, o FBI e o Departamento da Justiça anunciaram o fim das investigações sobre o caso. O memorando concluiu que não havia uma “lista de clientes”, nem “evidências críveis” de que Epstein tenha “chantageado pessoas influentes como parte de suas ações”. Também cravou que ele cometeu suicídio. O diretor do FBI, Kash Patel, conspirador de primeira ordem, afirmou, resignado, após a ameaça de deixar o governo:
— As teorias nunca foram verdadeiras.
Só não se calculou a descrença da base enraivecida. Não só seguem acreditando na fake news incentivada por Trump para retornar ao poder como veem seu presidente cada vez mais enredado naquilo que mais abominam — o establishment.
Ela, que se apresenta como “influenciadora Maga” e tinha, até esta semana, entrada aberta na Casa Branca, seguiu:
— A base está insatisfeita, e essa questão não vai simplesmente desaparecer.
Não vai mesmo. Trump respondeu, de forma atipicamente tímida, com uma publicação em sua rede social no fim de semana. Nela, defende a apuração de seu governo, frisa que “estamos no mesmo time” e pede “calma” aos “meus amigos e amigas” do Maga. O uso dos pronomes possessivos sugere um teste de lealdade. Aposta perigosa para enfrentar a teoria da conspiração que se voltou contra os conspiradores e se tornou a maior fratura interna até agora no eleitorado nacionalista cristão de direita, crucial para o trumpismo seguir vitorioso nas urnas. E de modo muito mais profundo do que as chiadeiras internas dos isolacionistas por conta do bombardeio no Irã e o envio, ainda que indireto, de armas à Ucrânia. Nesta terça, o presidente disse que qualquer informação “crível” sobre o caso deve ser publicada.
Também se tentou culpar os democratas, com Trump questionando, sem nem piscar os olhos, o fato de o governo Biden ter deixado para ele a tarefa de finalizar o inquérito de Epstein que acabou não dando em nada. O líder do Partido Democrata na Câmara dos Deputados, Hakeem Jeffries, passou rapidamente a batata quente para o outro lado: “Se de fato não há nada, acabe com isso da forma mais simples, divulgando todo o relatório sobre Epstein. Ou há algo que a Casa Branca não queira revelar?”
O político da mesma Nova York de Trump e Epstein leu bem o que diferencia este episódio: a percepção da base trumpista, de forma inédita, de cooptação de seu presidente por Washington. O governo deles pode tudo, menos lhes provar errado — como assim o dogma Epstein é história da carochinha?
Diversos nomes de destaque no movimento, de deputados mais radicalizados e próximos da base — de olho nas eleições de meio de mandato no ano que vem, quando seus cargos estarão em jogo — a personalidades como o ex-jornalista Tucker Carlson e o guru da extrema direita Steve Bannon (que vê em Epstein a “chave” para abrir segredos da burocracia americana), pedem mais investigações. Nesta terça, o presidente da Câmara, o republicano Mike Johnson, disse em entrevista a um podcast de direita que o Departamento de Justiça “deveria divulgar tudo e deixar as pessoas decidirem por si próprias”.
Fogo no parquinho da direita
No fim do ano passado, um dos maiores conhecedores das entranhas do Partido Republicano, o sociólogo e historiador Geoffrey Kabaservice, quando perguntado pelo GLOBO se o sucessor natural do atual presidente no comando da direita seria o vice, J.D. Vance, ponderou que a própria natureza do Maga o impedia de cravar a opção mais lógica. O movimento, naquele momento cavalgado por Trump, bebe, frisou, dos horrores ao establishment e do desejo de limar da cena política figuras percebidas como guardiães do “Estado profundo”. Poderia “em algum momento” buscar figura ainda mais extremista, fora dos corredores de Washington.
O bilionário Elon Musk, alijado do poder e irritado com a lei orçamentária e tributária de Trump — que desafia, segundo ele, a ideia do Estado menor — observa o novo cenário com atenção enquanto busca reunir a insatisfação contra tudo o que está aí em seu recém-criado Partido América.
Não foi acaso ele ter insinuado, em seu primeiro bate-boca público com o presidente, ao deixar o governo, e agora novamente, que Trump não torna público os detalhes da investigação feita pelo FBI sobre Epstein, por razões pessoais e ainda ocultas.
— Por que não os libera, como prometido? — desafiou.
Há fogo no parquinho da direita americana. E a carência de bombeiros, essa sim, é fato.
Com imagens de
rivais políticos e estrelas pop, governo Trump divulga parte dos documentos do
caso Epstein
Departamento de Justiça diz que
divulgação completa, exigida por lei, levará mais algumas semanas; Casa Branca
vive expectativa por possíveis menções ao presidente
Por O Globo e agências internacionais — Washington
19/12/2025 18h17 Atualizado há 3 dias
Financista Jeffrey Epstein, morto em 2019 e acusado de comandar um esquema de abuso de menores e tráfico humano — Foto: Divulgação/Departamento de Justiça dos Estados Unidos A horas do fim do prazo estabelecido por lei, o Departamento de Justiça divulgou a primeira parte das centenas de milhares de documentos do caso contra o financista Jeffrey Epstein, acusado de manter uma rede de abuso de menores e tráfico humano, e que morreu em 2019, enquanto aguardava julgamento. Documentos já divulgados do processo deram pistas sobre a proximidade de Epstein com o presidente Donald Trump, mas arquivos revelados nesta sexta-feira deram destaque a um rival político de Trump (e pouparam o republicano).
A primeira leva de documentos foi disponibilizada em uma página no portal do Departamento de Justiça chamada de "Biblioteca Epstein" — ao ser acessada pelo GLOBO, foi necessário esperar alguns instantes devido ao alto volume de buscas. O material inclui depoimentos, fotos, e-mails, transcrições de audiências, registros telefônicos e matérias na imprensa, e fazia parte de investigações estaduais e federais, incluindo a que levou à prisão de Epstein na década passada.
"Este site contém materiais que atendem aos requisitos da Lei de Transparência dos Arquivos Epstein. Este site será atualizado caso documentos adicionais sejam identificados para divulgação", diz um texto na página inicial, que alerta para a presença de "descrições de agressão sexual".
Página do Departamento de Justiça dos EUA para a divulgação de arquivos do caso contra Jeffrey Epstein — Foto: Reprodução
Alguns itens já foram divulgados anteriormente, como vídeos do centro de detenção de Nova York onde Epstein foi encontrado morto, enquanto outros jogam luz sobre a vida privada do financista: há, por exemplo, imagens feitas do palco em um show do Rolling Stones, de Epstein ao lado de Michael Jackson, morto em 2009, e de seus convidados e amigos dormindo em aviões e sofás.
O ex-presidente Bill Clinton aparece em diversas fotos, mas o Departamento de Justiça não forneceu contexto para as imagens— em uma delas, o democrata está sem camisa em uma banheira de hidromassagem, ao lado de uma pessoa cujo rosto foi apagado antes da divulgação. Em outra está nadando com Ghislaine Maxwell, ex-namorada e parceira de negócios de Epstein, e condenada a mais de 20 anos de prisão por exploração e abuso de menores. Há uma foto que o mostra sentado à mesa com Epstein e o vocalista dos Rolling Stones, Mick Jagger.
Nas últimas semanas, Trump acusou Clinton e outros democratas de envolvimento com o esquema de abuso de menores promovido por Epstein, mas o nome do ex-presidente jamais apareceu nos processos contra o financista. A amizade de Clinton com Epstein e Maxwell jamais foi segredo, mas ambos cortaram relações no começo do século. Apesar das alegações de Trump, membros de seu governo, como a chefe de Gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, além de Todd Blanche, número dois do Departamento de Justiça, disseram que as acusações não passam de rumores infundados.
“A Casa Branca não escondeu esses arquivos por meses para depois divulgá-los na sexta-feira à noite para proteger Bill Clinton. Trata-se de se protegerem do que está por vir, ou do que tentarão esconder para sempre”, escreveu um porta-voz de Clinton, Angel Ureña, em comunicado. “Eles podem divulgar quantas fotos granuladas de mais de 20 anos quiserem, mas isso não tem nada a ver com Bill Clinton.”
Os "Arquivos Epstein" trazem uma denúncia feita em 1996 contra o financista por Maria Farmer, uma ex-funcionária, sobre o suposto interesse do financista em pornografia infantil: na época, ela acusou Epstein de roubar fotos e negativos de um ensaio artístico com suas duas irmãs, de 16 e 12 anos, e de exigir que tirasse fotos de adolescentes em roupas de banho. Epstein, contou Farmer, ameaçou queimar sua casa caso contasse às autoridades. Maria e uma de suas irmãs, Annie, foram abusadas por Epstein e Maxwell.
Annie Farmer (D), uma das vítimas de Jeffrey Epstein, após prestar depoimento em um tribunal de Nova York — Foto: Jefferson Siegel/The New York Times
A
denúncia não avançou, e pessoas próximas a Epstein diziam que Farmer era apenas
uma mentirosa em busca de fama. Após a divulgação do documento, se disse
"vingada".
— Esperei 30 anos. Não
consigo acreditar. Não podem mais me chamar de mentirosa — disse ao New York
Times, sem economizar críticas ao FBI, a polícia federal americana. —Eles
deveriam ter vergonha. Eles prejudicaram todas essas meninas. Essa parte me
devasta.
Críticas no Congresso
Pouco antes da divulgação, Todd Blanche disse à rede Fox News que
apenas parte dos documentos seriam divulgados nesta sexta-feira. Segundo ele, é
necessário um tempo adicional para proteger as vítimas citadas e eliminar
informações que possam prejudicar outras investigações em curso. A explicação
não concenceu a oposição democrata no Congresso, que promete medidas legais
para garantir que todos os documentos sejam divulgados.
“Simplesmente divulgar uma
montanha de páginas censuradas viola o espírito da transparência e a letra da
lei”, disse o líder da minoria no Senado, Chuck Schumer, em comunicado. “Por
exemplo, todas as 119 páginas de um documento foram completamente censuradas.
Precisamos de respostas sobre o porquê.”
Em carta ao Congresso,
Blanche descreveu o processo para suprimir alguns dos detalhes dos documentos,
e indicou que 1,2 mil nomes de vítimas e pessoas relacionadas (família, amigos
etc) foram suprimidos pelo Departamento de Justiça. A revisão, segundo ele,
deve levar mais duas semanas.
Juízes e advogados ligados ao
processo alertam que ninguém deve esperar grandes novidades. A Casa Branca, por
sua vez, disse que a divulgação era uma prova da transparência do governo.
"Ao divulgar milhares de
páginas de documentos, cooperar com a intimação solicitada pelo Comitê de
Supervisão da Câmara e com o recente pedido do presidente Trump por novas
investigações sobre os amigos democratas de Epstein, o governo Trump fez mais
pelas vítimas do que os democratas jamais fizeram”, declarou Abigail Jackson,
porta-voz da Casa Branca, em comunicado.
Apesar de Jeffrey Epstein ter morrido há mais de
seis anos, enquanto aguardava julgamento em uma cela em Nova York, o financista
se tornou uma das maiores pedras no sapato do segundo mandato de Donald Trump…e
em boa parte por culpa do republicano.
Ao longo de décadas, Epstein circulou nos mais
altos círculos do poder político e econômico dos EUA, e era o anfitrião de
festas conhecidas em suas propriedades nos EUA e Caribe. Mas além da
proximidade com a elite americana, o financista mantinha uma rede de tráfico
humano e abuso de menores de idade. As denúncias foram abafadas de maneira
recorrente, e também envolviam Ghislaine Maxwell.
O processo contra Epstein também está na raiz de
vários movimentos conspiratórios nos EUA, que acreditam na existência de uma
suposta lista de clientes do milionário, que teria os nomes de alguns de seus
rivais do Partido Democrata, como Clinton e o ex-presidente Barack Obama,
além de empresários e políticos estrangeiros. Entre os documentos divulgados
nesta sexta-feira está um livro de telefones com os nomes de figuras conhecidas
e influentes do noticiário, mas que condizem com a extensa rede de contatos ao
longo de décadas, e que não foi considerado pelos investigadores como uma
evidência de que seriam "clientes" de sua rede de absusos.
A história foi replicada por Trump em sua campanha
recente à Casa Branca, no ano passado, e ele prometeu divulgar a tal lista se
fosse eleito. De volta à Presidência, ele dobrou a aposta, e a secretária de
Justiça, Pam Bondi, chegou a dizer que o documento estava sobre sua mesa,
prestes a ser divulgado. Meses depois, Bondi e o diretor do FBI, Kash Patel,
reconheceram que a lista não existia.
A explicação não foi suficiente para boa parte da
base trumpista, que também apostou nas teses conspiratórias. Deputados e
senadores republicanos exigiram a liberação de todos os documentos do caso, e
ameaçaram algumas votações importantes. Os democratas aproveitaram e se
juntaram ao coro, na esperança de colher dividendos eleitorais no ano que vem,
quando a Câmara e parte do Senado serão renovados.
O prazo de 30 dias vencia nesta sexta-feira, e a
capital americana vivia um misto de expectativa e medo, especialmente por parte
dos governistas: funcionários da Casa Branca repetiam a jornalistas acreditar
que não houvesse nada comprovando algum ato criminoso de Trump. À primeira
vista, são poucas as menções ao nome do presidente na nova leva de documentos.
— Não há qualquer tentativa de omitir nada por
causa do nome de Donald Trump, ou de qualquer outra pessoa, o nome de Bill
Clinton, o nome de Reid Hoffman (empresário). Não há qualquer tentativa de
omitir ou deixar de omitir algo por causa disso —disse Blanche à ABC News.
Foto sem data, da coleção pessoal de Jeffrey Epstein, fornecida pelos democratas do Comitê de Supervisão da Câmara em 12 de dezembro de 2025, mostra o presidente dos EUA, Donald Trump (C), posando com um grupo de mulheres usando colares havaianos. — Foto: AFP / COMITÊ DE SUPERVISÃO DA CÂMARA DOS DEMOCRATAS / DIVULGAÇÃO
Democratas
publicam fotos de Epstein com Trump, Clinton e Woody Allen
Trump disse aos jornalistas do Salão
Oval nesta sexta-feira que não tinham visto as fotos e declarou que sua
publicação "não é grande coisa"
Por
AFP
—
Washington, Estados Unidos
13/12/2025 00h14 Atualizado há 4 dias
Os legisladores democratas publicaram, nesta sexta-feira (12), uma nova série de fotos propriedade do criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein, que incluía imagens do ex-presidente Bill Clinton e do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Outras figuras de destaque que aparecem nas fotos são o ex-secretário de Trump Steve Bannon; o ex-secretário do Tesouro de Clinton, Larry Summers; o diretor de cinema Woody Allen e o ex-expríncipe britânico agora conhecido como Andrew Mountbatten-Windsor. Além disso, também aparecem Bill Gates, da Microsoft, e Richard Branson, do Grupo Virgin.
A relação de Epstein com as pessoas que aparecem nas fotos já era conhecida e as imagens, sem datas, não parecem mostrar nenhuma conduta ilegal.
"Imagens inquietantes"
No entanto, os democratas do Comitê de Supervisão da Câmara de Representantes afirmaram que "estas imagens inquietantes plantam ainda mais perguntas sobre Epstein e suas relações com alguns dos homens mais poderosos do mundo".
Trump disse aos jornalistas do Salão Oval nesta sexta-feira que não tinham visto as fotos e declarou que sua publicação "não é grande coisa".
— Todo o mundo conheceu este homem, ele estava por todas as partes em Palm Beach — disse Trump, referindo-se à comunidade da Flórida onde se encontra seu resort Mar-a-Lago.
— Há centenas e centenas de pessoas que têm fotos com ele. Assim, não é grande coisa (...) Não sei nada a respeito — acrescentou Trump.
Mais cedo, a Casa Blanca acusou os democratas de publicar fotos "selecionadas" de propriedade de Epstein "para tentar criar uma narrativa falsa".
— O engajamento democrata contra o presidente Trump foi desmentido repetidamente — disse Abigail Jackson, porta-voz da Casa Blanca.
Entre as fotos publicadas nos próximos dias também há imagens de jogos sexuais e um romance "preservativo Trump", com a imagem de seu rosto e a frase "Sou ENORME".
Trump, Clinton e Epstein
Há três fotos de Trump entre as 19 publicadas nos últimos dias. Em uma delas, aparece junto a seis mulheres que levam o que parecem ser colares tradicionais havaianos ao redor do pescoço. Seus rostos foram pixelados.
Foto sem data, proveniente da coleção pessoal de Jeffrey Epstein e fornecida pelos democratas do Comitê de Supervisão da Câmara em 12 de dezembro de 2025, mostra o presidente dos EUA, Donald Trump (à esquerda), ladeado por Epstein (ao centro), conversando com uma mulher desconhecida. — Foto: AFP / COMITÊ DE SUPERVISÃO DA CÂMARA DOS DEMOCRATAS / DIVULGAÇÃO
Além disso, vemos Trump conversando com uma mulher loira e Epstein no fundo. Na terceira, Trump aparece sentado ao lado de uma mulher loira cujo rostro foi ocultado.
O ex-presidente Clinton aparece numa foto com Epstein e Ghislaine Maxwell, a cúmplice que cumpriu uma condenação de 20 anos de prisão por tráfico sexual de menores e outros delitos. Também há outras pessoas não identificadas.
Foto sem data, da coleção pessoal de Jeffrey Epstein, fornecida pelos democratas do Comitê de Supervisão da Câmara em 12 de dezembro de 2025, mostra o ex-presidente Bill Clinton (C) posando com Epstein (D) e Ghislaine Maxwell (D). — Foto: AFP / COMITÊ DE SUPERVISÃO DA CÂMARA DOS DEMOCRATAS / DIVULGAÇÃO
Epstein, um investidor de sucesso, era amigo de pessoas ricas e poderosas, a quem convidava com frequência para sua luxuosa casa no Caribe.
Em 2008, ele foi condenado por crimes sexuais, incluindo solicitação de prostituição para um menor.
Cumpriu cerca de um ano de prisão em condições incomumente brandas. Depois, evitou acusações mais graves até 2019, quando foi detido e acusado de tráfico sexual de menores
Ele morreu sob custódia em prisão preventiva em Nova York no mesmo ano. Sua morte foi declarada como suicídio.
O Congresso ordenou ao Departamento de Justiça que publique, antes de 19 de dezembro, seus arquivos sobre a extensa investigação de Epstein.
Trump, seus filhos Eric e Ivanka, e Epstein em 1993, participando da inauguração do Harley-Davidson Cafe em Manhattan — Foto: Dafydd Jones
Festas, modelos
e silêncio: Como a obsessão por poder, dinheiro e mulheres aproximou Trump e
Epstein
Presidente tentou minimizar amizade,
mas documentos e entrevistas revelam relação intensa e complicada. Perseguir
mulheres era um jogo de ego e domínio, e corpos femininos eram moeda de troca
Por
Julie Tate
e
Nicholas Confessore
, Em The New
York Times — Nova York
19/12/2025 00h01 Atualizado há 4 dias
O financista Jeffrey Epstein tinha talento para fazer amigos poderosos, alguns dos quais passaram a ser citadas nas investigações sobre seus crimes. Durante meses, o presidente dos EUA, Donald Trump, trabalhou furiosamente para se livrar da acusação de que eles teriam sido próximos, descartando as perguntas sobre sua relação com Epstein como uma “farsa democrata” e implorando a seus apoiadores que ignorassem completamente o assunto. Uma análise da história deles feita pelo New York Times não encontrou nenhuma evidência que implicasse Trump no abuso e tráfico de menores por Epstein. Mas a relação entre os dois homens era muito mais próxima e complexa do que o republicano admite agora. A partir do final da década de 1980, eles criaram um vínculo tão intenso que deixava os que os conheciam com a impressão de que eram os melhores amigos um do outro, de acordo com o jornal.
Para esclarecer a amizade entre os dois, o New York Times entrevistou mais de 30 ex-funcionários de Epstein, vítimas de seus abusos e outras pessoas que cruzaram o caminho dos dois homens ao longo dos anos. O jornal também obteve novos documentos que esclarecem o relacionamento entre eles e vasculhou documentos judiciais e outros registros públicos.
Quando se conheceram, Epstein era então um financista pouco conhecido que cultivava o mistério em torno do alcance e da origem de sua fortuna conquistada com seu próprio esforço. Trump, seis anos mais velho, era um herdeiro do setor imobiliário que adorava publicidade e exagerava seus sucessos. Nenhum dos dois bebia ou usava drogas. Eles perseguiam mulheres em um jogo de ego e domínio. Os corpos femininos eram moeda de troca.
Por quase um quarto de século, Trump e seus representantes ofereceram relatos variados e muitas vezes contraditórios sobre sua relação com Epstein, que era esporadicamente capturada por fotógrafos de sociedade e em clipes de notícias antes de se desentenderem em meados dos anos 2000. Analisada de perto desde que Epstein morreu em uma cela de prisão em Manhattan durante o primeiro mandato de Trump, a amizade deles — e as perguntas sobre o que o presidente sabia dos abusos de Epstein — agora ameaça consumir seu segundo mandato.
A controvérsia abalou o controle férreo de Trump sobre sua base como nenhuma outra. Apoiadores leais exigiram saber por que o governo não agiu mais rapidamente para descobrir os segredos restantes do criminoso sexual condenado. Em novembro, após resistir a meses de pressão para divulgar mais documentos relacionados a Epstein mantidos pelo governo federal — e enfrentar uma revolta quase inédita entre os legisladores republicanos — Trump mudou de ideia, assinando uma lei que exige a divulgação desses documentos a partir desta semana.
Ao longo de quase duas décadas, enquanto Trump conquistava os circuitos festivos de Nova York e da Flórida, Epstein era talvez seu companheiro mais confiável. Durante os anos 90 e início dos anos 2000, eles frequentavam a mansão de Epstein em Manhattan e o Plaza Hotel de Trump, pelo menos um dos cassinos de Trump em Atlantic City e as casas de ambos em Palm Beach. Eles visitavam os escritórios um do outro e conversavam frequentemente por telefone, de acordo com outros ex-funcionários de Epstein e mulheres que passavam tempo em suas casas.
Com outros homens, Epstein poderia discutir abrigos fiscais, assuntos internacionais ou neurociência. Com Trump, ele falava sobre sexo.
— Acho que era apenas caça ao troféu — disse Stacey Williams, que ganhou fama como estrela das edições de maiô da Sports Illustrated durante os anos 90, em entrevista ao New York Times.
Em publicações nas redes sociais e entrevistas com veículos de comunicação nos últimos anos, Williams descreveu como Trump a apalpou em 1993 na Trump Tower enquanto Epstein — com quem ela namorava na época — assistia.
— Acho que Jeffrey gostava de ter essa modelo da Sports Illustrated que tinha esse nome e que Trump estava me perseguindo — disse ela.
Trump negou essa versão.
Muitas das fontes ouvidas pela reportagem pediram para compartilhar suas histórias anonimamente, temendo por sua segurança nas mãos dos apoiadores de Trump, um presidente que empregou o poder do governo federal para perseguir e punir seus oponentes políticos. Algumas vítimas de Epstein já receberam ameaças de morte por exigirem um relato completo das investigações, segundo com uma declaração divulgada por mais de duas dezenas delas no mês passado.
Ao longo dos anos, Epstein ou sua parceira, Ghislaine Maxwell, apresentaram pelo menos seis mulheres que os acusaram de aliciamento ou abuso a Trump, de acordo com entrevistas, depoimentos judiciais e outros registros. Uma delas era menor de idade na época. Nenhuma delas acusou o próprio Trump de comportamento inadequado.
Uma das mulheres, que nunca havia falado publicamente sobre a experiência, disse ao New York Times que Epstein a coagiu a participar de quatro festas na casa dele. Trump participou de todas as quatro, disse ela. Em duas delas, Epstein a instruiu a fazer sexo com outros convidados homens.
Em um e-mail divulgado pelo Congresso em novembro, Epstein se gabou de ter “dado” a Trump uma mulher de 20 anos com quem Epstein namorou na década de 1990. Durante um voo juntos no início da década de 1990, Trump deu em cima de outra funcionária de Epstein que viajava com eles, dizendo que poderia ter quem quisesse, de acordo com outra colaboradora do financista que soube do incidente. E outro funcionário de Epstein daquela época lembrou que Trump ocasionalmente enviava cartões de modelos para Epstein examinar, como se fossem um cardápio.
Epstein, que afirmava precisar de três orgasmos por dia, explorou ou abusou de centenas de mulheres e meninas antes de morrer no que foi considerado um suicídio. Trump não é acusado de abusar sexualmente de menores. Mas, ao longo de sua amizade com Epstein e além, ele deixou um rastro de supostos abusos e agressões, muitos dos quais começaram a vir à tona publicamente durante sua bem-sucedida campanha presidencial de 2016.
Quase 20 mulheres acusaram publicamente Trump de apalpá-las, beijá-las à força ou agredi-las sexualmente — comportamento que ele uma vez se gabou de poder fazer impunemente por causa de sua celebridade, mas que mais tarde negou ter praticado. Em 2023, a escritora E. Jean Carroll ganhou um julgamento civil de US$ 5 milhões contra Trump por abuso sexual e difamação.
Uma cópia do livro “Trump: The Art of the Comeback” [Trump: A arte de dar a volta por cima), autografada pelo futuro presidente para Epstein em 1997 — Foto: Alessandra Montalto/New York Times
Em resposta a uma lista detalhada de perguntas do New York Times, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, emitiu a seguinte declaração:
“Esta notícia falsa, que não vale o papel em que está impressa, é apenas mais uma repetição obsoleta de alegações falsas de décadas atrás contra o presidente Trump. A verdade permanecerá a mesma, não importa quantas vezes o New York Times tente mudá-la. O presidente Trump não fez nada de errado e expulsou Jeffrey Epstein de Mar-a-Lago por ser um cretino.”
Não está claro quais novas informações poderão surgir sob a nova lei aprovada pelo Congresso. A lei permite que o governo Trump retenha registros que identifiquem vítimas, incluindo imagens de abuso sexual infantil ou documentos que sejam de outra forma confidenciais. Seus nomeados também podem reter registros que possam comprometer uma investigação federal em andamento — como uma nova investigação ordenada por Trump sobre democratas associados a Epstein. Em uma declaração no final de novembro, um grupo de acusadores de Epstein escreveu: “Além de ocultar os nomes das vítimas, queremos que todos os arquivos sejam divulgados”.
Trump negou ter conhecimento do abuso de meninas menores de idade por Epstein. Mas em uma série de e-mails divulgados em novembro, Epstein sugeriu o contrário. Em uma mensagem de 2019 ao jornalista Michael Wolff, ele escreveu sobre Trump: “é claro que ele sabia sobre as meninas, pois pediu a Ghislaine para parar”. O contexto completo da observação de Epstein não está claro.
Em um depoimento de 2010, perguntaram a Epstein se ele já havia se socializado com Trump com meninas menores de 18 anos. Como fez mais de três dezenas de vezes durante o depoimento, Epstein invocou seu direito constitucional de não responder.
— Embora eu gostasse de responder a essa pergunta, pelo menos hoje, vou ter que invocar meus direitos da Quinta, Sexta e Décima Quarta Emendas, senhor — respondeu ele.
Conversas sobre sexo e horário de expediente
Às vezes, o telefone tocava no escritório de Trump na Trump Tower. O interlocutor — “o misterioso Jeffrey”, como Trump o descreveu em um livro de conselhos de negócios de 2004 — nunca dizia seu sobrenome, nem precisava, escreveu o magnata republicano. Algumas vezes por semana, o telefone tocava no escritório de Epstein no Villard Houses, na Madison Avenue. Trump estava na linha. Em uma ocasião, lembrou uma assistente de Epstein de meados da década de 1990, Trump se recusou a dar qualquer nome.
A porta-voz da Casa Branca se recusou a dizer se o livro de Trump se referia a um Jeffrey diferente. Mas os dois conversavam pelo menos três vezes por semana durante meados da década de 1990, de acordo com uma segunda assistente de Epstein daquele período.
A primeira assistente, que frequentemente trabalhava até tarde, lembrou que, às vezes, quando o escritório esvaziava, Epstein verificava se ela estava em sua mesa e colocava Trump no viva-voz. O atual presidente, disse ela, parecia gostar de entreter Epstein com histórias de suas aventuras sexuais. E Epstein parecia se divertir com o quanto isso a deixava desconfortável ao ouvir.
Ela se lembrou de uma ligação em meados da década de 1990 em que os dois homens discutiram a quantidade de pelos pubianos que uma determinada mulher tinha e se havia o suficiente para Epstein usar como fio dental. Em outra ligação, Trump contou a Epstein sobre ter feito sexo com outra mulher em uma mesa de sinuca, disse a ex-assistente.
Uma mulher conhecida nos registros do tribunal como Jane Doe, que Epstein traficou em meados da década de 1990, desde o início de sua adolescência, testemunhou no julgamento criminal de Maxwell em 2021 que Epstein costumava colocar amigos famosos no viva-voz na frente de outras pessoas.
As ligações com Trump continuaram nos últimos anos da amizade dos dois, de acordo com um terceiro ex-funcionário, que trabalhou para Epstein intermitentemente durante a maior parte dos anos 2000 e também se lembrou de ele colocar Trump no viva-voz. Eles conversavam sobre concursos de beleza ou desfiles de moda ou sobre as mulheres de quais países estavam em voga no mundo da moda. Às vezes, disse o funcionário, Trump falava por tanto tempo que Epstein — cuja capacidade de concentração era notoriamente curta — saía da sala enquanto seu amigo ainda estava falando.
Maria Farmer, uma artista que disse ter sido abusada sexualmente por Maxwell e Epstein em meados da década de 1990, disse ao New York Times em 2019 que Epstein uma vez a chamou para se encontrar com Trump no escritório da Villard Houses. Trump a olhou com malícia, disse ela, antes que Epstein o informasse que “ela não é para você”.
Neste verão, um porta-voz de Trump negou que o presidente tivesse alguma vez entrado no escritório de Epstein. A primeira ex-assistente, porém, lembrou-se de o Sr. Trump se ter encontrado lá brevemente com Epstein pelo menos várias vezes em meados da década de 1990. O seu relato foi corroborado por Mark Epstein, irmão do financista, que confessou que ele lhe tinha contado que Trump o visitava frequentemente.
— Ele estava no escritório o tempo todo naquela época — disse Mark Epstein em entrevista ao New York Times.
Anotações diárias manuscritas feitas pela primeira ex-assistente e analisadas pelo jornal sugerem que Trump era uma presença regular na vida de Epstein. As anotações, que abrangem vários meses no final de 1994, não foram divulgadas anteriormente.
Algumas páginas contêm instruções para ligar para Trump ou retornar sua ligação. Uma nota lembrava ao assistente para ligar para o escritório de Trump para saber se ele “voaria para a Flórida amanhã”. Outra registrava que um pacote chegaria com um convite para um evento em Mar-a-Lago.
Em uma página, há instruções sobre convites para uma festa que aconteceria em breve. Trump seria convidado, mas somente se sua ex-esposa Ivana, com quem Maxwell era amiga, recusasse.
A relação entre eles era repleta de inveja e desdém. Epstein parecia ter uma opinião negativa sobre a perspicácia empresarial do amigo, de acordo com ex-funcionários e outras pessoas que o conheciam. Em uma ocasião por volta de 2001, disse o terceiro ex-funcionário, Epstein ficou irritado depois que Trump ligou para ele. Mais tarde, ele disse ao funcionário que Trump estava sem dinheiro e queria uma carona no avião de Epstein.
Durante os primeiros anos de sua amizade, Trump estava correndo para um acerto de contas sobre os bilhões de dólares que havia emprestado para montar seu império em dificuldades, incluindo cassinos, hotéis, uma companhia aérea e um iate. De acordo com ex-funcionários de Epstein, Trump parecia atraído pela riqueza e pela rede de negócios do financista.
Não está claro se Epstein — que aparentemente se especializou em oferecer planejamento tributário e patrimonial para clientes ricos — ajudou Trump a lidar com seus problemas financeiros. Mas em seu livro de memórias de 2020 sobre a representação das vítimas de Epstein, “Relentless Pursuit” (Perseguição implacável), o advogado da Flórida Bradley J. Edwards escreveu que o Sr. Epstein havia afirmado a algumas jovens que havia tirado seu amigo da falência.
Mesmo rejeitando os negócios de Trump, Epstein — que podia ser socialmente desajeitado nas festas de outras pessoas — parecia admirar a confiança ousada do amigo e seu acesso aos círculos mais elevados da vida noturna e das celebridades. Ele frequentemente mencionava sua amizade com o Sr. Trump, de acordo com várias acusadoras, dizendo a uma delas que tinha um quarto reservado em Mar-a-Lago. Mesmo depois de se desentenderem, Epstein manteve uma foto emoldurada de si mesmo com Trump e sua futura terceira esposa, Melania, em uma cristaleira na sala de jantar de sua casa no Upper East Side.
O circuito das festas
Alguns anos após o início da amizade de Trump com Epstein, Ivana Trump pediu o divórcio. O caso de Trump com Marla Maples, uma ex-participante de concursos de beleza, estava passando por altos e baixos. Em 1992, ele convidou a NBC para ir a Mar-a-Lago gravar um vídeo para um programa sobre sua vida após o divórcio no talk show “A Closer Look”.
“Eu adoro mulheres bonitas, adoro sair com mulheres bonitas e adoro mulheres em geral”, disse ele na filmagem.
As câmeras capturaram ele e Epstein na propriedade de Palm Beach, cercados por cheerleaders do Miami Dolphins e do Buffalo Bills. No vídeo, Trump agarra uma mulher sorridente por trás e dá um tapinha em suas nádegas; em outro clipe, ele parece apontar para mulheres na pista de dança, e Epstein se dobra de tanto rir de algo que seu amigo sussurrou.
Trump e Epstein apareceram em Mar-a-Lago, na Flórida, durante uma reportagem da NBC em 1992 — Foto: Reprodução/Youtube
Em janeiro de 1993, Trump organizou outra festa em
Mar-a-Lago, desta vez para lançar um concurso de beleza que estava levando para
Atlantic City com dois parceiros de negócios, George Houraney e Jill Harth.
Cerca de duas dúzias de candidatas em potencial foram levadas de avião para se
encontrar com Trump. O único outro convidado da festa, disse Houraney ao New
York Times em 2019, era Epstein.
Durante o jantar daquela noite, alegou Harth em um
processo judicial de 1997, Trump a apalpou debaixo da mesa, depois a encurralou
em um quarto normalmente usado por sua filha Ivanka e “a beijou à força,
acariciou e impediu” que ela saísse.
Mais tarde, nas primeiras horas da madrugada, ela
alegou no processo que Trump também entrou furtivamente em um quarto usado por
uma concorrente de 22 anos. Subindo em sua cama sem ser convidado, ele também a
apalpou, de acordo com o processo.
Trump negou as alegações de Harth, que se recusou a
comentar. A parceria no concurso de beleza acabou fracassando, levando Houraney
a processar Trump separadamente em 1995 por quebra de contrato. Harth disse que
retirou sua ação judicial por assédio como condição para resolver a disputa
contratual. Ela passou a namorar brevemente Trump.
De acordo com financista, ele e Trump também
festejaram na casa dele. Em uma troca de e-mails em 2015 com Landon Thomas Jr.,
então repórter do New York Times, ele contou um momento em que o Trump estava
tão concentrado nas jovens que nadavam em sua piscina que esbarrou em uma porta
de vidro. Epstein também se referiu à concorrente de 22 anos daquela noite em
1993, indicando que ela tinha fotos de “Donald e garotas de biquíni na minha
cozinha” e fornecendo o endereço de e-mail dela.
Os e-mails, entre aqueles divulgados pelo Congresso
no mês passado, surgiram quando Trump liderava as pesquisas para a indicação
presidencial republicana. Thomas, que já havia apresentado a Epstein um perfil
simpático, disse que estava sendo abordado por pessoas que achavam que ele
tinha “informações interessantes sobre você e Trump”.
Antes da reunião privada, ela também foi abordada
por Epstein.
“Sou Jeffrey. Sou o melhor amigo do Don”, ela
lembrou ele ter dito. Ela ficou confusa no início, disse a Sra. Keul, porque
ele não parecia ter nenhuma ligação com o concurso. Ela não entendia por que
ele tinha sido autorizado a participar do almoço com a imprensa. “Ele disse: ‘O
Don gosta muito de você’ e que eles estavam organizando festas em Mar-a-Lago e
que adorariam que eu participasse”, disse a Keul. Ele cuidaria dela, de seus
voos, de seu hotel. “Você só precisa fazer as malas e vir para a festa em Mar-a-Lago”,
ela se lembra dele dizendo.
Quando Keul hesitou, Epstein tentou outras táticas
— falando sobre a fortuna que mantinha em bancos suíços e, em seguida, sobre
amigos famosos com quem ele poderia marcar encontros.
— Epstein sabia exatamente o que estava fazendo —
disse ela. — Ele tinha um método de caça. Era uma rotina.
A primeira das ex-assistentes de Epstein
entrevistadas pelo New York Times disse que, em dezenas de ocasiões em meados
da década de 1990, o financista a instruiu a ligar para uma vencedora de um
concurso de beleza em algum lugar do mundo e convidá-la para visitá-lo na
Flórida. Sua oferta permanente, disse a assistente, era uma viagem com todas as
despesas pagas e US$ 5 mil em dinheiro para fazer compras na Worth Avenue, o
famoso destino de compras de Palm Beach.
Em dezembro de 1993, pouco depois do concurso,
Trump se casou com Maples no Plaza. Fotos mostram Epstein presente. Mas as
festas continuaram.
'Vista-se de forma sexy'
No início dos anos 2000, os convidados se reuniam
na biblioteca ou na sala de jantar da mansão do Sr. Epstein no Upper East Side,
enquanto o anfitrião recebia a todos. As mulheres eram lindas e numerosas. Os
homens eram mais velhos e poucos. Ocasionalmente, uma das mulheres se dirigia
aos quartos. Um dos homens logo a seguia.
Uma mulher, então modelo e estudante universitária de 20 e poucos anos que morava em Manhattan, disse que participou de quatro festas na mansão. Ela não consegue se lembrar dos nomes da maioria dos homens que conheceu nas reuniões, nem mesmo daqueles que Epstein a instruiu a “cuidar” em duas delas. Recrutada por Maxwell e depois abusada por Epstein, ela enterrou sua vergonha e guardou seus segredos por anos. Mas a presença de Trump se destacava, disse ela ao New York Times. Ele era um nome conhecido, alguém de quem Epstein costumava se gabar para as mulheres ao seu redor, mas com quem também parecia competir.
— Era como uma competição para ver quem tinha mais mulheres — lembrou ela. Ela pediu anonimato para descrever suas experiências em detalhes, dizendo que temia pela segurança de sua família depois que Trump disse que alguns de seus críticos poderiam ser executados por sedição.
Para as pessoas do ramo da moda, homens como Trump e Epstein eram uma parte familiar do cenário: homens ricos que usavam seu dinheiro, influência e conexões pessoais na moda para conhecer as jovens que trabalhavam na indústria.
— Dois dias por semana, você estava em um jantar de modelos em um restaurante — disse Heather Braden, modelo e cineasta. — E havia esses homens que não conhecíamos.
Braden, que agora mora em Utah, disse que frequentemente via Trump e Epstein nas mesmas festas ou jantares durante os anos 1990 em Nova York e no sul da Flórida, incluindo em Mar-a-Lago, que Trump transformou em um clube para membros em 1995.
Trump e Epstein em uma festa da Victoria's Secret em Nova York, em 1997 — Foto: Reprodução
Cada um deles cultivou relacionamentos que, por sua vez, os colocaram em proximidade com jovens mulheres do setor. Epstein explorou sua relação próxima com Les Wexner, proprietário da Victoria's Secret, às vezes dizendo às mulheres que poderia conseguir reuniões ou agendamentos para elas. Fotógrafos e equipes de filmagem capturaram Epstein e Trump juntos em eventos da Victoria's Secret em 1997 e 1999.
Trump fez amizade com o fundador da Hawaiian Tropic, Ron Rice, que disse ao The Boston Globe que enviaria modelos e participantes de concursos de beleza para festas em Mar-a-Lago a pedido de Trump, e com John Casablancas, fundador da Elite Model Management, cujo concurso Look of the Year Trump patrocinou e ajudou a julgar no início dos anos 1990.
Para as reuniões em Mar-a-Lago, grupos de modelos às vezes eram trazidos de ônibus de Miami, muitas vezes com a ajuda do amigo de Trump, Jason Binn, cofundador da revista social Ocean Drive. Binn não retornou as ligações e e-mails solicitando comentários.
Tina Davis, que foi modelo da Ford em meados da década de 1990, disse em uma entrevista que seu agente da Ford a instruiu a se vestir bem e participar de uma festa em Mar-a-Lago no final de 1994. Com apenas 14 anos e recém-chegada a Miami, ela foi instruída a “se vestir de forma sexy”, de acordo com sua mãe, Sandra Coleman, que a acompanhou à Flórida. Oito ou nove outras modelos foram junto no ônibus. “Todas as meninas eram muito jovens”, lembrou Coleman em uma entrevista. “Algumas delas poderiam estar usando sutiãs de treinamento.”
Quando chegaram a Mar-a-Lago, disse Coleman, sua filha recebeu imediatamente uma taça de champanhe. Ela recusou, mas os garçons continuaram oferecendo mais. Cada vez que um dos homens de meia-idade na festa se aproximava de sua filha, Coleman se aproximava e se apresentava como mãe da Sra. Davis.
Durante uma ida ao banheiro, elas encontraram a nova esposa de Trump, que haviam conhecido anteriormente. Maples segurou suas mãos, lembrou Coleman, e olhou nos seus olhos. “Faça o que fizer, não a deixe perto de nenhum desses homens, especialmente do meu marido”, disse ela a Coleman. “Proteja-a.”
Maples negou ter feito o comentário.
— Eu sempre protegeria as jovens de todas as formas que pudesse, mas tenho certeza de que não disse isso especificamente sobre o pai da minha filha — pontuou.
Epstein era um convidado frequente nas festas do Mar-a-Lago. Uma mulher que disse que ele a traficou no final dos anos 1990 e início dos anos 2000 lembrou-se de ter participado de pelo menos meia dúzia dessas festas, começando quando tinha 17 anos e trabalhava como modelo durante a temporada de moda de inverno na Flórida. Epstein também apareceu em várias delas. Ele sempre parecia saber sobre os eventos que aconteciam em Mar-a-Lago, disse ela, mesmo quando não participava, e sempre demonstrava curiosidade sobre suas experiências.
Convites para festas em Mar-a-Lago, residência de Donald Trump na Flórida, circularam nos anos 1990 entre jovens modelos por meio de intermediários ligados à revista Ocean Drive e ao empresário George Binn. Segundo uma mulher ouvida pelo New York Times, os eventos tinham open bar, não havia checagem de idade e Trump estaria “sempre em cima” das convidadas. Ela forneceu ao jornal uma foto sua, ao lado de uma amiga, com Trump em Mar-a-Lago, mas disse não se lembrar se ainda tinha 17 anos na época. A mulher nunca havia falado publicamente sobre o episódio e pediu anonimato por temer retaliações do ex-presidente ou de seus apoiadores.
Naquele período, Trump e Jeffrey Epstein também mantinham relações com a agência de modelos Next, então em ascensão, e com sua cofundadora, Faith Kates. Ex-modelos e ex-funcionários relataram a presença frequente de Epstein em reuniões e eventos ligados à agência, inclusive após sua prisão na Flórida por solicitação de menores. Trump, por sua vez, comparecia a festas da Next em Nova York, e a agência por vezes enviava modelos para eventos em Mar-a-Lago. A modelo neozelandesa Zoë Brock afirmou que foi pressionada a ir a uma dessas festas em 1998 e que, ao chegar, ela e outras mulheres receberam pulseiras listradas, enquanto os convidados homens — em sua maioria de smoking — não usavam identificação. Segundo Brock, as modelos foram alinhadas para conhecer Trump, e ela passou mal após beber uma taça de champanhe, suspeitando que a bebida tivesse sido adulterada.
Outras modelos relataram encontros nos quais Epstein e Trump disputavam atenção. Maria Farmer Williams contou que conheceu Epstein em um jantar em 1992 e reencontrou-o meses depois em uma festa organizada por Trump no Plaza Hotel, onde o então magnata também teria tentado se aproximar dela. No ano seguinte, durante uma visita a Trump Tower acompanhada de Epstein, Williams afirmou ter sido apalpada por Trump na sala de espera, enquanto Epstein fingia não perceber. Mais tarde, segundo ela, Epstein a repreendeu violentamente, o que a levou a crer que a situação fazia parte de um jogo de humilhação. Um representante de Trump já classificou essas acusações como “inequivocamente falsas”.
Faith Kates deixou a Next em novembro, após a divulgação de e-mails pelo Congresso indicando que ela e Epstein mantiveram proximidade por anos depois do acordo judicial de 2008. A agência afirmou, em nota, que nunca teve relação comercial com Epstein ou Trump, e Kates negou qualquer intenção imprópria ao levar clientes a festas ou jantares. Ainda assim, relatos apontam que a rede de contatos entre empresários poderosos e jovens modelos criava ambientes de vulnerabilidade, nos quais a promessa de ascensão profissional era usada como moeda de troca.
Uma outra mulher, que disse ter participado de quatro festas na mansão de Epstein no início dos anos 2000, relatou ter conhecido Ghislaine Maxwell na Semana de Moda de Nova York, em 2000. Maxwell teria se apresentado como mentora e prometido ajuda para alcançar contratos importantes, como a Victoria’s Secret. Segundo o relato, abusos ocorreram já nos primeiros encontros, e Epstein a teria coagido a continuar frequentando as festas ao afirmar que havia câmeras gravando tudo. Ela afirmou ter encontrado Trump em uma dessas ocasiões, sem comportamento inadequado, e mostrou ao New York Times um caderno de endereços da época com o nome e telefones do empresário. A mulher foi ouvida pelo FBI em 2020, recebeu indenizações de fundos ligados às vítimas de Epstein e disse esperar que documentos oficiais sobre seu depoimento sejam tornados públicos.
Uma das mulheres citadas nos relatos sobre o círculo de Jeffrey Epstein entrou posteriormente com pedido para integrar uma ação judicial na Flórida movida por mais de 30 mulheres — em sua maioria sob pseudônimos — que acusam o FBI de ter falhado em investigar adequadamente denúncias de crimes sexuais e tráfico de menores atribuídos a Epstein desde 1996. Advogados do governo pediram o arquivamento do processo. Segundo Jennifer Plotkin, advogada das autoras, as autoridades federais tinham conhecimento dos abusos cometidos por Epstein contra meninas e mulheres jovens e, ao não agirem, permitiram que centenas de vítimas fossem exploradas ao longo de duas décadas.
Ghislaine Maxwell, apontada como principal cúmplice de Epstein, cumpre pena federal de 20 anos por conspirar no tráfico sexual de menores. Em julho do ano passado, o então vice-procurador-geral dos EUA, Todd Blanche, foi à Flórida para entrevistá-la. Maxwell reconheceu que Epstein e Donald Trump mantinham uma relação social, mas afirmou nunca ter presenciado comportamento impróprio do ex-presidente. Uma semana depois da entrevista, ela foi transferida para um presídio de segurança mínima. Seus advogados agora tentam anular a condenação.
Um manifestante no Capitólio no mês passado exigindo a divulgação dos documentos de Epstein — Foto: Tierney L. Cross/New York Times
No início dos anos 2000, Epstein — já extremamente rico e bem relacionado — passou a buscar maior visibilidade pública. Em 2002, organizou uma viagem humanitária à África com o ex-presidente Bill Clinton e celebridades, cujos detalhes logo vazaram para a imprensa. Pouco depois, a revista New York publicou o primeiro grande perfil sobre ele, trazendo como principal citação uma frase de Trump: “Ele é muito divertido de se estar junto. Dizem até que gosta de mulheres bonitas tanto quanto eu, e muitas delas são bem jovens”. Com o avanço das denúncias, porém, versões dadas por Trump e por seus representantes sobre a relação entre os dois começaram a mudar, atribuindo o rompimento a supostos comportamentos inadequados de Epstein em Mar-a-Lago, embora datas e motivos nunca tenham ficado claros.
Documentos, depoimentos e registros públicos indicam que Trump teve contato social, em diferentes momentos, com mulheres que posteriormente acusaram Epstein e Maxwell de abuso ou aliciamento. Um dos casos citados em processos judiciais envolve uma vítima identificada como Jane Doe, que afirmou ter sido levada por Epstein a Mar-a-Lago em 1994, quando tinha cerca de 14 anos. Segundo a ação, Epstein teria apresentado a menina a Trump com um comentário sugestivo, recebido com risos. O processo terminou em acordo com o espólio de Epstein. Em depoimento posterior, a mesma mulher disse ter participado de concursos ligados ao universo de Trump.
Ao longo dos anos 2010, à medida que Trump avançava na política, seus assessores passaram a negar de forma cada vez mais enfática qualquer vínculo com Epstein, descrevendo-o como apenas mais um frequentador de Mar-a-Lago. Relatos de ex-aliados, porém, contradizem essa versão, incluindo o de Jack O’Donnell, ex-executivo de um cassino de Trump, que afirmou ter visto os dois juntos acompanhados de mulheres muito jovens em 1989. Apesar do afastamento público, e do tom crítico adotado por Epstein em mensagens privadas nos anos seguintes, ele continuou obcecado pelo antigo amigo, chegando a afirmar, em entrevista gravada em 2017, que havia sido o “amigo mais próximo” de Trump por uma década e insinuando, em e-mails, que poderia prejudicá-lo politicamente — sem jamais explicar como.
Estruturas em Little Saint James, uma das ilhas privadas pertencentes a Jeffrey Epstein, nas Ilhas Virgens dos EUA, em 27 de agosto de 2019 — Foto: Gabriella N. Báez/The New York Times
Democratas
divulgam imagens da casa de Epstein em ilha no Caribe onde teriam ocorrido
crimes sexuais; veja
Material faz parte de pressão para que
Departamento de Justiça publique arquivos sobre o caso; fotos mostram cômodos
simples e áreas usadas pelo bilionário
Por
Michael Gold
, Em The New
York Times
03/12/2025 15h25 Atualizado há uma
semana
Os democratas da Câmara dos Representantes divulgaram nesta quarta-feira um conjunto de fotografias e vídeos da residência do bilionário Jeffrey Epstein na ilha particular de Little St. James, no Caribe, onde suas acusadoras afirmam que ele explorava sexualmente meninas menores de idade. O material faz parte do esforço do partido para ampliar a pressão sobre o Departamento de Justiça, que foi recentemente obrigado por lei a tornar públicos os arquivos da investigação sobre o caso.
Epstein era dono de duas ilhas privadas nas Ilhas Virgens dos Estados Unidos, ambas próximas a St. Thomas. Little St. James foi sua principal residência durante quase duas décadas e centro das acusações de que, ali, ele teria abusado de adolescentes. Ele também era acusado de transportar dezenas de meninas entre suas casas em Nova York e Palm Beach, na Flórida.
As dez fotos e quatro vídeos tornados públicos foram feitos em 2020, um ano após a morte de Epstein na prisão, enquanto ele aguardava julgamento por acusações federais de tráfico sexual. As imagens foram entregues à Comissão de Supervisão por autoridades das Ilhas Virgens e selecionadas pelos democratas a partir de um conjunto maior de documentos.
Democratas divulgam imagens da casa de Epstein em ilha no Caribe
8 fotos
Material faz parte de pressão para que Departamento de Justiça publique arquivos sobre o caso; fotos mostram cômodos simples e áreas usadas pelo bilionário condenado por crimes sexuais
Chamando o material de “perturbador”, o deputado Robert Garcia, da Califórnia, líder democrata na comissão, afirmou que a divulgação é parte do compromisso de garantir “transparência pública” e de ajudar a reconstruir a dimensão dos “crimes horríveis” cometidos por Epstein. Ele afirmou ainda que o grupo recebeu registros financeiros do bilionário provenientes do J.P. Morgan e do Deutsche Bank, que devem ser divulgados nos próximos dias.
As imagens mostram quartos com decoração simples, áreas externas e registros em vídeo que percorrem o interior da casa. Um dos cômodos exibidos parece ter sido transformado em consultório odontológico: as paredes estão cobertas por máscaras de rostos masculinos, e há uma cadeira e equipamentos típicos. A última namorada de Epstein, Karyna Shuliak, era dentista e dividia um consultório em St. Thomas com uma empresa ligada ao bilionário.
Outra foto mostra um espaço usado como biblioteca, com poltronas e um quadro-negro no qual várias palavras foram rabiscadas. Parte delas foi ocultada pelos democratas, mas termos como “verdade”, “música”, “engano” e “poder” aparecem ao lado de anotações como “intelectual” e “político”.
A divulgação ocorre duas semanas após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sancionar uma lei que determina que o Departamento de Justiça publique todos os seus arquivos sobre Epstein no prazo de 30 dias — embora o texto inclua exceções que permitem manter confidenciais documentos ligados a investigações em andamento.
O material agora revelado deriva de uma investigação paralela da Comissão de Supervisão, presidida pelos republicanos, que passou a examinar o caso após os democratas exigirem uma intimação. Em setembro, essa apuração levou à divulgação de um desenho de conotação sexual e de uma anotação que parecia ter a assinatura de Trump, parte de um livro produzido para celebrar os 50 anos de Epstein. O presidente nega ter feito o desenho.
No mês passado, os democratas também divulgaram três trocas de e-mails fornecidas pelo espólio de Epstein que sugeriam que o bilionário acreditava que Trump tinha mais conhecimento sobre seus abusos do que admite publicamente.
Após a morte de Epstein, em 2019, a procuradoria-geral das Ilhas Virgens processou seu espólio, acusando-o de levar meninas de apenas 11 anos para Little St. James e manter um banco de dados para monitorar a disponibilidade e os deslocamentos das vítimas. Em acordo judicial, o espólio concordou em pagar pelo menos US$ 105 milhões ao território e repassar parte do valor arrecadado com a venda das ilhas. Elas foram vendidas em 2023 por US$ 60 milhões a um investidor que planeja construir ali um resort de 25 quartos.
Donald Trump esteve em festas com Jeffrey Epstein — Foto: Reprodução de cena / Netflix
Acusado de abuso de
menores, Epstein afirmou que Trump 'sabia das meninas' em e-mails divulgados
pelo Congresso dos EUA
Em mensagens, Epstein disse que Trump
passou 'várias horas' com uma das vítimas de seu esquema de abuso e tráfico
humano; republicanos liberam mais 20 mil páginas de documentos
Por O Globo e agências internacionais — Washington
12/11/2025 10h57 Atualizado há um mês
Acusado de liderar uma rede de tráfico humano e de abuso de menores, o milionário Jeffrey Epstein sugeriu em e-mails privados que o então empresário e hoje presidente dos EUA, Donald Trump, tinha conhecimento sobre os crimes que eram cometidos em suas propriedades, e afirmou em uma das mensagens que o republicano "sabia das meninas". Epstein morreu na prisão em 2019, enquanto aguardava julgamento em Nova York, mas o caso ainda movimenta a política americana, de uma maneira que Trump parece não ter meios de controlar totalmente. A Casa Branca disse que a divulgação é uma tentativa de difamar o presidente, e seus aliados tentaram "diluir" as revelações com a divulgação de 20 mil páginas de documentos sobre o caso, na maior parte sem grande relevância.
As mensagens foram divulgadas nesta quarta-feira por deputados democratas da Comissão de Supervisão da Câmara, e selecionadas entre milhares de documentos ligados ao caso — segundo eles, as mensagens, trocadas por Epstein com pessoas como Ghislaine Maxwell, sua sócia e condenada a 20 anos de prisão, e o autor Michael Wolff, mostram que a relação entre o milionário e Trump era bem mais complexa do que alega o presidente, que nega qualquer relação com os malfeitos de Epstein.
Em uma das mensagens, de abril 2011, Epstein escreve a Maxwell: “Quero que você perceba que aquele cachorro que não latiu é o Trump”, citando o nome de uma das mulheres apontadas como vítima do esquema e dizendo que ela “passou horas na minha casa com ele [Trump], e ele nunca foi mencionado uma vez sequer”, uma referência às investigações das quais já era alvo. Maxwell responde, pouco depois, que "estava pensando sobre isso".
E-mail enviado por Jeffrey Epstein a Ghislaine Maxwell em 2011 — Foto: Reprodução
Em outro e-mail, de 2015, o autor Michael Wolff escreve a Epstein sobre um debate entre pré-candidatos republicanos à Presidência, promovido pela rede CNN, e diz ter informações de que os mediadores perguntariam a Trump sobre sua relação com o milionário. Epstein então lhe pergunta se seria possível "elaborar uma resposta" a ser usada por Trump.
Imagem de mensagem de aniversário de Donald Trump ao milionário Jeffrey Epstein, morto em 2019 — Foto: Bancada do Partido Democrata na Comissão de Supervisão na Câmara dos EUA/Divulgação
“Acho que você deveria deixá-lo se enforcar sozinho. Se ele disser que não esteve no avião nem foi à casa, isso lhe renderá pontos em relações públicas e moeda política. Você pode enforcá-lo de uma forma que potencialmente lhe traga um benefício, ou, se realmente parecer que ele pode vencer, você pode salvá-lo, gerando uma dívida", escreveu Wolff. "Claro, é possível que, quando questionado, ele diga que Jeffrey é um cara ótimo, que foi injustiçado e que é vítima do politicamente correto, algo que deverá ser proibido em um governo Trump.”
Mensagem enviada por Michael Wolff a Jeffrey Epstein em 2011 — Foto: Reprodução
O tema não foi abordado no debate, e Trump venceu a eleição no ano seguinte.
Em mensagem de 2019, também a Michael Wolff, Epstein mencionou as declarações de Trump de que o teria obrigado a renunciar como membro do clube de Mar-a-Lago, a propriedade do presidente na Flórida. Em entrevista recente, de julho, Trump afirmou que entrou em conflito com Epstein porque, segundo ele, Maxwell "roubou" suas funcionárias — uma delas seria Virginia Giuffre, uma das vítimas do esquema de abuso e tráfico humano e que morreu em abril. Na época, ela tinha 16 anos.
“Trump disse que me pediu para renunciar, nunca fui membro. É claro que ele sabia sobre as meninas, já que pediu para Ghislaine parar”, escreveu Epstein.
Mensagem enviada por Jeffrey Epstein a Michael Wolff — Foto: Reprodução
Em publicação em sua rede social, o Truth Social, Trump declarou que a divulgação dos e-mails foi uma tentativa dos democratas de "desviar a atenção do quão desastrosos foram com a paralisação do governo e tantos outros assuntos", se referindo ao shutdown federal, e que "só um republicano muito ruim, ou estúpido, cairia nessa armadilha"
A Casa Branca, por sua vez, afirmou que “os democratas vazaram seletivamente e-mails para a mídia liberal a fim de criar uma narrativa falsa para difamar o presidente Trump", e que a vítima citada na mensagem de 2011 é Virginia Giuffre.
"[Ela] repetidamente afirmou que o presidente Trump não estava envolvido em nenhuma irregularidade e que ‘foi extremamente amigável’ com ela em suas poucas interações. O fato é que o presidente Trump expulsou Jeffrey Epstein de seu clube décadas atrás por assediar suas funcionárias, incluindo Giuffre", escreveu, em comunicado, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt. "Essas histórias não passam de tentativas de má-fé para desviar a atenção das conquistas históricas do presidente Trump, e qualquer americano com bom senso percebe essa farsa e essa clara manobra para impedir a reabertura do governo.”
No começo da tarde, os republicanos, que controlam a comissão, liberaram cerca de 20 mil páginas de documentos do caso, em uma aparente tentativa de diluir as palavras de Epstein. Em meio a conversas sem contexto, páginas de livros, links de matérias e informações soltas, algumas se destacaram, e sempre em tom negativo sobre Trump. Em 2015, a ex-conselheira da Casa Branca Kathy Ruemmler lhe afirmou, em e-mail, que "Trump é a prova viva do ditado que diz que é melhor ter sorte do que ser inteligente". Em 2018, em troca de e-mails com o ex-secretário do Tesouro e reitor da Universidade Harvard, Lawrence Summers, Epstein disse que o republicano "beirava a insanidade".
Outras mensagens revelaram que Wolff tentou, durante a eleição de 2016, convencer Epstein a se voltar contra o republicano. Em março, pouco antes do lançamento de um livro que expunha todo o esquema de abusos e tráfico humano, o autor disse que Epstein precisava se antecipar aos estragos que a publicação lhe causaria. E Trump, na época sem o poder que acumula hoje, era o alvo perfeito.
"Você precisa de uma narrativa contrária imediata ao livro. Acredito que Trump oferece uma oportunidade ideal. É uma chance de fazer com que a história gire em torno de algo diferente de você, ao mesmo tempo em que permite que você construa a sua própria narrativa. Além disso, tornar-se uma voz anti-Trump lhe dá uma certa proteção política, que você definitivamente não tem agora”, escreveu Wolff.
Meses depois, em setembro, sugeriu que Epstein concedesse uma entrevista que poderia lhe render "muita simpatia e ajudar a acabar com ele (Trump)". Epstein não concordou.
E-mail enviado por Michael Wolff a Jeffrey Epstein em 2016 — Foto: Reprodução
Amizade controversa
Membro do jet-set global do final do século passado e início dos anos 2000, Jeffrey Epstein tinha amizades nos mais elevados escalões do mundo empresarial e político, e recebeu em suas propriedades algumas das pessoas mais poderosas do planeta, incluindo Donald Trump, com quem cultivou uma amizade desde a década de 1990. No aniversário de 50 anos de Epstein, Trump enviou uma carta com um desenho que se assemelha ao corpo de uma mulher e uma mensagem que sugeria segredos compartilhados entre ambos. A amizade ficou estremecida a partir de 2004, pouco antes das primeiras investigações serem lançadas contra o milionário.
Ativistas projetaram imagens do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do criminoso sexual Jeffrey Epstein em uma torre do castelo de Windsor — Foto: Reprodução/Led By Donkeys
Trump sempre negou ter qualquer envolvimento com Epstein, e tampouco com o esquema que acobertou o abuso de menores de idade nas propriedades do milionário na Flórida, Novo México e em duas ilhas no Caribe: uma delas, Little St. James, ficou conhecida como "A Ilha da Pedofilia". Contudo, a história de Epstein e sua proximidade com a elite política e econômica dos EUA e Reino Unido, incluindo membros da família real, serviu como combustível para um número incontável de teorias da conspiração, especialmente entre os que hoje se autodenominam trumpistas.
Durante a campanha que o levou de volta à Presidência, no ano passado, o republicano prometeu liberar todos os documentos do caso, e em fevereiro, semanas após sua posse, a secretária de Justiça, Pam Bondi, sugeriu que a suposta lista de clientes de Epstein — propagandeada por Trump na campanha — estava em sua mesa prestes a ser divulgada. Contudo, integrantes do governo reconheceram que a tal lista não existia.
A explicação não convenceu os conspiracionistas e boa parte da base republicana no Congresso. Um projeto-chave para a Casa Branca, apelidado de "Grande e Bonito", por pouco não foi derrotado no plenário diante da pressão de deputados da base pela liberação de novos documentos. Os democratas usaram o movimento para atacar o governo e tentar sanar as próprias feridas da derrota de 2024. Entre os eleitores, 63% desaprovam a maneira como Trump conduziu o caso, de acordo com pesquisa de agosto da Universidade Quinnipiac.
“Esses e-mails e correspondências recentes levantam questões gritantes sobre o que mais a Casa Branca está escondendo e sobre a natureza da relação entre Epstein e o presidente”, disse o deputado Robert Garcia, da Califórnia, principal democrata na Comissão de Supervisão, em um comunicado divulgado nesta quarta-feira. "Quanto mais Donald Trump tenta encobrir os arquivos de Epstein, mais descobrimos."
A data para a divulgação parece ter sido escolhida a dedo. Na tarde desta quarta, os deputados começam a votar o projeto, aprovado pelo Senado, para encerrar a paralisação do governo o federal, o shutdown, após 42 dias, e a sombra de Epstein se fará presente mais uma vez no plenário.
Antes da votação, deverá ser empossada mais uma deputada democrata, Adelita Grijalva, reduzindo a apenas cinco assentos a maioria republicana, que assinará uma petição para forçar um voto sobre a liberação de todos os documentos do caso — hoje, a medida precisa de exatamente uma assinatura para ir a plenário. Caso o presidente da Casa, Mike Johnson, não consiga convencer alguns de seus colegas a retirarem o apoio à ideia, ela deverá ser votada até o início de dezembro.
—Tenho certeza de que a votação na Câmara será bem-sucedida. Alguns republicanos que não assinaram a petição me disseram que votarão a favor da medida quando a votação for convocada. Suspeito que haverá muitos mais — afirmou o deputado republicano Thomas Massie, um dos autores da iniciativa, ao portal Politico. — Chego a me perguntar se o presidente da Câmara, Johnson, aconselhará os membros politicamente vulneráveis a votarem a favor.
Ricos e famosos, Bill Clinton exposto: o que há nos arquivos de Epstein divulgados pelo governo Trump
Governo dos EUA divulgou documentos nesta sexta-feira (19), após aprovação de lei. Bilionário foi condenado por abusar de menores e operar uma rede de exploração sexual nos anos 2000.
Epstein, que mantinha relações próximas com
políticos e pessoas famosas, foi condenado por abusar de menores e por comandar
uma rede de exploração sexual.
A liberação dos documentos ocorre após o Congresso dos
Estados Unidos aprovar, em novembro, um projeto de lei que obrigou o governo a
tornar públicas as informações da investigação. A proposta foi sancionada pelo
presidente Donald Trump, e mais de 300 mil páginas passaram a ser divulgadas.
Entre os arquivos tornados públicos nesta
sexta-feira estão fotos de Epstein ao lado de celebridades como Michael
Jackson, Mick Jagger e o ex-presidente Bill Clinton. Não há informações
sobre quando ou em que contexto as imagens foram feitas.
Encontros com o
ex-presidente Bill Clinton
Ex-presidente
dos EUA Bill Clinton ao lado de Jeffrey Epstein. — Foto: Reuters
Várias fotografias divulgadas mostram que Jeffrey
Epstein teve encontros com o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton.
Segundo o The New York Times, em uma das imagens,
Clinton aparece em uma banheira de hidromassagem ao lado de uma pessoa com o
rosto borrado. Em outra, o ex-presidente está em um avião ao lado de uma
mulher, também com o rosto borrado, usando camisola.
Já em outro registro, Clinton aparece abraçado com
Epstein durante um jantar sofisticado, de acordo com informações do Wall Street
Journal. O contexto desses encontros ainda é incerto.
Ainda segundo o jornal, um porta-voz de Clinton
afirmou que o ex-presidente rompeu relações com Epstein muito antes de os
crimes virem à tona. "Eles podem divulgar quantas fotos de mais de 20 anos
quiserem, mas isso não é sobre Bill Clinton", disse o porta-voz Angel
Ureña na rede social X.
Clinton em uma banheira de
hidromassagem ao lado de uma pessoa com o rosto borrado. — Foto: Reuters
Novas fotografias do caso
Jeffrey Epstein — Foto: Reuters
Celebridades
Muitas fotografias também revelam encontros de
Epstein com artistas, como Michael Jackson e Mick Jagger. Um dos registros
mostra Jackson usando óculos escuros, posando ao lado de Epstein.
Em outra imagem, ele aparece em um jantar com Bill
Clinton e Mick Jagger (veja
na imagem abaixo).
Fotos
mostram Epstein ao lado de Michael Jackson e jantar com Bill Clinton e Mick
Jagger — Foto: Departamento de Justiça dos EUA
Segundo a BBC, várias fotos também incluem o ator
Chris Tucker. Em outro registro, Michael Jackson aparece novamente ao lado de
Bill Clinton e da cantora Diana Ross. Eles surgem posando juntos em um espaço
pequeno, e vários outros rostos foram borrados, ainda de acordo com a emissora
britânica.
Mais uma vez, não está claro onde ou quando as
fotos foram tiradas, nem em que contexto.
Menção ao Brasil
O g1 também
encontrou duas menções ao Brasil. Em uma delas, Epstein recebeu um recado em
janeiro de 2005 pedindo que ligasse para o novo telefone de uma mulher, com o
assunto “Brasil”. O campo que identifica quem fez o pedido está censurado.
Em outro arquivo da investigação, há uma anotação
manuscrita indicando que uma mulher teria sido fotografada sem saber da
existência da imagem. A pessoa, cujo nome foi censurado, teria ido ao Brasil
aos 18 anos e retornado aos Estados Unidos dois anos depois.
Arquivos
de Epstein tem menções ao Brasil — Foto: Departamento de Justiça dos EUA
Mais documentos devem ser divulgados
Mais cedo, o
vice-procurador-geral Todd Blanche disse à Fox News que o governo divulgará
centenas de milhares de documentos, mas não todo o conjunto de arquivos
relacionados a Epstein .
"Prevejo
que divulgaremos mais documentos nas próximas semanas, então hoje algumas
centenas de milhares e, nas próximas semanas, espero que mais algumas centenas
de milhares", disse Blanche.
O
Departamento de Justiça já havia informado que não divulgaria todos os arquivos
na íntegra, já que parte do material pode conter investigações ordenadas por
Trump sobre figuras democratas associadas a Epstein.
A identidade
de todas as vítimas de tráfico sexual cujos nomes constem nos documentos também
será protegida.
A lei
permite que o Departamento de Justiça oculte informações pessoais das vítimas
ou dados de investigações ainda em curso. Por outro lado, proíbe censuras com
base em “constrangimento, dano à reputação ou sensibilidade política”.
Epstein foi
acusado de abusar de mais de 250 meninas menores de idade. O caso voltou a
ganhar destaque neste ano com o vai e vem do presidente Donald Trump sobre a
liberação dos arquivos.
Em um
e-mail de 2018, o bilionário escreveu que o atual presidente “passou
horas” em sua casa com uma das vítimas.
Epstein
e Trump foram amigos entre a década de 1990 e o início dos anos 2000.
O bilionário foi preso
em julho de 2019 e, segundo as autoridades, tirou a própria vida um mês
depois, dentro da cela.
Pressão política
O
presidente dos EUA, Donald Trump, durante evento na Casa Branca em 6 de
novembro de 2025 — Foto: REUTERS/Jonathan Ernst
Durante a
campanha de 2024, Trump prometeu várias vezes que, se voltasse à Casa Branca,
tornaria públicos arquivos secretos sobre o caso. Em uma entrevista, ele chegou
a dizer ser “muito estranho” que a lista de clientes de Epstein nunca tivesse
sido divulgada.
Em fevereiro
deste ano, o governo liberou uma série de arquivos sobre o caso. A
procuradora-geral de Trump, Pam Bondi, chegou a afirmar que uma lista de
clientes estava "em sua mesa para ser revisada".
Depois,
no entanto, o Departamento de Justiça disse não ter encontrado provas da
existência dessa relação.
A
declaração frustrou apoiadores de Trump, muitos dos quais espalham teorias
da conspiração sobre o caso — algumas impulsionadas pelo próprio
presidente.
Desde então, ele passou
a minimizar o tema e chegou a chamar de “idiota” quem ainda se importava
com o assunto.
A postura de Trump aumentou a pressão
política da oposição e até de membros do próprio partido do presidente para que
todos os documentos fossem divulgados.
Nos últimos meses, Trump passou a
chamar o movimento de “farsa” criada pela oposição
para desviar a atenção de temas como o orçamento federal.
A Casa Branca e lideranças republicanas tentaram evitar que o
projeto atingisse o número mínimo de assinaturas necessário para ser
pautado na Câmara, mas não conseguiram.
O texto alcançou o mínimo exigido em 12 de novembro, com apoio
inclusive de deputados republicanos.
Jeffrey Epstein, preso por crimes sexuais,
em fotografia tirada pela Divisão criminal de justiça de Nova York — Foto: New
York State Division of Criminal Justice Services/Handout/File Photo via REUTERS
No dia 12 de novembro, o Congresso dos EUA divulgou mais de 20 mil páginas de
arquivos sobre a investigação de Jeffrey Epstein. Boa parte dos documentos
contém e-mails que o bilionário trocou com parentes e amigos.
Em uma das mensagens, de janeiro de 2019, Epstein
escreveu que Trump “sabia sobre as garotas”. No mesmo texto, aparecem o nome de
uma vítima — que foi censurado — e uma menção a Mar-a-Lago, o resort do
presidente na Flórida.
Em outro e-mail, de 2011, Epstein escreveu a
Ghislaine Maxwell, sua parceira e confidente, sobre Trump.
“Quero que você perceba que o cachorro que
não latiu é Trump”, afirmou. Em seguida, acrescentou que uma das vítimas
“passou horas na minha casa com ele… e ele nunca foi mencionado uma única vez”.
Outro arquivo mostra Epstein refletindo sobre como
deveria responder a perguntas da imprensa sobre sua relação com Trump, que à
época começava a ganhar destaque como figura política nacional.
Para deputados democratas, as mensagens levantaram
novas dúvidas sobre a relação entre o presidente e o bilionário. Já o jornal
The New York Times afirmou que Trump pode ter mais conhecimento da conduta de
Epstein do que admitiu publicamente.
Trump, por sua vez, disse que a polêmica envolvendo
os e-mails é uma “armadilha” criada pela oposição. A porta-voz da Casa Branca,
Karoline Leavitt, afirmou que os arquivos mostram que o presidente “não fez nada de errado”.
Caso Epstein: Departamento de Justiça dos EUA
divulga mais 3 milhões de arquivos e diz que não protegeu Trump
Vice-procurador-geral dos EUA afirmou que liberação
marca o fim do processo de revisão das investigações feitas sobre o bilionário
e que novas imagens têm 'grandes quantidades de pornografia comercial'.
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos divulgou,
nesta sexta-feira (30), mais de 3 milhões de páginas
dos arquivos do caso do empresário Jeffrey Epstein.
Segundo o vice-procurador-geral , Todd Blanche, a
nova leva inclui mais de 2 mil vídeos e 180 mil imagens,
que têm "grandes quantidades de pornografia comercial".
Questionado por jornalistas sobre uma possível
interferência do presidente Donald Trump, ele afirmou que a Casa Branca não participou da revisão dos
arquivos.
"Não protegemos Trump na divulgação dos
arquivos", garantiu.
Blanche também anunciou que a liberação das novas evidências marca o fim do processo de revisão
realizado pelo departamento:
“A
divulgação de hoje marca o fim de um processo muito abrangente de identificação
e revisão de documentos para garantir transparência ao povo americano e
conformidade com a lei”.
O
vice-procurador-geral dos EUA, Todd Blanche — Foto: REUTERS/Elizabeth Frantz
Anteriormente conhecido como Duque de York, Andrew é irmão mais novo de Charles e filho da rainha Elizabeth 2ª. Ele foi destituído de todos os títulos reais no ano passado, devido aos laços passados com Epstein.
Nas imagens divulgadas pelo governo americano nesta sexta-feira (30/1), ele é visto de quatro sobre uma mulher não identificada, totalmente vestida, deitada no chão. Em duas delas ele parece a estar tocando na barriga. Outra imagem o mostra olhando diretamente para a câmera.
O Departamento de Justiça também publicou emails separados que sugerem que o falecido criminoso sexual Jeffrey Epstein convidou Andrew para jantar com uma mulher russa de 26 anos. As mensagens foram trocadas em agosto de 2010, dois anos depois de Epstein se declarar culpado de aliciar uma menor de idade.
A BBC News entrou em contato com Mountbatten-Windsor para comentar o assunto. Andrew sempre negou qualquer irregularidade.
As fotos foram divulgadas pelo governo americano sem mais explicações sobre o contexto, e não está claro quando e onde elas foram tiradas.
Tanto as imagens quanto as trocas de emails divulgadas fazem parte dos mais de 3 milhões de novos arquivos publicados no âmbito das investigações sobre o milionário condenado por crimes sexuais Jeffrey Epstein, que morreu na prisão em 2019.
Outras imagens divulgadas mostram fotos editadas de mulheres não identificadas e o que parecem ser apartamentos de luxo, quartos de hotel e uma casa com piscina.
Crédito,Departamento de Justiça dos EUA
Legenda da foto,A mulher não identificada aparece completamente vestida nas imagens
Emails de 11 e 12 de agosto de 2010 entre Epstein e uma pessoa chamada "O Duque" — que acredita-se ser Andrew Mountbatten-Windsor — sugerem que o americano queria apresentar "A" a uma mulher russa de 26 anos.
Na mensagem, Epstein sugere que ele "poderia gostar de jantar" com a mulher, que estaria em Londres em agosto de 2010.
"O Duque" responde que estaria em Genebra "até a manhã do dia 22, mas ficaria encantado em vê-la" antes de perguntar: "Ela trará uma mensagem sua? Por favor, dê a ela meus dados de contato para que ela entre em contato."
Ele pergunta a Epstein se há "alguma outra informação que você possa saber sobre ela que seja útil?"
Epstein responde que "ela tem 26 anos, é russa, inteligente, bonita, confiável e sim, ela tem seu e-mail."
Crédito,Departamento de Justiça dos EUA
Legenda da foto,Em uma das imagens, a mão da mulher está levantada enquanto Andrew toca a lateral do seu corpo
Epstein foi condenado em 2008 por aliciar sexualmente uma menina de 14 anos na Flórida e cumpriu sua pena em julho de 2010, um mês antes da troca de e-mails. A BBC não conseguiu verificar os e-mails de forma independente.
Entre o último lote de documentos, também está uma troca de e-mails datada de 27 de setembro de 2010 entre Epstein e a conta intitulada "O Duque".
Nela, eles discutem um jantar no Palácio de Buckingham, onde há "muita privacidade".
Os e-mails não indicam qualquer irregularidade. A BBC entrou em contato com Mountbatten-Windsor para que ele comentasse o caso.
Outro documento divulgado pelo Departamento de Justiça, de 2020, é um pedido formal de assistência das autoridades americanas solicitando uma entrevista com Mountbatten-Windsor. Na mensagem, as autoridades diziam acreditar que "o príncipe Andrew pode ter sido testemunha e/ou participante de certos eventos relevantes para a investigação em curso".
O texto afirma que evidências documentais teriam revelado que Andrew tinha conhecimento de que Ghislaine Maxwell, associada de Epstein que foi condenada por ajudá-lo no tráfico de meninas menores de idade, recrutava mulheres "para praticar atos sexuais com Epstein e outros homens".
O documento também aponta "há evidências de que o príncipe Andrew se envolveu em conduta sexual com uma das vítimas de Epstein".
"O príncipe Andrew não é atualmente alvo da investigação e as autoridades americanas não reuniram, até o momento, evidências de que ele tenha cometido qualquer crime sob a lei americana", diz ainda a carta, enviada pelas autoridades americanas.
Mountbatten-Windsor negou repetidamente qualquer irregularidade em relação a Epstein e disse que não "viu, testemunhou ou suspeitou de qualquer comportamento do tipo que posteriormente levou à sua prisão e condenação".
Em 2022, Andrew fechou um acordo com a americana Virginia Giuffre para encerrar um processo aberto contra ele por acusação de abuso sexual.
Giuffre estava processando Andrew, alegando que ele a agrediu sexualmente em três ocasiões quando ela tinha 17 anos, em 2001. Ela afirmou que, naquele ano, Epstein a levou para Londres e a apresentou ao príncipe Andrew.
Andrew também nega as acusações relacionadas a Giuffre.
Crédito,EPA-EFE/REX/Shutterstock
Legenda da foto,Sarah Ferguson, ex-mulher de Andrew, não comentou publicamente a mais recente divulgação de documentos
Emails que parecem ter sido trocados entre Sarah Ferguson, ex-mulher de Andrew, e Epstein também estão entre os arquivos divulgados nesta sexta.
Uma mensagem de 4 de abril de 2009 — assinada "Com amor, Sarah, a ruiva!!" —dizia: "Olá, Jeffrey. Estou aterrissando em Palm Beach em algumas horas. Há alguma chance de eu conseguir tomar uma xícara de chá durante minha rápida escala...?"
O email continua discutindo ideias para a empresa de Ferguson, chamada Mother's Army.
A ex-Duquesa de York se refere a Epstein como "Meu querido, espetacular e especial amigo Jeffrey. Você é uma lenda e eu tenho muito orgulho de você."
Epstein ainda estava em prisão domiciliar quando a mensagem foi enviada.
Em outra troca de emails, de agosto de 2009, Ferguson escreve para Epstein novamente para discutir "minha marca Sarah Ferguson" e agradece ao bilionário "por ser o irmão que eu sempre desejei".
Os emails não indicam nenhuma irregularidade. A BBC entrou em contato com Ferguson para comentar a divulgação, mas não obteve resposta.
Os 'arquivos Epstein'
Ao todo, três milhões da páginas, 180 mil imagens e 2.000 vídeos foram publicados nesta sexta-feira (30/1).
A divulgação acontece seis semanas depois do departamento perder o prazo legal assinado pelo presidente Donald Trump, que exigia que todos os documentos relacionados a Epstein fossem tornados públicos.
"A divulgação de hoje marca o fim de um processo amplo de identificação e revisão de documentos para garantir transparência ao povo americano e cumprimento das normas", disse o vice-procurador-geral Todd Blanche.
Além das imagens e conversas de Andrew, os arquivos incluem detalhes sobre o tempo de Jeffrey Epstein na prisão — incluindo um relatório psicológico — e sua morte enquanto estava encarcerado, juntamente com registros de investigação sobre Ghislaine Maxwell, associada de Epstein que foi condenada por ajudá-lo no tráfico de meninas menores de idade.
O que revelam as imagens inéditas da ilha onde Jeffrey Epstein cometeu seus crimes sexuais
Crédito,Comitê de Supervisão da Câmara dos Estados Unidos
Legenda da foto,Epstein era dono de duas ilhas - em uma delas, a Little St James, ficava sua mansãoArticle Information
Author,Bernd Debusmann Jr
Role,Repórter da BBC na Casa Branca
3 dezembro 2025
Tempo de leitura: 7 min
Deputados democratas do Comitê de Supervisão da Câmara dos Estados Unidos divulgaram nesta quarta-feira (3/12) fotos e vídeos que mostram como era uma das ilhas privadas de Jeffrey Epstein, o bilionário condenado por crimes sexuais encontrado morto na prisão em 2019.
As imagens, registradas por autoridades das Ilhas Virgens Americanas - um arquipélago no Caribe pertencente aos EUA - mostram quartos, banheiros, salas de massagem e um telefone fixo com nomes escritos nos botões de discagem rápida.
Há também um quadro negro onde estão escritas palavras como "power" (poder) e "deception" (que pode significar fraude, farsa ou engano)
Crédito,Comitê de Supervisão da Câmara dos Estados Unidos
Legenda da foto,Quadro negro com palavras escritas aparece em uma sala de estar
Crédito,Comitê de Supervisão da Câmara dos Estados Unidos
Legenda da foto,A foto de palavras em um quadro-negro — que parece formar um mapa mental — dentro de um escritório na propriedade insular de Epstein está levando a especulações sobre quais seriam as palavras ilegíveis e as que foram apagadas, e sobre o significado da mensagem.
Um dos clipes de vídeo divulgados é uma gravação trêmula feita com uma câmera de mão — filmada na Ilha de Epstein — que começa com uma vista para o mar, antes de a pessoa que segura a câmera caminhar por entre arbustos até a área da piscina, que tem elementos como estátuas de bronze.
Crédito,Comitê de Supervisão da Câmara dos Estados Unidos
Outro vídeo faz um breve tour por um quarto na ilha de Epstein. Em um clipe de 16 segundos, o vídeo começa em um pequeno banheiro privativo, antes de a câmera se mover pelo quarto.
Crédito,Comitê de Supervisão da Câmara dos Estados Unidos
Legenda da foto,Quarto na casa de Epstein
Outra foto mostra uma placa na propriedade de Epstein alertando que não é permitido entrar na área.
Crédito,Comitê de Supervisão da Câmara dos Estados Unidos
Legenda da foto,Placa diz para pessoas não ultrapassarem o limite
Em um comunicado, o democrata líder do comitê, Robert Garcia, disse que, coletivamente, o material forma um "retrato perturbador" do mundo de Epstein e está sendo divulgado para "garantir transparência pública".
Em 18 de novembro, o Comitê de Supervisão enviou um pedido ao procurador-geral das Ilhas Virgens Americanas solicitando informações sobre investigações envolvendo Jeffrey Epstein e sua companheira, Ghislaine Maxwell, que está presa nos EUA.
O comunicado de Robert Garcia também afirma que o comitê recebeu documentos dos bancos J.P. Morgan e do Deutsche Bank, e que eles "pretendem divulgar os arquivos ao público após análise nos próximos dias".
"Não vamos parar de lutar até garantir justiça para as sobreviventes", disse Garcia.
"É hora de o presidente Trump divulgar todos os arquivos, agora."
Crédito,Comitê de Supervisão da Câmara dos Estados Unidos
Legenda da foto,Telefone de Epstein tinha botões para discagem rápida. Alguns dos contatos não estão visíveis, mas é possível ver números para contatos como "NY Office", "Darren Off" e "Darren Cell".
A divulgação desta quarta, porém, não tem relação com esse projeto de lei.
Trump, por meses, classificou os pedidos para liberar os documentos como uma "farsa" liderada pelos democratas para desviar a atenção de suas conquistas.
Na avaliação de Anthony Zurcher, correspondente da BBC na América do Norte, não parece haver nada politicamente explosivo nas fotos e vídeos recém-divulgados da Ilha Epstein.
"Os poucos detalhes existentes — escrita rabiscada em um quadro-negro e alguns nomes na discagem rápida de um telefone — são enigmáticos ou estão ocultos", diz Zurcher;
"Os democratas no Congresso, que tornaram os arquivos públicos, podem estar esperando que essa nova divulgação mantenha o caso Epstein nas notícias e pressione o governo Trump a cumprir a lei federal e divulgar o que quer que constitua os 'arquivos Epstein' que possui."
Legenda da foto,Amizade entre Trump e Epstein, que se encerrou nos anos 2000, é alvo de debate nos EUA
Antes de se tornar a figura central de um caso de tráfico sexual de grande repercussão, Jeffrey Epstein foi professor de matemática e um influente financista em Nova York.
Cortejando ricos e famosos com jatos particulares e festas luxuosas nos anos 1980, os negócios de Epstein cresceram até administrar centenas de milhões de dólares em ativos de clientes.
Entre as celebridades com quem ele socializava estavam o então presidente dos EUA Donald Trump, o ex-presidente Bill Clinton e Andrew Mountbatten-Windsor, antes príncipe Andrew.
"Conheço o Jeff há 15 anos. Cara excelente", disse Trump à revista New York em 2002.
Em 2005, os pais de uma garota de 14 anos disseram à polícia da Flórida que Epstein havia molestado sua filha em sua casa em Palm Beach. Ele evitou acusações federais e, em vez disso, recebeu uma sentença de 18 meses de prisão.
Desde 2008, Epstein estava listado como nível três no registro de criminosos sexuais do estado de Nova York. Era uma designação vitalícia que significava um alto risco de reincidência.
Em julho de 2019, ele foi preso em Nova York por acusações de tráfico sexual, acusado de comandar "uma vasta rede" de meninas menores de idade para exploração sexual.
Após ter fiança negada, ele foi mantido no Metropolitan Correctional Center, em Nova York, onde foi encontrado morto em sua cela meses depois.
A ilha de Epstein
Crédito,Comitê de Supervisão da Câmara dos Estados Unidos
Epstein era dono de duas ilhas, a Little St. James (menor) e a Great St. James (maior).
A Little St. James é uma pequena ilha caribenha localizada a sudoeste de St. Thomas, uma das principais das Ilhas Virgens Americanas.
Ela foi propriedade privada do financista por mais de 25 anos, período no qual ele construiu uma vasta propriedade em seus 365 mil metros quadrados.
As fotos divulgadas são dessa propriedade.
A procuradora-geral das Ilhas Virgens Americanas, Denise George, disse à CBS News, parceira da BBC nos EUA, que Epstein usava a ilha para esconder suas atividades criminosas.
George processou o espólio de Epstein após sua morte e, em sua denúncia, alegou que controladores de tráfego aéreo e funcionários do aeroporto viram Epstein na ilha com meninas que pareciam pré-adolescentes.
"Lembre-se, ele é dono de uma ilha inteira", disse ela. "Então não era uma situação em que uma criança ou jovem pudesse simplesmente escapar e correr até a delegacia de polícia mais próxima."
Uma suposta vítima que falou anonimamente à CBS afirmou que Epstein a estuprou e a manteve em cativeiro na ilha.
"Ele também me trancou no quarto dele na ilha, onde tinha uma arma presa ao estrado da cama. Eu não podia sair", disse ela. "A única forma de sair da ilha era de helicóptero ou barco."
Em 2022, Little St. James foi colocada à venda, e um advogado do espólio de Epstein confirmou à BBC que parte do valor obtido será usada para liquidar processos pendentes.
Crédito,Comitê de Supervisão da Câmara dos Estados Unidos
Legenda da foto,Outro quarto tem cadeira de dentista e máscaras na parede
Crédito,Comitê de Supervisão da Câmara dos Estados Unidos
Legenda da foto,Foto parece mostrar área para realização de serviços de spaFonte:https://www.bbc.com/portuguese/articles/c86511xe7ypo
Trump ao lado de Epstein.
— Foto: Reprodução
Caso Epstein: documentos mostram que adolescente
teria sido forçada a fazer sexo oral em Trump
Nos materiais, o presidente Donald
Trump é citado centenas de vezes e aparece em uma lista do FBI com denúncias
recebidas por meio de uma linha telefônica oficial.
Por
Klauson Dutra
31/01/2026 12h21 Atualizado há 23
horas
Arquivos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos
nesta sexta-feira reúnem milhões de documentos relacionados ao caso Jeffrey
Epstein, bilionário condenado por crimes sexuais e acusado de comandar um
esquema de abuso e tráfico de meninas menores de idade.
Os arquivos incluem registros sobre a prisão,
avaliações psicológicas e a morte de Epstein em 2019.
Nos materiais, o presidente Donald Trump é citado
centenas de vezes e aparece em uma lista do FBI com denúncias recebidas por
meio de uma linha telefônica oficial.
Entre as alegações, está a de que, décadas atrás,
em Nova Jersey, uma adolescente de 13 ou 14 anos teria sido forçada a praticar
sexo oral em Trump.
A vítima teria mordido o pênis do presidente e
relatado o caso para outras pessoas, de acordo com a denúncia
A acusação não apresenta provas documentais nos
arquivos, e o presidente não se manifestou sobre essa denúncia.
A divulgação representa o maior volume já tornado
público sobre o caso Epstein, com cerca de 3 milhões de páginas, 180 mil
imagens e 2 mil vídeos.
Os documentos também inlcuem as investigações que
levaram à condenação de Ghislaine Maxwell [Guilein], ex-namorada de Epstein,
por tráfico sexual de menores. Ela recrutava adolescentes para Epstein e
ajudava a encobrir os crimes
Os arquivos recém-divulgados também expõem a
relação de Epstein com figuras poderosas. Entre os documentos, aparecem
alegações envolvendo Bill Gates, incluindo e-mails atribuídos a Epstein com
acusações graves.
Gates nega todas as acusações, e as classificou
como absurdas e falsas, e afirmou que os textos refletem apenas o ressentimento
de Epstein após o fim da relação entre ambos.
Há ainda registros de contato direto com o então
Duque de York, Andrew Mountbatten-Windsor [Meuntbadrer], tratando de encontros
privados e apresentações de mulheres. Não há provas de ilegalidades nesses
e-mails, e o duque nega qualquer irregularidade.
Apesar da divulgação, democratas acusam o
Departamento de Justiça de reter milhões de páginas sem justificativa adequada.
Muitos documentos vieram com cortes extensos,
oficialmente para proteger vítimas e investigações em andamento, o que mantém
dúvidas sobre a transparência total do processo.
O Departamento de Justiça afirmou que as acusações
contra Donald Trump são “infundadas e falsas”, e as classificou como
sensacionalistas e sem credibilidade.
O órgão acrescentou que, se houvesse qualquer base
concreta, essas alegações já teriam sido usadas judicialmente.
Trump nunca foi acusado formalmente por vítimas de
Epstein e nega qualquer envolvimento em crimes sexuais.
Os principais pontos dos milhões de arquivos recém-divulgados do caso Epstein
Crédito,Getty Images
Article Information
Author,Sakshi Venkatraman e Kwasi Gyamfi Asiedu
30 janeiro 2026
Atualizado 31 janeiro 2026
Tempo de leitura: 8 min
Milhões de novos arquivos relacionados ao bilionário Jeffrey Epstein — criminoso sexual condenado e morto em 2019 — foram divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, o maior número de documentos compartilhados pelo governo desde que uma lei determinou sua divulgação no ano passado.
Três milhões da páginas, 180 mil imagens e 2.000 vídeos foram publicados nesta sexta-feira (30/1).
A divulgação acontece seis semanas depois do departamento perder o prazo legal assinado pelo presidente Donald Trump, que exigia que todos os documentos relacionados a Epstein fossem tornados públicos.
"A divulgação de hoje marca o fim de um processo amplo de identificação e revisão de documentos para garantir transparência ao povo americano e cumprimento das normas", disse o vice-procurador-geral Todd Blanche.
Os arquivos incluem detalhes sobre o tempo de Jeffrey Epstein na prisão — incluindo um relatório psicológico — e sua morte enquanto estava encarcerado, juntamente com registros de investigação sobre Ghislaine Maxwell, associada de Epstein que foi condenada por ajudá-lo no tráfico de meninas menores de idade.
Epstein convidou 'o duque' para se encontrar com uma mulher russa
Crédito,Getty Images
Legenda da foto,Troca de e-mails entre Epstein e "O Duque", que acredita-se ser Andrew Mountbatten-Windsor, irmão do rei Charles 3°, estão entre os documentos divulgados
Os documentos também revelam a estreita ligação do bilionário com a elite britânica.
Eles incluem e-mails entre Epstein e uma pessoa chamada "O Duque" — que acredita-se ser Andrew Mountbatten-Windsor, anteriormente conhecido como Duque de York —discutindo um jantar no Palácio de Buckingham, onde há "muita privacidade".
Outra mensagem de Epstein inclui uma oferta para apresentar "O Duque" a uma mulher russa de 26 anos.
Os e-mails são assinados com a letra "A", acompanhada de uma assinatura que parece ser "Sua Alteza Real Duque de York KG".
"O Duque" responde que estaria em Genebra "até a manhã do dia 22, mas ficaria encantado em vê-la" antes de perguntar: "Ela trará uma mensagem sua? Por favor, dê a ela meus dados de contato para que ela entre em contato."
Ele pergunta a Epstein se há "alguma outra informação que você possa saber sobre ela que seja útil?"
Epstein responde que "ela tem 26 anos, é russa, inteligente, bonita, confiável e sim, ela tem seu e-mail."
As mensagens foram trocadas em agosto de 2010, dois anos depois de Epstein se declarar culpado de aliciar uma menor de idade.
A BBC não conseguiu verificar os e-mails de forma independente. Os e-mails não indicam qualquer irregularidade.
A BBC contatou Andrew Mountbatten-Windsor para obter uma resposta.
Mountbatten-Windsor tem enfrentado anos de escrutínio por sua antiga amizade com Epstein.
Ele tem negado repetidamente qualquer irregularidade e afirmou que não "viu, testemunhou ou suspeitou de qualquer comportamento do tipo que posteriormente levou" à prisão e condenação de Epstein.
Epstein enviou dinheiro para brasileiro casado com lorde britânico
Outros e-mails mostram que Epstein enviou £10.000 (R$ 72 mil) para o brasileiro Reinaldo Avila da Silva, marido do lorde Peter Mandelson, em 2009.
Em um e-mail para Epstein, da Silva detalha os custos de um curso de osteopatia, fornece seus dados bancários e agradece ao financista por "qualquer ajuda que você possa me dar".
Epstein responde algumas horas depois dizendo que transferiria o valor do empréstimo e da Silva — que se casou com lorde Mandelson em 2023 — responde com um agradecimento no dia seguinte.
Em outro conjunto de e-mails, lorde Mandelson pede para se hospedar em uma das propriedades de Epstein.
Os e-mails são de 16 de junho de 2009, quando Epstein cumpria pena de prisão por solicitar prostituição de uma pessoa menor de 18 anos. Durante grande parte de sua sentença, Epstein tinha permissão para trabalhar em seu escritório durante o dia e retornava à prisão todas as noites.
Em dezembro de 2024, lorde Mandelson foi nomeado embaixador do Reino Unido nos EUA, mas foi demitido menos de um ano depois, quando veio à tona que ele havia enviado mensagens de apoio a Epstein após a condenação.
Mandelson afirmou repetidas vezes que se arrepende de sua amizade com Epstein, que já é de conhecimento público há muito tempo. Ele disse que nunca presenciou nenhuma irregularidade enquanto estava com Epstein e que "acreditou em suas mentiras".
Trump é mencionado centena de vezes
Crédito,Getty Images
O presidente dos EUA, Donald Trump, é mencionado centenas de vezes nos arquivos recém-divulgados.
Trump tinha uma amizade com Epstein, mas afirma que a relação "azedou" há muitos anos e nega qualquer conhecimento sobre os crimes sexuais cometidos pelo bilionário.
Entre os novos documentos está uma lista compilada pelo FBI no ano passado com alegações feitas contra Trump por pessoas que ligaram para a linha de denúncias do Centro Nacional de Operações de Ameaças.
Muitas dessas alegações parecem ser baseadas em informações não verificadas recebidas pela agência e foram feitas sem provas.
A lista inclui inúmeras alegações de abuso sexual envolvendo Trump, Epstein e outras figuras de destaque.
Trump sempre negou qualquer irregularidade em relação a Epstein e não foi acusado de nenhum crime pelas vítimas do bilionário.
Quando questionados sobre as alegações mais recentes, tanto a Casa Branca quanto o Departamento de Justiça apontaram para um trecho de um comunicado à imprensa que acompanha a nova remessa de arquivos.
"Alguns dos documentos contêm alegações falsas e sensacionalistas contra o presidente Trump que foram enviadas ao FBI pouco antes da eleição de 2020", disse o Departamento de Justiça dos EUA.
"Para que fique claro, as alegações são infundadas e falsas, e se tivessem um mínimo de credibilidade, certamente já teriam sido usadas como arma contra o presidente Trump."
Lula e Bolsonaro mencionados em mensagens
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foram mencionados nos comunicados revelados do arquivo Epstein.
O linguista e filósofo americano Noam Chomsky, que mantinha longas conversas com Epstein e chegou a ser convidado por ele para ficar em suas casas, teria comunicado a Jeffrey Epstein por e-mail que estava no Brasil com sua mulher, Valéria, envolvidos com atividades do movimento Lula Livre, que pedia a libertação do presidente brasileiro.
Chomsky havia visitado Lula na carceragem da Polícia Federal, em Curitiba. Em novembro, quando outros documentos foram divulgados, um dos arquivos mostrava uma mensagem atribuída a Epstein que citava uma suposta ligação telefônica dele com Chomsky junto de Lula, ainda na prisão.
"Chomsky me ligou com Lula. Da prisão. Que mundo."
À época, Valéria Chomsky negou à imprensa que o marido tenha intermediado uma ligação entre o empresário e Lula. O Palácio do Planalto também negou que a ligação tenha acontecido.
"Diga a ele que o meu candidato vai ganhar no primeiro turno", escreveu Bannon, aparentemente se referindo ao Bolsonaro.
"Bolsonaro é de verdade", respondeu Epstein (a expressão usada foi "the real deal", no original em inglês).
Bill Gates diz que alegações de Epstein são 'absurdas e falsas'
Um porta-voz do co-fundador da Microsoft, Bill Gates, respondeu às alegações chocantes contidas nos arquivos mais recentes de Epstein — incluindo a de que ele teria contraído uma doença sexualmente transmissível — chamando-as de "absolutamente absurdas e completamente falsas".
Dois emails de 18 de julho de 2013 parecem ter sido redigidos por Epstein, mas não está claro se eles chegaram a ser enviados a Gates.
Ambos foram enviados da conta de e-mail de Epstein e de volta para a mesma conta. Nenhuma conta de e-mail associada a Gates aparece nos documentos e ambos os e-mails não estão assinados.
Um dos e-mails é escrito como uma carta de demissão da Fundação Bill e Melinda Gates e reclama de ter que providenciar medicamentos para Gates "a fim de lidar com as consequências do sexo com garotas russas".
O outro, que começa com "caro Bill", reclama do fim de uma amizade com Gates e faz mais alegações de que ele teria tentado encobrir uma infecção sexualmente transmissível, inclusive de sua então esposa, Melinda.
Um porta-voz de Gates disse à BBC: "Essas alegações — de um mentiroso comprovadamente ressentido — são absolutamente absurdas e completamente falsas."
E adicionou: "A única coisa que esses documentos demonstram é a frustração de Epstein por não ter um relacionamento contínuo com Gates e até onde ele iria para armar uma cilada e difamá-lo."
Todos os arquivos de Epstein já foram divulgados?
Não se sabe ao certo se este é o fim da saga da divulgação dos documentos de Epstein.
O vice-procurador-geral Todd Blanche afirmou que a divulgação de hoje "marca o fim de um processo muito amplo de identificação e revisão de documentos", sinalizando que, para o Departamento de Justiça, o trabalho está concluído.
No entanto, os democratas continuam argumentando que o departamento reteve documentos em excesso — possivelmente cerca de dois milhões e meio — sem justificativa adequada.
O deputado democrata Roh Khanna, que liderou a Lei de Transparência dos Arquivos Epstein juntamente com o deputado republicano Thomas Massie, disse estar cauteloso em relação à situação.
"O Departamento de Justiça disse ter identificado mais de 6 milhões de páginas potencialmente relevantes, mas está divulgando apenas cerca de 3,5 milhões após revisão e redações", disse Roh Khanna.
"Isso levanta dúvidas sobre o motivo pelo qual o restante está sendo retido. Vou acompanhar de perto para ver se liberam o que venho pressionando."
O Departamento de Justiça esteve sob forte escrutínio após não cumprir o prazo de 19 de dezembro para divulgar todos os arquivos, conforme exigida pela lei aprovada pelo Congresso e sancionada em novembro.
Muitos dos documentos divulgados nesta sexta-feira incluem extensos cortes.
A lei determina que os cortes só podem ser feitos para proteger vítimas ou informações atualmente sob investigação. Também exige um resumo dos cortes realizados e a justificativa legal para eles.
Blanche afirmou que os cortes visam proteger as vítimas e que o departamento contou com centenas de funcionários analisando os documentos por mais de dois meses para garantir uma divulgação rápida.
Mesmo assim, permanece incerto se essa saga chegou ao fim.
Muitos — incluindo integrantes da base de apoio de Trump — acreditam há muito tempo que existe uma conspiração para proteger os ricos e poderosos ligados a Epstein.
Blanche reconheceu que a divulgação desses documentos não atenderia à demanda por mais informações.
Ele disse que os arquivos não contêm os nomes de homens específicos que abusaram de mulheres e que, caso o departamento tivesse esses nomes, os homens seriam processados.
"Não acho que o público, ou vocês, vão descobrir nos arquivos de Epstein homens que abusaram de mulheres, infelizmente."
Kwasi Gyamfi Asiedu, Jack Fenwick, e Chi Chi Izundu contribuíram para esta reportagem.
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