"LEMBRAR QUE SOMOS FINITOS NOS FAZ APROVEITAR COM MAIS AFINCO A VIDA", REFLETE ELISAMA SANTOS

"Lembrar que somos finitos nos faz aproveitar com mais afinco a vida", reflete Elisama Santos — Foto: Freepik
"Lembrar que somos finitos nos faz aproveitar com mais afinco a vida", reflete Elisama Santos — Foto: Freepik

"Lembrar que somos finitos nos faz aproveitar com mais afinco a vida", reflete Elisama Santos

“O luto nos lembra que, exatamente por sermos finitos, precisamos aproveitar os dias como únicos, as companhias como riquezas, os amores como presentes”, diz Elisama Santos é psicanalista, educadora parental e colunista da CRESCER

Por 

Elisama Santos

23/03/2025 08h14  Atualizado agora

A mãe de uma amiga muito querida faleceu há pouco tempo, repentinamente, e o assunto tem borbulhado em mim como nunca antes. A morte tem esse dom, de nos lembrar que a vida é finita e nos sacudir por inteiro. Mas talvez essa, especificamente, tenha me comovido no lugar de mãe e de filha pela beleza do luto que tenho acompanhado de perto.


Coisa estranha usar beleza e luto na mesma frase, mas é o que é. A última semana de vida dela foi extremamente bem vivida. Remou com os netos, passeou todos os dias, sorriu como há muito tempo as pessoas não viam. No velório, a filha escutou inúmeras vezes: a sua mãe estava tão feliz!


Freud narrou, em um dos seus textos, o encontro que teve com um poeta e que, dessa troca, surgiu uma das maiores riquezas da sua obra. Ambos viam uma flor e o poeta, em determinado momento, se entristece por saber que a flor é finita. Depois de um tempo em reflexão, Freud lhe diz que o que faz com que admire com tanto afinco a beleza da flor é justamente a sua transitoriedade. É saber que a flor um dia não estará no mundo, com todo o seu esplendor, que nos faz escolher um belo jarro e colocá-la num lugar central na mesa.


Lembrar que somos finitos nos faz aproveitar com mais afinco a vida. Tenho aprendido com os meus filhos a rever a noção de tempo. Eu, que completo 40 anos em alguns dias, falo dos anos como se fossem pouca coisa. Três anos foi logo ali, não lembra? Cinco anos passaram voando, não? A vida parece tão garantida e tão certa. Já repeti o acordar e o dormir tantas e tantas vezes que olho para os jovens de 20 anos e os considero bebês. Cinco anos é pouco menos que a metade da vida de Helena. Em três anos, Miguel saiu da infância e entrou na adolescência. Para eles, é tempo pra caramba. Vida pra caramba. Não passou tão rápido assim.

Sabe o luto bonito que falei no começo do texto? Pois bem, é um luto em que a transitoriedade da vida entristece e encanta. É o luto que nos lembra que, exatamente por sermos finitos, precisamos aproveitar os dias como únicos, as companhias como riquezas, os amores como presentes. Ali, no meio de toda a dor que a morte nos desperta, pedi aos céus um presente como o que a mãe da minha amiga recebeu e ofertou: ser absurdamente feliz no fim da vida.

Amar e ser amada com uma entrega gigante, saber destinar à beleza da flor o vaso mais bonito, a água fresca e a admiração que ela merece. Assim, a dor da partida divide espaço com a certeza de uma vida bem vivida. E a gente ri e chora, lembrando que a existência é maior e mais complexa do que gostaríamos.

Elisama Santos é psicanalista, educadora parental, escritora, palestrante, mãe de Miguel, 8 anos, e Helena, 6 (Foto: Divulgação) — Foto: Crescer
Elisama Santos é psicanalista, educadora parental, escritora, palestrante, mãe de Miguel, 8 anos, e Helena, 6 (Foto: Divulgação) — Foto: Crescer
Fonte:https://revistacrescer.globo.com/colunistas/elisama-santos-entre-lacos/coluna/2025/03/lembrar-que-somos-finitos-nos-faz-aproveitar-com-mais-afinco-a-vida-reflete-elisama-santos.ghtml

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