GUERRA NA UCRÂNIA, TRÊS ANOS: COM A CHEGADA DE TRUMP A CASA BRANCA, PUTIN VÊ ESPAÇO PARA CESSAR-FOGO E FIM DO ISOLAMENTO
Mesmo longe dos objetivos iniciais da “operação militar especial”, Putin, segundo analistas, nunca esteve tão perto de declarar vitória como agora. Suas posições no leste e sul estão fortalecidas, seu adversário, o líder ucraniano, Volodymyr Zelensky, perdeu o status de herói de guerra e, com a eleição de Donald Trump, os EUA parecem cada vez mais dispostos a se sentar à mesa e tratar os russos em pé de igualdade.
Segundo levantamento do Instituto para o Estudo da Guerra, há combates ativos em Donetsk e Luhansk, além de confrontos nos arredores de Kharkiv — que a Rússia tentou invadir no início da guerra. As forças do Kremlin ainda tentam recuperar uma parte do território de Kursk, dentro da Rússia, ocupada pelos ucranianos no ano passado.
Héctor Luis Saint-Pierre, professor de Relações Internacionais da Unesp, explica que houve uma mudança de estratégia russa no campo de batalha. Os insucessos na tomada de Kiev e o fracasso das negociações nas primeiras semanas levaram à decisão de fortalecer posições defensivas, tendo em mente que aquela não era só uma guerra contra o Estado ucraniano.
— A Ucrânia representava o pivô central, mas era sustentada pelo apoio logístico, de treinamento, econômico, financeiro, de armamento e, em parte, por algumas tropas da Otan — disse ao GLOBO, referindo-se à aliança militar liderada pelos EUA. — Putin reconhece que a guerra agora é contra a Otan e passou a uma situação de resguardo de tropas e uma posição de defesa, procurando manter os limites do Donbass (leste). São duas guerras, nas quais nunca houve a possibilidade de a Rússia perder belicamente.
Além das negociações frustradas do início da guerra, que abririam caminho para o congelamento do conflito, a abordagem ocidental sempre foi a de apoiar financeiramente Kiev em busca de um recuo russo. Zelensky se recusava a discutir a cessão de territórios e prometia vitória nos discursos.
Mas o cansaço com o conflito, disputas domésticas e as mudanças no cenário internacional começaram a ser vistas pelo Kremlin como oportunidade para consolidar seus ganhos. Zelensky, que se recusava a negociar, passou a sinalizar abertura a um acordo com Putin, e os fracassos no front minaram o moral das tropas e da população. Em novembro, uma pesquisa do Instituto Gallup revelou que 52% dos ucranianos queriam o fim da guerra o quanto antes — em 2022, eram 22%.
Neste contexto, a chegada de Trump à Casa Branca, com sua promessa de resolver a guerra “em 24 horas”, soou como um presente ao Kremlin. O republicano deixou claro que, para ele, o caminho mais rápido para um acordo passava por Moscou, mesmo que precisasse deixar Zelensky, a quem delegou a culpa pela guerra, pelo caminho.
— Acho que os russos querem ver a guerra acabar. Eles têm um pouco as cartas, porque tomaram muito território — disse Trump na semana passada, depois que os chefes das diplomacias americana e russa se reuniram na Arábia Saudita.
Mirando na China
Em uma guerra de tantas nuances, esperar que um cessar-fogo liderado por EUA e Rússia se atenha só à guerra pode soar ingênuo. Mesmo antes de um futuro encontro entre os líderes, Washington tem sugerido o fim das sanções e o retorno de empresas americanas à Rússia. Os russos, por sua vez, já se preparam para retomar as vendas de petróleo para os americanos e de gás para a Europa Ocidental.
Para Gunther Rudzit, professor de Relações Internacionais da ESPM, essa pode ser apenas a ponta do iceberg planejado por Trump.
— Tenho a impressão de que Trump está oferecendo a Putin o “retorno” de sua zona de influência na Europa em troca da redução das relações com a China de Xi Jinping. Isso porque a grande ameaça hoje para os EUA é a China, não a Rússia — opina Rudzit. — Só faz sentido Trump e sua equipe tirarem Putin de seu isolamento se for uma jogada maior.
Em 2022, dias antes da invasão, Putin e Xi estabeleceram, em Pequim, sua “parceria sem limites”, que ao longo dos últimos três anos ajudou a apoiar a economia russa em meio a uma guerra que drenou boa parte de seus recursos. A abertura proposta por Trump poderia dar a Putin maior liberdade estratégica e econômica e reduzir a quase dependência em relação aos chineses.
Alarme na Europa
Os afagos entre Trump e Putin também causam arrepios entre as lideranças europeias. No primeiro mandato, o republicano demonstrou seu desdém em relação à Otan e agora parece disposto a se afastar, de maneira crucial, da aliança que é o principal pilar de segurança da Europa. Há uma semana, líderes do continente se reuniram em busca de uma posição conjunta, mas pouco foi dito e feito de concreto.
"A União Europeia (UE) teme que qualquer acordo entre os EUA e a Rússia possa legitimar ganhos territoriais pela força ou aliviar prematuramente as sanções, minando assim a postura unificada do Ocidente", escreveu, em declarações ao GLOBO, Francisco Leandro, professor de Relações Internacionais da Universidade de Macau.
Para ele, um acordo deve acelerar discussões sobre um plano europeu de segurança.
"Uma questão debatida há anos é sobre o erro da UE em delegar sua segurança à Otan, confiando nos EUA para defesa. Isso enfraquece sua própria autonomia estratégica", pontuou.
Mas o mundo pós-guerra para a Rússia não será como em um poema de Alexander Pushkin ou um conto de amor de Ivan Turgueniev. Ao longo dos últimos três anos, a guerra drenou bilhões de dólares dos cofres russos, ao custo de uma inflação elevada e mudanças bruscas na economia. A perda de centenas de milhares de jovens nos campos de batalha, mortos ou mutilados, impactará um país que já tem problemas para renovar sua população, e a perseguição estatal e o medo da convocação fez com que muitas das mentes brilhantes da Rússia fossem para o exterior. Algumas em definitivo.
— Acho que Putin comprometeu economicamente o futuro da Rússia por muitos anos e transformou a Rússia definitivamente em um país fornecedor de energia e equipamento militar — concluiu Rudzit.
Fonte:https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2025/02/23/guerra-na-ucrania-tres-anos-com-chegada-de-trump-a-casa-branca-putin-ve-espaco-para-cessar-fogo-e-fim-de-isolamento.ghtml
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