"UMA VIDA": O CONTEXTO HISTÓRICO DO FILME SOBRE CRIANÇAS SALVAS DO NAZISMO

 História de como Nicholas Winton salvou 669 crianças do nazismo em Praga é tema do filme 'Uma Vida'.

"Uma Vida": o contexto histórico do filme sobre crianças salvas do nazismo

"Uma Vida — A História de Nicholas Winton" retrata a transferência de crianças refugiadas de Praga para o Reino Unido, pouco antes da Segunda Guerra Mundial, pelo britânico Nicholas Winton


Por Beatriz Herminio, com edição de Luiza Monteiro

14/03/2024 11h54  Atualizado há 5 horas  


Com o avanço de Adolf Hitler sobre o norte da Tchecoslováquia, em 1938, diversas famílias se deslocaram para Praga, capital do país. Foi nesse contexto histórico que o corretor britânico Nicholas Winton transportou 669 crianças, em sua maioria judias, da cidade tcheca para a Grã-Bretanha.

A história desse feito e o trabalho das pessoas que ajudaram a colocá-lo em prática são retratados no filme Uma Vida — A História de Nicholas Winton, que estreia nesta quinta-feira (14) nos cinemas, com direção de James Hawes.


A obra é uma adaptação do livro homônimo lançado em 2014 e escrito por Barbara Winton, filha de Nicholas, que no longa é interpretado por Anthony Hopkins (de O Silêncio dos Inocentes e Hannibal). O tema já foi tratado em outros três filmes pelo diretor tcheco Matej Minac: All My Loved Ones (1999), Nicholas Winton: The Power of Good (2002) e Nicky’s Family (2011).

"Não haveria nenhuma possibilidade de eu sobreviver se tivesse ficado para trás, se meus pais não tivessem a coragem moral de nos deixar ir", disse Vera Gissing (1928 - 2022) em uma entrevista em 2006 com um arquivo de sobreviventes do Holocausto na Universidade de Michigan-Dearborn, nos EUA. Ela foi uma das “crianças de Winton”, como ficaram conhecidos os meninos e as meninas resgatados pelo britânico.

Kindertransport

A forma como as crianças foram transportadas a partir da iniciativa de Nicholas Winton, na época com 29 anos de idade, ficou conhecida como “Kindertransport” Tcheco, que pode ser traduzido do alemão como “transporte de crianças”.

O Kindertransport foi um movimento de transporte de refugiados da Áustria, Polônia, da antiga Tchecoslováquia – locais com terras anexadas pelo Estado germânico – e da Alemanha para o Reino Unido. Por meio dele, 10 mil crianças foram abrigadas com um visto temporário no país. O governo britânico exigia uma garantia de 50 libras esterlinas por criança para custear um eventual retorno ao seu país de origem.

Separadas de seus pais para encontrar um novo lar em terras britânicas, as crianças ajudadas por Winton eram colocadas em um trem que saía da principal estação de Praga em direção à Liverpool Street Station, em Londres. Poucas delas chegaram a reencontrar suas famílias depois da guerra.

Entre março e setembro de 1939, Winton organizou o deslocamento em oito trens. O nono e último trem, que levaria 250 menores refugiados, não conseguiu partir de Praga devido ao início da guerra, e acredita-se que a maioria das crianças a bordo tenham morrido em decorrência dela.

Invasão da Tchecoslováquia

O plano de Winton entrou em ação em uma Tchecoslováquia controlada por Hitler. O fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a derrota alemã e a crise econômica na década de 1920 foram o pano de fundo para a ascensão da extrema direita na Alemanha, que deixou de ser um império para tornar-se uma República após a guerra. Em 1933, o partido do qual Hitler estava à frente ganhou força e ele passou a atuar como chanceler do Reich, ou chefe de governo, até assumir o controle total do Estado.

Os nazistas defendiam a militarização do país e uma expansão territorial que permitiria a criação de um espaço vital para a “raça ariana”. Assim, depois de concluir o plano de unificação da Alemanha com a Áustria em março de 1938, chamado Anschluss, os germânicos se voltaram para a conquista da Tchecoslováquia.

Em setembro daquele ano, Alemanha, Inglaterra, França e Itália assinaram o Acordo de Munique, que permitiu a anexação dos sudetos ao Estado então governado por Hitler. Na fronteira com a Alemanha, os sudetos correspondem a uma região ao noroeste da antiga Tchecoslováquia em que habitavam cerca de 3 milhões de pessoas de origem alemã.

Com o estabelecimento desse acordo, que tinha o objetivo de manter a paz entre as nações, o país localizado onde hoje estão as repúblicas Tcheca e da Eslováquia perdeu a soberania do território.

Território da Tchecoslováquia entre 1928 e 1938. Após a Segunda Guerra, a Rutênia foi cedida à União Soviética — Foto: Wikimedia Commons
Território da Tchecoslováquia entre 1928 e 1938. Após a Segunda Guerra, a Rutênia foi cedida à União Soviética — Foto: Wikimedia Commons

Em 15 de março de 1939, a Alemanha ocupou as regiões da Boêmia, onde está localizada Praga, e da Morávia. Com isso, a tensão aumentou entre as famílias refugiadas na capital. Em 1º de novembro de 1939, quando a Polônia foi invadida, França e Reino Unido declararam guerra, o que levou ao fechamento das fronteiras alemãs e à interrupção do transporte de refugiados.

Em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, a região dos sudetos foi recuperada pela Tchecoslováquia e os alemães que nela habitavam foram expulsos em massa.

As memórias e os registros das crianças transportadas com ajuda de Nicholas Winton ficaram gravados no livro de memórias que ele mesmo fez e manteve guardado por 50 anos até decidir compartilhar sua história. Esse scrapbook foi doado e agora faz parte da coleção do museu Yad Vashem, em Israel, criado como um memorial das vítimas judaicas do Holocausto.


Fonte:https://revistagalileu.globo.com/cultura/cinema/noticia/2024/03/uma-vida-o-contexto-historico-do-filme-sobre-criancas-salvas-do-nazismo.ghtml

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