Tratada
como doença respiratória em suas primeiras semanas de observação, a Covid-19 se
apresentou como uma doença sistêmica Foto: Editoria de arte
Sequelas da Covid-19: complicações em vários órgãos indicam uma
doença sistêmica
Especialistas
investigam os impactos definitivos que podem ser gerados em diferentes áreas do
corpo pela doença
Paula
Lacerda
05/05/2020
- 04:30 / Atualizado em 10/05/2020 - 09:48
RIO - Tratada como doença respiratória em suas primeiras semanas de
observação, a Covid-19 se apresentou,
pouco a pouco, como uma doença sistêmica, trazendo
complicações para diferentes órgãos do corpo. A reportagem do GLOBO ouviu
especialistas de diferentes áreas da medicina para saber como a doença, em seus
estágios graves de evolução, vem agindo em diferentes sistemas e o que se pode
esperar de sequelas definitivas para pacientes recuperados da doença. Todos
afirmam: a Covid-19 ainda está sendo estudada, e a cada dia é uma descoberta.
A
Covid-19 afeta outros órgãos além do pulmão?

Efeitos Covid-19 Foto: Editoria de arte
A Covid-19 é uma doença sistêmica. Passamos algumas
semanas tratando-a como uma doença fundamentalmente
respiratória, ligada a uma pneumonia viral, mas logo em seguida
se viu o quanto a doença comprometia outros sistemas do corpo. A observação
mostrou que havia, junto com ela, um comprometimento vascular e
cardiovascular, levando com muita frequência à insuficiência renal, e também um
comprometimento na coagulabilidade do sangue, caracterizando-se por um fenômeno
de trombogênese, com tendência a trombose e a embolia. Além disso, foi
percebida uma série de manifestações de natureza neurológica, como a perda
do olfato e a perda do paladar. O fenômeno inflamatório é de tal ordem que
pode causar até encefalite, que seria a inflamação no cérebro. Isto é menos
comum, porque o sistema nervoso central humano é muito protegido, mas
alguns pacientes evoluíram para este quadro.
A
Covid-19 pode deixar sequelas definitivas no funcionamento destes sistemas?

Efeitos da Covid-19 Foto: Arquivo de arte
Ainda não há um "recuo
histórico" e trabalhos suficientes publicados para definir as sequelas
possíveis da Covid-19. A infecção pelo virus Sars-CoV-2 é bastante nova e
ainda desconhecida. Estamos aprendendo a cada dia, com dados novos que surgem
muito rápido. Mas se trabalha com a possibilidade da ocorrência de
sequelas em estudos de diferentes áreas. Estima-se que 81% das pessoas vão
ter a forma leve da doença, sem indicação de danos permanentes aos órgãos. Já
cerca de 19% vão ter a forma grave da Covid-19 e, desses, 5% podem apresentar
um quadro bem crítico, evoluindo com choque e disfunção de múltiplos órgãos.
Dependendo do tipo de dano causado, o paciente pode desenvolver disfunções
definitivas.
As sequelas se dariam apenas em
pacientes que tiveram seus quadros agravados e passaram um bom tempo na UTI?

Efeitos
da Covid-19 Foto: Editoria de arte
No geral, sim. As sequelas, se acontecerem,
provavelmente serão naqueles que tiveram a forma grave da doença com comprometimento
de múltiplos órgãos.
Quais seriam as
sequelas no pulmão após a recuperação da doença?

Efeitos
da Covid-19 Foto: Editoria de arte
Quando o tempo de internação é muito extenso e o paciente
permanece um longo período em ventilação mecânica, muitas vezes é exigido que
ele passe por um processo gradual até que volte às suas atividades habituais,
incluindo a fisioterapia pulmonar para que o órgão recupere suas funções. Mas
não se sabe ainda se pacientes que evoluíram com um grave comprometimento
do pulmão, de até 70 ou 80% do órgão, terá sequelas definitivas. Em caso
afirmativo, seriam sequelas do ponto de vista funcional, de perda em capacidade
respiratória. Sequelas tanto de natureza obstrutiva (como um enfisema ou uma
bronquite crônica, levando à necessidade de medicamentos por toda a
vida) como de natureza restritiva (como a fibrose de áreas nobres do
pulmão).
Como a Covid-19 pode afetar o coração?

Efeitos
da Covid-19 Foto: Editoria de arte
Existem várias hipóteses. Por mecanismos diretos,
com o vírus entrando nas células do coração e causando inflamação, ou por
mecanismos indiretos, através de uma desregulação do sistema
renina-angiotensina-aldosterona (eixo endócrino que controla o volume de
líquido extracelular e a pressão arterial) que pode afetar o sistema
cardiovascular de várias maneiras. O coração também pode por ser afetado pela
baixa concentração de oxigênio gerada pela insuficiência respiratória, pela
tempestade de citocinas (substâncias que podem deprimir a função cardíaca) e
por isquemia devido à formação de coágulos na microcirculação. Há, também,
relatos de infarto porque a doença predispõe à ruptura de placas e à síndrome
chamada de Takotsubo (coração partido), devido a uma descarga de hormônios
vasoativos.
A Covid-19 pode
causar lesões cardíacas mesmo em indivíduos sem doenças coronárias antes da
doença?
Sim. Em casos críticos, o coração é um órgão
frequentemente afetado e aí, dependendo do tipo de lesão, se isquêmica ou inflamatória,
o paciente pode desenvolver insuficiência cardíaca.
Que tipo de
complicações a Covid-19 pode trazer para quem tem doenças cardiovasculares
preexistentes?

Efeitos
da Covid-19 Foto: Editoria de arte
Pacientes com doenças cardiovasculares preexistentes,
como hipertensão arterial sistêmica, miocardiopatia e ateriosclerose, estão sob
maior risco. O vírus tem provocado uma inflamação do endotélio dos vasos,
que é a camada de células que recobrem a parte interna dos vasos, levando a uma
desregulação dos neurormônios. Pacientes com doenças cardíacas e hipertensão já
têm essa desregulação e aí seriam mais predispostos. Outro problema é que
qualquer quadro infeccioso demanda mais do coração e, então, um paciente com a
função já comprometida é mais susceptível à piora. Existe ainda a teoria de que
a porta de entrada do vírus é a enzima conversora da angiotensina 2, que
está presente nos pulmões e tem ação protetora. Essa enzima está presente em
maiores concentrações em quem tem doenças cardiovasculares. Talvez por isso
esses doentes sejam mais suscetíveis às formas mais graves de SARS-COV-2.
Como o
coronavírus está relacionado ao surgimento de fenômenos como trombose e
embolia?

Efeitos da
Covid-19 Foto: Editoria de Arte
Estamos elucidando
esse mecanismo, mas a interação entre infecções graves virais e tromboses é
conhecida. De uma forma simples, o vírus ataca vários tecidos, particularmente
os pulmões. Existe em alguns pacientes uma reação inflamatória anormal
exacerbada, com a tempestade de citocinas, que acabam ativando a cascata de
coagulação. Trombos pulmonares em Covid-19 provavelmente se desenvolvem como
consequência de lesão direta dos vasos sanguíneos pela infecção viral
e pela inflamação grave. Esses eventos ativam ainda mais os mecanismos
envolvidos na formação dos coágulos, piorando os quadros de trombose. Como
tratar essas complicações graves é o que estamos aprendendo. O importante é não
piorarmos essa coagulopatia.
Quais os protocolos adotados com
pacientes de Covid-19 em relação ao tratamento com anticoagulantes, mesmo após
a alta?
Os
que vínhamos usando antes da pandemia, validados por estudos clínicos sérios e
descritos em guidelines internacionais. Protocolos novos inventados não ajudam
em nada, pois não sabemos as consequências de aumentar a dose de
anticoagulantes em uma doença tão desconhecida. Estamos iniciando estudos agora
com doses diferentes de anticoagulantes para a Covid-19, mas ainda não há
resposta. É em situações de catástrofe que mais precisamos de dados confiáveis,
e esses dados só vêm por meio de estudos prospectivos, controlados e
randomizados bem feitos.
Quais as sequelas do ponto de vista cardiovascular que pacientes recuperados da Covid-19 podem ter?
Quais as sequelas do ponto de vista cardiovascular que pacientes recuperados da Covid-19 podem ter?
Alguns
pacientes desenvolvem miocardiopatias; outros, sequelas decorrentes de AVC
isquêmico; outros, hipertensão pulmonar secundária à trombose e embolia
pulmonar desencadeada pela infecção. Outros desenvolvem fibrose pulmonar
secundária à infecção. Já vimos três casos de tromboses arteriais associadas à
Covid-19. Felizmente, muitos pacientes saem sem complicações graves.
Como a
Covid-19 pode afetar os rins?

Efeitos
da Covid-19 Foto: Editoria de Arte
Os rins são órgãos frequentemente acometidos
diretamente pela infecção do coronavírus, especialmente nos casos moderados e
graves da doença. A presença de proteína e hemácias (sangue) em quantidade um
pouco maior que o normal ocorre em quase metade destes casos. Em uma
porcentagem muito pequena, a infecção renal pode levar a uma pequena redução da
função dos rins. Nos casos graves, a falência aguda dos rins é bastante comum,
ocorrendo em 50 a 80% dos casos, devido à agressão de múltiplos órgãos,
com a queda da pressão arterial, inflamação, alterações na coagulação do sangue
e o uso de remédios que agridem os rins. A terapia por hemodiálise é frequente
e precocemente utilizada, nestes casos.
Tal comprometimento pode gerar alguma sequela na função renal do paciente, após A resposta a esta pergunta não é, ainda, muito clara, mas de maneira geral casos de falência renal aguda grave, de diferentes causas, podem deixar cicatrizes renais e causar redução crônica da função renal.
Como a Covid-19 pode afetar o sistema neurológico? sua cura?
Tal comprometimento pode gerar alguma sequela na função renal do paciente, após A resposta a esta pergunta não é, ainda, muito clara, mas de maneira geral casos de falência renal aguda grave, de diferentes causas, podem deixar cicatrizes renais e causar redução crônica da função renal.
Como a Covid-19 pode afetar o sistema neurológico? sua cura?
Estudos mostram que a doença tem
tido algumas implicações neurológicas, agindo no Sistema Nervoso Central (SNC),
no periférico (SNP) e na fibra muscular. Entre os sintomas da infecção já
detectados, estão a perda de olfato (anosmia) e a do paladar (ageusia),
mostrando que o vírus atuou sobre nervos cranianos. Em casos mais raros,
relatou-se a invasão do cérebro pelo vírus, em uma encefalite. É cedo para
dizer se as consequências destas implicações acontecerão a longo prazo ou
definitivamente, mas o que tudo indica é que o prolongamento dos cuidados
intensivos pode ocasionar miopatia (doença da fibra muscular) e outras doenças
envolvendo o sistema nervoso.
Especialistas ouvidos: Margareth
Dalcolmo, pneumologista, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e
colunista do GLOBO; Eduardo Ramacciotti, cirurgião vascular, professor de
Trombose e Hemostasia no Loyola University Medical Center, em Chicago, e
professor de Cirurgia Vascular na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa
de São Paulo; Audes Feitosa, cardiologista da Universidade de Pernambuco
(UPE) e presidente do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade
Brasileira de Cardiologia; Simone Brandão, médica nuclear e cardiologista e
professora do Departamento de Medicina Clínica da Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE); e Vinicius Delfino, diretor científico da Sociedade
Brasileira de Nefrologia (SBN).

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