Meninas
caminham à beira-mar no distrito de al-Mamzar, em Dubai, em 14 de maio, após
flexibilização das medidas de bloqueio da pandemia.KARIM SAHIB / AFP
99% dos infectados pelo coronavírus geram anticorpos
Vários
estudos indicam que as pessoas desenvolvem imunidade duradoura contra o vírus e
que as reinfecções não são possíveis
Médicos
e cientistas de todo o mundo estão à procura de super-heróis disfarçados de
gente normal. São pessoas que, depois de infectadas pelo coronavírus, desenvolveram anticorpos de
grande eficácia para neutralizar esse agente patogênico. Seu plasma sanguíneo é um dos possíveis
tratamentos para salvar a vida de outros pacientes. Mas encontrar os melhores
anticorpos é uma tarefa de dimensões cosmológicas. Cada pessoa tem mais de um
bilhão de células imunológicas B, cada uma delas capaz de fabricar um tipo de
anticorpo específico, único. Se isso se multiplicar pelos mais de quatro
milhões de infectados que há em todo mundo, o resultado são quatro quatrilhões
de possibilidades, 2.000 vezes mais que o número de estrelas em todo o
universo.
Há alguns
dias foram publicados os dados da maior pesquisa desse tipo já realizada até o momento.
É uma análise de 1.343 pessoas de Nova York e arredores com infecções
confirmadas ou suspeitas. A imensa maioria eram casos leves. Os resultados do
trabalho revelam um dado tranquilizador: 99% dos 624 casos confirmados
desenvolveram anticorpos contra o vírus SARS-Cov-2.
Embora
dependa de cada caso e ainda não esteja demonstrado, é de se esperar que esses
anticorpos confiram certa imunidade. A possibilidade de alguém se infectar duas
vezes perde força. De fato, os principais defensores desta teoria, as
autoridades sanitárias da Coreia do Sul, reconheceram que os 260 possíveis
reinfectados que haviam sido detectados eram falsos positivos.
O estudo dos EUA ainda é preliminar e não
foi revisto por especialistas independentes, mas seus autores, da Escola de
Medicina do Hospital Monte Sinai, de Nova York, integram as equipes mais
prestigiosas em seu campo e participam do ensaio clínico para tratar doentes da covid-19 com plasma hiperimune.
O mais
promissor do trabalho é que a quantidade de anticorpos gerados é independente
da idade, do sexo e da gravidade da doença: todos parecem produzir essas
proteínas protetoras. Os pacientes mais graves geram inclusive mais anticorpos,
conforme demonstrou um estudo preliminar na China com 175 pacientes,
de modo que, teoricamente, estariam tão ou mais protegidos que os demais,
raciocinam os autores do trabalho.
Outra
derivada importante: as pessoas alcançam seu pico de produção de anticorpos 15
dias depois de terem desaparecido os sintomas, por isso se recomenda esperar
umas duas semanas depois da recuperação para fazer um teste confiável, ou do contrário
haverá falsos negativos. Talvez por isso
estudos anteriores mostrem que algumas pessoas superam a doença sem terem
gerado anticorpos, apontam os autores.
A quantidade
de anticorpos em um paciente está correlacionada com a capacidade de
neutralização do vírus por parte do seu plasma, conforme explicava a mesma
equipe em um estudo prévio para demonstrar a validade de seu teste publicado na Nature Medicine. Os anticorpos se unem à
proteína S que o vírus usa para penetrar nas células humanas e assim evitam
novas infecções. Porém, o trabalho recorda que ainda não se sabe qual
quantidade de anticorpos é necessária para garantir a imunidade, nem qual a sua
capacidade neutralizadora, algo que deverá ser demonstrado a partir de agora.
“Isto
demonstra finalmente algo que considerávamos evidente, mas que não pôde ser
confirmado pela escassa fiabilidade dos testes”, explica Carmen Cámara,
imunologista do Hospital La Paz (Madri) e secretária da Sociedade Espanhola de
Imunologia. “A de Nova York é a corte de pessoas mais amplo que conhecemos até
o momento, e foi feita com um teste absolutamente validado que tem uma
efetividade de 92%. É algo que até agora, com os testes comerciais, era
impossível, pois inclusive os que dizem ter uma eficiência de 80% na realidade
oferecem 40%”, explica.
Um trabalho feito na China com 14
pacientes recuperados forneceu outro dado positivo: a maioria não só gera
anticorpos neutralizadores (IgG), mas também linfócitos T capazes de destruir
as células infectadas. “Em uma infecção, é vital destruir a fábrica de
armamento, as células infectadas, e não só o armamento, as partículas virais”,
explica a imunologista Margarida del Val, do CSCI (agência estatal de pesquisa
cientifica da Espanha). Este estudo “é uma boa notícia”, ressalta,
acrescentando que “por sorte o novo coronavírus não escapa de que se ative todo
o armamento imunológico”.
Agora a
grande incógnita é quanto dura a imunidade: meses, anos? A dura realidade é que
só se saberá com o passar do tempo. Até então, só é possível traçar hipóteses
baseadas no que se sabe sobre outros vírus. Os coronavírus humanos geneticamente mais
parecidos com o novo SARS-CoV-2 são os da SARS e da MERS. Em ambos os casos, foram
detectados anticorpos neutralizadores em pacientes até três anos depois da
infecção. No caso do vírus da SARS continua havendo anticorpos neutralizadores
após 13 anos. A dúvida é se continuam funcionando, algo difícil de responder.
A melhor
forma de provar que um anticorpo funciona é colocá-lo para lutar contra o vírus
num cultivo de células humanas sadias. Isto só pode ser feito em laboratórios
de alta segurança ― nível P -3. “Na rotina hospitalar esse tipo de experimento
é impensável, não temos P-3 e seria impossível analisar os anticorpos de cada paciente em
um estudo deste tipo”, explica Cámara.
Outra opção é
empregar animais humanizados que produzem a proteína ACE2, que
o coronavírus usa para invadir nossas células. Isto é o que fez um grupo de
cientistas chineses num estudo publicado esta semana na Science.
Demonstraram que dois anticorpos isolados de um paciente foram capazes de
reduzir o nível de vírus nos pulmões dos ratos, e um deles evitou lesões nestes
órgãos. Outro trabalho, este preliminar, mostra
dados de um paciente que gerou mais de 200 anticorpos diferentes contra o
vírus, entre eles dois capazes de neutralizá-lo em 99%. Isto indica que a
resposta imunológica é potente e específica para o novo vírus, pois esses
mesmos anticorpos não se unem aos vírus da SARS ou da MERS, cuja proteína S é
ligeiramente diferente na região que se une às células humanas, conhecida como
domínio de ligação ao receptor (RBD, na sigla em inglês).
Na Espanha, a busca de soro hiperimune está
começando agora. Até o momento, não se sabe quem podem ser os melhores
doadores. Em um princípio, pensou-se que seriam jovens com uma forma leve da
enfermidade, mas depois se comprovou que as pessoas mais idosas e graves
desenvolvem mais anticorpos e têm mais potencial, explica Cristina Avendaño,
farmacologista do Hospital Puerta de Hierro, nos arredores de Madri, que
coordena um ensaio clínico com plasma hiperimune em 30 hospitais espanhóis.
“Por enquanto temos pouco mais de 100 doadores e 61 pacientes, mas ainda
devemos determinar a efetividade dos diferentes anticorpos”, explica. Para
isso, José Alcamí, pesquisador do Centro Nacional de Microbiologia, concebeu
uma maneira de evitar a necessidade de usar um laboratório de segurança máxima.
Trata-se de empregar versões desativadas do vírus da Aids, incapazes de gerar a doença, às
quais se acrescenta a proteína S do coronavírus em seu invólucro externo. Como
se de um videogame se tratasse, esse pseudovírus e os
anticorpos do plasma de cada paciente combatem numa espécie de dojo composto de
células humanas saudáveis. Quanto menos células infectadas houver ao final do
combate, mais efetivo será o soro. É por isso que, na Espanha, médicos buscam
os super-heróis do coronavírus, cujo sangue poderia salvar vidas. Alcamí espera
ter resultados no final deste mês.

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