“Xi elogiou o mestre da navegação da dinastia Ming, almirante Zheng He, antes de oferecer uma metáfora da nova ordem comercial mundial que acabava de delinear”
Vem aí uma
globalização à chinesa?
Pequim
lança Nova Rota da Seda, megaprojeto de infraestrutura que terá enorme impacto
na Ásia e chegará à Europa Ocidental. Presidente Xi afirma que não se trata de
neocolonialismo disfarçado
Publicado 17/05/2017 às
19:18 - Atualizado 15/01/2019 às 18:02
Por Pepe Escobar
O presidente Xi Jinping invoca heróis da dinastia Ming,
estratégias geopolíticas de desenvolvimento e analogias com os gansos selvagens
asiáticos para retratar a iniciativa chinesa Novas Rotas da
Seda como nave madrinha de uma nova ordem mundial focada no
comércio.
O presidente Xi Jinping usou o Fórum Internacional Nova Rota da
Seda, de dois dias, em Pequim, para fixar a China como a nave madrinha de nova
ordem mundial benigna, focada no comércio. Esse é, disse Xi, um “novo modelo de
ganha-ganha e cooperação” que prevalecerá sobre a diplomacia dos canhões.
No início da conferência, a rede estatal chinesa Xinhua cuidou
de esclarecer que a iniciativa – oficialmente chamada, antes, de “Um Cinturão,
Uma Estrada” [ing. One
Belt, One Road (OBOR)] e chamada agora “Iniciativa Cinturão e Estrada”
[ing. Belt and Road
(BRI)] — nada tinha de “neocolonialismo disfarçado”.
“A China não carece de estados fantoches” – disse Xinhua, repetindo, na
essência, o que Xi disse em seu discurso histórico.
“A China quer partilhar sua experiência de desenvolvimento com o
resto do mundo” – disse Xi –, “mas não intervirá nos assuntos internos de
outros países, não trabalhará para exportar nosso sistema social e nosso modelo
de desenvolvimento, nem forçará outros países a aceitá-los.”
O Comunicado que o Fórum distribuiu – um resumo dos pontos principais
do discurso de Xi – registrava que as nações representadas em Pequim
comprometiam-se a promover “cooperação prática por estradas, ferrovias, portos,
vias marítimas e internas de transporte por água, aviação, oleodutos e
gasodutos de energia, eletricidade e telecomunicações “.
O Big
Business também estava lá representado e, pelo que se diz,
entusiasmadíssimo.
Jack Ma de Alibaba, tão comprometido com
promover uma Plataforma eletrônica de Comércio Mundial, falou à mídia chinesa
durante o Fórum e saudou o movimento da iniciativa BRI para “incluir jovens, mulheres, empresas
pequenas e países em desenvolvimento.”
No último dia do Fórum, Pequim construiu até uma espécie de
Nações Unidas da Nova Rota da Seda, no formato de uma Mesa Redonda de Líderes,
com microfones igualmente abertos e acessíveis a todos. O evento foi ilustração
elegante e cheia de estilo de como Xi deseja que o mundo veja a iniciativa
chinesa.
“A intenção primária e mais alto objetivo da ‘Iniciativa
Cinturão e Estrada'” é permitir que cada membro se associe ao processo de
enfrentar os desafios econômicos globais, encontre novas oportunidades e
motores de crescimento, alcance situação de ganha-ganha e continue a andar na
direção de uma comunidade com destino coletivo” – disse Xi.
Xi elogiou o mestre da navegação da dinastia Ming, almirante
Zheng He – como “emissário amistoso” – antes de oferecer uma metáfora da nova
ordem comercial mundial que acabava de delinear.
“Os gansos-cisnes selvagens“, disse ele, de uma
grande ave selvagem, rara, encontrada na Ásia, mas não na Europa” – voam muito
longe e em plena segurança vencendo ventos e tempestades, porque voam em bandos
e ajudam-se uns os outros, como equipe.”
Monte
num cisne selvagem
Não há dúvidas de que as Novas Rotas da Seda encontrarão
turbulência pela frente. No Fórum, a ministra de Economia e Energia da
Alemanha, Brigitte Zypries, ameaçou não assinar o comunicado final, se não
houvesse firmes garantias para livres concorrentes – sem favoritismos para
empresas chinesas – relacionados a outros projetos futuros de OBOR/BRI.
Sim, mas… em termos de expansão/exploração/construção de ferrovias,
quem poderia competir com a China?
Trens de carga partem já regularmente da China oriental e da
China central, atravessando as estepes da Ásia Central e apontam pontualmente a
milhares de quilômetros de distância em 17 dias, antes de chegar a Londres,
Madrid, Duisburg ou Lyon. Partem lotados de produtos domésticos, roupas e peças
de reposição de maquinário, e voltam com produtos químicos, vinhos e produtos
para bebês.
É duas vezes mais rápido que o comércio por mar, ainda que um
trem de carga carregue menos de 100 contêineres, comparados com os mais de 20
mil que viajam por navios cargueiros. Mas o que realmente interessa é que até
aí é só a primeira perna de uma futura rede de ferrovias para trens de alta
velocidade que ligarão o leste da China à Europa via a Ásia Central.
Estão previstas no plano de expansão também parcerias
público-privadas. Por exemplo, o primeiro ramo da Ferrovia Rota da Seda, que
liga Chongqing a Duisburg, foi promovida na verdade, há seis anos passado, não
por políticas de Pequim, mas pela gigante Hewlett-Packard do Vale do Silício,
para embarcar milhões de notebooks para a Europa, por trem.
Mas agora a política da China avança rapidamente por toda a
Europa. No Fórum, a Europa Oriental estava pesadamente representada e a região
está sendo ajudada por um fundo criado há três anos, para investir,
inicialmente, US$10 bilhões de euros.
Ano passado, China Everbright comprou o aeroporto de Tirana, na
Albânia. O China Exim Bank está financiando a construção de rodovias em
Macedônia e Montenegro. Em 2014, China Road & Bridge Corporation construiu
uma ponte sobre o rio Danúbio em Belgrado, a chamada “ponte da amizade
sino-sérvia”, a maior parte da qual foi financiada pelo China Exim Bank.
E há a ferrovia de trens de alta velocidade entre Atenas e
Budapeste, via Macedônia e Belgrado. O ramo crucial Budapeste-Belgrado – não
liberado pela União Europeia – deve entrar em operação finalmente ainda esse
ano.
Mais uma vez, a geoeconomia empurra a geopolítica. Ao investir
num corredor do Mar Egeu até a Europa Central, Pequim estará estimulando
ativamente o comércio a partir do famoso porto grego de Pireu, que na verdade
já está sob controle chinês desde 2010.
E
agora a batalha por soft
power
Zhou Wenzhong, secretário-geral dos fóruns regionais de negócios
de alto nível, o Boao
Forum para Ásia, fala das Novas Rotas da Seda como “a resposta da
China à globalização”. Mas é realmente mais que isso. É realmente a visão do
novo mundo. Visão composta de tantas partes, todas em movimento constante, que
até agora continua difícil de definir.
Xi usou o Fórum para tentar esclarecer o conceito, mas verdade é
que só as condições e circunstâncias em campo definirão as diferentes
estratégias no futuro. Incluirão, para cada projeto, coordenação política e de
financiamento que tenham potência para empurrar a iniciativa além de um boom de
infraestrutura.
O Fórum já deixou claro como atores muito significativos
disputam posições. Já se observa surto de competição entre Hong Kong e Londres
sobre quem será a fonte privilegiada de financiamento. Enquanto Hong Kong mantém-se
como centro offshore número
um do mundo para compensações em yuan, o chanceler britânico Philip Hammond já
enfatiza que Londres continua a ser o principal centro financeiro do mundo,
insuperável para prover as necessidades “de banking internacional” das Novas Rotas da Seda.
A revoada dos gansos-cisnes já começou. A próxima grande
pergunta é com que ênfase as Novas Rotas da Seda reescreverão as regras do jogo
do comércio global, sem agitar demais atores ultrassensíveis, como a Índia. Mas
é bem aí que se insere o chip do soft power.
Agora, os gansos-cisnes de Pequim começam a trabalhar para
seduzir o Sul Global e trazê-lo para uma parceria irresistível que transcende o
mero comércio.
Fonte: https://outraspalavras.net/sem-categoria/vem-ai-uma-globalizacao-a-chinesa/
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