Rússia e China: fim
do mundo unipolar?
Uma Guerra
Fria 2.0 pode estar a caminho: depois de sanções dos EUA a Huawei, Xi Jinping e
Putin aprofundam cooperação. Planos de integrar a Eurásia são ameaça a
hegemonia de Washington — e podem alterar a balança geopolítica
Por Pepe
Escobar | Tradução: Gabriela
Leite
Publicado 12/06/2019 às 18:08 - Atualizado 24/12/2019 às 11:05
Um fato extraordinário começou com uma caminhada curta em São
Petersburgo, na última sexta-feira.
Depois de um passeio, eles pegaram um barco no Rio Neva,
visitaram o lendário navio de cruzeiro Aurora, e deram um pulo no Hermitage,
para examinar algumas das obras-primas do Renascimento. Tranquilos, calmos,
plenos, a todo o momento parecia que estavam mapeando as entradas e saídas de
um novo, emergente mundo multipolar.
O presidente chinês Xi Jinping foi o convidado de honra do
presidente russo Vladimir Putin. Foi a oitava viagem de Xi à Rússia desde 2013,
quando anunciou a Nova Rota da Seda, ou Iniciativa do
Cinturão e Rota (BRI, na sigla em inglês).
Primeiro, se encontraram em
Moscou, assinando diversos acordos. O mais importante foi uma grande surpresa:
o compromisso de desenvolver o comércio bilateral e os pagamentos
transfronteiriços usando o rublo e o yuan, evitando o dólar norte americano.
Então, Xi visitou o Fórum Internacional Econômico de São
Petersburgo (SPIEF, na sigla em inglês), principal reunião de negócios da
Rússia, absolutamente essencial para quem quiser entender os mecanismos hiper
complexos inerentes à construção da integração da Eurásia. Abordei algumas das
principais discussões e mesas redondas do SPIEF, aqui.
Em Moscou, Putin e Xi assinaram duas declarações conjuntas —
cujos conceitos chave, crucialmente, são “parceria abrangente”, “interação
estratégica” e “estabilidade global estratégica”.
Em seu discurso em São Petersburgo, Xi salientou a “parceria
estratégica abrangente”. Enfatizou que a China e a Rússia estão ambas
comprometidas com o desenvolvimento verde, sustentável e de baixo carbono.
Descreveu a expansão da Nova Rota da Seda como “consistente com a agenda das
Nações Unidas de desenvolvimento sustentável”, e elogiou a interconexão do
projeto com a União Econômica Eurasiática (EAEU, na sigla em inglês). Enfatizou
como tudo isso possui consistência com a ideia de Putin de uma Grande Parceria
Eurasiática. Exaltou o “efeito sinergético” da Rota, ligado à cooperação
Sul-Sul.
Crucialmente, Xi enfatizou que a China “não vai buscar
desenvolvimento às custas do meio ambiente”; que o país “vai implementar
o acordo climático de Paris”; e que estão “prontos para compartilhar a
tecnologia 5G com todos os parceiros”, a caminho de uma mudança fundamental no
modelo de crescimento econômico.
E quanto à Guerra Fria 2.0?
Era óbvio que isso estava sendo lentamente fermentado nos
últimos seis anos. Agora, o negócio está em aberto. A parceria estratégica
abrangente Rússia-China está prosperando: não como um tratado aliado, mas como
um caminho sólido rumo à integração da Eurásia e à consolidação de um mundo
multipolar.
O unipolarismo — via sua matriz de demonização — primeiro
acelerou o protagonismo da Rússia na Ásia. Agora, a guerra comercial travada
pelos EUA facilitou a consolidação da Rússia como principal parceiro
estratégico da China.
É bom que o ministro de Relações Exteriores da Rússia esteja
pronto para repudiar afirmações quase diárias que virão, por exemplo, do
presidente do Estado-Maior
Conjunto dos Estados Unidos, o general Joseph Dunford, quando
alega que Moscou pretende usar armas nucleares não-estratégicas. É parte de um
processo ininterrupto — agora em marcha rápida — de gerar histeria ao
aterrorizar os aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) com
a “ameaça” russa.
É melhor que Moscou esteja pronto para se esquivar e neutralizar
as resmas de relatórios como as últimas da RAND Corporation,
entidade que desenvolve pesquisas para o Departamento de Defesa dos Estados
Unidos, que delineia — como não? — uma Guerra Fria 2.0 contra a Rússia.
Em 2014 a Rússia não reagiu às sanções impostas por Washington.
Naquele momento, bastava simplesmente ameaçar uma inadimplência de U$ 700
bilhões (R$ 2,715 trilhões) da dívida externa. Isso teria aniquilado as
sanções.
Agora, há amplo debate dentro dos círculos de inteligência
russos sobre o que fazer no caso de Moscou enfrentar a expectativa de ser
cortado do sistema de compensação financeira CHIPS-SWIFT.
Com poucas ilusões sobre o que pode se passar na reunião do G20
em Osaka, no fim do mês, em termos de um avanço entre as relações EUA-Rússia,
fontes internas me disseram que o CEO da Rosneft, Igor Sechin, está preparado
para mandar uma mensagem mais “realista” — se as pressões finalmente vierem a
impelir.
Sua mensagem à União Europeia, no caso, seria cortá-los fora, e
ligar-se à China de vez. Dessa maneira, o petróleo russo seria totalmente
redirecionado da UE à China, tornando os europeus completamente dependentes do
Estreito de Ormuz.
Pequim, por sua parte, parece ter finalmente compreendido que a
atual ofensiva do governo de Trump não é uma mera guerra comercial, mas um
ataque estabelecido ao seu milagre econômico, incluindo uma ação orquestrada
para cortar a China de grandes faixas da economia mundial.
A guerra contra a Huawei — a galinha dos ovos de ouro da
supremacia 5G chinesa — foi identificada como um ataque à cabeça do dragão.
O ataque à Huawei não diz respeito apenas ao mega hub tecnológico
de Shenzhen, mas ao Delta do Rio das Pérolas inteiro: um ecossistema de 3
trilhões de yuan (1,7 trilhões de reais), que fornece as porcas e parafusos da
cadeia de suprimentos chinesa para as fabricantes de alta tecnologia.
Entrada no Anel de Ouro
Nem o avanço tecnológico da China, nem o conhecimento
hipersônico sem igual da Rússia causaram indisposição à estrutura dos Estados
Unidos. Se há respostas, elas deveriam vir das elites excepcionalistas.
O problema, para os EUA, é a emergência de um rival competidor
admirável na Eurásia — e, pior ainda, uma parceria estratégica. Esse fato jogou
essas elites no modo de Suprema Paranoia, que está fazendo o mundo inteiro de
vítima.
Como contraste, o conceito de um Anel de Ouro de
Grandes Poderes Multipolares tem sido considerada, na qual
Turquia, Iraque, Irã, Paquistão, Rússia e China poderiam providenciar um
“cinturão de estabilidade” para o Rimland do
Sul da Ásia.
Discuti variações dessa ideia com analistas russos, iranianos,
paquistaneses e turcos — mas parece ser demasiado pensamento positivo. Todas
essas nações admitem que o estabelecimento do Anel de Ouro seria bem-vinda; mas
ninguém sabe para que lado o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi,
penderia — intoxicado como está com os sonhos de status de Big
Power, no cerne da mistura indo-pacífica dos Estados Unidos.
Talvez seja mais realista presumir que, se Washignton não for à
guerra contra o Irã — pois o Pentágono estabeleceu que isso seria um pesadelo
–, todas as opções ainda estão se alterando na mesa, do Mar do Sul da China ao
Indo-Pacífico mais amplo.
O Estado Profundo não
vai hesitar em liberar prejuízos concêntricos na periferia da Rússia e da China
e, então, tentar avançar na desestabilização de seu coração a partir de dentro.
A parceria estratégica Rússia-China gerou uma ferida profunda: dói — e como! —
estar de fora da Eurásia.
Fonte: https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/russia-e-china-o-mundo-unipolar-estaria-desmoronando/

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