O declínio do
império militar americano
Suplantados
econômica e cientificamente, EUA preparam-se para reagir no único terreno em
que mantêm supremacia. Mas a aposta pode estar furada
por Alfred W. McCoy
Publicado 18/12/2017 às 07:54 -
Atualizado 13/12/2018 às 12:51
Suplantados econômica e cientificamente, EUA preparam-se para
reagir no único terreno em que mantêm supremacia. Mas os cenários para uma III
Guerra Mundial sugerem: a aposta pode estar furada. O que Pequim tem a ver com
isso?
Por Alfred W. McCoy, na
edição inglesa do Le Monde
Diplomatique | Tradução: Maurício Ayer
—
Esse texto foi adaptado e expandido a partir do novo livro de Alfred W. McCoy, In the Shadows of the American
Century: The Rise and Decline of U.S. Global Power [Nas
sombras do século americano: Ascensão e Declílio do Poder Global dos EUA, sem
edição em português], Haymarket Books, Chicago, 2017
Nos últimos 50 anos, os governantes norte-americanos estiveram
absolutamente confiantes de que poderiam sofrer contratempos militares em
lugares como Cuba ou Vietnã sem ter seu sistema de hegemonia global, sustentado
pela economia mais rica e o mais sofisticado aparato militar do mundo, afetado.
O país era, afinal, a “nação indispensável” do planeta, como a secretária de
Estado Madeleine Albright proclamou em 1998 (e outros presidentes e
políticos reiteraram desde então). Os EUA gozaram da maior “disparidade de
poder” com seus pretensos rivais do que qualquer império que já tenha existido,
como anunciou o
historiador de Yale, Paul Kennedy, em 2002. Certamente, poderia permanecer como
“a única superpotência pelas próximas décadas”, nos assegurou a
revista Foreign Affairs no ano
passado. Ao longo da campanha de 2016, o candidato Donald Trump prometeu aos
seus apoiadores que “nós vamos vencer com força militar… vamos vencer tanto que
vocês vão até ficar cansados de vencer”. Em agosto, enquanto anunciava sua
decisão de mandar mais tropas ao Afeganistão, Trump asseverou à
nação: “A cada geração, enfrentamos o mal, e sempre o superamos”. Neste mundo
em rápida mudança, apenas uma coisa era certa: quando era para valer, os
Estados Unidos nunca podiam perder.
Não é mais assim.
A Casa Branca de Trump pode ainda estar desfrutando do brilho da
supremacia global dos Estados Unidos, mas, do outro lado do condado de Potomac,
o Pentágono formou uma visão mais realista de sua decadente superioridade
militar. Em junho, o Departamento de Defesa expediu um grande relatório intitulado Avaliação
de Riscos em um Mundo Pós-Primazia, opinando que a força militar
dos EUA “já não goza de uma posição inatingível em relação a Estados
competidores”, e “não é mais capaz de gerar automaticamente uma superioridade
militar local sustentável em campo”. Esta avaliação sóbria levou os altos
estrategistas do Pentágono à “chocante consciência de que ‘nós podemos perder’”.
Cada vez mais, na visão dos planejadores do Pentágono, a “autoimagem de um
líder global incomparável” oferece “frágeis fundamentos para uma estratégia de
defesa com visão futura… em um contexto de pós-primazia”. Este relatório do
Pentágono também alertou que, como a Rússia, a China está “engajada em um
deliberado programa para demonstrar os limites da autoridade dos EUA”; veja-se
a aposta de Pequim pela “primazia no Pacífico” e sua “campanha para expandir
seu controle sobre o Mar da China do Sul”.
O
desafio da China
De fato, tensões militares entre os dois países têm crescido no
oeste do Pacífico desde o verão de 2010. Da mesma forma que Washington usou sua
aliança de guerra com a Grã-Bretanha para se apropriar de muito do poder global
daquele império decadente depois da II Guerra Mundial, Pequim começou a usar
seus lucros com a exportação para os EUA para financiar o desafio militar ao
seu domínio sobre as vias navegáveis da Ásia e do Pacífico.
Alguns números reveladores sugerem que a natureza da futura
grande competição por poder entre Washington e Pequim poderá determinar o curso
do século 21. Em abril de 2015, por exemplo, o Departamento de Agricultura relatou que a economia dos EUA pode
crescer próximo de 50% pelos próximos 15 anos, enquanto a China pode
expandir-se 300%, igualando ou superando os Estados Unidos por volta de 2030.
De maneira semelhante, na crucial corrida por patentes globais,
a liderança norte-americana em inovação tecnológica está claramente em
declínio. Em 2008, os Estados Unidos ainda detinham o segundo lugar atrás do
Japão em solicitações de patentes, com 232 mil. A China estava, de todo modo, aproximando-se rapidamente com 195 mil,
graças a um explosivo crescimento de 400% desde 2000. Em 2014, a China
efetivamente tomou a dianteira nessa
categoria crítica com 801 mil patentes, quase a metade do total mundial,
comparado com apenas 285 mil para os estadunidenses.
Com a supercomputação agora ocupando um lugar crítico para tudo,
desde a quebra de códigos até produtos ao consumidor, o Ministério da Defesa da
China superou o
Pentágono pela primeira vez em 2010, lançando o supercomputador mais rápido do
mundo, o Tianhe-1A. Pequim produziu a máquina mais rápida e no ano passado
finalmente venceu de
uma maneira que não poderia ser mais crucial: com um supercomputador que tinha
chips microprocessadores produzidos na China. A essa altura, o país já tem a
maioria dos supercomputadores, com 167 em comparação com 165 dos Estados Unidos
e apenas 29 do Japão.
A longo prazo, o sistema de educação estadunidense, essa fonte
crítica de futuros cientistas e inovadores, ficará para trás de seus
competidores. Em 2012, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento
Econômico fez exames com meio milhões de adolescentes de 15 anos em todo o
mundo. Os de Xangai ficaram em primeiro lugar em
matemática e ciência, enquanto os de Massachusetts, “um estado dos EUA de forte
desempenho”, ficaram em 20º em ciência e 27º em matemática. Em 2015, a posição
estadunidense caiu para 25º
em ciência e 39º em matemática.
Mas por que, você pode perguntar, alguém deveria se preocupar
com um bando de moleques de 15 anos com mochilas, aparelho nos dentes e cheios
de atitude? Porque em 2030 eles serão cientistas e engenheiros em meio de carreira,
determinando quais computadores sobreviverão aos ciberataques, os satélites de
quem vão escapar de ataques de mísseis, e a economia de quem tem o último
lançamento a apresentar.
Estratégias
das superpotências rivais
Com seus recursos crescendo, Pequim tem reivindicado um arco de
ilhas e águas que vão da Coreia até a Indonésia, região por muito tempo
dominada pela Marinha dos EUA. Em agosto de 2010, depois que Washington
expressou o “interesse nacional” pelo Mar da China Meridional e conduziu
exercícios navais ali para reforçar sua reivindicação, o Global
Times de Pequim respondeu com
irritação que “a luta livre entre EUA e China sobre o Mar da China Meridional
elevou as apostas para se decidir quem será o verdadeiro futuro governante do
planeta”.
Quatro anos depois, Pequim ampliou suas reivindicações
territoriais sobre essas águas, construiu uma base para submarino nuclear
na ilha de Hainan e acelerou a
dragagem de sete atóis artificiais para bases militares nas Ilhas Spratly
Islands. Quando o Tribunal Permanente de Arbitragem de Haia decidiu, em 2016, que esses atóis não deram
nenhum direito a reivindicação territorial das áreas circundantes, o Ministério
de Relações Exteriores de Pequim rejeitou a
decisão.
Para fazer face ao desafio da China em alto mar, o Pentágono
começou a enviar uma
série de porta-aviões em cruzeiros de “liberdade de navegação” para o Mar da
China Meridional. Também começou a transferir seus equipamentos aéreos e
marinhos de reposição para uma linha de bases do Japão até a Austrália,
apostando em fortalecer sua posição estratégica ao longo do litoral asiático.
Desde o fim da II Guerra Mundial, Washington tentou controlar a estratégica
massa de terra eurasiana a partir de uma rede de bases militares da OTAN na
Europa e uma cadeia de ilhas como bastiões no Pacífico. Entre as “extremidades axiais” deste vasto continente,
Washington construiu, ao longo dos últimos 70 anos, sucessivas camadas de poder
militar – bases aéreas e navais durante a Guerra Fria e, mais
recentemente, uma linha de 60 bases de drones que se estende da Sicília até
Guam.
Simultaneamente, entretanto, a China conduziu o que o Pentágono
chamou em 2010 de “abrangente transformação de suas forças militares” voltada a
preparar o Exército Popular de Libertação (EPL) “para uma projeção de poder em
um território expandido”. Com “o mais ativo programa de mísseis balísticos e de
cruzeiro de base terrestre” do mundo, Pequim pode colocar como alvo de “suas
forças nucleares amplamente… a maior parte do mundo, inclusive a parte continental
dos Estados Unidos”. Enquanto isso, mísseis acurados hoje fornecem ao EPL a
capacidade de “atacar navios, inclusive porta-aviões, no oeste do Oceano
Pacífico”. Em zonas militares emergentes, a China começou a enfrentar o domínio
estadunidense sobre o ciberespaço e o espaço, com plano de dominar “o espectro
da informação em todas as dimensões do espaço de batalha moderno”.
O exército da China desenvolveu um sofisticado poder de
guerra cibernética por meio de sua Unidade 61398 e empresas aliadas que “cada
vez mais focam… em empresas envolvidas na infraestrutura crítica dos Estados
Unidos – sua rede de energia elétrica, gasodutos e abastecimento de água”.
Depois de identificar essa unidade como responsável por uma série de roubos de
propriedade intelectual, Washington assumiu uma medida inédita, em 2013, de
entrar com ações criminais contra cinco altos oficiais cibernéticos chineses da
ativa.
A China já realizou grandes avanços tecnológicos que poderiam se
provar decisivos em qualquer guerra futura contra Washington. Em vez de
competir em todos os flancos, Pequim, como muitos que adotaram tardiamente a
tecnologia, escolheu estrategicamente áreas chave para perseguir, em particular
os satélites orbitais, que são fulcrais para se defender efetivamente no
espaço. Já em 2012, a China havia lançado 14 satélites em “três tipos de
órbitas” com “mais satélites em alta órbita e… com mais poder anti
blindagem do que qualquer outro sistema”. Quatro anos depois, Pequim anunciou que
estava a caminho de “cobrir o globo inteiro com uma constelação de 35 satélites
até 2020”, ficando atrás apenas dos Estados Unidos no que se refere a sistemas
de satélite operacionais.
Brincando de pega-pega, a China recentemente alcançou avanços
audaciosos em comunicação segura. Em agosto de 2016, três anos depois de o
Pentágono abandonar sua própria tentativa de segurança por satélite em escala
completa, Pequim lançou o
primeiro satélite quântico do mundo, que transmite fótons, tido como
“invulnerável a hackers”, em vez de contar com as ondas de rádio, mais
facilmente violáveis. De acordo com um relatório científico,
essa nova tecnologia irá “criar uma rede de comunicações supersegura,
potencialmente ligando as pessoas em qualquer lugar”. A China estava
planejando, conforme reportado, lançar 20 dos satélites caso a tecnologia
comprove seu completo sucesso.
Para vigiar a China, Washington está construindo uma nova rede
de defesa digital com avançado poder de armas cibernéticas e robótica
aeroespacial. Entre 2010 e 2012, o Pentágono estendeu as operações de drones
até a exosfera, criando uma arena para as guerras do futuro que não se parece
com nada que tenha acontecido antes. Já em 2020, se tudo correr como planejado,
o Pentágono irá cobrir-se com um escudo em três camadas de drones
não-tripulados cobrindo da estratosfera até a exosfera, armados de mísseis
ágeis, ligados por um sistema expandido de satélites e operado por meio de
controles robóticos.
Pesando esse equilíbrio de forças, a RAND Corporation
recentemente publicou um estudo, War with
China [Guerra com a China], prevendo que
até 2025 “a China provavelmente terá mais e melhores armas e maior número
de mísseis, como mísseis balísticos e de cruzeiro; defesas aéreas avançadas;
caças de última geração; submarinos mais discretos; mais e melhores sensores;
comunicações digitais, poder de processamento e C2 [segurança cibernética]
necessários para operar uma integrada cadeia da morte”.
No caso de uma guerra total, sugeriu a RAND, os Estados Unidos
devem sofrer pesadas perdas em seus porta-aviões, submarinos, mísseis e aviões
das forças estratégicas chinesas, enquanto seus sistemas de computadores e de
satélites seriam deteriorados graças ao “aprimorado poder chinês para a guerra
cibernética e ASAT [antisatélite]”. Embora as forças estadunidenses pudessem
contra-atacar, sua “crescente vulnerabilidade” tem como consequência que a
vitória de Washington não estaria assegurada. Em um conflito como este,
concluiu o think tank, pode muito bem
não haver um “claro vencedor”.
Não se engane quanto ao peso dessas palavras. Pela primeira vez,
um dois principais think tanks estratégicos,
muito alinhado com as forças militares dos EUA e há muito tempo famoso pela
influência de suas análises estratégicas, vislumbrou seriamente uma grande
guerra com a China que os Estados Unidos poderiam não vencer.
Terceira
Guerra Mundial: cenário 2030
A tecnologia da guerra espacial e cibernética é tão nova, ainda
não testada, que mesmo os cenários mais estranhos atualmente imaginados pelos
planejadores estratégicos podem logo ser superados por uma realidade ainda
difícil de conceber. Em um exercício de
guerra nuclear em 2015, o Air Force Wargaming Institute usou uma sofisticada
modelagem computadorizada para imaginar “um
cenário de 2030 em que a frota de B-52 da Força Aérea era… atualizada com…
armas aprimoradas” para patrulhar os céus prontos para atacar. Simultaneamente,
“mísseis balísticos intercontinentais novinhos” estão prontos para serem
lançados. Então, em uma arrojada jogada tática, bombardeiros B-1 atualizados
com “Estações de Batalha Integradas (IBS) completas” deslizam sobre as defesas
inimigas para devastadores ataques nucleares.
Esse cenário era sem dúvida útil para os planejadores das Forças
Armadas, mas diziam pouco sobre o verdadeiro futuro do poder global dos EUA. De
modo similar, o estudo da RAND War with China apenas
comparou os poderes militares, sem avaliar as estratégias específicas que cada
lado poderia usar em seu benefício.
Eu posso não ter acesso à modelagem computadorizada do Wargaming
Institute ou aos renomados recursos analíticos da RAND, mas eu posso pelo menos
levar o trabalho deles um passo adiante imaginando um futuro conflito com um
resultado desfavorável para os Estados Unidos. Como potência global ainda
dominante, Washington deverá espalhar suas defesas por todos os domínios
militares, tornando sua força, paradoxalmente, uma fonte de potencial fraqueza.
Como desafiante, a China tem a vantagem assimétrica de identificar e explorar
algumas falhas estratégicas na globalmente esmagadora superioridade militar de
Washington.
Por anos, proeminentes intelectuais chineses da defesa, como Shen Dingli da Universidade de Fudan,
rejeitaram a ideia de se contrapor aos EUA com grande acúmulo de força
naval e argumentaram em
vez disso a favor de “ciberataques, armas espaciais, lasers, pulsos e outros
feixes de energia direcionada”. Em vez de correr para lançar porta-aviões que
“serão queimados” por lasers atirados do espaço, a China deveria, segundo Shen,
desenvolver armas avançadas “para fazer outros sistemas de comando falharem”.
Embora décadas distante de equiparar todo o poder das forças militares globais
de Washington, a China poderia, combinando guerra cibernética, guerra espacial
e supercomputadores, encontrar maneiras de debilitar as comunicações militares
dos EUA e então cegar suas forças estratégicas. Com isso em mente, eis aqui um
cenário possível para a III Guerra Mundial:
São 11:59 da noite, na quinta-feira de Ação de Graças em
2030. Por meses, as tensões cresceram entre as patrulhas chinesas e da Marinha
estadunidense no Mar da China Meridional. As tentativas de Washington de usar a
diplomacia para refrear a China mostraram-se um vergonhoso fracasso entre aliados
de longa data – com a OTAN debilitada por anos de apoio hesitante dos EUA, o
Reino Unido, agora uma potência de terceiro nível, o Japão com uma neutralidade
funcional e outros líderes internacionais frios em relação às preocupações de
Washington após sofrer por muito tempo com sua ciber-vigilância. Com a economia
estadunidense diminuída, Washington joga sua última carta de uma mão cada vez
mais fraca, deslocando seis de seus oito grupos de porta-aviões restantes para
o Pacífico Ocidental.
Em vez de intimidar os líderes chineses, esses movimentos
tornam-nos mais belicosos. Voando a partir de suas bases nas Ilhas Spratly,
seus caças logo começam a zumbir sobre os navios da Marinha estadunidense no
Mar da China Meridional, enquanto as fragatas chinesas provocam dois dos
porta-aviões em patrulha, cruzando cada vez mais perto das suas miras.
Então explode a tragédia. Às 4 horas, numa madrugada
enevoada de outubro, o porta-aviões gigante USS Gerald Ford picota
a velha Fragata 536 Xuchang, afundando o navio chinês
com todos os seus 165 tripulantes. Pequim exige desculpas e reparações. Quando
Washington recusa, a fúria da China vem rápido.
Ao bater a meia-noite da Black Friday, quando os
ciber-compradores invadem os portais da Best Buy em busca dos fortes descontos
nos últimos eletrônicos produzidos em Bangladesh, a equipe da Marinha do Telescópio de Vigilância Espacial em Exmouth, na
Austrália Ocidental, entra em choque. Suas telas panorâmicas do céu do sul
repentinamente ficam pretas. A milhares de quilômetros dali, no centro de
operações do CiberComando dos EUA, no Texas, técnicos das Forças Aéreas
detectam códigos binários maliciosos que, embora inseridos anonimamente nos
sistemas de armas estadunideneses em todo o mundo, mostram as digitais que
identificam o Exército Popular de Libertação da China.
Naquela que os historiadores chamarão de “Batalha dos Binários”,
computadores da CyberCom lançam seus contracódigos matadores. Enquanto alguns
dos servidores provinciais da China perdem dados administrativos de rotina, o
sistema de satélite quântico de Pequim, equipado com a supersegura transmissão
por fótons, se mostra impermeável aos hackers. Enquanto isso, uma armada de
supercomputadores maiores e mais rápidos subordinados à Unidade 61398 de
armamento cibernético de Xangai explode de volta com logaritmos impenetráveis
de inédita sutileza e sofisticação, infiltrando-se no sistema de
satélites dos EUA por meio de seus antiquados sinais de micro-ondas.
O primeiro ataque aberto é tal que ninguém no Pentágono havia
previsto. Voando a 20 mil metros acima do Mar da China Meridional, inúmeros drones MQ-25
Stingray baseados em porta-aviões dos EUA, infectados por malware chineses,
de repente disparam todos os seus projéteis sob sua enorme envergadura em
delta, enviando dezenas de mísseis letais para mergulhar inofensivamente no
oceano, efetivamente desarmando esses armamentos formidáveis.
Determinada a combater fogo com fogo, a Casa Branca autoriza um
ataque em retaliação. Confiante que seu sistema de satélites é impenetrável, os
comandantes das Forças Aéreas na Califórnia transmitem códigos robóticos a uma
flotilha de drones espaciais X-37B,
orbitando a 400 quilômetros acima da Terra, para lançar seus mísseis
Triplo-Exterminadores em muitos satélites de comunicação da China. A resposta é
zero.
Quase em pânico, a Marinha ordena seus destróieres classe
Zumwalt a atirar seus mísseis mortais RIM-174
em sete satélites chineses em órbitas geoestacionárias próximas. Os códigos de
lançamento de repente se mostram inoperantes.
Enquanto os vírus de Pequim se espalham descontroladamente
através da arquitetura de satélites dos EUA, os supercomputadores de
segunda-classe do país não conseguem quebrar os códigos diabolicamente
complexos dos malware chineses. Com
velocidade assombrosa, os sinais de GPS, cruciais para a navegação dos navios e
aviões estadunidenses em todo o mundo ficam comprometidos.
Através do Pacífico, oficiais de convés da Marinha se atropelam
atrás de seus sextantes, lutando para relembrar as velhas aulas de navegação de
Annapolis. Guiando-se pelo sol e pelas estrelas, esquadrões de porta-aviões
abandonam suas estações próximas à costa da China e rumam a vapor para a
segurança do Havaí.
Um furioso presidente estadunidense ordena um ataque de
retaliação em um alvo chinês secundário, a Base Naval de Longpo na ilha de
Hainan. Dentro de minutos, o comandante da Base Aérea Andersen em Guam lança
uma bateria de supersecretos mísseis hipersônicos X-51
“Surfista” que se elevam a 25 mil metros e então viajam através do
Pacífico a 6.400 quilômetros por hora — muito mais rápido do que qualquer
míssil de guerra ou ar-contra-ar chinês. Dentro da Sala de Crise de Casa Branca
o silêncio é sufocante enquanto todos fazem a contagem regressiva de 30 curtos
minutos antes que as ogivas nucleares táticas choquem-se com os rígidos submarinos
de Longpo, encerrando as operações navais chinesas no Mar da China Meridional.
Em meio ao voo, os mísseis inopinadamente mergulham seus narizes no Pacífico.
Em um bunker enterrado profundamente sob a praça Tiananmen, o
sucessor do presidente Xi Jinping, escolhido a dedo, Li Keqiang, ainda mais
nacionalista que o seu mentor, está indignado que Washington tenha tentado um
ataque nuclear tático ao território chinês. Quando o Conselho de Estado da
China vacila ao pensamento de uma guerra aberta, o presidente cita o antigo
estrategista Sun Tzu: “Os guerreiros vitoriosos vencem primeiro e depois vão à
guerra, enquanto os guerreiros derrotados vão à guerra primeiro e depois buscam
a vitória”. Entre o aplauso e o riso, o voto é unânime. É guerra!
Quase imediatamente, Pequim escala de ciberataques secretos para
ações abertas. Dezenas de mísseis chineses SC-19 de última geração decolam para
ataques em satélites de comunicação chave dos EUA, obtendo um alto índice de
mortes cinéticas nessas desajeitadas unidades. Bruscamente, Washington perde
comunicação segura com centenas de bases militares. As esquadras de guerra dos
EUA em todo o mundo estão no solo. Dezenas de pilotos de F-35 que já estão no
ar são cegados quando a tela de seus capacetes equipados com visores aviônicos
fica escura, forçando-os a descer a 3 mil metros para ter uma visão clara
da terra. Sem navegação eletrônica, eles precisam seguir as rodovias e os
marcos terrestres de volta às suas bases como motoristas de ônibus nos céus.
Em meio ao voo de patrulhas regulares ao redor do continente
eurasiano, duas dúzias de drones de vigilância RQ-180 repentinamente deixam de
responder aos comandos transmitidos por satélite. Eles voam sem objetivo na
direção do horizonte e se destroem quando acaba o combustível. Com
surpreendente rapidez, os Estados Unidos perdem controle daquilo que sua Força
Aérea durante muito tempo chamou de “alto solo definitivo”.
Com a inteligência inundando o Kremlin de informações sobre
a debilidade do poder estadunidense, Moscou, ainda um aliado próximo dos
chineses, envia uma dúzia de submarinos nucleares classe Severodvinsk através
do Círculo Ártico para patrulhas provocativas permanentes entre Nova York e Newport
News. Simultaneamente, meia-dúzia de fragatas de mísseis classe Grigorovich da
frota russa do Mar Negro, acompanhadas de um número não revelado de submarinos
de ataque, dirigem-se ao Mediterrâneo ocidental para fazer sombra à Sexta Frota
dos EUA.
Dentro de horas, o aperto estratégico de Washington nas
extremidades axiais da Eurásia — a pedra de toque de seu domínio global pelos
últimos 85 anos — está quebrado. Em rápida sucessão, os tijolos da frágil
arquitetura do poder global dos EUA começa a cair.
Cada arma gera sua própria nêmesis. Exatamente como os
mosqueteiros suplantaram os cavaleiros montados, os tanques destruíram as
trincheiras e os bombardeiros de mergulho afundaram os navios de guerra, o
superior poder cibernético da China cegou os satélites de comunicação
estadunidenses que eram os nervos de um aparato militar outrora formidável,
dando a Pequim uma assombrosa vitória nessa guerra de robótica militar. Sem uma
única vítima de combate em nenhum dos lados, a superpotência que havia dominado
o planeta por quase um século é derrotada na III Guerra Mundial.

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