Trump e Jinping, em abril de 2017. Iniciativas chinesas questionam poder imperial americano
Na Ásia, a disputa
geopolítica do século
China
investe suas reservas de dólares num projeto gigantesco de infraestrutura. EUA
articulam, com Índia e Japão, uma resposta — mas podem ter chegado tarde
demais…
por Pepe Escobar
Publicado 11/12/2017 às 17:06 -
Atualizado 13/12/2018 às 13:35
China investe suas reservas de dólares num projeto gigantesco de
infraestrutura. EUA articulam, com a Índia e o Japão, uma resposta — mas podem
ter chegado tarde demais…
Por Pepe Escobar |
Tradução: Vila Vudu
No contexto do Novo Grande Jogo na Eurásia, as Novas Rotas da
Seda, conhecidas como Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE) integram todos os
instrumentos do poder nacional da China –político, econômico, diplomático,
financeiro, intelectual e cultural– para modelar a ordem
geopolítica/geoeconômica do século 21. ICE é o conceito que organiza a política
externa da China para o futuro que se pode antever; o coração do qual foi posto
em termos de conceito antes até do presidente Xi Jinping, como “a ascensão
pacífica da China”.
A reação do governo Trump ao fôlego e aos objetivos da ICE foi,
pode-se dizer, minimalista. Por hora, resume-se a uma mudança de terminologia,
do que antes se conhecia como Pacífico Asiático, para o que hoje se conhece
como “Indo-Pacífico”. O governo Obama, até a última visita do ex-presidente à
Ásia, em setembro de 2016, sempre falou de Pacífico Asiático.
O Indo-Pacífico inclui o
sul da Ásia e o Oceano Índico. Assim, de um ponto de vista norte-americano,
implica elevar a Índia ao status de superpotência global ascendente capaz de
“conter” a China.
O secretário de Estado dos EUA Rex Tillerson não poderia ter dito em termos mais claros: “O centro de
gravidade do mundo está mudando, para o coração do Indo-Pacífico. EUA e Índia –
com nossos objetivos partilhados de paz, segurança, liberdade de navegação e
uma arquitetura livre e aberta – devem servir como faróis oriental e ocidental
do Indo-Pacífico. Como o porto e as luzes de estibordo entre os quais a região
pode atingir sem maior e melhor potencial.”
Tentativas para pintá-la como “abordagem holística” podem
mascarar uma clara mudança geopolítica de rumo, na qual “Indo-Pacífico” soa
como remix “movimento
de pivô para a Ásia”, de Obama, estendido à Índia.
Indo-Pacífico aplica-se diretamente ao trecho do Oceano Índico
na Rota Marítima da Seda, o qual, como uma das principais rotas de
conectividade da China, aparece com grande destaque na “globalização com
características chinesas”. Tanto quanto Washington, Pequim é completamente
favorável a livres mercados e acesso aberto às mercadorias. Mas isso não tem de
implicar necessariamente que, de um ponto de vista chinês, uma rede
institucional única, gigante e supervisionada pelos EUA.
“Eurasáfrica”
No que tenha a ver com Nova Delhi, abraçar o conceito de
Indo-Pacífico implica assumir um risco de caminhar na corda bamba.
Ano passado, Índia e Paquistão foram incorporados como membros
formais da Organização de Cooperação de Xangai, elemento chave da parceira
estratégica Rússia-China.
Índia, China e Rússia são países BRICS; o presidente do Novo
Banco de Desenvolvimento dos BRICS, com sede em Xangai, é indiano. A Índia é
membro do Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura liderado pela China.
E até recentemente a Índia também participava da Iniciativa Cinturão e Estrada,
ICE.
As coisas começaram a se complicar, em maio passado, quando o
primeiro-ministro Narendra Modi recusou-se a comparecer à reunião de cúpula da
ICE em Pequim, por causa do Corredor Econômico China-Paquistão (CECP),
entroncamento chave da ICE e que atravessa o Gilgit-Baltistão e a sensível
região que o Paquistão define como Azad Caxemira e a Índia como a Caxemira
ocupada pelo Paquistão.
Na sequência, numa reunião do Banco de Desenvolvimento da África
em Gujarat, Nova Delhi apresentou-se o que pode ser definido como projeto rival
da ICE: o Corredor para Crescimento Ásia-África (CCAA) – em parceria com o
Japão. Esse CCAA não poderia ser mais “Indo-Pacífico”,
e realmente demarca um Corredor Liberdade no Indo-Pacífico, pago pelo Japão e
com o know-how da Índia sobre a África, capaz de rivalizar com – e o que seria?
– a Iniciativa Cinturão Estrada.
Por enquanto, nada há além de um já confesso “documento de visão geral” partilhado por
Modi e seu contraparte japonês Shinzo Abe para fazer várias coisas em tudo
assemelhadas ao que faz a ICE, tipo desenvolver infraestruturas e conectividade
digital de ponta.
E com o CCAA vem o Quadrilateral, que o Ministério de Relações
Exteriores do Japão divulga como projeto de “uma ordem internacional livre e
aberta, baseada no Estado de Direito no Indo-Pacífico.” Mais uma vez se opõe a
“estabilidade da região do Indo-Pacífico” e o que Tóquio define como “a
agressiva política exterior da China” e “beligerância no Mar do Sul da China”,
que gera riscos contra o que a Marinha dos EUA define como “liberdade de
navegação”.
Apesar de Xi e Abe terem comemorado um novo início das relações
sino-japonesas, a realidade indica outra coisa. O Japão, invocando a ameaça que
viria da República Popular Democrática da Coreia, mas, na verdade, temendo a
rápida modernização militar da China, comprará mais armas dos EUA. Ao mesmo
tempo, Nova Delhi e Canberra estão preocupadíssimas com o massacre econômico
militar pelos chineses.
Essencialmente, o CCAA e o Quadrilateral conectam a Política Act East Policy da
Índia, e a estratégia japonesa de Free and Open Indo-Pacífico. Se se leem esses
dois documentos, não é exagero concluir que a estratégia indo-japonesa visa a
constituir uma “Eurasáfrica”.
Na prática, à parte a expansão na África, Tóquio também visa a
espalhar projetos de infraestrutura por todo o Sudeste da Ásia, em cooperação
com a Índia – alguns que competem ou se sobrepõem à ICE. O Banco Asiático de
Desenvolvimento, enquanto isso, pesquisa modelos alternativos de
financiamento para projetos de infraestrutura
externos à ICE.
No pé em que estão as coisas, o Quadrilateral é ainda obra em
progresso, com seu foco na “estabilidade da região do Indo-Pacífico” apostando
contra o desejo confesso de Pequim de criar uma “comunidade com futuro
partilhado” no Pacífico Asiático. Há razões para que nos preocupemos com a
evidência de que essa nova configuração possa realmente evoluir para clara e
violenta polarização econômica/militar da Ásia.
Racha
no coração dos BRICS
A Ásia precisa de estonteantes $1,7 trilhões por ano, para projetos de infraestrutura,
segundo o Banco Asiático de Desenvolvimento. Em teoria, a Ásia como um todo tem
muito a ganhar com essa chuva de projetos da ICE chinesa acrescida de mais
projetos financiados pelo BDA e conectados ao CCAA.
Considerando o âmbito e o escopo extremamente ambiciosos de toda
a estratégia, a ICE largou à frente e tem hoje considerável vantagem de
partida. As vastas reservas de Pequim já estão orientadas para investir numa
rede asiática gigante de infraestrutura, com o que exportam seu excedente de
capacidade para construir e melhoram a conectividade em todo o mundo.
Diferente disso, Nova Delhi mal tem capacidade industrial para
atender às necessidades da Índia. De fato, a Índia precisa muitíssimo de
investimentos em infraestrutura; segundo extenso relatório,
a Índia precisa de pelo menos $1,5 trilhão ao longo da próxima década. E para
piorar, a Índia amarga um persistente déficit comercial com a China.
Sucesso tangível provável é o investimento indiano no porto de
Chabahar no Irã, como parte de uma estratégia comercial afegã (vide a segunda parte
do relatório).

Além dos projetos de energia/conectividade como o sistema
nacional digital ID Aadhaar (1,18 bilhões de usuários) e investimentos numa
série de usinas de energia solar, a Índia tem muito que andar. Segundo o
recentemente publicado Índice Global da Fome [ing. Global Hunger Index (GHI)], a Índia está em 100º lugar
dentre 119 countries pesquisados sobre fome infantil, considerados quatro
indicadores: subnutrição, mortalidade infantil, crianças abandonadas e doenças
infantis. A Índia está preocupantes sete pontos abaixo da Coreia do Norte. E só
sete pontos acima do Afeganistão, o último da lista.
Nova Delhi não perderia se construísse projeto consciente para
construir uma parceria de cooperação Índia-China, no quadro dos BRICS. Aí se
inclui aceitar que os investimentos da ICE são úteis e essenciais para
desenvolver a infraestrutura indiana. As portas continuam abertas. Todos os
olhos estão postos nos dias 10-11 de dezembro, quando a Índia hospeda uma
reunião trilateral Rússia-Índia-China – em nível ministerial.

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