Médicos alertam que Covid-19 pode atacar vários órgãos do corpo
humano em pacientes graves
Além
dos pulmões, médicos também têm observado reflexos nos rins, fígado, coração,
cérebro e intestinos
Ana
Lucia Azevedo
21/04/2020
- 10:32 / Atualizado em 21/04/2020 - 17:05

Cérebro de paciente da Covid-19 de 58 anos indica quadro de
encefalite, possivelmente decorrente do coronavírus Foto: Sociedade de
Radiologia da América do Norte
Do Rio de
Janeiro a Nova York, médicos
observam a emergência de um novo padrão da Covid-19, à medida que ela se espalha pelo mundo e mais casos severos aparecem. Ele ataca não
apenas os pulmões, mas também os rins, o fígado, o coração, o cérebro e
os intestinos.
A Covid-19 pode atacar quase qualquer parte do corpo humano com
consequências devastadoras, disse à revista Science, uma das bíblias da
pesquisa mundial, o cardiologista Harlan Krumholz, da Universidade de Yale, e
que lidera estudos nos Estados Unidos sobre os casos graves de Covid-19. “Sua
ferocidade é arrasadora e tem nos deixado de joelhos”, afirmou Krumholz.
A maioria dos
pacientes graves tem sido acometida por microtrombos. Na circulação pulmonar,
esses microtrombos não deixam o sangue chegar aos pulmões para remover o CO2 e levar
oxigênio aos órgãos. Uma pesquisa publicada semana passada na revista
Thrombosis Research mostrou que 38% de 184 pacientes de Covid-19 numa UTI
holandesa tinham sangue coagulado de forma anormal.
Os coágulos
sanguíneos bloqueiam a circulação nos pulmões e em outros órgãos. Em
consequência, a pessoa pode sofrer embolia pulmonar. Se o rompimento for no
cérebro, a vítima sofre um AVC, disse na Thrombosis Research Behnood
Bikdeli, da Universidade de Columbia. Bikdeli está convencido que os
microtrombos estão associados à gravidade e à letalidade do coronavírus.

A força do
ataque do coronavírus Foto: Editoria de Arte
Os pulmões costumam ser atacados
primeiro. Neles, o coronavírus mata as células dos alvéolos e faz com que eles
se rompam. O pulmão fica inflamado, e a circulação dos vasos do sistema
respiratório é afetada, o que por si só pode matar.
Mas
os rins também são severamente atingidos, e entre 40% e 60% dos pacientes
internados em UTIs precisam de diálise. Os microtrombos afetam tão intensamente
a circulação que seus efeitos são visíveis em necroses nas mãos e nos pés de
alguns pacientes. A tendência crescente de casos de hipercoagulação, que leva
aos microtrombos, tem transformado casos leves em críticos.
—
Temos visto, por exemplo, muitos pacientes com microtrombos, dentro e fora dos
pulmões, e com necrose nos dedos. A Covid-19 é uma doença extremamente grave e
complexa — afirma a pneumologista Margareth
Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz e colunista do GLOBO, um dos
expoentes do combate da Covid-19 no Brasil.
'Ponta do iceberg'
Atrofia
do baço, necrose dos gânglios linfáticos (onde são produzidas células de
defesa), hemorragia dos rins, anomalias no fígado e degeneração de neurônios no
cérebro foram observados em alguns pacientes, segundo a Science. E um
terço dos pacientes hospitalizados nos EUA desenvolveram conjuntivite, mas não
se sabe se o coronavírus ataca diretamente os olhos, como faz o ebola.
O respirador tão em falta no mundo é
só a ponta do iceberg das necessidades e do sofrimento do corpo atacado pela
Covid-19. Os rins bombardeados pelo coronavírus precisam de diálise e muitos
necessitam do ECMO (abreviação de oxigenação extracorpórea por membrana), um
equipamento que evita a intoxicação pelo CO2 acumulado devido à
má oxigenação causada pela doença.
Há
casos misteriosos de pessoas com níveis extremamente baixos de oxigênio,
potencialmente letais, e que não demonstram sofrer de falta de ar. Uma hipótese
é que o cérebro atacado não sinaliza ao corpo que ele precisa de ar. O ataque
do vírus não apenas ao sistema respiratório, mas também ao sistema nervoso, é a
hipótese mais provável para a perda de
olfato e paladar, sintomas comuns na Covid-19.
A
ciência ainda não desvendou como o coronavírus pode atacar o cérebro. Mas
chamou atenção o caso de uma funcionária de uma companhia área nos EUA de 58
anos, sem comorbidades. Com diagnóstico de Covid-19, ela desenvolveu
encefalopatia aguda necrotizante, uma doença rara e gravíssima.
Ela
teve sintomas como desorientação e perda de memória em apenas três dias. O caso
foi descrito na revista médica Radiology. A mulher sobreviveu, mas não se sabe
se terá sequelas.
Vírus pode atacar órgãos
Inicialmente
se pensava que os casos mais graves eram causados não pelo ataque direto do
vírus propriamente dito, mas à resposta exagerada do sistema imunológico. Essa
reação descontrolada, chamada tempestade imunológica, causa uma inflamação
generalizada.
Mas
agora, segundo estudos publicados nas revistas Science, Lancet e New England
Journal of Medicine, cientistas suspeitam que, embora ocorra também a
tempestade imunológica, o ataque direto do vírus pode destruir órgãos e matar.
Se
estima que 20% das pessoas com coronavírus adoecem com maior gravidade. Destas,
5% vão precisar de UTI. Nas que evoluem para casos mais graves, os sintomas
começam a se tornar mais severos entre o oitavo e o 12º dia. Quase sempre, a
pessoa começa a ter dificuldade para respirar, entra em fadiga respiratória.
Esta pode ser tão intensa, que é preciso colocar o paciente de barriga para
baixo na UTI (posição pronada).
A
síndrome de angústia respiratória aguda (Sara) atinge os pacientes com Covid-19
grave, mas ela, como o respirador, é apenas uma parte da doença, afirma o
médico intensivista Felipe Saddy, chefe da UTI Ventilatória do Copa D’Or, que
também atende pacientes com coronavírus no Procardíaco.
— Os pacientes são acometidos pela
formação de trombos com enorme intensidade, entre 40% a 60% deles sofrem
insuficiência renal e precisam de diálise. Além disso, alguns pacientes começam
a reter gás carbônico e entram em colapso respiratório. Eles podem morrer
intoxicados por gás carbônico e precisam do ECMO — diz Saddy, que trata de dois
pacientes nesta situação, um de 42 anos e outro de 61 anos.
Ele
destaca que mesmo no pulmão, a doença apresenta diversas formas de
acometimento:
—
A Covid-19 é heterogênea no pulmão. O que é bom para um paciente não é bom para
outro, nenhum se comporta da mesma forma. Não existe receita única para tratar
pacientes com Covid-19. O tratamento tem que ser individualizado, e isso é um
desafio imenso numa doença que causa adoecimento em massa — diz ele.
Comunidades podem viver
'massacre'
Saddy
salienta que fatores como a genética da pessoa, e comorbidades, como diabetes e
hipertensão, importam. Mas há pacientes em estado grave que não são idosos ou
têm comorbidades. É o caso do paciente homem de 42 anos, apenas ligeiramente
acima do peso.
Também
é o caso de uma paciente de 33 anos em estado crítico e tratada pelo
imunologista Marcelo Velho. Por dez dias ela apresentou Covid-19 sem maior
gravidade, mas seu estado piorou a partir do décimo dia após o surgimento dos
sintomas. Ela desenvolveu pneumonia grave, teve que ser submetida à diálise
devido à insuficiência renal e está com sepsis (inflamação generalizada). Com
quase 20 dias de doença, ela permanece grave.
Saddy está pessimista sobre as chances de tratar os
casos graves à medida que o coronavírus se espalha e atinge comunidades de
baixa renda:
— Não tenho a menor dúvida de quando bater nas
comunidades vai ser um massacre. A Covid -9 nos desafia a toda hora — frisa.
A força do ataque do coronavírus
O coronavírus pode atacar muitos outros órgãos além
dos pulmões, e médicos e cientistas alertam que estamos apenas no início da
compreensão sobre os danos da Covid-19.
Pulmões

A força
do ataque do coronavírus Foto: Editoria de Arte
O Sars-CoV-2 invade as células dos alvéolos e
começa a se replicar nelas. Células de defesa então tentam matar o vírus, mas
acabam por causar inflamação. Atingidos por inflamação e pelo vírus, os
alvéolos se rompem e a oxigenação do corpo é afetada. O paciente tosse, tem
febre e dificuldade para respirar.
Fígado

A força
do ataque do coronavírus Foto: Editoria de Arte
Mais da metade dos pacientes hospitalizados
apresentam sinais de danos ao fígado. As lesões poderiam ser causadas pelo sistema
imunológico ou pelas drogas usadas no tratamento.
Rins

A força
do ataque do coronavírus Foto: Editoria de Arte
Lesões nos rins têm se tornado comuns nos casos
graves e aumentam o risco de morte. O vírus já foi encontrado nos rins. Os
danos podem ser causados tanto por ataque direto, como por inflamação ou ainda
pelos microtrombos.
Intestinos

A força
do ataque do coronavírus Foto: Editoria de Arte
Há evidência de que o coronavírus penetra nas
células do trato intestinal. Isso explicaria a diarreia observada em 20%
dos pacientes.
Cérebro

A força
do ataque do coronavírus Foto: Editoria de Arte
Casos de derrames, convulsões, inflamação cerebral
e confusão mental já foram observados em pacientes com Covid-19. Os médicos
ainda não sabem se são causados pela ação direta do coronavírus ou pela
inflamação associada a ele.
Olhos

A força
do ataque do coronavírus Foto: Editoria de Arte
Conjuntivite acomete com regularidade pacientes em
estado grave.
Nariz

A força
do ataque do coronavírus Foto: Editoria de Arte
A perda de olfato tem sido frequente em pessoas com
Covid-19. É possível que a multiplicação do vírus nas terminações nervosas do
nariz cause o problema.
Coração e vasos
sanguíneos

A força
do ataque do coronavírus Foto: Editoria de Arte
O coronavírus entra nas células se ligando a uma
estrutura na superfície delas chamada receptor de ACE2.
A infecção pode levar a coágulos sanguíneos,
inflamação no coração e foi associada a ataques cardíacos.

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