
Médico
examina paciente da Covid-19 em hospital privado de São Paulo Foto: Edilson
Dantas / Agência O Globo
Coronavírus pode deixar sequelas neurológicas graves, alertam
cientistas brasileiros
Distúrbios
como convulsões e desorientação sofridos por doentes com Covid 19 sinalizam
ataque do vírus ao cérebro
Ana
Lucia Azevedo
21/04/2020
- 14:07 / Atualizado em 21/04/2020 - 14:08
Cientistas do Rio de Janeiro e do Canadá alertam que
entre os impactos de longo prazo da pandemia do coronavírus podem estar doenças
neurológicas e neurodegenerativas. Num estudo
publicado na edição de hoje da revista Trends in Neurosciences, o grupo de
pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do Instituto
D’Or de Pesquisa e Educação (Idor) e da UniversidadeQueen’s, no Canadá,
analisam os casos de complicações neurológicas observadas em pacientes com Covid-19 e advertem
para a necessidade de investigar as possíveis sequelas nos sobreviventes.
Os distúrbios sofridos por alguns pacientes incluem convulsões, perda de
consciência, derrames, encefalite, desorientação e indicam que a Covid-19 pode
atacar o cérebro. Os pesquisadores, porém, não sabem ainda se os danos são
causados pelo ataque direto do vírus Sars-CoV-2, se pela reação
inflamatória generalizada provocada por ele (a chamada tempestade imunológica)
ou se pela combinação de ambos. O fato é que doentes de Covid-19 têm
apresentado distúrbios neurológicos, que potencialmente pode deixar sequelas.
— O coronavírus tem nos surpreendido, age de forma estranha. A Covid-19
está longe de ser apenas uma doença respiratória. É preciso acompanhar os
sobreviventes e avaliar se desenvolvem sintomas de distúrbios neurológicos —
destaca a neurocientista Fernanda De Felice, da UFRJ e da Universidade Queen’s.
O também neurocientista Sergio Ferreira, da UFRJ, diz que as lesões
observadas em algumas vítimas de Covid-19 se assemelham àquelas associadas a
doenças neurodegenerativas. São doenças neurodegenerativas, por exemplo, os
males de Alzheimer e de Parkinson.
Biomarcadores
Os
pesquisadores se preparam agora para iniciar um amplo estudo no Brasil sobre o
impacto do coronavírus no sistema nervoso e também buscar substâncias no sangue
que possam indicar o risco de ataque da Covid-19 ao sistema nervoso central.
Dentre outras coisas, buscam identificar possíveis biomarcadores de
comprometimento neurológico na Covid-19.
—
Biomarcadores são a necessidade mais urgente e serão instrumentos preciosos
para os médicos avaliarem a gravidade do estado dos pacientes e poderem
intervir logo. Também ajudarão a identificar o risco de sequelas — diz Fernanda
Tovar Moll, do Idor e da UFRJ.
Esse
estudo deverá ser feito por um consórcio de pesquisa do IDOR com universidades
e hospitais públicos e investigar dados de mais de 2.000 casos de pessoas
infectadas pelo coronavírus.
O
neurocientista Jorge Moll, do Idor, diz que os pesquisadores correm para
entender como acontece o agravamento da Covid-19. Os cientistas
sabem que coronavírus de forma geral, e não apenas o Sars-CoV-2, são
neurotrópicos. Isso significa que têm particular atração por células nervosas.
Mas não conhece ainda o quão neurotrópico o Sars-CoV-2 é.
Os
cientistas também investigam como o novo coronavírus poderia chegar ao cérebro.
Uma possibilidade é que o nariz seja principal a porta de entrada do
coronavírus para o cérebro. A perda de olfato frequente em pessoas com Covid-19
tem sido associada ao ataque do coronavírus ao nervo olfatório. Cientistas
sabem que outros vírus podem usar o nervo olfatório para alcançar o cérebro.
Outra possibilidade, explica Sergio
Ferreira, é que o vírus chegue ao cérebro por meio da microcirculação
sanguínea. Essa seria uma forma de romper a barreira hematoencefálica que
protege o cérebro do patógenos.
—
Não sabemos o que está acontecendo dentro do cérebro dos pacientes. E
precisamos descobrir logo — diz Jorge Moll.
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