MEDITAÇÃO VIPASSANA : OBSERVANDO AS SENSAÇÕES DO CORPO - PALESTRA DE ELIONA ARIEL(VÍDEO),ORIGEM E DESCRIÇÃO DO MÉTODO
Observando as sensações do corpo com a meditação Vipassana, na palestra de Eilona Ariel no TEDxJaffa [VÍDEO]
“Vinte e seis séculos atrás existiu um
cientista brilhante, o Buda, que fez uma pesquisa de
seis anos, e no final de sua pesquisa, descobriu que cada inserção, cada dado
que a mente recebe através das portas dos sentidos, das bases dos sentidos, cada
visão, som, gosto, cheiro ou toque, evoca uma sensação no corpo, e nós reagimos
cegamente a elas”. Esse é o começo da palestra da documentarista Eilona Ariel no TEDxJaffa, onde pela
primeira vez a meditação budista Vipassana sobe ao palco como protagonista, na
palestra intitulada “Meditação Vipassana e Sensações do
Corpo” (Vipassana Meditation and Body
Sensations), filmada em 10 de outubro de 2013, em Jaffa, Tel Aviv,
Israel. Em 13 minutos ela explica brevemente esses
fundamentos e também apresenta brevemente o famoso experimento de Vipassana
feito na prisão Tihar em Nova Delhi, em 1994, do qual participou e filmou, junto
da cineasta isrealense Ayelet Menahemi (“Doing Time Doing
Vipassana“, Karuna Films).
“O mais marcante é que ele (Buda) descobriu que a
mente reage às sensações do corpo e não aos objetos da experiência“,
conta ela, que aprendeu Vipassana em 1987, no Nepal. Tal descoberta é reveladora
para qualquer ser humano, em qualquer circunstância, mas foi especialmente útil
na prisão de Nova Delhi, explica Ariel, porque ela sofria com reincidência dos criminosos (se percebermos bem, também somos
reincidentes, não em crimes, mas em reações e comportamento).
Infelizmente a palestra está em inglês e não tem legendas. Segue o vídeo, na íntegra:
Fonte:http://dharmalog.com/2014/04/09/observando-corpo-meditacao-vipassana-tedx/

Meditação Vipassana
Vipassana, que significa ver as coisas como realmente são, é uma das
mais antigas técnicas de meditação da Índia. Foi redescoberta por Buda Gotama
há mais de 2500 anos e ensinada por ele como um remédio universal para males
universais, ou seja, uma Arte de Viver. Essa técnica não sectária visa a total
erradicação das impurezas mentais e a resultante suprema felicidade da
liberação completa. A cura, não a mera cura de doenças, mas a cura essencial do
sofrimento humano, é o seu propósito.
Vipassana é um caminho de autotransformação que utiliza a
auto-observação. Foca a profunda interconexão entre mente e corpo, que pode ser
experimentada diretamente pela atenção disciplinada às sensações físicas, que,
por sua vez, constituem a vida do corpo e continuamente se interconectam e
permitem a vida da mente. É essa jornada de autoconhecimento baseada na
observação — que objetiva a raiz comum da mente e do corpo — a responsável pela
dissolução das impurezas mentais, resultando numa mente em equilíbrio, cheia de
amor e compaixão.
As leis científicas que regulam os pensamentos, sentimentos, julgamentos
e sensações se tornam claras. Pela experiência direta, compreende-se a natureza
de como se progride ou regride, como se produz ou se liberta do sofrimento. A
vida começa a se caracterizar por consciência, libertação de ilusões,
autocontrole e paz cada vez maiores.
A Tradição
Desde o tempo de Buda, Vipassana tem sido transmitida, até o presente
momento, por uma ininterrupta cadeia de professores. Embora de origem indiana,
o atual professor nesta cadeia, Sr. S.N. Goenka, nasceu e foi criado na
Birmânia (Myanmar). Enquanto viveu lá, ele teve o privilégio de aprender
Vipassana de seu professor, Sayagyi U Ba Khin que, naquela época, era um
graduado funcionário público. Depois de ser treinado por seu professor durante
quatorze anos, o Sr. Goenka se estabeleceu na Índia, iniciando seus
ensinamentos de Vipassana em 1969. Desde então, ele tem ensinado a milhares de
pessoas de todas as raças e credos, no ocidente e no oriente. Em 1982 ele
começou a nomear professores assistentes para ajudá-lo a atender à demanda
crescente por cursos de Vipassana.
Os Cursos
A técnica é ensinada em retiros de dez dias, durante os quais os
participantes seguem o Código de Disciplina recomendado, aprendem os
fundamentos do método e praticam o suficiente para experimentar seus resultados
benéficos.
O curso requer trabalho sério e árduo. Há três passos no treinamento. O
primeiro passo é abster-se — durante todo o curso — de matar, roubar, manter
atividade sexual, mentir e se intoxicar. Esse simples código de conduta moral
serve para acalmar a mente que, de outra forma, estaria muito agitada para
executar a tarefa de auto-observação. O próximo passo é desenvolver o domínio
da mente aprendendo a fixar a atenção na realidade natural do fluxo da
respiração, sempre mutável, enquanto entra e sai das narinas. Ao quarto dia, a
mente está mais clara e mais em foco, mais preparada, portanto, para empreender
a prática de Vipassana em si: observar as sensações por todo o corpo,
compreendendo sua natureza e desenvolvendo a equanimidade, aprendendo a não
reagir a elas. Finalmente, no último dia os participantes aprendem a meditação
de amor ou boa vontade frente a todas as coisas, quando a pureza desenvolvida
durante o curso é partilhada com todos os seres.
Um vídeo curto (5.7 MB) sobre a observação da respiração e das sensações
do corpo nesta técnica pode ser visto com o programa de vídeo gratuito
QuickTime. A prática inteira é, na verdade, um treinamento mental. Exatamente
como usamos exercícios físicos para melhorar a saúde de nosso corpo, Vipassana
pode ser utilizado para desenvolver uma mente saudável.
Porque a técnica é considerada genuinamente proveitosa, muita ênfase é
dada à preservação de sua forma autêntica, original. Ela não é ensinada
comercialmente, mas, pelo contrário, é oferecida gratuitamente. Nenhuma pessoa
envolvida nesse ensinamento recebe qualquer remuneração material. Não se cobra
nada pelos cursos — nem mesmo para cobrir os custos de alimentação e
acomodação. Todas as despesas são cobertas por doações de pessoas que, tendo
completado um curso e experimentado os benefícios de Vipassana, desejam dar a
outros a oportunidade de também se beneficiarem.
É claro, os resultados vêm gradualmente pela prática contínua. Não é
realista nutrir a expectativa de que todos seus problemas sejam resolvidos em
dez dias. Nesse tempo, entretanto, a essência de Vipassana pode ser aprendida
de forma a ser aplicada na vida diária. Quanto mais se pratica a técnica, mais
se é libertado do sofrimento, e mais se está próximo do objetivo final de
liberação completa. Mesmo dez dias podem dar resultados vívidos e obviamente
benéficos para a vida cotidiana.
Todas as pessoas sinceras são bem-vindas a participar de um curso de
Vipassana para ver por si mesmas como a técnica funciona e para sentir seus
benefícios. Cursos de Vipassana estão sendo conduzidos até mesmo em presídios,
com grande sucesso e maravilhosos benefícios para os participantes. Todos que
experimentam acham Vipassana uma ferramenta inestimável para atingir e repartir
com outros a verdadeira felicidade.
Vipassana, que significa ver as coisas como
realmente são, é uma das mais antigas técnicas de meditação da Índia. Era
ensinada na Índia há mais de 2500 anos como um remédio universal para males
universais, ou seja, uma Arte de Viver. Para aqueles que não estão
familiarizados com a Meditação Vipassana, uma Introdução à Vipassana pelo Sr.
Goenka (em inglês ou em hindi) e
Perguntas e Respostas sobre Vipassana.
A técnica de Meditação Vipassana é ensinada em
cursos internos no local (retiros) pelo período de dez dias, durante os quais
os participantes aprendem as bases do método, e praticam o suficiente para
experimentar resultados benéficos. Os cursos não são cobrados - nem mesmo para
cobrir os custos de acomodação e alimentação. Todas as despesas são pagas com
doações de pessoas que, tendo feito o curso e experimentado os benefícios de
Vipassana, desejam dar também a outros a oportunidade de usufruir desses benefícios.
Cursos
e locais
Os cursos são ministrados em diversos Centros de
Meditação e em locais fora dos centros em sítios alugados. Cada local tem o seu
próprio calendário de cursos. Na maioria dos casos, a inscrição em cada um
desses cursos pode ser realizada com um clique na data de um curso da lista de
cursos que aparece no calendário. Há diversos Centros na Índia e
em outros lugares na Ásia; dez Centros na América do Norte; três Centros na América Latina; sete Centros na Europa; sete Centros na Austrália/Nova Zelândia; um Centro no Oriente
Médio e um Centro naÁfrica.
Bem como um mapa dos locais de cursos no mundo e
na Índia
e Nepal.
Recursos
e cursos especiais
Cursos de Meditação Vipassana também são
ministrados em prisões. Um curso de Vipassana de 10 dias
especial para executivos de negócios e oficiais do governo é ministrado
periodicamente em diversos centros em todo o mundo. Para informações adicionais consulte Cursos para Executivos
Information
on Vipassana Meditation is also available in the other languages. Click on the
globe on the top right of the page to select a language.
Fonte:http://www.dhamma.org/pt/
Meditação Vipassana: técnicas para ver as coisas como elas são
Bhante Yogavacara Rahula comenta o tema sobre Meditação Vipassana. Vídeo com Legenda em português.
Produzido pela Sociedade Vipassana de Meditação, em Brasília - DF, Brasil.
Abril de 2011Abril de 2011
Produzido pela Sociedade Vipassana de Meditação, em Brasília - DF, Brasil.
Abril de 2011Abril de 2011
A famosa frase de Jean-Paul
Sartre – “O inferno são os outros” – não poderia estar mais certa e errada ao
mesmo tempo. Nossa cultura incute em nossas mentes que o sofrimento que
experimentamos no dia-a-dia é fruto de eventos externos. É o emprego que não
está legal, é o parceiro que não satisfaz, é o dinheiro que não é suficiente
etc.
O detalhe é que o verdadeiro
sofrimento não vem desses fatores externos e sim da nossa reação a eles. Se
controlamos nossa reação ou mesmo não reagirmos, não vai importar o que os
outros façam ou o que aconteça no mundo. Estaremos em paz conosco mesmos. O
inferno ou a paz depende de nós, não dos outros.
Mas existe alguma maneira de
descondicionar a mente para que paremos de reagir cegamente? Sim. Existe uma
antiquíssima técnica de meditação indiana, redescoberta há mais de 2.500 anos
por Sidarta Gotama, o Buda histórico. Essa técnica chama-se Vipassana, que em
no dialeto pali significa “ver as coisas como elas realmente são”.
Essa técnica
não sectária (não ligada a nenhuma religião) visa a total erradicação das
impurezas mentais e a resultante suprema felicidade da liberação completa. A
cura, não a mera cura de doenças, mas a cura essencial do sofrimento humano, é
o seu propósito. Vipassana foca a profunda interconexão entre mente e corpo,
que pode ser experimentada diretamente pela atenção disciplinada às sensações
físicas, que, por sua vez, constituem a vida do corpo e continuamente se
interconectam e permitem a vida da mente. É essa jornada de autoconhecimento
baseada na observação — que objetiva a raiz comum da mente e do corpo — a
responsável pela dissolução das impurezas mentais, resultando numa mente em
equilíbrio, cheia de amor e compaixão. – S.N.Goenka
O treinamento
Meditação Vipassana nada mais é
do que um treinamento para focar a mente e condicioná-la a não reagir. Não há
nela nada de místico, transcedental ou sobrenatural.
Primeiro, aprende-se a focar a
mente. O aluno senta, fecha os olhos e começa a observar apenas uma pequena
área do corpo, logo abaixo das narinas, onde o ar passa para entrar e sair do
nariz.
Tente fazer isso e em poucos
segundos perceberá que seus pensamentos já foram para outro canto. Gentilmente,
traga de volta e observe o ar. Não se trata de um exercício de respiração e sim
de observação. O jogo continuará por muito tempo: você foca nas narinas, a
mente foge para outro canto. Você a traz de volta e ela foge novamente. Então,
é você que comanda sua mente ou ela que comanda você?
Só isso já mostra como não
estamos no controle dos nossos pensamentos, como podemos ser escravos das
nossas reações. Com consistência, entretanto, você vai evoluir um pouco a cada
dia e conseguir domar a mente. Aí estará pronto para passar para o segundo
passo: não reagir aos eventos.
Também meditando, você começará a
“escanear” o corpo, da ponta dos pés à cabeça, da cabeça à ponta dos pés.
Procurará por sensações. Quando encontrá-las, sua missão é apenas observá-las.
Não se apegue a elas, não reaja, não se envolva, apenas observe e perceba como
elas vão embora, surgem e desaparecem continuamente. A cada dia, você treinará
mais e mais para não reagir aos eventos. Estará pronto então para agir com
efetividade, com o distanciamento necessário.
O que os idealizadores dessa
técnica descobriram é que quando uma impureza surge na mente, duas coisas
começam a acontecer simultaneamente no nível físico. Uma é que a respiração
perde o seu ritmo normal. Outra é que, num nível mais sutil, uma reação
bioquímica começa no corpo, resultando numa sensação. Se aprendermos a observar
a respiração e as sensações, saberemos quando está surgindo uma impureza na
mente. E aí poderemos observá-la passar sem que nos afete.
Essa é uma lição prática do que a
filosofia budista quer dizer com impermanência, o fato de que tudo é
passageiro, some e desaparece.
Os cursos
Vipassana tem sido ensinada em
diversos pontos do mundo em cursos gratuitos de 10 dias. Nesse período, os
alunos comprometem-se a não falar, não matar, não roubar, não mentir, não
ingerir tóxicos e não fazer sexo. Durante 10 dias, tudo o que eles fazem é
sentar com a coluna ereta e meditar seguindo uma técnica específica. No final,
serão mais de 100 horas de meditação.
Existe um livro chamado Meditação
Vipassana, escrito por William Hart, porém difícil de encontrar. Esse livro
explica em detalhes a técnica, mas é muito claro ao dizer que a pessoa não deve
tentar aprender sozinha. Deve frequentar o curso e depois sim seguir a
meditação sozinha.
Nos três primeiros dias, eles
apenas focam a mente em um único ponto: a respiração. Nos sete dias restantes,
eles aprendem a técnica Vipassana em si.
Os cursos são gratuitos, mas
necessitam de prévia inscrição. No Brasil, o principal centro fica no Rio de
Janeiro, mas existem retiros em outros estados. Confira o calendário de cursos de meditação Vipassana.
Se quiser saber com detalhes como é um curso desses, leia a reportagem-depoimento de
Eliane Brum na Revista Época.
[learn_more
caption="Apresentação oficial sobre Meditação Vipassana"]
Todos buscam
paz e harmonia, porque isto é o que falta em nossas vidas. De quando em quando
todos nós experimentamos agitação, irritação, desarmonia. E, quando somos
atormentados por esses sofrimentos, não os restringimos a nós mesmos;
freqüentemente os distribuímos aos outros também. A infelicidade permeia a
atmosfera que circunda a pessoa que sofre e todos que entram em contato com ela
também são afetados. Certamente, esse não é um modo apropriado de viver.
Devemos
viver em paz com nós mesmos e em paz com os outros. Afinal, seres humanos são
seres sociais, têm de viver em sociedade e lidar uns com os outros. Mas como
podemos viver pacificamente? Como mantermo-nos em harmonia interior e mantermos
a paz e a harmonia ao nosso redor, de forma que também os outros possam viver
pacífica e harmoniosamente?
Para
livrarmo-nos de nosso sofrimento, temos de saber a razão básica para sua
existência, a causa do sofrimento. Se investigarmos o problema, torna-se claro
que sempre que começamos a gerar qualquer negatividade ou impureza na mente,
certamente nos tornaremos infelizes. Uma negatividade na mente, uma impureza
mental não pode coexistir com a paz e a harmonia.
Como geramos
negatividades? De novo, através da investigação, torna-se claro. Ficamos
infelizes quando achamos que alguém age de uma maneira que não gostamos ou
quando não gostamos de alguma coisa que acontece. Coisas que não desejamos
acontecem e criamos tensão interior. Coisas que queremos não acontecem, alguns
obstáculos aparecem no caminho, e novamente criamos tensão interior; começamos
a atar “nós” internos. E, pela vida afora, coisas indesejadas continuam a
acontecer e as desejadas podem ou não acontecer, e este processo de reação, de
atar nós — nós górdios — faz toda a estrutura física e mental tão tensas, tão
cheias de negatividade, que a vida torna-se um sofrimento.
Uma forma de
resolver este problema é dar um jeito para que nada de desagradável aconteça na
vida e que tudo aconteça exatamente como queremos. Temos de desenvolver o poder
de fazer com que tudo que desejamos aconteça e o que não desejamos não
aconteça, ou ter alguém com tal poder que nos ajude sempre que solicitarmos.
Mas isso é impossível. Não há ninguém no mundo cujos desejos sejam sempre
satisfeitos, em cuja vida tudo ocorre de acordo com sua vontade, sem nada
indesejável acontecer. Fatos contrários à nossa vontade e ao nosso desejo
constantemente ocorrem. Portanto, surge uma pergunta: como podemos parar de
reagir cegamente às coisas de que não gostamos? Como podemos parar de gerar
tensões e permanecer pacíficos e harmônicos?
Na Índia,
assim como em outros países, pessoas sábias e santas estudaram esse problema —
o problema do sofrimento humano — e encontraram uma solução: se algo
indesejável ocorre e você começa a reagir gerando raiva, medo ou qualquer outra
negatividade, então, você deve desviar sua atenção o mais rapidamente possível
para uma outra coisa qualquer. Por exemplo, levante-se, pegue um copo d’água,
comece a bebê-la e sua raiva não se multiplicará; pelo contrário, começará a
diminuir. Ou comece a contar: um, dois, três, quatro. Ou comece a repetir uma
palavra, ou uma frase, ou algum mantra: talvez o nome de um santo ou divindade
na qual você tenha devoção. A mente se distrairá e, até certo ponto, você
estará livre da negatividade, livre da raiva.
Essa solução
foi útil, deu certo. Ainda dá. Praticando isso, a mente sente-se livre da
agitação. Entretanto, essa solução atua apenas no nível consciente. Na verdade,
ao desviar a atenção, você empurra a negatividade profundamente para o
inconsciente e, nesse nível, continua a gerar e multiplicar a mesma impureza.
Na superfície há uma camada de paz e harmonia, mas nas profundezas da mente jaz
um vulcão adormecido de negatividade reprimida que, mais cedo ou mais tarde,
explodirá em violenta erupção.
Outros
exploradores da verdade interior foram ainda mais longe em sua busca e,
experimentando a realidade da mente e da matéria neles mesmos, concluíram que
desviar a atenção é apenas fugir do problema. Fugir não é a solução; você tem
de enfrentar o problema. Toda vez que a negatividade surgir na mente,
simplesmente observe-a, enfrente-a. Assim que começar a observar uma impureza
mental, ela começará a perder sua força e lentamente ela murcha e desaparece.
Uma boa
solução: evitar os dois extremos da repressão e da livre manifestação. Enterrar
a negatividade no inconsciente não a erradicará; e permitir sua manifestação
com ações verbais ou físicas prejudiciais apenas criará mais problemas. Mas se
você apenas observar, então, a impureza desaparecerá e você estará livre dela.
Isso parece
maravilhoso, mas será realmente praticável? Não é fácil encarar suas próprias
impurezas. Quando a raiva surge, apodera-se de nós tão rapidamente que nem
mesmo percebemos. Então, dominados por ela, falamos ou fazemos coisas que prejudicam
aos outros e a nós mesmos. Mais tarde, quando ela passa, começamos a chorar e
nos arrependemos, pedindo perdão aos outros e a Deus: “Oh, cometi um erro, por
favor, me desculpe!”. Mas da próxima vez em que nos encontrarmos numa situação
semelhante, reagimos da mesma forma. Esse tipo de arrependimento não ajuda em
nada.
A
dificuldade é que não temos consciência quando uma impureza surge. Ela surge
profundamente na mente inconsciente e, quando chega ao nível consciente, já
ganhou tanta força que toma conta de nós sem que possamos observá-la.
Vamos supor
que eu contrate um secretário particular e toda vez que a raiva surja ele diga:
“olhe, a raiva está começando!”. Como não sei a que horas ela começa, terei de
contratar três secretários para os três turnos: manhã, tarde e noite!
Suponhamos que possa arcar com isso e que a raiva comece. Assim que meu
secretário me avise, “oh, veja — a raiva começou!” a primeira coisa que farei é
repreendê-lo: “Seu tolo, acha que é pago para me ensinar?” Estou tão dominado
pela raiva que bom conselho não adianta
Suponhamos
que o discernimento prevaleça e eu não o repreenda. Em vez disso, digo: “Muito
obrigado. Agora preciso me sentar e observar minha raiva.” Será que é possível?
Ao fechar os olhos e tentar observar a raiva, o objeto da minha raiva
imediatamente surge em minha mente — a pessoa ou o fato que a iniciou. Logo,
não estarei observando a raiva pura, mas meramente o estímulo externo dessa
emoção. Isso servirá apenas para multiplicar a raiva; e, portanto, não é a solução.
É muito difícil observar qualquer negatividade abstrata ou emoção abstrata
divorciada do objeto externo que originariamente foi responsável pelo seu
surgimento.
Entretanto,
alguém que atingiu a verdade última encontrou uma solução real. Descobriu que
sempre que uma impureza surge na mente, duas coisas começam a acontecer
simultaneamente no nível físico. Uma é que a respiração perde o seu ritmo
normal. Começamos a respirar mais forte, sempre que a negatividade surge na
mente. Isso é fácil de se observar. Num nível mais sutil, uma reação bioquímica
começa no corpo, resultando numa sensação. Toda impureza irá gerar alguma
sensação no corpo.
Isso oferece
uma solução prática. Uma pessoa comum não pode observar impurezas abstratas da
mente — medo, raiva ou paixão abstratos. Mas, com a prática e treinamento
adequados, é muito fácil observar a respiração e as sensações corporais, ambas
diretamente relacionadas às impurezas mentais.
A respiração
e as sensações vão ajudar de duas formas. Primeiramente serão como que
secretários particulares. Assim que uma negatividade surgir na mente, a
respiração perderá sua normalidade; começará a gritar: “olhe, alguma coisa deu
errado!”. Eu não posso repreender minha respiração; tenho que aceitar esse
aviso. Da mesma forma, as sensações vão dizer que algo vai mal. Então, sendo
avisados, podemos começar a observar a respiração e as sensações e, muito
rapidamente, veremos que a negatividade cessa.
Esse
fenômeno físico-mental é como duas faces de uma moeda. Em uma das faces, estão
os pensamentos e as emoções surgindo na mente; na outra, estão a respiração e
as sensações corporais. Quaisquer pensamentos ou emoções, quaisquer impurezas
mentais que surjam, manifestam-se na respiração e nas sensações daquele
momento. Logo, observando a respiração ou as sensações, estamos, de fato,
observando as impurezas mentais. Em vez de fugirmos do problema, estamos
encarando a realidade como ela é. Como resultado, veremos que essas impurezas
perdem sua força; não mais nos dominam como no passado. Se persistirmos, elas
finalmente desaparecerão completamente e começaremos a viver uma vida pacífica
e feliz, uma vida cada vez mais livre das negatividades.
Dessa forma,
essa técnica de auto-observação mostra-nos a realidade em seus dois aspectos:
interior e exterior. Previamente olhávamos apenas para fora, perdendo a verdade
interior. Procurávamos sempre fora de nós a causa de nossa infelicidade; sempre
culpávamos e tentávamos modificar a realidade externa. Ignorantes da realidade
interior, nunca entendemos que a causa do sofrimento está dentro de nós, em
nossas reações cegas às sensações boas e ruins.
Agora, com o
treinamento, podemos ver o outro lado da moeda. Podemos tomar consciência da
respiração e também do que acontece dentro de nós. O quer que seja, respiração
ou sensação, aprendemos a simplesmente observá-la sem perder o equilíbrio
mental. Paramos de reagir e de multiplicar nosso sofrimento. Ao contrário,
deixamos as impurezas se manifestarem e desaparecerem.
Quanto mais
praticamos essa técnica, mais rapidamente as negatividades desaparecerão. Pouco
a pouco, a mente tornar-se-á livre de impurezas, tornar-se-á pura. Uma mente
pura é sempre cheia de amor — amor desinteressado por todos os outros; cheia de
compaixão pelas falhas e sofrimentos dos outros; cheia de alegria pelo seu
sucesso e felicidade; cheia de equanimidade diante de qualquer situação.
Quando
alguém atinge esse estágio, todo o seu padrão de vida muda. Não é mais possível
fazer ou falar qualquer coisa que perturbe a paz e a alegria dos outros. Em vez
disso, uma mente equilibrada não apenas torna-se pacífica, mas a atmosfera que
cerca uma tal pessoa também se tornará permeada de paz e harmonia, e isso
influenciará e ajudará a outros também.
Aprendendo a
permanecer equilibrado diante de todas as coisas que se experimentam dentro de
si, desenvolve-se o desapego também a tudo o que se encontra nas situações
exteriores. No entanto, esse desapego não é escapismo ou indiferença aos
problemas do mundo. Aqueles que praticam Vipassana regularmente tornam-se mais
sensíveis ao sofrimento dos outros e fazem seu máximo para aliviar tal
sofrimento em tudo que podem — não com agitação, mas com a mente cheia de amor,
compaixão e equanimidade. Aprendem a “santa indiferença” — como estar
totalmente compromissados, totalmente envolvidos em ajudar os outros, enquanto,
ao mesmo tempo, mantêm o equilíbrio mental. Dessa forma, permanecem pacíficos e
felizes enquanto trabalham para a paz e a felicidade de outros.
Esse foi o
ensinamento do Buda: uma arte de viver. Ele nunca estabeleceu ou ensinou
nenhuma religião, nenhum “ismo”. Nunca instruiu aqueles que o procuravam a
praticar qualquer rito, ou ritual, ou alguma formalidade vazia. Ao contrário,
ensinava-os a observar a natureza tal como ela é, observando a realidade interior.
Na ignorância continuamos a reagir de maneiras que prejudicam a nós e aos
outros. Porém, quando a sabedoria surge — a sabedoria de observar a realidade
como ela é — esse hábito de reagir vai embora, desaparece. Quando paramos de
reagir cegamente, então, somos capazes da ação verdadeira — ação proveniente de
uma mente equilibrada e equânime, uma mente que vê e compreende a verdade. Tal
ação poderá ser tão somente positiva, criativa e benéfica para nós e para os
outros.
Logo, o que
é necessário é “conhecer-se a si mesmo” — conselho dado por todo sábio.
Precisamos conhecer a nós mesmos, não apenas intelectualmente, no nível teórico
e das idéias; e não apenas emocional ou devocionalmente, simplesmente aceitando
cegamente o que ouvimos ou lemos. Tal conhecimento não é suficiente. Mais do
que isso, precisamos conhecer a realidade experimentalmente. Precisamos
experimentar diretamente a realidade desse fenômeno físico-mental. Só isso nos
ajudará a libertar-nos de nosso sofrimento.
Essa
experiência direta de nossa realidade interior, essa técnica de auto-observação
é chamada de meditação “Vipassana”. Na língua da Índia, nos tempos do Buda,
passana significava ver no sentido comum, com os olhos abertos; mas Vipassana é
observar as coisas como realmente são, não como parecem ser. A realidade
aparente tem de ser penetrada, até alcançarmos a verdade última de toda a
estrutura física e mental. Quando experimentamos essa verdade, então,
aprendemos a parar de reagir cegamente, de criar impurezas — e, naturalmente, as
antigas impurezas serão gradualmente erradicadas. Tornamo-nos libertados de
todo o sofrimento e experimentamos a verdadeira felicidade.
Existem três
passos para o treinamento dado em um curso de meditação. Primeiramente, deve-se
se abster de toda ação, física ou verbal, que perturbe a paz e a harmonia dos
outros. Não se pode trabalhar para se liberar das impurezas da mente e ao mesmo
tempo cometer atos físicos ou verbais que somente as multipliquem. Portanto, um
código de moralidade é o primeiro passo essencial da prática. Compromete-se a
não matar, não roubar, não ter má conduta sexual, não mentir e não usar
intoxicantes. Abstendo-se de tais ações, permite-se que a mente se acalme o
suficiente para avançar no trabalho.
O próximo
passo é desenvolver alguma maestria sobre essa mente selvagem por intermédio do
treinamento em mantê-la fixa em um único objeto, a respiração. Tenta-se manter
a atenção na respiração o maior tempo possível. Esse não é um exercício
respiratório; não se controla a respiração. Em vez disso, observa-se o fluxo
respiratório como ele é; como entra e sai. Dessa maneira, acalma-se a mente
mais e mais, e ela não será dominada por negatividades intensas. Ao mesmo tempo
concentra-se a mente, tornando-a aguçada e penetrante, capaz de realizar o trabalho
de visão clara (“insight”).
Esses dois
primeiros passos, viver uma vida moral e controlar a mente, são muito benéficos
e necessários por si só, mas levarão à repressão das negatividades, a não ser
que se tome o terceiro passo: purificar a mente das impurezas, desenvolvendo a
visão clara de sua própria natureza. Isso é Vipassana: experimentar a própria
realidade pela observação sistemática e imparcial, dentro de si mesmo, de todo
o fenômeno físico-mental sempre em mutação e que se manifesta como sensações.
Essa é a essência dos ensinamentos do Buda: autopurificação através da
auto-observação.
Isso pode
ser praticado por um e por todos. Todas as pessoas enfrentam o problema do
sofrimento. Essa é uma doença universal que requer um remédio universal, não-sectário.
Quando alguém sofre com raiva, não é raiva budista, hindu ou cristã. Raiva é
raiva. Quando alguém fica agitado em decorrência dessa raiva, essa agitação não
é cristã ou judia ou muçulmana. A doença é universal. O remédio também tem de
ser universal.
Vipassana é
o remédio. Ninguém se oporá a um código de vida que respeita a paz e a harmonia
dos outros. Ninguém pode se opor a desenvolver o controle da mente. Ninguém se
oporá ao desenvolvimento da visão clara de sua própria natureza, por intermédio
da qual é possível libertar a mente das negatividades. Vipassana é um caminho
universal.
Observar a
realidade como ela é por intermédio da observação interior — isso é conhecer-se
a si mesmo direta e experimentalmente. Conforme pratica, a pessoa continua a se
libertar do sofrimento das impurezas mentais. A partir da verdade aparente,
grosseira, externa, pode-se penetrar a verdade última da mente e da matéria.
Então, se transcende isso e experimenta-se uma verdade que está além da mente e
da matéria, além do campo condicionado da relatividade: a verdade da libertação
total de todas as impurezas, de todo o sofrimento. Não importa o nome que se dê
à verdade última, isso é irrelevante; esse é o objetivo final de todos.
Que todos
experimentem essa verdade fundamental! Que todos se libertem do sofrimento. Que
todos desfrutem a verdadeira paz, a verdadeira harmonia, a verdadeira
felicidade.
QUE TODOS OS
SERES SEJAM FELIZES – S. N. Goenka
Publicado em 20 de janeiro de
2011
Meditar-Encare oDesafio
Sente-se imóvel por alguns minutos
todos os dias. Não importa qual a técnica, o desafio é a consistência. Se
transformada em hábito, a meditação se torna natural e os benefícios da prática
são multiplicados
Fonte: http://mude.nu/meditacao-vipassana-tecnicas-para/
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